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Uther Pendragon aceita a ajuda do mago Merlin para vencer o Duque de Cornwall. Uther quebra o pacto com Merlin e tem uma relação com Igraine, a mulher do Duque. Dessa noite de paixão, nasce um bastardo, Arthur que acaba por ficar ao cuidado de Merlin. Depois de perseguido por clãs leais ao Duque e mesmo antes de morrer, Uther Pendragon enterra a sua espada numa pedra, afirmando que só quem a conseguisse retirar poderia ser o próximo rei. Ninguém consegue retirar a espada da pedra. E assim começa o mito da espada do poder, Excalibur. Anos mais tarde, um jovem Arthur aproxima-se da espada e o inesperado acontece.
Eis Excalibur, a espada mágica forjada por um deus, prevista por um feiticeiro e encontrada por um Rei. Esta não é só mais uma versão cinematográfica da mítica espada: esta "é" a versão. Já vi muitas tentativas de contar a história do Rei Artur, mas Excalibur, de John Boorman, é sem dúvida nenhuma a melhor de todas.
O filme tem uma estranha aura à sua volta. E não estou a falar daquele glow verde... Tem mesmo uma qualidade visual mística. É estranho. A forma como está produzido e realizado quase que nos leva para o mundo alternativo, atmosférico de Camelot, dos Cavaleiros, da Távola Redonda e da demanda pelo Santo Graal.
Para mim, a razão é simples: é um filme de fantasia, mas não tem praticamente efeitos especiais. É tudo realista e muito baseado no trabalho de câmara e especialmente no trabalho com os actores. Basta reparar que que muitos dos nomes conhecidos nos dias de hoje deram o primeiro passo precisamente em Excalibur: Gabriel Byrne (Uther), Helen Mirren (Morgana), Liam Neeson (Gawain), Patrick Stewart (Leondegrance). E depois ainda há um outro bom leque de actores que apenas nunca deram o "grande" salto como Nigel Terry (Rei Arthur), Nicholas Clay (Launcelot), Cherie Lunghi (Guenevere) e Nicol Williamson (Merlin).
Toda esta envolvência mágica está embrulhada numa banda sonora portentosa de Richard Wagner e Carl Orff. E aqui, a música faz para aí um 1/3 do filme. É brilhante. John Boorman não precisa de muitos comentários: é um artesão brilhante de filmes. Basta dizer isso...
Misticismo e mitologia, reinos e demandas, mundos mágicos e submundos, ninfas e Damas do Lago, cavaleiros leais e insurgentes, lutas de espadas e de honra, amor, traição, sexo, sangue e entranhas... há de tudo em Excalibur, uma história intemporal que mostra a transição da Era da Magia para a Era da Razão. Um dos meus filmes preferidos de aventura e fantasia... de sempre. ●●●●○
Le Capital é um filme sobre banqueiros depravados, totalmente cegos pelo poder do dinheiro, que fazem os documentários do Michael Moore parecer um livro de histórias para crianças. É normal: sendo que estamos numa das maiores crises económicas de todos os tempos e o realizador é grego e sem papas na língua... Estava mesmo a ver que este não ia ser um filme light... E definitivamente não é.
Tudo começa quando o big boss do Phenix Bank (excelente pormenor logo no nome do banco, porque afinal parece que os bancos nunca "morrem") tem um ataque devido a um problema nos testículos, interrompendo a calmaria do seu jogo de golfe. Devido aos problemas de saúde (e à pressão dos accionistas) é forçado a abandonar o comando do banco e delega as responsabilidades no seu protegido, o jovem Marc Tourneuil, brilhantemente intrepretado por Gad Elmaleh.
Marc entra no espírito do jogo (ser banqueiro, aparentemente é como participar num jogo que nunca pára) e começa a deslizar numa espiral de pura ganância, paranóia e luta pelo poder pois a sua liderança é prontamente ameaçada por uma tentativa de takeover hostil por parte de um fundo de investimento americano, liderado por Dittmar Rigule, o excepcional Gabriel Byrne. A este juntam-se os opositores internos do próprio banco.
A partir daqui entra-se num mundo fechado e frenético. Marc raramente tem contacto com as pessoas "normais". Afasta-se da mulher que não tem uma visão tão gananciosa do mundo, e do filho, a que obriga a falar sempre em inglês. É preciso preparar os miúdos para o mundo global, não é verdade?
A excepção é quando tem uma reunião de família que corre obviamente mal, tal é a disparidade económica e social entre os intervenientes à mesa.
O homem é constantemente confrontado com a dualidade de escolhas. Entre a atracção erótica da supermodelo internacional, em que pode estar a chupar mamilos numa discoteca, dar uma queca no wc ou entrar na loucura total porque pode simplesmente fazer o que quiser, ou optar pela cerebral Maude (Céline Sallette) e fazer o que é correcto, mostrando todos os esquemas por "trás da cortina" e "abandonar o barco". Noutro plano, ele pode sucumbir aos planos maquiavélicos de Dittmar ou tomar o controlo do banco aliando-se aos seus próprios inimigos internos. Visto de fora pode não parecer, mas a vida de banqueiro aparentemente que não é nada fácil.
Costa-Gavras nunca aborda o tema de forma leve. É tudo à bruta. O tema é complexo, mas Gavras conduz o filme como se fosse a conduzir um tractor: passa por cima de tudo. Desde Wall Street que não via nada tão directo. "O dinheiro não é uma ferramenta, mas sim algo a que deves servir. Serve-o bem e ele recompensa-te generosamente", diz a personagem de Gabriel Byrne. Este é o mote de todo o filme. Ter o máximo de dinheiro possível sem olhar a meios. Gravas pinta os banqueiros como mafiosos insensíveis, que se precisarem de aumentar os lucros, despedem os trabalhadores e chamam-lhe "plano social". Mostra como a informação interna é vital, pois o banqueiro não se importa de contratar um antigo polícia para vigiar outros colegas banqueiros, nem que seja para lhes vasculhar o lixo à procura de podres que possam dar uma vantagem negocial.
Mas apesar de toda a artilharia pesada, Gravas consegue povoar todo o filme de camadas e de pormenores, como aquela cena em que Marc está a vestir um fato e o costureiro lhe pergunta para que lado se inclina a "dita cuja". O banqueiro parece pensar: "mas faz diferença?". É como as discussões políticas. Num mundo dominado pelo dinheiro, ser de esquerda ou direita, faz alguma diferença?... Pois...
Em termos de realização, Costa-Gravas abre o livro todo e mostra como fazer um filme de/e para actores, como filmar em múltiplas localizações - todas elas com as suas particularidades bem vincadas - mas ainda assim manter uma coerência incrível e um ritmo alucinante durante todo o filme. Muito bom. Se o dinheiro está sempre em movimento, Marc tem de o acompanhar. Tive de respirar fundo no final, porque finalmente o homem pára. Desde que tomou posse como presidente que o homem não pára de atender telefones, ler e enviar e-mails, fazer videoconferências, apanhar aviões, organizar reuniões ou desviar-se de facadas nas costas.
O pior do filme é mesmo acabar de forma frouxa. Um filme com um tema tão explosivo, com tanto andamento, tinha de acabar com um grande estouro. "Vamos continuar a roubar os pobres para dar aos ricos", é uma daquelas frases que vão ficar para a história, mas não chega. Percebo a lógica de continuidade, mas o resto do filme elevou demasiado a expectativa e por isso esperava um final mais bombástico que o simples reconhecimento que Marc é "um Robin dos Bosques moderno".
Para mim, a grande questão é se o filme é só uma ficção ou mostra a realidade escondida atrás da cortina. Ou este pessoal dos bancos é uma espécie de sugadores de sangue, paranóicos, psicóticos e maníacos sem um pingo de humanidade ou, por outro lado, eles até são gajos normais, que trabalham muito e ganham ainda melhor, mas o resto das pessoas "normais" os vêem como sugadores de sangue, paranóicos, psicóticos e maníacos sem um pingo de humanidade... Seja como for, a resposta é sempre preocupante.
Por isso mesmo é um filme que estará sempre dividido na apreciação. Ou se gosta ou se detesta. Ou se sente que alguém finalmente está a dizer toda a verdade ou se sente que o realizador está a manipular a realidade para fazer uma declaração política vincada. É um filme que vai estar sempre no 50/50, também porque é demasiado directo. Não há meias palavras nem questões dúbias. É tudo atirado directamente à cara de quem está a ver o filme e está tudo à vista. Le Capital é um filme sem portas fechadas. Dentro do género de filmes que são nitidamente uma declaração política, este é um dos mais bem feitos que já vi. ●●●●○
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