Não sou grande fã de Turner, mas não consigo resistir a um biopic sobre pintores. Normalmente têm histórias de vida surreais que dão sempre bons filmes. Turner não é excepção. Mr. Turner mostra os últimos anos de vida do excêntrico pintor inglês William Turner, as relações com a empregada de limpeza, a sua senhoria em Chelsea (onde acabaria por morrer) e os efeitos nefastos que sofreu após a morte do pai. Mostra também as suas viagens, as pinturas - e o modo particular de pintar -, a importância da luz e do realismo que empregava nas suas telas e a forma de lá chegar, ao ponto de se amarrar a um mastro de um navio para ver como seria realmente estar no meio de uma tempestade. Amado e odiado de alguma forma pelo público e pela aristocracia, Turner parece um alienado de qualquer realidade.
Tenho de admitir que não sendo fã do Turner deu-se uma sensação de desconhecimento tão grande em relação à personagem que me apeteceu logo ir a correr e comprar um livro para o conhecer melhor e à sua obra. Apercebi-me que um gajo do século XIX que pintava cenas trágico-marítimo se aproximou bastante dos pintores modernos como Mark Rothko, por exemplo. E não fui só eu. Aparentemente, após a exibição do filme, os seus quadros reaparecerem rejuvenescidos no mercado e começaram a ser leiloados atingindo os preços mais elevados de sempre.
Mas se o filme por um lado teve o condão de despertar-me a curiosidade pelo pintor, por outro quase que me entediou. Apesar da brilhante fotografia, tem um ritmo exageradamente lento e é obviamente longo demais. Mr. Turner podia ter sido um grande filme, mas assim é apenas um bom filmito de Mike Leigh, com uma grande - muito grande -, mas estranha interpretação de Timothy Spall. ●●○○○
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Tirando os "clássicos popularuchos" que toda a gente também já viu (e que agora até estão a ser refeitos), não tenho o hábito de ver muitos filmes portugueses. Isto aconteceu porque durante um tempo só apanhei filmes "artísticos", "conceptuais" ou de "intervenção" e detestei-os por serem, basicamente, uma grande seca. E além disso, tal como tantos outros, nasci e cresci com o " vulgar filme americano". Por isso mesmo, ainda hoje, me causa estranheza os filmes não terem legendas ou não serem falados em inglês. Como tudo na vida, isso foi mudando, e desde há alguns anos, tenho-me obrigado a ver mais filmes europeus e em especial, filmes portugueses. Tem sido uma exploração muito satisfatória.
Nessa onda de descobertas, mais uma bela surpresa: Os Maias.
E não, ainda não li "Os Maias". (A minha professoa do secundário que dá uma vista de olhos aqui no blog deve estar furiosa.) Na brincadeira, sempre disse que ia esperar pelo filme. E aqui está ele. E é um bom filme, com uma grande realização de João Botelho.
Esta adaptação de Os Maias está especialmente bem feita. Tem momentos de brilhantismo visual. Ser (também) artista gráfico e ilustrador, de certeza que só ajuda. Os cenários pintados podem ser objecto de um julgamento estético muito subjectivo, mas o que é que não é? Eu gostei do pormenor.
Como é normal nos filmes portugueses, mais uma vez, é uma pena que lhe falte (mais) banda sonora. Houve alturas em que senti que o filme ficou "vazio". A falta da música não só deixa o filme mais fraco, como acaba por deixar os actores desamparados e a parecerem piores do que na realidade são. Na falta de música, fico sempre com a sensação que estou a ver actores de teatro filmados que aparecem numa tela de cinema. À falta de melhor palavra, acho que fica esquisito. Nunca entendi porque é que existe tão pouca música nos filmes portugueses...
Tirando os nomes "pesados" que nunca falham como Rita Blanco e João Perry, os restantes - que me são totalmente desconhecidos -, até estão muito bem. Alguns destacam-se como Pedro Inês a fazer de Ega. A personagem e o actor são tão bons que deveriam ter tido mais "filme".
A história da decadente aristocracia portuguesa do século XIX é excelente, mas aí há que dar os "louros" ao Eça de Queirós. Um visionário, este Eça. Passado tanto tempo, esta história, de alguma forma estranha, ainda se "encaixa" na sociedade portuguesa. É muito fácil ver paralelismos entre o passado e presente. E só um gajo muito bom como o Eça de Queirós podia fazer essa proeza que é ir o mais essencial duma sociedade e extrair-lhe os pormenores que não mudam com o tempo. Perfeito. Além disso, é uma trama muito avançada para o seu tempo ou não tivesse uma paixão entre irmãos como fio condutor duma história familiar que percorre várias gerações da mesma família. É uma história de amor intemporal, dramática até ao tutano, como qualquer história de amor deve ser.
Os Maias, de João Botelho, tem todos os condimentos de um bom filme, e pelo (pouco) que (ainda) conheço do cinema português, é um dos melhores que já vi. Mas a exploração e descoberta do cinema português continua... ●●●○○
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