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Há filmes para todos os gostos e de todos os géneros e sub-géneros. Balada da Praia dos Cães, um filme de cariz político da autoria de José Fonseca e Costa, pertence a um sub-sub-género muito específico que é o "esquecido, maltratado e difícil de apanhar". Demorei anos até o conseguir ver, mas finalmente consegui. Vamos por partes.
Baseado no livro de José Cardoso Pires com o mesmo nome, Balada da Praia dos Cães é acima de tudo uma amostra do Portugal dos anos 60: cinzento, bafiento e salazarento. Mas não só. É uma história policial baseada em factos verídicos, intrincada, negra, muitíssimo bem montada e com uma narrativa  moderna, recorrendo com frequência a cenas de flashbacks e sonhos.
Tudo começa numa praia, com a descoberta do corpo em decomposição de um oficial do exército procurado pela polícia política. O responsável pela investigação é Elias Santana, um solitário homem à antiga. Terá que deslindar um caso complexo com a ajuda de Mena, uma misteriosa mulher que entretanto se entrega às autoridades e que tem uma historia incrível para explicar a macabra descoberta. Ao mesmo tempo, Elias combate o poder de sedução de Mena para não cair em tentação...
Quanto mais não fosse, só pelo tratamento dado à história valia a pena ver. Mas depois ainda tem Raul Solnado e Assumpta Serna. Solnado aparece num raro papel sério e está óptimo, ainda que por vezes ficasse com a sensação que ele nunca consegue mesmo ficar sério. Fica aqui provado que Solnado não era "apenas" um homem da comédia: era excelente na representação.
Mas se há um destaque na representação ele tem de ir obrigatoriamente para Assumpta Serna. Fixei automaticamente este nome. Nunca tinha visto esta actriz espanhola e posso dizê-lo que fiquei enfeitiçado, tal como a personagem Elias Santana. Parece que saiu verdadeiramente dum filme dos anos 60. Tem aquela beleza típica do sixties que não se consegue explicar. Mas não é só uma cara bonita; é uma brilhante actriz. Quando fui pesquisar e vi o currículo da mulher fiquei estupefacto. (e pensava eu que sabia muito de cinema...). É um dos pontos de tensão constante do filme: o confronto surdo entre o Solnado como representante antiquado de quem fecha os 50's e a Serna como a mulher moderna que dá inicio aos 60s.
Depois começam os problemas "técnicos".
O filme é muito bom e tem momentos geniais de cinema, só que tem um péssimo som. Parece que o som é projectado do auscultador de um telefone antigo... ao longe. E ainda por cima a música até está presente e é muito boa (do Alberto Iglesias), contrariamente aos outros filmes portugueses que tenho visto, em que o silêncio só é cortado pelo chão a ranger debaixo dos pés dos actores.
Ao irritante problema "som", juntam-se as dobragens que são horríveis. Sim, dobragens. Como o filme é uma produção Portugal-Espanha e o elenco tem actores de várias nacionalidades, optaram pela dobragem. Por muito que se esforçassem, António Feio, Paula Guedes e Mário Viegas nunca conseguiriam fazer esquecer o ridículo que são as dobragens.
Volto ao início, Balada da Praia dos Cães, é um filme "esquecido, maltratado e difícil de apanhar". Há muitos anos que queria ver este filme e finalmente consegui apanhá-lo na RTP Memória. Foi mesmo difícil. Pergunto eu: não há tempo de antena suficiente para ir repondo por aí uns filmes portugueses mais antigolas, mas muito bons, como este?  
Balada da Praia dos Cães parece o filme que quase não existe. Mesmo na vastidão da net, não há disponível um trailer ou um poster. E o IMDB só tem a ficha mínima. É uma pena. Mal tenha oportunidade irei criar um poster em condições. É o mínimo que posso fazer. Este filme merece um tratamento digno.

E faço um apelo sentido aos senhores donos deste filme para que remasterizem este filme e especialmente que tratem daquele som marado. O filme está tão bem feito e é tão moderno que depois podem até reeditá-lo para cinema. Ninguém vai notar. ●●●○○



Tirando os "clássicos popularuchos" que toda a gente também já viu (e que agora até estão a ser refeitos), não tenho o hábito de ver muitos filmes portugueses. Isto aconteceu porque durante um tempo só apanhei filmes "artísticos", "conceptuais" ou de "intervenção" e detestei-os por serem, basicamente, uma grande seca. E além disso, tal como tantos outros, nasci e cresci com o " vulgar filme americano". Por isso mesmo, ainda hoje, me causa estranheza os filmes não terem legendas ou não serem falados em inglês. Como tudo na vida, isso foi mudando, e desde há alguns anos, tenho-me obrigado a ver mais filmes europeus e em especial, filmes portugueses. Tem sido uma exploração muito satisfatória.
Nessa onda de descobertas, mais uma bela surpresa: Os Maias.
E não, ainda não li "Os Maias". (A minha professoa do secundário que dá uma vista de olhos aqui no blog deve estar furiosa.) Na brincadeira, sempre disse que ia esperar pelo filme. E aqui está ele. E é um bom filme, com uma grande realização de João Botelho.
Esta adaptação de Os Maias está especialmente bem feita. Tem momentos de brilhantismo visual. Ser (também) artista gráfico e ilustrador, de certeza que só ajuda. Os cenários pintados podem ser objecto de um julgamento estético muito subjectivo, mas o que é que não é? Eu gostei do pormenor.
Como é normal nos filmes portugueses, mais uma vez, é uma pena que lhe falte (mais) banda sonora. Houve alturas em que senti que o filme ficou "vazio". A falta da música não só deixa o filme mais fraco, como acaba por deixar os actores desamparados e a parecerem piores do que na realidade são. Na falta de música, fico sempre com a sensação que estou a ver actores de teatro filmados que aparecem numa tela de cinema. À falta de melhor palavra, acho que fica esquisito. Nunca entendi porque é que existe tão pouca música nos filmes portugueses...
Tirando os nomes "pesados" que nunca falham como Rita Blanco e João Perry, os restantes - que me são totalmente desconhecidos -, até estão muito bem. Alguns destacam-se como Pedro Inês a fazer de Ega. A personagem e o actor são tão bons que deveriam ter tido mais "filme".
A história da decadente aristocracia portuguesa do século XIX é excelente, mas aí há que dar os "louros" ao Eça de Queirós. Um visionário, este Eça. Passado tanto tempo, esta história, de alguma forma estranha, ainda se "encaixa" na sociedade portuguesa. É muito fácil ver paralelismos entre o passado e presente. E só um gajo muito bom como o Eça de Queirós podia fazer essa proeza que é ir o mais essencial duma sociedade e extrair-lhe os pormenores que não mudam com o tempo. Perfeito. Além disso, é uma trama muito avançada para o seu tempo ou não tivesse uma paixão entre irmãos como fio condutor duma história familiar que percorre várias gerações da mesma família. É uma história de amor intemporal, dramática até ao tutano, como qualquer história de amor deve ser.
Os Maias, de João Botelho, tem todos os condimentos de um bom filme, e pelo (pouco) que (ainda) conheço do cinema português, é um dos melhores que já vi. Mas a exploração e descoberta do cinema português continua... ●●●○○

 
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