Mostrar mensagens com a etiqueta biopic. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta biopic. Mostrar todas as mensagens

James Ivory decidiu embrenhar pelo mundo dos artistas e não se deu nada bem. Surviving Picasso retrata um período da vida de Picasso em que ele se apaixona por Françoise Gilot, uma jovem pintora que acabou por ser a única mulher forte e capaz o suficiente para "sobreviver" ao portento criativo de Pablo Picasso. Não só lhe sobreviveu como também foi a única capaz de o deixar e continuar com a sua vida...
Nos principais papéis há Anthony Hopkins como Pablo Picasso, Natascha McElhone como Françoise Gilot e depois há também em papéis mais secundários, nomes como Julianne Moore, Joss Ackland e um novíssimo e quase irreconhecível Dominic West como Paulo Picasso.
Surviving Picasso é muito fraquinho. Logo à partida há uma enorme falha que é a ausência das obras de Picasso. Acho incompreensível fazer o que quer que seja minimamente relacionado com Picasso e não mostrar um único quadro do mestre... No entanto, há uma razão para isso. Não existia uma autorização expressa para se poder mostrar as obras de Picasso. A família opôs-se ao filme e não autorizou que se usassem reproduções das obras. Só isto retira muita estética ao filme, já para não dizer que se perde imenso valor estético e uma parte substancial da história. Até porque existe uma relação quase simbiótica entre as mulheres e os períodos estéticos de Picasso...
Mas para além disso, o filme é relativamente inócuo. A fotografia é fraca, não tem nenhum pormenor relevante na realização, a banda sonora é quase inexistente... Não quero estar aqui a bater mais no ceguinho...
Não fosse as boas interpretações dos actores principais e este Surviving Picasso teria sido uma desgraça total. Parece um daqueles biopics feitos para televisão. Não gostei nada. Se a intenção era mostrar um pouco mais Gilot para além de Picasso fizeram-lhe um muito mau serviço. O filme serve acima de tudo para mostrar como Picasso tudo dominava e ninguém saia incólume da relação... que é exactamente o oposto daquilo a que se propunha. Apesar da premissa, o retrato de Françoise Gilot figura mais como acompanhante de Picasso do que peça principal... é um falhanço total para James Ivory. Acontece aos melhores... 


Rodin foca-se na vida do famoso escultor num específico espaço de tempo e eventos. O momento é o da criação da famosa estátua de Balzac, na altura muito mal recebida, mas que agora é reconhecida como uma das obras mais importantes da escultura moderna. O evento é o romance tórrido e conturbado com Camille Claudel e a posterior separação entre ambos. Em pano de fundo surge também, uma obra escultórica que teve influência directa dos dois artistas, A Porta do Inferno, baseada na obra de Dante.
A premissa e o núcleo central do enredo são muito bons, os intervenientes têm muita coisa para dizer e mostrar, mas no geral, o filme acaba por ser uma decepção. Por muito que goste de Rodin - e é sem dúvida um dos meus artistas favoritos - é preciso compreender que a maior parte do público não conhece a personagem. Quem tiver pouco conhecimento da vida e da obra do mestre escultor nunca vai perceber o filme e vai literalmente estar a olhar para uma tela "vazia" a tentar perceber o que é que se passa. Neste caso, uma escultura em fase de criação... Bastava uma pequena introdução para dar um melhor contexto ao filme. Auguste Rodin, apesar de ser unanimemente considerado o percursor da escultura moderna, era na realidade um homem "comum". Tentou por três vezes ingressar na Faculdade de Belas Artes e por três vezes foi recusado, o que exemplifica bem o quanto o ensino artístico tem para oferecer e reconhecer em termos de conhecimento estético... Mas isso é outra história... Rodin era efectivamente um autodidacta. Não aprendeu com ninguém. "Ensinou-se", no seu próprio estilo. Acho que meia dúzia de linhas no início do filme a explicar quem é o protagonista, permitiriam entrar melhor no mundo de Rodin e Claudel. Sem esta introdução, uma pessoa fica algo perdida na história, como se entrasse a meio do filme sem perceber nada do que aconteceu antes...
Mas esse nem é o principal problema deste Rodin. O problema está em tudo o resto. A realização de Jacques Doillon é fraca, dura e seca como um pedaço de pedra antes de ser trabalhado por um escultor. Percebo a lógica (se é que ela existe), mas não gosto do tom demasiado cru e austero. É um filme que parece uma adoração a uma fotografia antiga e acinzentada de uma estátua. Há uma música deslavada no início e outra no fim, perto dos créditos. Pelo meio, sempre os mesmos planos fixos envoltos em silêncio. As obras dos dois artistas que deveriam na realidade ser a grande mais valia, pouco ou quase nada são intervenientes... Não gostei nada disto. Rodin é um dos meus artistas favoritos e por isso acho que este filme fez-lhe pouca ou nenhuma justiça... Vale a interpretação de Vincent Lindon e Izïa Higelin e pouco mais. Não há tensão, não há carga emocional... Tudo é uma estátua de pedra sólida neste filme. Estaria de acordo com esta aproximação, não fosse o tema central deste tal "momento" o romance  de Rodin Claudel... É um contrasenso... Tudo junto, parece um daqueles telefilmes ou documentários que recriam a vida de uma pessoa famosa...  Uma decepção enorme. 

At Eternity's Gate, de Julian Schnabel, é um filme medianamente bom com uma história alternativa à história oficial (mas turva) do pintor Vincent Van Gogh nos seus últimos anos de vida. Considero-o mediano porque conheço bastante bem a obra e vida do Van Gogh. Um génio e ao mesmo tempo um louco (como todos os grande génios, não é verdade?) que teve um grande impacto no mundo da pintura e que ao contrário de muitos autores tinha a vida e obra exemplarmente catalogada. Mesmo ao nível do pensamento, tudo está muito bem documentado na correspondência com o irmão. Daí que um biopic sobre Van Gogh tem de ser mesmo potente, porque quase tudo pode ser confirmado. Isso não acontece aqui. O timeline dos acontecimentos parece baralhado e muitas vezes até omisso de pormenores de grande relevância. Mas se calhar também estou a ser exigente demais...
O filme tem alguns bons pormenores (a cena a preto e branco para mostrar a pintura com textura típica de Van Gogh é de antologia) e não chateia mas também nunca descola do essencial e do seguro. Por vezes tem um aspecto quase de telefilme que não me agrada nada, se bem que encaixa muito bem no tom por vezes quase teatral. O melhor de todo o filme é mesmo o Willem Dafoe que se torna literalmente no Van Gogh. Está absolutamente perfeito. Mais uma grande prestação deste grande actor "esquecido" que conta com a prestação tímida dos excelentes "secundários" Rupert Friend, Oscar Isaac e Mads Mikkelsen. Não é memorável, mas vê-se bem. E se o voltar a ver será pela interpretação do Willem Dafoe. ●●○○○

Não sou grande fã de Turner, mas não consigo resistir a um biopic sobre pintores. Normalmente têm histórias de vida surreais que dão sempre bons filmes. Turner não é excepção. Mr. Turner mostra os últimos anos de vida do excêntrico pintor inglês William Turner, as relações com a empregada de limpeza, a sua senhoria em Chelsea (onde acabaria por morrer) e os efeitos nefastos que sofreu após a morte do pai. Mostra também as suas viagens, as pinturas - e o modo particular de pintar -, a importância da luz e do realismo que empregava nas suas telas e a forma de lá chegar, ao ponto de se amarrar a um mastro de um navio para ver como seria realmente estar no meio de uma tempestade. Amado e odiado de alguma forma pelo público e pela aristocracia, Turner parece um alienado de qualquer realidade.
Tenho de admitir que não sendo fã do Turner deu-se uma sensação de desconhecimento tão grande em relação à personagem que me apeteceu logo ir a correr e comprar um livro para o conhecer melhor e à sua obra. Apercebi-me que um gajo do século XIX que pintava cenas trágico-marítimo se aproximou bastante dos pintores modernos como Mark Rothko, por exemplo. E não fui só eu. Aparentemente, após a exibição do filme, os seus quadros reaparecerem rejuvenescidos no mercado e começaram a ser leiloados atingindo os preços mais elevados de sempre.
Mas se o filme por um lado teve o condão de despertar-me a curiosidade pelo pintor,  por outro quase que me entediou. Apesar da brilhante fotografia, tem um ritmo exageradamente lento e é obviamente longo demais. Mr. Turner podia ter sido um grande filme, mas assim é apenas um bom filmito de Mike Leigh, com uma grande - muito grande -, mas estranha interpretação de Timothy Spall. ●●○○○

Se me pedissem para escolher uma temática de eleição no cinema não tenho dúvidas que seria a ficção científica. Mas este predileção pela ficção científica tem as suas raízes nos factos científicos. Se estiver a fazer um zapping, é-me quase impossível resistir a um documentário ou programa sobre o Universo. Se as mecânicas do planeta Terra - já de si complexas - são relativamente simples de entender e assimilar, já os mecanismos de funcionamento do espaço sideral são quase para além da compreensão humana. São forças gravitacionais, planetas errantes, buracos negros, raios gama, energias negras e outras coisas ainda mais extravagantes que me deixam com a cabeça à roda. Fascinam-me. E ainda por cima, tudo está numa escala tão massiva que é... mind-blogging. (esta é uma expressão que uso com regularidade quando me refiro ao Universo, até porque nunca encontrei uma expressão portuguesa que fosse equivalente...)
Toda a minha curiosidade por saber como tudo começou e como tudo funciona, e sendo um tolinho por coisas do Universo levou-me ao encontro dos (principais) autores científicos (ou pelo menos, os que têm preponderância televisiva...) e por isso nunca poderia contornar uma personagem com a de Stephen Hawking. Um cromo e um crâneo científico dos melhores que por cá passou. Daí que tinha bastante curiosidade em ver este biopic sobre o Hawking, The Theory of Everything.
E tenho de admitir que foi uma belíssima surpresa. Apesar do ritmo lento - mas constante -, tem sempre um momento em que dá um salto e fez-me ficar ansioso por saber o que ia acontecer a seguir. A realização de James Marsh é segura e às vezes até algo "distante", mas de alguma forma acho que foi propositado e enquadra-se perfeitamente. Mas se o filme é digno de aplausos é por causa do Eddie Redmayne. Felicity Jones no papel da mulher que acompanha o definhar físico do génio está muito bem - assim como o restante casting - mas acaba por se tornar demasiado secundária perante o papelaço do Redmayne que absorve todo o filme. É uma grande e exemplar interpretação do Eddie Redmayne, que a determinada altura fez-me esquecer que estava a ver um filme. É que parecia mesmo o Stephen Hawking. Absolutamente impressionante. Uma actuação para a história, sem dúvida. Uma autêntica viagem pelo universo da vida de Stephen Hawking. Muito bem feito. Muito bom. ●●●●○

Se há uma coisa que os serviços de streaming fazem melhor que qualquer outros "estúdios" é no campo dos documentários. Este Becoming Bond (da Hulu) é mais um desses exemplos e explora a história marada em torno do James Bond mais odiado mas ainda assim, talvez o mais emblemático e carismático de todos: George Lazenby. É um documento surpreendente (num misto de documentário e recriação [Josh Lawson, muito bem no papel de George]) que mostra que a realidade é sempre mais estranha que a ficção. Como é que um mecânico australiano e mais tarde modelo masculino de roupa, sem experiência absolutamente nenhuma como actor, foi escolhido para ser "o" James Bond, e ainda por cima para colmatar a saída de cena do "verdadeiro" Bond, Sean Connery? Não parece possível, mas foi exactamente isso que aconteceu... Revelações surpreendentes estão incluídas, como aquela em que Lazenby diz que após lhe terem oferecido um contrato de 1 milhão de dólares e a hipótese de protagonizar os próximos seis filmes do mais conhecido agente secreto de Sua Majestade, ele simplesmente recusou... porque teve um feeling que aquele não era o caminho que deveria percorrer...
Becoming Bond é um documentário obrigatório para todos os fãs do 007, com a presença ubíqua de Lazenby, the man himself... Vê-se muito bem. ●●●○○

Ainda hoje não entendi muito bem como toda esta história contaminou o mundo. Acho que foi uma espécie de estranho acordar (violento) para a realidade. A ideia pré-concebida que uma pessoa tem da patinagem artística (sendo que "uma pessoa", sou eu...) é quase a mesma do bailado clássico: apenas meninas lindíssimas com um Q.I. do tamanho do Einstein participam nestas provas, e para além da beleza e inteligência quase sobre-humana, ainda suplantam os restantes seres humanos vulgares com uma incrível aptidão para um impossível equilíbrio, força e destreza física. Bem, Tonya Harding é exactamente o oposto disto tudo: é oriunda de um meio pobre, mergulhada com uma vidinha de merda com agressões e violência constante à mistura... Se bem que em abono da verdade, ela possuia um dom que era o da patinagem artística, até porque a determinado ponto do carreira foi provavelmente a melhor patinadora do mundo... É quase uma vida de rockstar decadente a imiscuir-se no elitista meio da patinagem artística de alto rendimento. Nunca iria funcionar bem, e claro está, não funcionou. Claramente posta de parte pelo resto da classe desportiva, com a vida feita num frangalho e com a agravante de estar rodeado por uma maioria de personagens absolutamente tóxicas, esta história só podia acabar mal.
Acho que foi um pouco por causa disto tudo que no princípio dos anos 90, a rivalidade Tonya Harding/Nancy Kerrigan acabou por chegar aos olhos e ouvidos de todo o mundo. Foi algo tão dispare, estranho e inesperado que acabou por chamar a atenção de toda a gente. Foi como se os irmãos Coen estivessem a "dirigir" a realidade... É talvez a característica mais marcante dos anos 90 e a razão porque muita gente não gosta particularmente desta década: é um acordar pessimista (ou realista?...) para a realidade negra em contraposto com o exagero colorido e despreocupado dos 80's. E logo a seguir ainda apareceu a cena do "simpático" OJ Simpson... Dá que pensar...
I, Tonya é rodado em jeito de documentário com os intervenientes a comentarem abertamente as situações mirabolantes que nos vão sendo apresentadas, além de que há muitas quebras da "4.ª parede", pormenor que gosto (quase) sempre. Vai oscilando entre um drama familiar de violência doméstica e o documentário de prestação desportiva, aqui e ali pontilhado por uma comédia muito inteligente devido às situações hilariantes em que Harding se vai metendo, mas principalmente devido aos comentários cáusticos e impróprios da mãe, que é absolutamente psicótica.
Enormes destaques para Allison Janney como a mãe irascível e, obviamente, Margot Robbie como uma perfeitamente imperfeita Tonya Harding. Sebastian Stan e Paul Walter Hauser são irritantes, mas no bom sentido. Acho que não há ninguém no casting que falhe. É simplesmente um conjunto de actores impecável e exemplarmente bem dirigidos por Craig Gillespie que assina também uma realização imaculada. Excelente. Nada a apontar.
Mesmo não conhecendo a fundo os contornos, lembro-me bem desta história esquisita. Até ver este I, Tonya, tinha a ideia já longínqua que ela tinha mesmo tentado sabotar a prestação da colega de profissão. Agora já não tenho tantas certezas. Este filme parece quase um limpeza dessas ideias que ficaram e gera bastante ambiguidade e dúvida. A ser tudo verdade (dentro da dramatização) Tonya Harding merecia ter um filme assim. Uma vida assim tão preenchida, rocambolesca e trágica merece sempre um bom filme. E I, Tonya é um filme muito bom. A sério. Muito bem feito. Para ver com atenção. ●●●●○

Quando chegou a Portugal, a novidade fez com que eu fosse um ávido consumidor de McDonald's como o resto da população mundial. Mas depois comecei a ter alguns problemas: em primeiro lugar os hambúrgueres começaram a deixar-me mal-disposto. Esta parte não é brincadeira. Arrotava e ficava com dores de barriga. Havia ali qualquer coisa que não me caía bem. Depois comecei a reparar nas fotografias espectacularmente bem apresentadas versus a realidade do hambúrguer que vinha na caixa e que nunca correspondia. A seguir percebi que há alguns problemas preocupantes que atingem a sociedade quando uma empresa tem um nível de faturação maior que o PIB de alguns países. Depois, li o IT do Steven King e apercebi-me o que havia de estranho no palhaço da McDonald's: o Ronald McDonald era o palhaço assustador com que o palhaço do IT tinha pesadelos!!! Isso é muito estranho, visto que palhaço está lá para as crianças. Nunca percebi como é que as criancinhas não fugiam dali aos gritos... E para terminar o McDonald's desalojou e acabou com o meu café favorito em toda a cidade. E então decidi por um ponto final nesta minha curta relação com o fast food.
Mal eu sabia que um dia estaria a ver um filme como The Founder. Uma história de persistência, tenacidade, mas também de traição, engano e mentira. Basicamente o American Dream, mas tal como é visto hoje em dia... É um ataque cerrado ao início da McDonald's e ao seu fundador Ray Croc. Diga-se de passagem que Ray Croc parece um nome saído de um filme de mafiosos... Adiante...
O que surpreendeu pela positiva em The Founder foi o estar muito bem realizado por John Lee Hancock e muito bem escrito por Robert Siegel. Nota-se que isto é pessoal que tinha uma missão em mente. E não é fácil "atacar" aquilo que a maioria das pessoas adora. Grande destaque também para o Michael Keaton que apesar de não se esforçar muito na criação da personagem, consegue igualmente que uma pessoa o admire e o deteste ao mesmo tempo. Nick Offerman, John Carroll Lynch, Laura Dern, entre muitos outros bons actores também por lá passam.
Deixei de entrar no McDonald's na longínqua década de 90 porque me tirou o meu café preferido que era também o meu ponto de encontro com os meus amigos. E sempre achei que havia algo na empresa que não batia certo. Agora confirmei o que era... Cheirava a... traição. Decididamente a ver. ●●●○○

Há muito tempo que os mafiosos exercem um estranho fascínio nos escritores, realizadores e até no público de cinema. Não é difícil de perceber o porquê. Os mafioso têm um estilo próprio, são poderosos, ricos, impõe respeito, não acatam ordens de toda a gente, não são "empurrados contra a parede"... até que inevitável e inesperadamente levam um balázio nos cornos ou calçam uns "sapatos de cimento" e vão "falar com os peixinhos"... Deve ser por isso que são sempre acarinhados pelos cinéfilos: são os maus da fita mas têm uma estranha dualidade: são ao mesmo tempo duros e frágeis, o que os torna muito humanos. São uma espécie de super-heróis mas sem terem super-poderes. Pelo menos é o que eu penso. Por isso não resisto a um filme com mafiosos. Quando li (e vi) que Johnny Depp entraria nesta categoria, não resisti a dar uma vista de olhos. E tenho de dizer que é surpreendente. Black Mass é um bom filmito de mafiosos. Muito jeitoso. Mas a surpresa está mesmo no facto de o principal ser o Johnny Depp. Há muito tempo que decepciona, mas não é este o caso. Está impecável. Suporta todo o filme às suas costas. Também ajuda o excepcional leque de actores de suporte (Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Dakota Johnson, Kevin Bacon, Peter Sarsgaard) e uma realização muito controlada e segura de Scott Cooper, mas o destaque tem de ser todo para o Johnny Depp. O guião foi muito bem escrito e pega numa história tão rocambolesca que nem parece verdade. Mas incrivelmente é baseado numa história real, com personagens reais, o que torna este Black Mass numa espécie de biopic do crime... A realidade é sempre mais estranha que a ficção.... Black Mass foi uma boa surpresa. Não é inesquecível mas vê-se muito bem. ●●●○○

Tom of Finland é na realidade o nome verdadeiro de Touko Laaksonen. Esta mudança de nome deriva em parte da perseguição de que foi alvo devido às suas preferência homossexuais. Se mesmo hoje em dia, a homossexualidade ainda é vista pela maioria com alguma desconfiança (para não dizer outras coisas), imagine-se a mesma situação nas décadas de 40, 50 ou 60. Para piorar ainda mais a situação, Touko era um exímio desenhador da figura humana e, obviamente, face à pressão social (e policial) começou a projectar (às escondidas) as suas fantasias, mas mais importante, a sua arte, em pequenos desenhos homoeróticos que mais tarde lhe valeriam o reconhecimento geral. É a grande ironia da coisa: se não fosse perseguido no seu país de origem, muito provavelmente não teria tanta projecção internacional... Na verdade, é daí que conheço Tom of Finland. Presumia que fosse gay, mas pouco ou nada conhecia da personagem. Só conheci os seus trabalhos na década de 90 e como me pareciam tão modernos, sempre imaginei que seriam dessa altura. Errado. "Nasceram" muitas décadas antes, o que positivamente ainda me surpreendeu mais. Apesar de não ser grande adepto de todo aquele enquadramento explicitamente homossexual, é inegável a qualidade do desenho e da interpretação figurativa. Nos tempos mais recentes é provavelmente o melhor gajo que encontrei a desenhar a lápis. A força daquele preto-grafite e a perfeição técnica dos corpos são absolutamente soberbos. Melhor é difícil de encontrar.
Vou ser sincero. Tinha mais curiosidade em ver o filme para saber mais sobre a obra do que propriamente sobre o autor. Só que Tom of Finland (o filme e o homem) trocou-me as voltas. O filme foca-se quase exclusivamente no autor mas acabei por nem sentir a falta dos desenhos. A história é tão comprida, complexa e preenchida que quase nem "precisei" da componente artística. Há uma aura de tensão constante à volta da comunidade gay daquela altura que é quase palpável através do filme. Importante para mim também foi o pormenor do filme "ser" gay mas não ostensivamente gay, pois não senti (o que já aconteceu noutros filmes com a mesma temática) que entrasse no campo da propaganda. É simplesmente um filme muito bem feito ao ponto de o tornar realista, em torno de uma enorme personagem que por mero acaso era gay. Um grande aplauso para Dome Karukoski por todo o trabalho de criação e realização desta pequena jóia.
Tom of Finland acaba por se tornar um tributo merecido a um gajo de tomates numa altura de extrema intolerância, e que praticamente sozinho, moldou toda a imagética e a fantasia gay do mundo inteiro...
Tom of Finland é um filme muito bom, como já não via à algum tempo. Um filme meticulosamente montado como se fosse uma obra de artesanato. Tudo é pensando ao pormenor e encaixa perfeitamente. É mesmo o meu tipo de filme. Desde os pormenores da música e da roupa que mostram o passar do tempo e em que época é que a história se desenrola, assim como a montagem não linear que une pontos da história longe no tempo mas que em termos de contexto fazem todo o sentido juntos. Não me canso de dizer: muito bom.
Os actores são todos excelentes (Lauri Tilkanen, Jessica Grabowsky, Taisto Oksanen) mas o grande destaque é mesmo do Pekka Strang, que neste caso mereceria levar para casa uns três Óscares. Não consigo encontrar uma forma de "melhorar" este Tom of Finland. Tudo me pareceu perfeito. Altamente recomendado e com nota máxima. ●●●●●

A Guerra Civil Americana continua a mastigar homens nos campos de batalha. No meio de toda esta carnificina, o presidente americano, Abraham Lincoln, tem a sua própria luta interna: emancipar os escravos e acabar constitucionalmente com a escravatura. Para isso tem de conseguir os votos sufucientes dos adeversários assim como do seu próprio partido.
Este é o ponto de partida de Lincoln, mais uma super-produção de Steven Spielberg, agora em versão biográfica. Lincoln entra directamente na minha categoria de mixed-feelings. Apesar de muito bem feito, acho-o demasiado denso, lento e meloso para o meu gosto. Ainda que tenha alguns fogachos de emoção, são demasiado poucos. Com os actores que tem (Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones [só aqui um triunvirato que grita para prémio de Óscares], Joseph Gordon-Levitt, James Spader) podia e deveria ter muito mais intensidade. Fica-se "apenas" por um biopic extremamente bem escrito e realizado.

Por vezes parece demasiado encenado como que a piscar o olho à Academia, e como se costuma dizer, "sem sair da zona de conforto". É esse mesmo o principal problema: Spielberg não quer confrontar nenhuma ideia nem nenhuma opinião e por isso mantém-se sempre a uma distância teatral de qualquer futuro problema que o filme lhe pudesse causar. Não quis tomar partido e assim não tomou rigorosamente nada. Fica uma obra para a posteridade que soa a perfeito, mas insípida e algo "oca". Ligeiramente desapontante... Desapontantemente ligeira. ●●●○○


No seu dormitório em Harvard, o estudante Mark Zuckerberg e uns amigos criam uma rede social para o "engate" e classificação de miúdas, tipo o Hi5 da altura... Com mais visão de futuro que o restante pessoal, Zuckerberg transforma a plataforma naquilo que mais tarde seria o Facebook mas é processado pelos irmãos Cameron e Tyler Winklevoss por roubo da ideia. É... Tal como estava escrito no cartaz promocional do filme "não se pode fazer 600 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos". Agora, como são para aí uns 3 mil e 600 milhões de amigos, presumo que Zuckerberg esteja ainda mais amargurado que no início e com mais alguns inimigos... 

Não tenho Facebook e não pretendo ter. Já lá estive em tempos, mas desisti da coisa por não lhe ver grande utilidade e o mesmo acontece agora. Os meus vizinhos das traseiras são bastante "abertos para a comunidade" e por isso sempre que tenho necessidade cuscar a vida de alguém vou para a varanda ouvir o pessoal a "lavar roupa suja", tirar fotografias à comida e restantes coisas que se fazem no Facebook. Assim ainda poupo nos dados móveis e na bateria do telemóvel. Mas não vou falar muito mal do Facebook porque eles dominam a internet e como têm os dados de toda gente... é melhor não dizer nada. Aliás, pelo que se tem visto, nem sequer é preciso: já sabem o que vou dizer, como vou dizer, quando e a quem.. Não quero confusões. Para isso já tenho a minha vida particular...

Fico-me por dizer que The Social Network é um bom filmito, uma espécie de biopic não autorizado, com bons actores e muitíssimo bem escrito. Jesse Eisenberg dá (e muito bem) corpo e alma a Zuckerberg, ajudado por alguns secundários de luxo como Rooney Mara e Andrew Garfield. Também há Justin Timberlake, Armie Hammer e uma breve aparição de Aaron Sorkin. Fica a ressalva de que não tem a chama que se esperava (e pedia) de David Fincher, algo que já vem acontecendo nos últimos tempos. Aceitável. ●●●○○

 
Copyright © 2015 todos os filmes que vi
Distributed By Gooyaabi Templates