0270 Payback

Porter foi roubado, atraiçoado e atingido com dois tiros nas costas. Mas Porter é um gajo duro e não morre assim tão facilmente. Contra todas as expectativas, Porter está vivo e quer vingança. Mas também quer os seus 70 mil dólares de volta, e há-de tentar reavê-los nem que tenha de enfrentar polícias corruptos, a ex-mulher, uma dominatrix e o seu gang chinês ou uma poderosa organização mafiosa... Nada pára Porter.
Payback é um filme de criminosos, detectives e porrada à moda dos anos 70. Aquele genérico, com aquelas letras e aquela música não engana ninguém. Por mim, óptimo. Gosto imenso de filmes de detectives mal encarados e de porrada dessa altura. Podia ser o Clint Eastwood ou o Charles Bronson, mas é o Mel Gibson e isso é sempre bom. De suporte, um casting muito bom, recheado de bons actores: Gregg Henry, Maria Bello, David Paymer, Bill Duke, Deborah Kara Unger, William Devane, Lucy Liu, Kris Kristofferson e até James Coburn. Payback enche-me (medianamente) as medidas.
Originalmente era isto que ia escrever sobre Payback. Mas escrever sobre filmes tem destas coisas: uma pessoa tenta apanhar alguma informação sobre um filme que não parece ter muito sob a superfíce e às vezes é surpreendido. Este é um caso flagrante e um verdadeiro case study.
Vim eu a saber que Payback é um remake de Point Blank de 1967 (que nunca vi) com Lee Marvin no principal papel, daí que se pareça tanto com filmes "criminosos, detectives e porrada à moda dos anos 70". Mas na realidade, Payback, são dois filmes totalmente diferentes: Payback: Straight Up (versão do realizador) e Payback (versão de estúdio). Como tenho o hábito de rever filmes, por acaso vi as duas versões, o que me causou uma confusão imensa. Tinha a certeza que já tinha visto este filme, mas estranhamente, ele diferia em muitos pormenores. Por exemplo, tinha a certeza que o Kris Kristofferson entrava, mas neste filme, o chefe da máfia só fala ao telefone e é uma mulher. E à medida que ia avançando ia ficando pior: cenas inteiras desapareciam e para culminar, o próprio final é totalmente diferente. Pensei que estava a ficar maluco, ou pior, a perder as minhas faculdades de cine-memória. Afinal, havia outra... versão.
Pelo que percebi, o realizador - Brian Helgeland - foi despedido/substituído depois do filme estar "rodado e montado", o que levou a que 30% do filme tivesse de ser re-filmado para o "actualizar". Já li umas coisas sobre quem teria sido o realizador a fazer a montagem final, mas é uma incógnita. Falou-se de John Myhre e Paul Abascal - gajos que desconheço -, e até do próprio Mel Gibson. Não faço a mínima ideia, mas também isso não é importante.
O que é importante aqui é perceber quanto um filme muda só porque juntam mais umas imagens e se cortam outras. A montagem é quase meio filme. E não é só uma questão de ritmo. É uma questão da própria história. Até personagens podem simplesmente desaparecer do enredo na mesa de montagem.
Pessoalmente, acho que Payback é um filme óptimo. Primeiro, porque mostra que não sou averso a remakes como compreensivelmente seria de supor pelas 3 ou 4 pessoas que leem este blogue. Não vejo problema nenhum em fazer remakes, desde que se justifique. Sendo que a justificação é o filme original precisa de um refrescamento e já passaram 30 anos (mais ou menos) desde o lançamento da versão original. Depois, porque mostra a importância da parte oculta dos filmes: a parte técnica, aquelas letrinhas chatas e intermináveis no final, depois dos nomes das "estrelas" e do realizador, que o pessoal usa nos cinemas para não calcar/tropeçar em alguém até à luz das saídas, mas que faz toda a diferença na forma como um filme chega ao grande ecrã. Finalmente, porque mostra que não tenho nada contra a preferência "editorial" dos estúdios. Por vezes, parece que os estúdios querem tornar todos os filmes iguais e, normalmente, quando mexem na obra dos realizadores, basicamente sai merda. Curiosamente, este não é o caso. Apesar de gostar da versão mais crua de Brian Helgeland, gosto ainda mais do corte dado pelo estúdio. Acho que torna o filme mais comercial, mas mais equilibrado. Nem que fosse só por esta vez, teria que concordar que este corte de estúdio está melhor que o original. Mas como sempre é tudo uma questão de gosto e gostos não se discutem... Vê-se bem e vê-se bem. ●●○○○

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