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Ou vi falar muito bem de um filme chamado The Lobster. Mais uma vez, pouco sabia sobre o filme, a não ser que tinha algo que ver com pessoas solteiras e que tagline era "Uma história de amor pouco convencional de Yorgos Lanthimos". Isto intrigou-me, assim como o realizador que não conhecia. O título também me intrigou e como tinha actores como Colin Farrell, Rachel Weisz, Ben Whishaw e John C. Reilly (pessoal que não costuma fazer maus filmes) lancei-me à descoberta.
De facto, a tagline é verdadeira. Num estranho futuro distópico, as pessoas não podem ficar solteiras. Se isso acontecer, são enviadas para um Hotel especial, onde têm de encontrar um novo parceiro em 45 dias, sob pena de serem transformados em animais. Estranho, não?! Sim. Muito estranho. The Lobster é mesmo um filme estranho. É uma espécie de comédia dramática (?!) misturada com crítica social, num ambiente muito estéril e... estranho. The Lobster é um filme totalmente diferente da concorrência. Tem uma visão e um mundo muito próprios e por isso, Yorgos Lanthimos, é um nome a reter, porque pode sair daquela cabeça uma obra prima a qualquer momento. Ou não! Nunca se sabe. Mas tem lá tudo o que é preciso...
Apesar de tudo o que tem de bom, estranho e diferente, The Lobster gerou-me algumas contradições. Aquilo a que vulgarmente se chama "mixed feelings". Verdadeiros "mixed feelings". Comecei por gostar muito e acabei a não gostar assim tanto. Por vezes achei hilariante, mas noutras, achei entediante. Tem uma boa história e tem um bom tratamento da história, mas acho que a premissa era demasiado alta, o início do filme demasiado bom e acabou por não ter um final condizente. Acho que foi mais isso. Compreendo o final ambíguo, mas foi tão ténue, tão subtil que fiquei mesmo na dúvida se foi apenas um gesto, ou se ela olhou mesmo para o trânsito que passa ou se foi apenas um reflexo. Pode ter sido impressão minha., mas quando as acções são tão subtis que nem sei muito bem o que pensar... algo não está bem. Essencialmente, parece-me que foi isso que falhou. O início e o meio do filme é demasiado bom e diferente para ter um final assim tão... subtil. Ainda assim, pela história, pela envolvência e pelo mundo tão particular e diferente em que uma pessoa é mergulhado, The Lobster é um filme que vale sempre a pena ver. ●●●○○

Perfume: The Story of a Murderer conta a história de um perfumista. Isto é a descrição resumida. A descrição completa é muito mais estranha. Nos finais do século XVIII, nasce Jean-Baptiste Grenouille, literalmente no meio de cabeças de peixe podre, debaixo da bancada de trabalho da mãe. Abandonado à nascença, pois a mãe é morta por uma multidão em fúria, Grenouille é entregue num orfanato. Talvez por ter nascido no meio da pestilência e da sujidade, ele desenvolve um excepcional sentido de olfacto. Ao mesmo tempo que o ostraciza do contacto pessoal, este quase super-poder, leva-o ao mundo exclusivo dos perfumistas. Aí aprende a requintada arte dos perfumes e dos aromas com um antigo artificie famoso mas agora caído em desgraça e esquecimento.
Mas o propósito de Grenouille não é a criação do melhor perfume, algo que consegue fácil e instintivamente. Ele procura a derradeira fragrância, aquele aroma que quem o cheirar, entrará imediatamente num êxtase absoluto e se sentirá como se estivesse no Paraíso. Para isso terá de capturar um elusivo aroma apenas presente nas jovens mulheres... Mas como é dito frequentemente, o caminho para o Paraíso passa pelo Inferno...
A história de Perfume: The Story of a Murderer, sobre cheiros e aromas que pairam invisíveis para os comuns mortais excepto para um assassino "ingénuo" que tenta capturar a verdadeira alma das coisas, é estranha o suficiente para que muita gente ou a deteste ou a adore. Estou no segundo grupo. Nos últimos anos, é das histórias mais originais que me lembro de ver em filme. Adaptado do livro de Patrick Süskind, Perfume é um dos meus filmes favoritos e por várias razões. Pela realização extremamente cuidada de Tom Tykwer, pela música perfeitamente integrada e, obviamente pela história excepcional. E ainda tem actores muito bons como Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood, Dustin Hoffman e a voz inconfundível de John Hurt como narrador. Destaque principal para um actor pouco conhecido, Ben Whishaw, que tem aqui, provavelmente, a performance de uma vida. Não estou a ver outro actor naquele papel. É daquelas situações em que o actor se mistura com a personagem.
Perfume: The Story of a Murderer, uma das maiores produções alemãs de sempre, apesar de se tratar de perfumes e aromas, lembra-me sempre uma lâmina de barbear: muito leve, mas extremamente cortante. Não é daqueles filmes únicos que levaria para uma ilha deserta, mas pela sua singularidade, Perfume: The Story of a Murderer ficou-me para sempre gravado na memória. ●●●●○

 
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