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A Hologram For The King é uma comédia (?) sobre o choque de culturas. Neste caso, um homem de negócios americano (Tom Hanks) procura sair da situação de falência em que se encontra, tentando vender um revolucionário aparelho holográfico de videoconferências ao Chefe de Estado Saudita himself. Pelo caminho cruza-se com uma médica saudita (Sarita Choudhury) e com um motorista (Omar Elba) um pouco alucinado mas assertivo. Estão assim reunidas todas as condições para uma boa comédia. E na realidade até é uma boa comédia. Não conhecia esta faceta do Tom Tykwer. Não apanhei o início dos créditos e portanto não sabia quem realizava. Aliás, não sabia nada deste filme. Foi um daqueles filmes que apanhei na TV e que nem fazia a mínima ideia que existisse. Simplesmente sentei-me no sofá, liguei a TV e estava a começar o filme. Prendeu-me logo de imediato, o que já é um ponto muito positivo. E depois, vai melhorando, em crescendo, entrando num tom muito particular que é ser uma comédia e um drama ao mesmo tempo. Gostei bastante. Só não gostei mais porque a determinada altura, ainda por cima perto do final, descamba para uma espécie de comédia romântica light, que não é mesmo nada o meu género de filmes... Foi pena, mas tudo bem. Gostei da surpresa. ●●●○○

Perfume: The Story of a Murderer conta a história de um perfumista. Isto é a descrição resumida. A descrição completa é muito mais estranha. Nos finais do século XVIII, nasce Jean-Baptiste Grenouille, literalmente no meio de cabeças de peixe podre, debaixo da bancada de trabalho da mãe. Abandonado à nascença, pois a mãe é morta por uma multidão em fúria, Grenouille é entregue num orfanato. Talvez por ter nascido no meio da pestilência e da sujidade, ele desenvolve um excepcional sentido de olfacto. Ao mesmo tempo que o ostraciza do contacto pessoal, este quase super-poder, leva-o ao mundo exclusivo dos perfumistas. Aí aprende a requintada arte dos perfumes e dos aromas com um antigo artificie famoso mas agora caído em desgraça e esquecimento.
Mas o propósito de Grenouille não é a criação do melhor perfume, algo que consegue fácil e instintivamente. Ele procura a derradeira fragrância, aquele aroma que quem o cheirar, entrará imediatamente num êxtase absoluto e se sentirá como se estivesse no Paraíso. Para isso terá de capturar um elusivo aroma apenas presente nas jovens mulheres... Mas como é dito frequentemente, o caminho para o Paraíso passa pelo Inferno...
A história de Perfume: The Story of a Murderer, sobre cheiros e aromas que pairam invisíveis para os comuns mortais excepto para um assassino "ingénuo" que tenta capturar a verdadeira alma das coisas, é estranha o suficiente para que muita gente ou a deteste ou a adore. Estou no segundo grupo. Nos últimos anos, é das histórias mais originais que me lembro de ver em filme. Adaptado do livro de Patrick Süskind, Perfume é um dos meus filmes favoritos e por várias razões. Pela realização extremamente cuidada de Tom Tykwer, pela música perfeitamente integrada e, obviamente pela história excepcional. E ainda tem actores muito bons como Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood, Dustin Hoffman e a voz inconfundível de John Hurt como narrador. Destaque principal para um actor pouco conhecido, Ben Whishaw, que tem aqui, provavelmente, a performance de uma vida. Não estou a ver outro actor naquele papel. É daquelas situações em que o actor se mistura com a personagem.
Perfume: The Story of a Murderer, uma das maiores produções alemãs de sempre, apesar de se tratar de perfumes e aromas, lembra-me sempre uma lâmina de barbear: muito leve, mas extremamente cortante. Não é daqueles filmes únicos que levaria para uma ilha deserta, mas pela sua singularidade, Perfume: The Story of a Murderer ficou-me para sempre gravado na memória. ●●●●○


Costuma-se dizer que chegar ao topo não é muito difícil. Difícil é manter-se lá. Os irmãos Wachowski são a prova disso. Depois de Bound e Matrix (ou melhor 1,5 Matrix's, porque o segundo derrapa e o terceiro estatela-se ao comprido), os irmãos têm tido muita dificuldade em fazer um filme em condições e que chegue ao nível dos primeiros. Eles tentam, mas regularmente falham. Cloud Atlas levantou muitas expectativas e sinceramente, quando vi as primeiras imagens, pensei que iam voltar à genialidade do início. Enganei-me. O filme parece mais um tour de force (para os actores e para a mesa de montagem) que outra coisa. São cortes e recortes constantes que partiram o filme em bocadinhos que por vezes não parecem ligar bem. Se não soubesse, diria que foram várias pessoas a fazer o filme. A realidade é que Cloud Atlas teve mesmo as mãos de três realizadores - os irmãos Wachowski e Tom Tykwer (dono de excelentes filmes como Heaven e especialmente Perfume: The Story of a Murderer) - e de certa forma isso nota-se. Há uma inconsistência algures que quase passa despercebida, mas há.
Notam-se muitas homenagens ao género (sempre menosprezado) da ficção científica. Umas mais escondidas como Fahrenheit 451 e outras mais à escâncara como o look futurista Matrix e a cena Soylent Green, mas em versão coreana. É óbvio demais, não? Podia ser um novo clássico da ficção científica, mas está demasiado embrulhado e confuso para isso. Acho que Cloud Atlas perde o rumo precisamente porque é grande demais em tudo. É exemplo típico de que por vezes mais é menos...
Cloud Atlas tem um daqueles castings que parece uma parada de Hollywood (Hugh Grant, Susan Sarandon, Hugo Weaving, Jim Broadbent, Halle Berry e claro, a superestrela Tom Hanks), mas aposto que nenhum deles meterá o nome do filme na primeira linha do cartão de visita. Todos eles têm filmes melhores para mostrar.
Cloud Atlas não é uma chiclete. É uma fábula moralista sobre a repercussão das acções ao longo do tempo e como a ironia do destino está sempre presente, em que um evento mau pode ter implicações positivas no futuro. Dá também a entender que algo de nós - uma espécie de alma - transita, atravessando as linhas do tempo. É um filme complexo, se calhar, complexo demais. A primeira vez que ouvi falar do filme foi precisamente por ser uma história tão interligada (que vai do século XIX até ao século XXIII e mais além), com tantas linhas temporais simultâneas que era impossível de adaptar para cinema. A evidência está à vista. Cloud Atlas parece ter sido feito com a intenção de ser uma (nova) afirmação que os Wachowski conseguem voltar a fazer filmes épicos. E não há dúvida que é épico... em trabalho de montagem e duração. Mas chega aos calcanhares de Matrix ou Bound? Acho que ninguém responderá afirmativamente. As cenas memoráveis estão praticamente todas no trailer... Verdadeiramente boa é a banda sonora original, e de certa forma une mais o filme em termos temporais, do que a própria narrativa. O tema principal que dá o título ao filme é mesmo muito bom.
Devido ao início de carreira espectacular, dou sempre o benefício da dúvida aos Wachowski. Mas desta vez - mais uma vez - sinceramente, acho que falharam. O melhor de Cloud Atlas é a prestação dos actores - que são indiscutivelmente bons -, alguns bons pormenores de realização à Wachowski e a parte de efeitos especiais que é sem falhas (como são muitos dos filmes chiclete da actualidade). Mas o que se destaca como expecionalmente bom é mesmo a complexidade técnica da montagem e a banda sonora.
Por ser muito complexo (ou confuso?), Cloud Atlas é um filme que já se me varreu (quase) completamente da memória. Isso nunca é bom. Se calhar que terei de o ver outra vez para o perceber melhor. Para um fã incondicional da ficção científica, que espera sempre o novo grande filme de referência, infelizmente, Cloud Atlas é "apenas" pouco melhor que mediano. É nitidamente um filme que ficou refém das altas expectativas que criou à sua volta. Mas pelo lado positivo, parece-me que é daqueles filmes incompreendidos "à primeira" e que ficarão melhores com o passar do tempo. ●●●○○

 
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