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High-Rise é mais um daqueles filmes de mixed feelings. Gostei imenso do aspecto retro-futurista do filme. Tem uma estética perfeita. Lembra-me o Clockwork Orange e aquela estranha sensação de estar a ver uma coisa antiga dos anos 70, mas que por alguma razão parece vinda do futuro. Há algo na estética dos 70's que é conflituosa em termos de passado e futuro. Deve ser por causa disso que High-Rise parece um filme de ficção cientifica, mas não tem absolutamente nenhum elemento sci-fy. A outra coisa que gostei foi que me deu a conhecer um autor que pouco conhecia: J.G. Ballard. Já tinha lido umas coisas sobre ele e sobre os seus escritos meio subversivos, meio alegóricos da sociedade, mas nunca li nenhum dos livros. Agora aguçou-me ainda mais a curiosidade e é sem dúvida um dos autores em que vou "investir" em breve.
A parte negativa advém directamente da positiva e a culpa é da (aparente) genialidade de Ben Wheatley. Este gajo parece ser mesmo bom, mas parece sofrer do mesmo defeito que já vi em muitos realizadores novos, que estão agora a aparecer: não sabem quando parar. O filme tem um visual bastante forte, mas perdura demasiado no tempo. Isto quer dizer o quê? Quer dizer que exagera no tratamento estético. Nunca deixa uma pessoas descansar os olhinhos. Todas as cenas são tão detalhadamente trabalhadas que acaba por se tornar cansativo. Está sempre num pico, falta-lhe alguma "normalidade". No início, ainda são aceitáveis, mas à medida que a história começa a descambar numa espiral de decadência e violência, torna-se quase insuportável. Fiquei com aquela sensação de estar a parar junto a um acidente e tentar sempre deixar de olhar, mas sem conseguir virar a cabeça. Ver High-Rise foi como estar a ver o desenrolar em câmara lenta de uma iminente catástrofe, cheia de belíssimas imagens de cores vibrantes até ao esperado final negro. Foi estranho. Foi verdadeiramente um mixed feeling...
Os actores são todos muitos bons: Jeremy Irons, Sienna Miller, Luke Evans, James Purefoy, mas especialmente o Tom Hiddleston, uma verdadeira surpresa. Para além da figura Marvel de irmão do Thor, nunca o tinha visto noutros papéis. Aqui está mesmo bem. Não imagino outro gajo neste papel.
A banda sonora também é muito boa, mas não consegue bater-se de igual para igual com a parte estética do filme, que diga-se é perfeita. No geral não há nada que falhe. A história é brilhante, subtilmente distópica, mas isso advém do próprio livro. Poderia ser melhor se fosse um bocado mais comedido visualmente, mas isso é apenas uma opinião pessoal.
High-Rise parece ser um daqueles filmes que por ser fora do normal e um pouco chocante, não se gosta logo à primeira e precisa de tempo para "decantar". Daqui por uns anos eu revejo-o (porque merece) e já sei avaliar melhor. ●●●○○



Um assalto a um banco que corre mal. Uma perseguição sem fim comandada por alguém muito poderoso, motivada por algo que os intervenientes não estavam à espera. Soa familiar? É porque é familiar. É a história de base para Momentum e para a maior parte dos filmes de acção. Apanhei este Momentum na TV e dei-lhe o benefício da dúvida, principalmente por causa do Morgan Freeman e do James Purefoy. (..apesar da personagem principal ser a Olga Kurylenko). Não é mau, mas também não é bom. É razoável mas a descair para o fracote previsível. Mas vê-se porque se nota que foi feito com alguma preocupação ao pormenor e com muito menos recursos do que é normal neste tipo de filmes. No seu todo, acabou por resultar num filmito de acção aceitável. Facto curioso: o realizador, Stephen Campanelli, é um verdadeiro mestre da steadicam, com mais de 100 filmes no currículo como operador de câmara. ●○○○○

Apesar de nada terem a ver um com o outro, estes dois filmes são muito parecidos. E são também uma surpresa. Têm de facto uma história com pés e cabeça - algo raro hoje em dia - não causam epilepsia com tanto efeito digital, têm bons actores com espaço para desenvolver as personagens, boas cenas de acção e no geral estão bem dirigidos.

Dracula Untold conta (mais) uma história alternativa da mítica personagem de Vlad Tepes, normalmente conhecido por Drácula. Contrariamente ao que pensava, até tem alguma densidade e uma sensação de monumentalidade que não é nada normal neste tipo de filmes. Falta-lhe aquele pulsar sanguíneo essencial a qualquer filme do Drácula, mas ainda assim satisfaz por não se tornar numa anedota de vampiros adolescentes. Luke Evans está muito bem no papel de Vlad, mas quem chama mais a atenção é Charles Dance como o vampiro original. Uma menção positiva para os efeitos especiais que não estragam o filme, nem ofuscam os actores. A história é mais virada para um (suposto) contexto histórico e acaba por se diferenciar bem das milhentas adaptações do tema. Só por isso já merece destaque. Nota-se que aqui e ali que vai buscar inspiração ao brilhante Drácula de Francis Ford Coppola e às vezes até parecia que estava a ver um episódio de Game of Thrones, mas sinceramente, se é para copiar, ao menos que se copie dos melhores. E como primeiro filme acho que está bom. Fico à espera de novidades de Gary Shore. ●●○○○


Salomon Kane é um produto Marvel mas que depois passou para as mãos negras da Dark Horse. Faz todo o sentido já que é um filme que gira em torno de maldições e demónios. Essa é mesmo a melhor parte do filme: ver a personagem de James Purefoy amaldiçoada, atormentada, dividida entre o mal e o bem. Normalmente, em filmes de acção do género comercial não se perde tanto tempo a construir uma personagem. Deve ser por isso que o filme não é tão mau quanto parece no trailer. É também uma aposta nos tempos medievais para ganhar uma crosta de sujidade que lhe dá algum realismo. Aliás, o que mais me saltou à vista, foi precisamente a sujidade enlameada que está presente durante todo o filme. Torna-o desconfortável, mas num bom sentido. Tive medo que me saltasse lama para a carpete da sala... Pena que no final tivessem exagerado nos efeitos plastificados da praxe. Se não tivessem feito isso, o filme saía mais barato e teria resultado muito melhor. ●○○○○


Não são dois filmes para ficar na história do cinema, mas vêem-se bem. Já é suficiente. Face à tendência actual dos filmes de acção, que parecem sempre resvalar para a lama dos efeitos especiais, esquecendo literalmente tudo o resto que compõe um filme, pode-se dizer que são... dois filmitos jeitosos. Duas agradáveis surpresas. São bons para ver numa noite de Inverno chuvosa...
 
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