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Estava-me a preparar para escrever um extensíssimo texto sobre Watchmen, a intrincada história e as origens das personagens. Ia falar sobre o tom negro e sujo, sobre o odor nauseabundo que sobe da sarjeta, sobre as relações promíscuas, sobre a história alternativa dos acontecimentos, sobre as pessoas por detrás das máscaras e sobre a guerra mundial. Mas decidi que não o vou fazer. Quem gosta desta mítica comic já sabe tudo o que há para saber sobre os Minutmen e sobre os Watchmen. É uma BD do tamanho do mundo. Nunca vi nada melhor. Deste género de BD de super-herói, Watchmen é sem dúvida o topo. Não é o topo, é aquela parte de cima reluzente da cereja no topo do bolo. É tão simples quanto isso. Acho que foi por causa disso que demorou tanto tempo a alguém trazê-la para o cinema. Hoje em dia, já não há limitações técnicas (nem sequer financeiras), por isso a demora teve obviamente que estar relacionada com a reputação firmada da própria BD.
Watchmen é das melhores histórias que já li. Ainda que seja uma "normal" BD de super-heróis, tem uma voz muito crítica da sociedade, e apesar de ter um ser omnipotente nu, azul, brilhante, e anti-heróis mais mal dispostos que alguns vilões das outras BDs, todos mergulhados numa versão alternativa da realidade, tudo isto parece - de alguma forma muito estranha - totalmente verosímil. É muito bom. Aconselho a quem nunca a leu, que vá comprar. Eu tive a sorte de arranjar uma cópia há muitos anos, numa livraria verdadeira, daquelas que só vendiam mesmo livros. Mas isso é demasiado vintage. Adiante...
Na adaptação para cinema, há algumas alterações em relação ao original. Não é que a história precisasse, mas percebo a lógica da coisa e não sai da linha original. É uma adaptação fiel, com muita coisa a ser literalmente copiada a papel químico. Sinceramente, não vejo problema nenhum nisso. Já era espectacular só como desenho em papel, então com a imagem em movimento, ainda é mais fixe. Watchmen, acho que se pode dizer, é um filme de super-heróis para adultos. Tem um argumento mais "humano", assuntos da "actualidade", implicações pessoais, muitos palavrões, roupas e insinuações mais sexuais do que é normal neste tipo de filmes e... muitíssimo mais sexo.
Grandes personagens, interpretadas por excelentes actores, mas nenhum, curiosamente, é daquelas grandes estrelas de Hollywood, sendo que a excepção é Jeffrey Dean Morgan, que curiosamente é quase um secundário e que... bem é melhor não dizer mais nada para não estragar o filme. São mesmo só bons actores: Malin Akerman, Billy Crudup, Matthew Goode, Patrick Wilson, Carla Gugino. Para mim, o melhor de todos é o Jackie Earle Haley que tem a personagem central do Rorschach. "Eu não estou aqui preso com vocês; vocês é que estão aqui presos comigo", é uma das muitas frases emblemáticas de Rorschach que me ficou gravada...
Mas acho que culpa principal de Watchmen ser um bom filme de acção é do Zack Snyder. Sinceramente, gosto deste gajo. Não muda muito de tema, mas é muito bom no que faz. Principalmente porque consegue equilibrar a acção com o desenrolar da história, os efeitos especiais com o desenvolvimento das personagens, em vez de cair na facilidade do costume, que é bombardear uma pessoa com tantos efeitos e acção, ao ponto de um gajo chegar a ter um surto epiléptico. Parabéns pelo equilíbrio.
Todos os anos, a Marvel faz filmes como o caraças e suplanta (quase) sempre a DC Comics porque simplesmente tem muito mais material para explorar. E diga-se de passagem, que o próprio material também é melhor... Mas isso está sempre aberto à discussão. Mas Snyder conseguiu "meter" um dos seus filmes no topo desta classe. Acho que isto diz bem da sua qualidade. Só aquele genérico inicial, vale todo este elogio. É de mestre e é inesquecível. Provavelmente, o melhor filme de super-heróis de todos os tempos. Totalmente recomendado. Tanto o livro como o filme. Para ler e reler e ver e rever. ●●●●○

BONUS:
O impacto deste comic foi tão profundo que qualquer pessoa que use um computador pode literalmente vê-lo. Comic sans, a ínfame (e horrível) fonte do Windows foi inspirada neste comic... É verdade! E aparentemente, até o Alan Moore acha a fonte muito feia. Acho que esta é uma consideração transversal a todas as pessoas do mundo...
The Numbers Station, realizado por Kasper Barfoed, com John Cusack, Malin Akerman e Liam Cunningham é um filme mediano.
Tem por base uma teoria da conspiração pouca conhecida, em que emissões de rádio de origem desconhecida transmitem aleatórias listas de números (às vezes através de voz sintetizada, outras vezes de código morse). Já li algumas coisas sobre o assunto e é de facto intrigante. Os teoristas da conspiração asseguram que são mensagens codificadas para espiões e que só existem após a Segunda Guerra Mundial. Mas isso é outra história.
Inicialmente, foi essa teoria que me levou a ver The Numbers Station. Queria ver como pegavam no assunto e o adaptavam para filme. Não está mau. É um thriller de acção com espionagem e agentes duplos à mistura e... alguma substância. Nota-se bem que não é uma produção de Hollywood. Sem ser memorável, vê-se bem. ●●○○○

 
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