Antonius Block (Max Von Sydow) é um cavaleiro que desembarca numa praia da Suécia após dez anos nas Cruzadas ao serviço da Igreja. Logo na chegada, encontra-se literalmente com a Morte que o desafia para um jogo de xadrez. O resultado final para o cavaleiro é simples: se ganhar, vive; se perder, morre. O jogo começa e vai-se desenrolado lentamente ao longo do filme. No caminho de regresso a casa, o que ele encontra é um país devastado pela Peste Negra. Antonius já tinha a sensação de ter desperdiçado uma vida inteira numa demanda sem sentido. Já tinha perdido a fé em Deus ao ver as atrocidades no campo de batalha. Mas agora, vendo o estado em que se encontra o seu país, com vilas inteiras destruídas pela peste e pela fome, questiona cada vez o papel de Deus na sociedade e a forma como a sociedade se socorre em Deus nas alturas mais desafortunadas. Neste caminho duro, ele e o seu fiel escudeiro encontram uma série de personagens (uma família de nómadas de circo, um casal com problemas matrimoniais e uma jovem que vai ser queimada na fogueira por ter tido contacto com Diabo). Percebendo que não vai conseguir ganhar o tal jogo de xadrez, Antonius arranja uma outra forma de enganar a Morte.
Em termos gerais, é esta a história do filme que os críticos unanimemente consideram uma obra-prima do cinema e muitos, como o melhor filme alguma vez feito. O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, no título original) é um daqueles filmes sobre o qual não se pode apontar nada de mal. O que é errado. Permitam-me então discordar.
Apesar de ver muitos filmes, tenho obviamente a minha vidinha para fazer e não posso estar sentado o dia todo a analisar filmes. Para além disso, o acesso a filmes pré-anos 60 é bastante limitado. De uma forma quase geral, todos os filmes que vi reportam desde o meio dos anos 60 até aos dias de hoje. Isto quer dizer que me falta uma fatia gigantesca (e obviamente conhecimento técnico e crítico) de filmes para ver. A minha lista aumenta a cada dia, porque não é fácil para um amador como eu ter acesso aos filmes dos anos 20, 30 ou 40 por exemplo. E parece que não, mas isto é importante. A perspectiva muda e a forma de análise dos filmes muda bastante. Já notei isso quando comecei a alargar o leque de filmes para fora do espectro americano. Quer se queira quer não, o cinema americano é ubíquo e eu, como muita gente, durante muitos anos não tive contacto com filmes de outras origens. Por conseguinte, os filmes americanos eram os melhores do mundo... Até que comecei a ver outro tipo de filmes, de outros países, com outra língua, com outras temáticas e com aproximações radicalmente diferentes da dos americanos. Isso já mudou imenso a minha perspectiva. no entanto, o grosso do meu arquivo cinematográfico ainda continua a ser o cinema americano e ainda continua a ser o meu ponto de comparação.
Não tendo hipóteses de viajar no tempo para analisar se o filme teve um grande impacto na altura da estreia ou se foi revolucionário na forma de mostrar a história ou de qualquer outra forma, a única forma que tenho para balancear o impacto deste filme é comparar com outros filmes do mesmo período. Por exemplo em 1956 estreou The Ten Commandments, Invasion of the Body Snatchers e o Giant. No mesmo ano (1957), por exemplo há o Paths of Glory, o The Incredible Shrinking Man e Twelve Angry Men. No ano seguinte chegaram aos cinemas filmes como Touch of Evil, Cat on a Hot Tin Roof ou o Vertigo. Isto são só exemplos do que se fazia e se via na altura. Comparativamente... acho que nenhum dos anteriores filmes fica atrás do Sétimo Selo, e alguns aco que até são superiores. Portanto... como assim? Melhor filme de sempre? Não me parece.
Apesar de todos os bons pormenores, O Sétimo Selo não me impressionou. Foi mais um caso de expectativas artificialmente elevadas. Tem obviamente momentos brilhantes. Por exemplo, a cinematografia a preto e branco é muito boa. Tem momentos que, se se parasse a imagem, parecem obras de arte. A cena da marcha de penitentes que irrompe pela vila é absolutamente brilhante. Tem pormenores de realização que nitidamente foram copiados "n" de vezes em variadíssimos filmes futuros. A imagem icónica da Morte de capuz preto a jogar xadrez com Antonius na praia é de antologia. O grande suporte do filme é a lógica filosófica de que está revestido. Claro que está rodeado de grandes pensamentos filosóficos e questões humanas profundas. É um filme que nos deixa a pensar no assunto de Deus e da Morte durante algum tempo. Mas o desenvolvimento narrativo do filme em si não é assim tão profundo. As questões do cavaleiro são as mesmas que qualquer pessoa, a determinado ponto da vida, de uma forma ou outra, acaba por ter. Não é um pensamento assim tão radical. O que me parece é que O Sétimo Selo é um exercício de pensamento do próprio Ingmar Bergman. Uma forma de expiação. Uma procura de respostas. E a resposta implícita é de que não vale a pena recorrer a algo superior. A salvação está garantida, não porque se acredita num ser superior, mas pelo sacrifico pessoal e por actos solidários para com os outros. É assim que Antonius engana a Morte. Quer dizer, ele não engana a Morte para seu benefício, mas distraindo a Morte e salvando as outra pessoas. Acho que é nesta "resposta" em que me parece que O Sétimo Selo se torna intocável em termos de crítica: no mínimo é um filme agnóstico, no máximo é um filme ateu. Se o cavaleiro conseguisse enganar a Morte com recurso à devoção a Deus, o filme seria assim tão bem cotado por parte dos críticos? Aposto que não. Obviamente não tenho nada que segure esta minha opinião, mas é um feeling que tenho... Para além disso, e mais importante ainda, é que acho que ninguém querer ir contra o status que o filme já adquiriu. Basicamente ninguém quer dizer algo contrário ao que todos dizem há tantos anos. É por isso que há uma tão grande unanimidade na crítica do filme. Tentei encontrar críticas com menos de máxima cotação e é quase impossível. É algo que me atordoa. Não desgostei do filme e acho que tem muitas coisas excelentes. Mas tal como tudo na vida, tem de haver um equilíbrio e em O Sétimo Selo há outros pormenores para além dos bons, que lhe tiram valor. Ignorar esses aspectos é simplesmente falsear o resultado final. Lido assim, parece que O Sétimo Selo é um mau filme. Não é verdade. É um excelente filme, apenas não me "encheu as medidas". Tinha era que lhe apontar as falhas, já que por todo o lado, estão apenas as coisas boas. Se quiserem saber tudo o que de bom o filme tem, por favor, ler a crítica especializada.
Max Von Sydow faz um papel excepcional como Antonius Block. Mas até aqui tenho críticas a fazer, porque por contra-ponto, talvez o papel principal seja mesmo o de Gunnar Björnstrand, Jöns o escudeiro. É ele que tem as melhores deixas e parece que o filme está mais centrado no seu jargão filosófico do que propriamente nas questões existenciais de Antonuis ou na presença de Bengt Ekerot a representar a Morte. Diga-se que Bengt Ekerot aparece muito menos do que aquilo que se possa pensar. Acho até que tem um papel demasiado minúsculo para uma personagem que é tão central na história. Nils Poppe, Bibi Andersson e tal como tantos outros, têm papéis exigentes porque as personagens são demasiado teatrais. Aliás, a determinado ponto, O Sétimo Selo, mais que um filme, pareceu-me uma muito elaborada peça de teatro. Tenho de dizer que este tipo de aproximação e este tipo de representação não é nada do meu agrado.
Apesar de lhe reconhecer muitos méritos, O Sétimo Selo foi um pouco decepcionante. Anos e anos a ler críticas fantásticas que o classificavam "como o melhor filme alguma vez feito", elevaram demasiado a fasquia. Mais do que as grandes dúvidas existencialistas que (supostamente) o filme levanta, a grande marca do O Sétimo Selo é deixar uma mensagem que toda a gente já percebeu, que é intrínseca a todos os seres humanos, mas que (infelizmente) uma pessoa não dedica muito tempo a pensar: a Morte está sempre à espera. Chegar ao final do jogo é apenas uma questão de tempo. É uma inevitabilidade da própria vida. Por isso, aproveitem o tempo que resta e façam alguma coisa de bom com ela. ●●●●○
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Em alguns restaurante finos costuma-se usar um sorbet de limão para limpar o palato entre pratos. Eu uso um método relativamente parecido com os filmes. Após muito tempo a "comer" bolos feitos industrialmente, cheios de açúcares artificias que são os blockbusters actuais, limpo o meu palato cerebral com uma produção mais pequena e muito mais adstringente. Neste caso, o meu sorbet teve sabores nórdicos e artísticos, resultantes duma imensa co-produção europeia (Suécia, Alemanha, França, Dinamarca).
The Square conta a história do curador-chefe de um museu de arte contemporânea (Claes Bang), que passa da monotonia típica dos meios fechados e elitistas para o caos "normal" e mundano, depois de se envolver numa série de peripécias com consequências imprevisíveis: é assaltado e tenta recuperar os seus bens de uma forma pouco ortodoxa; mete-se com uma jornalista estrangeira (Elisabeth Moss) e tem sexo casual; uma campanha de publicidade polémica do seu museu torna-se viral sem o seu consentimento. Pelo meio há também uma actuação inesquecível de um orangotango humano.
Começou muito bem, mas acabou mal e por isso não foi um bom filme para mim. Quando começou a interessar, apareceram os créditos e o filme termina. É um final para Ruben Östlund levar um prémio de Cannes, se é que me entendem. Admito que estou "preso" ao modelo narrativo tradicional em que uma história tem principio, meio e fim. Daí que não reaja muito bem a filmes que acabam repentinamente sem finalizar o filme... e me deixem a pensar. Obrigado, mas não preciso. Eu já penso demasiado em desmaiadas coisas. Fico sempre com aquela sensação de quando estou a ver uma série e aparece a mensagem "to be continued" e o episódio só termina na próxima semana. Neste caso... não há mais episódio. O filme termina e pronto... Um gajo que o termine mentalmente, porque nada do que foi desenvolvido até ali irá ter um terminus. Tenho pena. Estava a gostar do filme.
Se bem que tenha momentos em que parece que se vai tornar numa comédia (pelo absurdo que é por vezes a arte moderna), o tom normalmente é sério e sempre virado para a crítica satírica e social. Aliás, todo o filme é uma enorme e acutilante crítica ao meio artístico contemporâneo. No entanto, nunca é demasiado profundo. A única altura em que o "corte" foi mesmo fundo tem que ver com Oleg, o orangotango humano (um brilhante Terry Notary). Não vou "abrir o jogo" para não estragar o efeito, pois o melhor é mesmo ver e apreciar. Eu fiquei com borboletas no estômago. Apesar de ser um interlúdio na história central é definitivamente "a" cena central do filme e o seu elemento mais marcante.
O feeling final é o mesmo de ver uma exposição de arte contemporânea. Um gajo questiona-se porque é que "aquilo" está ali no museu, se aquilo será arte e porque não outra coisa qualquer, não tem respostas, esquece aquilo e... limpo o palato, volta para a sua vida normal para "comer" bolos feitos industrialmente, cheios de açúcares artificias. Depois do bom início, esperava mais deste The Square, até porque, como na minha vida profissional tenho algum contacto com museus e tudo aquilo me pareceu muito fidedigno, dejá vu e familiar, estava a gostar... mas infelizmente o filme acabou de repente... ●●●○○
The Square conta a história do curador-chefe de um museu de arte contemporânea (Claes Bang), que passa da monotonia típica dos meios fechados e elitistas para o caos "normal" e mundano, depois de se envolver numa série de peripécias com consequências imprevisíveis: é assaltado e tenta recuperar os seus bens de uma forma pouco ortodoxa; mete-se com uma jornalista estrangeira (Elisabeth Moss) e tem sexo casual; uma campanha de publicidade polémica do seu museu torna-se viral sem o seu consentimento. Pelo meio há também uma actuação inesquecível de um orangotango humano.
Começou muito bem, mas acabou mal e por isso não foi um bom filme para mim. Quando começou a interessar, apareceram os créditos e o filme termina. É um final para Ruben Östlund levar um prémio de Cannes, se é que me entendem. Admito que estou "preso" ao modelo narrativo tradicional em que uma história tem principio, meio e fim. Daí que não reaja muito bem a filmes que acabam repentinamente sem finalizar o filme... e me deixem a pensar. Obrigado, mas não preciso. Eu já penso demasiado em desmaiadas coisas. Fico sempre com aquela sensação de quando estou a ver uma série e aparece a mensagem "to be continued" e o episódio só termina na próxima semana. Neste caso... não há mais episódio. O filme termina e pronto... Um gajo que o termine mentalmente, porque nada do que foi desenvolvido até ali irá ter um terminus. Tenho pena. Estava a gostar do filme.
Se bem que tenha momentos em que parece que se vai tornar numa comédia (pelo absurdo que é por vezes a arte moderna), o tom normalmente é sério e sempre virado para a crítica satírica e social. Aliás, todo o filme é uma enorme e acutilante crítica ao meio artístico contemporâneo. No entanto, nunca é demasiado profundo. A única altura em que o "corte" foi mesmo fundo tem que ver com Oleg, o orangotango humano (um brilhante Terry Notary). Não vou "abrir o jogo" para não estragar o efeito, pois o melhor é mesmo ver e apreciar. Eu fiquei com borboletas no estômago. Apesar de ser um interlúdio na história central é definitivamente "a" cena central do filme e o seu elemento mais marcante.
O feeling final é o mesmo de ver uma exposição de arte contemporânea. Um gajo questiona-se porque é que "aquilo" está ali no museu, se aquilo será arte e porque não outra coisa qualquer, não tem respostas, esquece aquilo e... limpo o palato, volta para a sua vida normal para "comer" bolos feitos industrialmente, cheios de açúcares artificias. Depois do bom início, esperava mais deste The Square, até porque, como na minha vida profissional tenho algum contacto com museus e tudo aquilo me pareceu muito fidedigno, dejá vu e familiar, estava a gostar... mas infelizmente o filme acabou de repente... ●●●○○
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