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Como é que nós formamos a nossa personalidade? Porque é que gostamos mais disto que daquilo? Como é que nos tornámos no que somos? Isto são tudo questões bastantes complicadas de se abordar. No caso específico de David Lynch torna-se ainda mais difícil, senão mesmo impossível de responder. Felizmente existe um documentário chamado David Lynch: The Art Life que é uma janela para onde podemos espreitar e perceber porque é que David Lynch é como é. E é excelente. É uma oportunidade única de ver o mestre a trabalhar. Mais que isso, é um insight de como uma série de estranhos eventos lhe moldou a personalidade para génio e o fez seguir determinado caminho até ao cinema, tudo isto contado na primeira pessoa, pelo inigualável "man himself".
Através da lente de Jon Nguyen, David Lynch leva-nos numa viagem íntima através dos cantos mais obscuros da sua psique, o que dá perfeitamente para perceber de onde vêm todas aquelas ideias estranhas que mais tarde dariam obras-primas como Eraserhead, The Elephant Man, Blue Velvet, Twin Peaks, Wild at Heart, Lost Highway e Mulholland Drive. Fica-se a perceber que estranhamente, toda aquelas ideias malucas, todas aquelas história mirabolantes, todas aquelas personagens fantásticas e enigmáticas simplesmente "apareceram" de situações reais, saídas da escuridão (muitas vezes, literalmente), para se cruzarem com ele. O que me levou a pensar naquela frase super batida, mas muito verdadeira: a realidade é mais estranha que a ficção.
O mundo de David Lynch é um mundo muito próprio e não é para todos os olhos, ouvidos ou estômagos. Passa muito facilmente do fantástico para o obscuro. do génio para o absurdo e do belo para o obsceno. Neste documentário, a ênfase vai toda para a origem da inspiração e foca-se exclusivamente no que ele próprio chama de "the art life" e como isso o levou aonde o levou. Que é basicamente a procura de um uma forma de sobrevivência que tenha como base a arte. Qualquer aspirante a "artista" sabe que não é fácil viver da arte. Para a maior parte dos artistas é simplesmente impossível. Há que ter uma outra base de suporte "real" que permita viver todos os outros momentos na arte. Com tudo isto, fiquei a conhecer ainda melhor o realizador, mas acima de tudo o homem por detrás da câmara e a conseguir perceber todo aquele mundo enigmático que sempre me fascinou. Só depois de ver The Art Life é que percebi muitas coisas que não me faziam sentido nos seus filmes....Só tenho pena que não seguisse mais na história e entrasse na altura em que Lynch começou a fazer cinema. Com música do próprio (excelente como sempre...) e apenas para apreciadores genuínos. ●●●●○

A minha relação com Saw é um pouco estranha e esotérica. Digamos que um dia chego a casa e encontro uma caixa de dvd sem capa. Dentro da caixa suspeita, um disco com um filme de título Saw - Enigma Mortal, que tem uma imagem do que parece ser um pé ensanguentado. Isto pode parecer tudo tanga, mas é verídico. Ainda hoje não sei quem me deixou o filme em casa. É um mistério que provavelmente nunca irei resolver. Ainda por cima, porque não tinha qualquer informação, nem nenhuma expectativa, o filme foi um estrondo.
Saw é um marco dentro do género de terror. Começou a revelar-me um tipo de filmes que nunca tinha visto antes: pequenas produções, muito bem feitas, com muito pouco dinheiro (um milhão e pico de dólares e filmado em menos de um mês), com poucas (ou nenhumas) "estrelas de cinema", que essencialmente, se faziam valer duma história muito bem criada e muito bem escrita, que prendia uma pessoa à cadeira com surpresas constantes durante o filme todo, até ao twist final.
O responsável por este mega-sucesso é James Wan, que consegue a proeza de fazer praticamente um filme inteiro dentro numa casa de banho degradante. E fá-lo de uma forma excitante, pois há imensa acção, resultante dos flashbacks e dos constantes elementos que vão sendo acrescentados à trama.
É interessante perceber que, tal como Jigsaw, o serial killer da história, James Wan mostra uma grande dose de voyeurismo... assim como todos os que vêm o filme. Ficamos todos ao mesmo nível, sentadinhos e confortáveis, a ver pelo ecrã, o sangrento desenrolar dos acontecimentos, acompanhando a história macabra daqueles dois desconhecidos que acordam presos numa casa de banho sem saberem o motivo do seu encarceramento.
E não há dúvidas, Saw é sangrento. Vai direitinho para a categoria de gore. Há um cadáver com a cabeça desfeita mesmo no meio daquela casa de banho, há pés e membros cortados e sanguinolências de toda a espécie durante os flashbacks que contam o resto da história que se passa paralelamente àquela cena na casa de banho.
O casting é estranho mas funciona: um desconhecido (Leigh Whannell), um actor que normalmente faz comédia (Cary Elwes) e uma "antiga estrela" dos grandes filmes de acção dos 80's (Danny Glover). Além de outros secundários, ainda há Michael Emerson que é um gajo que gosto, que está sempre muito bem e acho que até merecia maiores voos.
Há muitas coisas fixes neste Saw... Há aquele boneco assustador no triciclo, que dá a cara pelo verdadeiro serial killer, e que já se tornou icónico, ficando para a posteridade. Há a novidade de ter um serial killer, que na realidade não mata ninguém, mas faz jogos mortais com as vítimas. Mas principalmente, há uma história muito boa, muito bem contada, muito bem realizada e fotografada. E apesar de em termos de argumento, haver pequenas falhas óbvias durante o filme, tudo fica desculpado por aquele final totalmente inesperado e bombástico, que, há que dizê-lo, é inesquecível.
Como seria de esperar, Saw foi um sucesso gigantesco, gerou uma quantidade enorme de fãs e fez aparecer uma série interminável de sequelas que tentei (e felizmente consegui) evitar a todo o custo para não baixar a minha (boa) percepção que tinha do filme original. ●●●○○

 
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