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James Ivory decidiu embrenhar pelo mundo dos artistas e não se deu nada bem. Surviving Picasso retrata um período da vida de Picasso em que ele se apaixona por Françoise Gilot, uma jovem pintora que acabou por ser a única mulher forte e capaz o suficiente para "sobreviver" ao portento criativo de Pablo Picasso. Não só lhe sobreviveu como também foi a única capaz de o deixar e continuar com a sua vida...
Nos principais papéis há Anthony Hopkins como Pablo Picasso, Natascha McElhone como Françoise Gilot e depois há também em papéis mais secundários, nomes como Julianne Moore, Joss Ackland e um novíssimo e quase irreconhecível Dominic West como Paulo Picasso.
Surviving Picasso é muito fraquinho. Logo à partida há uma enorme falha que é a ausência das obras de Picasso. Acho incompreensível fazer o que quer que seja minimamente relacionado com Picasso e não mostrar um único quadro do mestre... No entanto, há uma razão para isso. Não existia uma autorização expressa para se poder mostrar as obras de Picasso. A família opôs-se ao filme e não autorizou que se usassem reproduções das obras. Só isto retira muita estética ao filme, já para não dizer que se perde imenso valor estético e uma parte substancial da história. Até porque existe uma relação quase simbiótica entre as mulheres e os períodos estéticos de Picasso...
Mas para além disso, o filme é relativamente inócuo. A fotografia é fraca, não tem nenhum pormenor relevante na realização, a banda sonora é quase inexistente... Não quero estar aqui a bater mais no ceguinho...
Não fosse as boas interpretações dos actores principais e este Surviving Picasso teria sido uma desgraça total. Parece um daqueles biopics feitos para televisão. Não gostei nada. Se a intenção era mostrar um pouco mais Gilot para além de Picasso fizeram-lhe um muito mau serviço. O filme serve acima de tudo para mostrar como Picasso tudo dominava e ninguém saia incólume da relação... que é exactamente o oposto daquilo a que se propunha. Apesar da premissa, o retrato de Françoise Gilot figura mais como acompanhante de Picasso do que peça principal... é um falhanço total para James Ivory. Acontece aos melhores... 


Jeff é um homem que já correu o mundo como fotógrafo profissional, mas que depois de partir a perna enquanto trabalhava, fica confinado a um cadeira de rodas no seu apartamento em Greenwich Village. Entediado com a situação, decide virar a sua máquina fotográfica para a vida dos vizinhos nas traseiras do pacato bairro. No entanto, fruto da sua cabeça (ou não), presencia alguns acontecimentos que o fazem suspeitar que um dos vizinhos pode ter assassinado a mulher...
Qualquer aspirante a cineasta (e qualquer pessoa que goste verdadeiramente de cinema) deveria ver pelo menostrês vezes o Rear Window. É uma obra-prima consensual entre público e crítica. Mas, mais que isso, é um manual de como fazer um excelente filme com poucos recursos. Analisando bem, é uma gigantesca produção de teatro com base numa história repleta de suspense e intriga, tudo suportado por actores míticos e de calibre superior como James Stewart, Grace Kelly, Thelma Ritter ou Raymond Burr, mas especialmente pela direcção em cena do mestre Alfred Hitchcock. É um thriller à maneira antiga, repleto de suspense e paranoia, cheio de tiques de voyeurismo e tensão romântica, bem à moda de Hitchcock, que tem bem marcado o seu estilo de filmar nos mais pequenos pormenores.
Rear Window é mais um daqueles filmes que tem material para escrever uma enciclopédia inteira e é até provável que já o tenham feito. É uma obra-prima que tem de figurar em qualquer lista dos melhores filmes de sempre. É impressionante o que se consegue fazer com a simplicidade se se for genial o suficiente. E Alfred Hitchcock tinha genialidade para dar e vender... Sobre o mítico Alfred Hitchcock e tudo o que ele representa para o cinema nem sequer me vou alongar, porque ficaria aqui a escrever durante uma semana. Filmagens espetaculares, ângulos de câmara dramáticos, o som ambiente, o uso fantástico da luz e sombra, mas especialmente, o controlo total da percepção que o próprio espectador tem. Apesar de já estar bem longe da magia original do cinema é um digno sucessor e se calhar, o último mágico verdadeiramente moderno dos filmes. Hitchcock é uma figura incontornável do universo cinematográfico e este Rear Window, mesmo tantos anos depois da estreia ainda continua a ser uma prova viva disso mesmo. ●●●●●

At Eternity's Gate, de Julian Schnabel, é um filme medianamente bom com uma história alternativa à história oficial (mas turva) do pintor Vincent Van Gogh nos seus últimos anos de vida. Considero-o mediano porque conheço bastante bem a obra e vida do Van Gogh. Um génio e ao mesmo tempo um louco (como todos os grande génios, não é verdade?) que teve um grande impacto no mundo da pintura e que ao contrário de muitos autores tinha a vida e obra exemplarmente catalogada. Mesmo ao nível do pensamento, tudo está muito bem documentado na correspondência com o irmão. Daí que um biopic sobre Van Gogh tem de ser mesmo potente, porque quase tudo pode ser confirmado. Isso não acontece aqui. O timeline dos acontecimentos parece baralhado e muitas vezes até omisso de pormenores de grande relevância. Mas se calhar também estou a ser exigente demais...
O filme tem alguns bons pormenores (a cena a preto e branco para mostrar a pintura com textura típica de Van Gogh é de antologia) e não chateia mas também nunca descola do essencial e do seguro. Por vezes tem um aspecto quase de telefilme que não me agrada nada, se bem que encaixa muito bem no tom por vezes quase teatral. O melhor de todo o filme é mesmo o Willem Dafoe que se torna literalmente no Van Gogh. Está absolutamente perfeito. Mais uma grande prestação deste grande actor "esquecido" que conta com a prestação tímida dos excelentes "secundários" Rupert Friend, Oscar Isaac e Mads Mikkelsen. Não é memorável, mas vê-se bem. E se o voltar a ver será pela interpretação do Willem Dafoe. ●●○○○

Como é que nós formamos a nossa personalidade? Porque é que gostamos mais disto que daquilo? Como é que nos tornámos no que somos? Isto são tudo questões bastantes complicadas de se abordar. No caso específico de David Lynch torna-se ainda mais difícil, senão mesmo impossível de responder. Felizmente existe um documentário chamado David Lynch: The Art Life que é uma janela para onde podemos espreitar e perceber porque é que David Lynch é como é. E é excelente. É uma oportunidade única de ver o mestre a trabalhar. Mais que isso, é um insight de como uma série de estranhos eventos lhe moldou a personalidade para génio e o fez seguir determinado caminho até ao cinema, tudo isto contado na primeira pessoa, pelo inigualável "man himself".
Através da lente de Jon Nguyen, David Lynch leva-nos numa viagem íntima através dos cantos mais obscuros da sua psique, o que dá perfeitamente para perceber de onde vêm todas aquelas ideias estranhas que mais tarde dariam obras-primas como Eraserhead, The Elephant Man, Blue Velvet, Twin Peaks, Wild at Heart, Lost Highway e Mulholland Drive. Fica-se a perceber que estranhamente, toda aquelas ideias malucas, todas aquelas história mirabolantes, todas aquelas personagens fantásticas e enigmáticas simplesmente "apareceram" de situações reais, saídas da escuridão (muitas vezes, literalmente), para se cruzarem com ele. O que me levou a pensar naquela frase super batida, mas muito verdadeira: a realidade é mais estranha que a ficção.
O mundo de David Lynch é um mundo muito próprio e não é para todos os olhos, ouvidos ou estômagos. Passa muito facilmente do fantástico para o obscuro. do génio para o absurdo e do belo para o obsceno. Neste documentário, a ênfase vai toda para a origem da inspiração e foca-se exclusivamente no que ele próprio chama de "the art life" e como isso o levou aonde o levou. Que é basicamente a procura de um uma forma de sobrevivência que tenha como base a arte. Qualquer aspirante a "artista" sabe que não é fácil viver da arte. Para a maior parte dos artistas é simplesmente impossível. Há que ter uma outra base de suporte "real" que permita viver todos os outros momentos na arte. Com tudo isto, fiquei a conhecer ainda melhor o realizador, mas acima de tudo o homem por detrás da câmara e a conseguir perceber todo aquele mundo enigmático que sempre me fascinou. Só depois de ver The Art Life é que percebi muitas coisas que não me faziam sentido nos seus filmes....Só tenho pena que não seguisse mais na história e entrasse na altura em que Lynch começou a fazer cinema. Com música do próprio (excelente como sempre...) e apenas para apreciadores genuínos. ●●●●○

Em 1781, Antonio Salieri é o compositor oficial do imperador austríaco Joseph II (Jeffrey Jones). Com a chegada à corte de um jovem prodígio chamado Wolfgang Amadeus Mozart, o reconhecido compositor italiano sente-se imediatamente confrontado com aquela peculiar personalidade, mas especialmente, afrontado com a sua genialidade natural. O seu lugar de destaque na corte pode estar em perigo. Enraivecido com toda a situação, Salieri fará tudo ao seu alcance para acabar com a crescente reputação de Mozart. Se calhar até mesmo matá-lo.
Amadeus está tão bem escrito (Óscar para Peter Shaffer) e tão bem realizado (Óscar para Milos Forman) que durante anos pensei mesmo que Mozart tinha morrido às mãos de Salieri (Óscar para F. Murray Abraham). Nunca ouvi falar desse compositor e nem sequer ouvi uma única musica dele, mas detestava-o só por causa do que ele fez ao Mozart.
Sou um fã incondicional de Mozart (só será talvez suplantado por Beethoven) por isso este é um filme mesmo à minha medida. E depois de ver tanta loucura e tanta tragédia, estranhamente, ainda fiquei mais ligado à música de Mozart.
Repleto dos excessos habitualmente presentes nos filmes de Milos Forman, Amadeus é uma peça única. É cómico e dramático, é louco e humano, é trágico e carinhoso, é sujo e charmoso, é épico e intimista, mas acima de tudo é uma fantástica homenagem ao génio de Mozart e do seu trabalho. É um daqueles filmes que está perfeito a todos os níveis. Não há nada de mal para dizer...
Incompreensivelmente, esta é uma produção "menor". Não faz parte de nenhum dos grandes estúdios de Hollywood. Pelo que li, parece que ninguém estava muito interessado em financiar um épico de quase 3 horas sobre música clássica. Deve ser por causa disso que não há "grandes" nomes no casting. Vincent Schiavelli, Roy Dotrice, Elizabeth Berridge ou Cynthia Nixon não são propriamente actores que arrastem público para os cinemas, não é verdade? Mas a realidade é que com "nome" ou sem "nome", são na mesma bons actores.
Uma referência imprescindível para Tom Hulce, num daqueles papelaços para ficar na história. Ninguém conseguiria fazer melhor, e não estou a ver outro actor que pudesse interpretar este papel. É tão simples quanto isso. Hulce "é" Mozart. Hulce "é" Amadeus. Totalmente obrigatório. ●●●●●

 
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