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Dog Day Afternoon é baseado numa história real que se passou nos anos 70, quando dois homens assaltam uma sucursal do banco Chase Manhattan, em Brooklyn e acabam por se meter numa situação de reféns, ficando cercados pela polícia durante horas. Para piorar ainda mais o assunto, o banco quase não tem dinheiro... Como a realidade é mais estranha que a ficção, durante o impasse veio-se a saber que o propósito por detrás do assalto seria arranjar dinheiro para que um dos assaltantes conseguisse pagar a operação de mudança de sexo do namorado (wtf?!?)... Se fosse escrito assim, num guião, seria considerado certamente uma história absurda, mas lá está... a realidade é mais estranha que a ficção. E esse é um dos pontos que fica bem marcado neste argumento. A história vacila entre o drama, o thriller e a comédia. Tudo é tão despropositado e inverosímil que descontado o estado de total saturação e exaustão das personagens, Dog Day Afternoon mais parece uma comédia absurda. Mas a mão de Sidney Lumet é implacável e memorável. Conseguir aguentar um filme de duas horas neste tipo de tensão, sem nunca parecer cansativo ou repetitivo é obra de génio. Há sempre uma surpresa e um novo desenvolvimento que impele a história e o filme para a frente. Há um constante avolumar e depois um suprimir de emoções. Há sempre coisas novas a acontecer e há sempre um acontecimento ou um diálogo memorável à espera. Sidney Lumet é um mestre neste tipo de cinema "parado" e muito baseado nos actores e nos diálogos. Com uma lente objectiva e crítica, para além da temática homossexual e da mudança de sexo (muito à frente do seu tempo, diga-se), Lumet ainda consegue mostrar as distorções provocadas pelos media no público que rapidamente transforma um vilão no herói e vice-versa conforme a situação descai para um lado ou outro...
Em Dog Day Afternoon tudo pode parecer obra do acaso - como o rapaz da pizza a festejar por aparecer na TV - mas nota-se nos pormenores, que apesar do aparente improviso nos diálogos, tudo foi muito bem pensado e delineado. Vê-se isso, por exemplo, na banda sonora... que não existe. Dog Day Afternoon raramente tem música e pode-se dizer que não tem uma banda sonora porque assim adensa a tensão realista, retira o dramatismo artificial "dos filmes" e ainda lhe acrescenta um tom mais documental. É nestes pormenores que eu vejo a qualidade de um filme...
Falando em qualidade há que mencionar os actores. E não há outra hipótese que não seja destacar o Al Pacino. Que tour-de-force... Uma performance para ficar na história. Aquele aspecto e olhar tresloucado mas ao mesmo tempo tão objectivo. Neste filme, Pacino respira e transpira representação... e cinema. Aqui, mesmo sem abrir a boca, Pacino consegue dizer mais coisas com os olhos e com a alma (como por exemplo, nos dramáticos e angustiantes 15 minutos finais) que muitos actores numa carreira inteira. Brilhante. Sem Al Pacino naquele "ponto de rebuçado", Dog Day Afternoon nunca seria Dog Day Afternoon... E já agora, aquele grito para a multidão "Attica! Attica!" foi improvisado... Só por aqui se vê o nível de envolvimento do homem...
Os restantes actores estão também em grande nível. E não há um que se destaque pela negativa. Podia mencionar também John Cazale, Penelope Allen, Sully Boyar, James Broderick, Charles Durning, Chris Sarandon ou Lance Henriksen que só aparece uns minutos mas é determinante no desfecho da história. Todos os actores estão muito bem, porque nitidamente são bons e acima de tudo foram muito bem dirigidos por Lumet.
Apesar de ser baseado numa história real, as coisas em Dog Day Afternoon foram ligeiramente adulteradas. O incidente original foi tão marcante que ficou a fazer parte do treino policial quando confrontados com uma situação de reféns e multidões incontroláveis. No cinema, este género de "assalto a bancos que corre mal e acaba com uma situação de reféns" não é propriamente novo. Mas com esta vitalidade, com este guião fantástico e com este calibre de actores não é fácil de encontrar. Foi preciso recuar a 1975 para encontrá-lo...
Após o desfecho dramático, no epílogo fica-se a saber que Sonny foi preso após o assalto falhado e que cumpre 20 anos de numa prisão federal. Fica-se também a saber que Leon (mais tarde, Elizabeth) sempre acabou por fazer a operação e mudar de sexo. No entanto, a operação não foi paga com o dinheiro do assalto... A operação só foi paga quando o verdadeiro Sonny vendeu os direitos de autor da história para que se fizesse este mesmo filme. É estranho, mas o filme que é uma adaptação mais ou menos livre da história, acaba por ser o verdadeiro epilogo da história original... Estranho, não é? Acho que já disse isto algumas vezes, mas a realidade é mesmo mais estranha que a ficção... ●●●

Tom of Finland é na realidade o nome verdadeiro de Touko Laaksonen. Esta mudança de nome deriva em parte da perseguição de que foi alvo devido às suas preferência homossexuais. Se mesmo hoje em dia, a homossexualidade ainda é vista pela maioria com alguma desconfiança (para não dizer outras coisas), imagine-se a mesma situação nas décadas de 40, 50 ou 60. Para piorar ainda mais a situação, Touko era um exímio desenhador da figura humana e, obviamente, face à pressão social (e policial) começou a projectar (às escondidas) as suas fantasias, mas mais importante, a sua arte, em pequenos desenhos homoeróticos que mais tarde lhe valeriam o reconhecimento geral. É a grande ironia da coisa: se não fosse perseguido no seu país de origem, muito provavelmente não teria tanta projecção internacional... Na verdade, é daí que conheço Tom of Finland. Presumia que fosse gay, mas pouco ou nada conhecia da personagem. Só conheci os seus trabalhos na década de 90 e como me pareciam tão modernos, sempre imaginei que seriam dessa altura. Errado. "Nasceram" muitas décadas antes, o que positivamente ainda me surpreendeu mais. Apesar de não ser grande adepto de todo aquele enquadramento explicitamente homossexual, é inegável a qualidade do desenho e da interpretação figurativa. Nos tempos mais recentes é provavelmente o melhor gajo que encontrei a desenhar a lápis. A força daquele preto-grafite e a perfeição técnica dos corpos são absolutamente soberbos. Melhor é difícil de encontrar.
Vou ser sincero. Tinha mais curiosidade em ver o filme para saber mais sobre a obra do que propriamente sobre o autor. Só que Tom of Finland (o filme e o homem) trocou-me as voltas. O filme foca-se quase exclusivamente no autor mas acabei por nem sentir a falta dos desenhos. A história é tão comprida, complexa e preenchida que quase nem "precisei" da componente artística. Há uma aura de tensão constante à volta da comunidade gay daquela altura que é quase palpável através do filme. Importante para mim também foi o pormenor do filme "ser" gay mas não ostensivamente gay, pois não senti (o que já aconteceu noutros filmes com a mesma temática) que entrasse no campo da propaganda. É simplesmente um filme muito bem feito ao ponto de o tornar realista, em torno de uma enorme personagem que por mero acaso era gay. Um grande aplauso para Dome Karukoski por todo o trabalho de criação e realização desta pequena jóia.
Tom of Finland acaba por se tornar um tributo merecido a um gajo de tomates numa altura de extrema intolerância, e que praticamente sozinho, moldou toda a imagética e a fantasia gay do mundo inteiro...
Tom of Finland é um filme muito bom, como já não via à algum tempo. Um filme meticulosamente montado como se fosse uma obra de artesanato. Tudo é pensando ao pormenor e encaixa perfeitamente. É mesmo o meu tipo de filme. Desde os pormenores da música e da roupa que mostram o passar do tempo e em que época é que a história se desenrola, assim como a montagem não linear que une pontos da história longe no tempo mas que em termos de contexto fazem todo o sentido juntos. Não me canso de dizer: muito bom.
Os actores são todos excelentes (Lauri Tilkanen, Jessica Grabowsky, Taisto Oksanen) mas o grande destaque é mesmo do Pekka Strang, que neste caso mereceria levar para casa uns três Óscares. Não consigo encontrar uma forma de "melhorar" este Tom of Finland. Tudo me pareceu perfeito. Altamente recomendado e com nota máxima. ●●●●●

 
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