Baseado numa história verídica. Acho que é assim que convém sempre apresentar a história de Pedro e Inês. É tão inacreditável que parece material de poesia e lendas. Este novo filme de Pedro e Inês baseia-se na história original do Rei D. Pedro e da aia galega Inês de Castro, mas agora com base no romance de Rosa Lobato Faria que muda substancialmente o drama de amor de forma a mostrar a mesma situação ao longos dos tempos. Para além do narrativa clássica passada no século XIV, também se pode ver o desenvolvimento nos dias de hoje, em que os amantes são arquitectos, assim como num futuro distópico em que a história se passa numa realidade pós-civilização.
Como actores temos Joana de Verona como Inês, Diogo Amaral como Pedro, Vera Kolodzig como Constança e Miguel Borges como o infame Pero Coelho, mas o destaque vai para os papéis secundários: Custódia Gallego, a rainha Beatriz e João Lagarto, o rei Afonso IV fazem dois pequenos papelaços e nota-se que estão a léguas dos jovens actores. Sem entrar em grandes pormenores, o que noto é que há uma falta de intensidade dramática gritante aos actores portugueses. Na realidade parecem presos num estranho limbo: estão entre o laxismo das prestações rápidas de telenovela, misturado com aquela performance hiper-teatral de outros tempos.
Em termos de realização tenho que admitir que é a descair para o fraquito. António Ferreira dá um ar de sua graça no início (minúsculo, mas excelente o pormenor com os piscares de olhos) e no final, mas pelo meio tudo é demasiado uniforme e monótono. Não há uma cultura visual no cinema português. Parece que ou há uma coisa (visual) ou outra (narrativa). Não percebo esta lógica. Durante duas horas de filme, o enquadramento do filme é sempre o mesmo... Apenas por uma vez há uma filmagem diferente, fotografada de baixo para cima.
A estrutura da narrativa foi a grande surpresa. Não é que esta divisão em três linhas temporais seja uma novidade, mas está muito bem construída e acaba por ter uma boa fluidez, o que não é propriamente fácil de conseguir. A principio houve ali umas falhazinhas nas transições de umas linhas temporais para as outras, mas depois a coisa foi-se compondo até terminar muito bem.
Apesar da imensa melhoria que tenho notado neste últimos anos nos filmes portugueses, ainda há coisas que falham. A luz e as sombras são um elemento quase ausente e a música é sempre muito fraquinha e quase não tem expressão. Nenhum destes elementos é aproveitado como intensificadores dramáticos. E depois há falhas óbvias, como por exemplo a sobreposição do voz-off na cena em que Inês morre e que é suposto ser a mais dramática do filme... um autentico anti-clímax emocional que eu não consigo compreender. E volto à fotografia e realização... Não há um close-up. Os planos são quase sempre os mesmos. As câmaras estão sempre posicionadas à mesma altura. Não há pormenores... É tudo demasiado uniforme e às vezes o enquadramento e a luz transportam-me para a estética de telenovela. Não sei se será falta de financiamento, tempo ou mesmo falta de jeito e inspiração. O que sei é que acontece e está à vista. Limando estes pormenores, facilmente um filme português poderia rivalizar com qualquer outra produção estrangeira...
Esta nova versão de Pedro e Inês, no geral, até é um filmito consistente, que se vê bastante bem, mas poderia ser muito melhor se tivesse mais alguns pormenores e mais polidos. Os filmes portugueses estão cada vez melhores, mas ainda têm um longo caminho a percorrer... Ainda assim, um filmito muito aceitável. Recomendado. ●●○○○
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E agora, algo completamente diferente... Maria, uma call girl, é contratada por Mouros para seduzir Meireles, o presidente da Câmara de Vilanova, para que ele quebre as regras e autorize a construção de um empreendimento de luxo. Uma temática muito portuguesa, portanto. Como sempre, a PJ investiga. As coisas complicam-se ainda mais quando o inspector responsável pela combate à corrupção descobre que Maria é uma antiga namorada.
Indo directo ao assunto, Call Girl é um filme bastante aceitável. Foi muito bem realizado por António-Pedro Vasconcelos, um dos poucos realizadores portugueses que faz filmes "comerciais" sem que se pareçam com telenovelas quitadas. Um dos grandes pontos positivos do filme é a história de corrupção que está muito bem construída. E nem seria preciso puxar muito pelos neurónios. É uma história tão presente no imaginário e no quotidiano português que poderia muito bem ser o tema principal do Telejornal.
O outro ponto muito positivo é o leque de actores, que é provavelmente o melhor casting luso que vi reunido nos últimos tempos. Impecável. Destaque para a Soraia Chaves, que para além de preencher o imaginário de qualquer "macho latino", também é uma excelente actriz. Nicolau Breyner é excelente, Joaquim de Almeida dispensa elogios porque nitidamente é de outro nível totalmente à parte. Destaque também para e uma pequena participação de Virgílio Castelo que foi absolutamente hilariante. Joaquim Leitão e Raul Solnado também aparecem. Maria João Abreu e Custódia Gallego nos papéis da mulher e da amante são muito boas. Ivo Canelas e o José Raposo também estão ao melhor nível.
Call Girl é do melhor que tenho visto nas produções nacionais. Um autêntico textbook de como fazer um bom filme sem entrar em cenas pseudo-intelectuais do costume e que apenas têm o condão de afastar os espectadores do cinema português. Só peca por perder-se um pouco no final e tirar a Soraia Chaves do filme de uma forma algo inglória, mas mesmo assim consegue terminar relativamente bem. Há limitações óbvias que são nitidamente falta de orçamento, mas estão bem dissimuladas e são bem compensadas. No geral, Call Girl é um filme português bem jeitoso. Vê-se muito bem.
Ele: O que é que você faz? Tudo, responde ela. Muito bom. ●●○○○
Indo directo ao assunto, Call Girl é um filme bastante aceitável. Foi muito bem realizado por António-Pedro Vasconcelos, um dos poucos realizadores portugueses que faz filmes "comerciais" sem que se pareçam com telenovelas quitadas. Um dos grandes pontos positivos do filme é a história de corrupção que está muito bem construída. E nem seria preciso puxar muito pelos neurónios. É uma história tão presente no imaginário e no quotidiano português que poderia muito bem ser o tema principal do Telejornal.
O outro ponto muito positivo é o leque de actores, que é provavelmente o melhor casting luso que vi reunido nos últimos tempos. Impecável. Destaque para a Soraia Chaves, que para além de preencher o imaginário de qualquer "macho latino", também é uma excelente actriz. Nicolau Breyner é excelente, Joaquim de Almeida dispensa elogios porque nitidamente é de outro nível totalmente à parte. Destaque também para e uma pequena participação de Virgílio Castelo que foi absolutamente hilariante. Joaquim Leitão e Raul Solnado também aparecem. Maria João Abreu e Custódia Gallego nos papéis da mulher e da amante são muito boas. Ivo Canelas e o José Raposo também estão ao melhor nível.
Call Girl é do melhor que tenho visto nas produções nacionais. Um autêntico textbook de como fazer um bom filme sem entrar em cenas pseudo-intelectuais do costume e que apenas têm o condão de afastar os espectadores do cinema português. Só peca por perder-se um pouco no final e tirar a Soraia Chaves do filme de uma forma algo inglória, mas mesmo assim consegue terminar relativamente bem. Há limitações óbvias que são nitidamente falta de orçamento, mas estão bem dissimuladas e são bem compensadas. No geral, Call Girl é um filme português bem jeitoso. Vê-se muito bem.
Ele: O que é que você faz? Tudo, responde ela. Muito bom. ●●○○○
Há filmes para todos os gostos e de todos os géneros e sub-géneros. Balada da Praia dos Cães, um filme de cariz político da autoria de José Fonseca e Costa, pertence a um sub-sub-género muito específico que é o "esquecido, maltratado e difícil de apanhar". Demorei anos até o conseguir ver, mas finalmente consegui. Vamos por partes.
Baseado no livro de José Cardoso Pires com o mesmo nome, Balada da Praia dos Cães é acima de tudo uma amostra do Portugal dos anos 60: cinzento, bafiento e salazarento. Mas não só. É uma história policial baseada em factos verídicos, intrincada, negra, muitíssimo bem montada e com uma narrativa moderna, recorrendo com frequência a cenas de flashbacks e sonhos.
Tudo começa numa praia, com a descoberta do corpo em decomposição de um oficial do exército procurado pela polícia política. O responsável pela investigação é Elias Santana, um solitário homem à antiga. Terá que deslindar um caso complexo com a ajuda de Mena, uma misteriosa mulher que entretanto se entrega às autoridades e que tem uma historia incrível para explicar a macabra descoberta. Ao mesmo tempo, Elias combate o poder de sedução de Mena para não cair em tentação...
Quanto mais não fosse, só pelo tratamento dado à história valia a pena ver. Mas depois ainda tem Raul Solnado e Assumpta Serna. Solnado aparece num raro papel sério e está óptimo, ainda que por vezes ficasse com a sensação que ele nunca consegue mesmo ficar sério. Fica aqui provado que Solnado não era "apenas" um homem da comédia: era excelente na representação.
Mas se há um destaque na representação ele tem de ir obrigatoriamente para Assumpta Serna. Fixei automaticamente este nome. Nunca tinha visto esta actriz espanhola e posso dizê-lo que fiquei enfeitiçado, tal como a personagem Elias Santana. Parece que saiu verdadeiramente dum filme dos anos 60. Tem aquela beleza típica do sixties que não se consegue explicar. Mas não é só uma cara bonita; é uma brilhante actriz. Quando fui pesquisar e vi o currículo da mulher fiquei estupefacto. (e pensava eu que sabia muito de cinema...). É um dos pontos de tensão constante do filme: o confronto surdo entre o Solnado como representante antiquado de quem fecha os 50's e a Serna como a mulher moderna que dá inicio aos 60s.
Depois começam os problemas "técnicos".
O filme é muito bom e tem momentos geniais de cinema, só que tem um péssimo som. Parece que o som é projectado do auscultador de um telefone antigo... ao longe. E ainda por cima a música até está presente e é muito boa (do Alberto Iglesias), contrariamente aos outros filmes portugueses que tenho visto, em que o silêncio só é cortado pelo chão a ranger debaixo dos pés dos actores.
Ao irritante problema "som", juntam-se as dobragens que são horríveis. Sim, dobragens. Como o filme é uma produção Portugal-Espanha e o elenco tem actores de várias nacionalidades, optaram pela dobragem. Por muito que se esforçassem, António Feio, Paula Guedes e Mário Viegas nunca conseguiriam fazer esquecer o ridículo que são as dobragens.
Volto ao início, Balada da Praia dos Cães, é um filme "esquecido, maltratado e difícil de apanhar". Há muitos anos que queria ver este filme e finalmente consegui apanhá-lo na RTP Memória. Foi mesmo difícil. Pergunto eu: não há tempo de antena suficiente para ir repondo por aí uns filmes portugueses mais antigolas, mas muito bons, como este?
Balada da Praia dos Cães parece o filme que quase não existe. Mesmo na vastidão da net, não há disponível um trailer ou um poster. E o IMDB só tem a ficha mínima. É uma pena. Mal tenha oportunidade irei criar um poster em condições. É o mínimo que posso fazer. Este filme merece um tratamento digno.
E faço um apelo sentido aos senhores donos deste filme para que remasterizem este filme e especialmente que tratem daquele som marado. O filme está tão bem feito e é tão moderno que depois podem até reeditá-lo para cinema. Ninguém vai notar. ●●●○○


