O enredo de base de A Quiet Place é simples e já muito batido. O mundo foi invadido por extraterrestres que caçam com base no som e uma família isolada tem que lidar com alguns deles para poder sobreviver num cenário pós-apocalíptico. Vi este filme a contra gosto e com expectativas muito baixas, porque pensei que ia ver outra chacha de terror/acção/efeitos com adolescentes aos saltos entremeados por jump scares totalmente previsíveis. Foi-me indicado por um miúdo de 15 anos que gostou muito do filme e isso levou-me logo a pensar em parafernálias digitais infindáveis e acção estonteante e imparável. De certa forma, com aquela sugestão do miúdo, recuperei um pouco a fé na humanidade porque o filme é realmente bom e totalmente diferente do que estava à espera. Lá está... a questão das expectativas é muito importante nos filmes e na sua avaliação final... A acção vem precisamente da contenção da própria acção, o que diga-se, é muito raro hoje em dia. Suspense e montes de situações em que uma pessoa literalmente fica agarrado, em tensão, à cadeira é o que se pode esperar deste A Quiet Place.
Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe e Cade Woodward compõe esta família sob pressão alienígena. A questão do som é de facto muito importante, tanto na questão familiar (a filha é muda e só comunica por linguagem gestual), mas também como um elemento extra de tensão...
Apesar de ser uma produção relativamente pequena, vale mais que muitos filmes de grande orçamento. É mais um bom filmito feito com recursos muito limitados, centrando a acção numa história muito bem construída e muito bem montada. Uma vénia para John Krasinski que para além de actor, assina também a realização. As cenas de tensão são muito boas, por vezes dramáticas e consegue afastar-se dos inevitáveis jump scares do costumeiro filme de terror. É uma lufada de ar fresco no género e no cinema de entretenimento em geral. Totalmente recomendado. ●●●○○
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Há filmes para todos os gostos e de todos os géneros e sub-géneros. Balada da Praia dos Cães, um filme de cariz político da autoria de José Fonseca e Costa, pertence a um sub-sub-género muito específico que é o "esquecido, maltratado e difícil de apanhar". Demorei anos até o conseguir ver, mas finalmente consegui. Vamos por partes.
Baseado no livro de José Cardoso Pires com o mesmo nome, Balada da Praia dos Cães é acima de tudo uma amostra do Portugal dos anos 60: cinzento, bafiento e salazarento. Mas não só. É uma história policial baseada em factos verídicos, intrincada, negra, muitíssimo bem montada e com uma narrativa moderna, recorrendo com frequência a cenas de flashbacks e sonhos.
Tudo começa numa praia, com a descoberta do corpo em decomposição de um oficial do exército procurado pela polícia política. O responsável pela investigação é Elias Santana, um solitário homem à antiga. Terá que deslindar um caso complexo com a ajuda de Mena, uma misteriosa mulher que entretanto se entrega às autoridades e que tem uma historia incrível para explicar a macabra descoberta. Ao mesmo tempo, Elias combate o poder de sedução de Mena para não cair em tentação...
Quanto mais não fosse, só pelo tratamento dado à história valia a pena ver. Mas depois ainda tem Raul Solnado e Assumpta Serna. Solnado aparece num raro papel sério e está óptimo, ainda que por vezes ficasse com a sensação que ele nunca consegue mesmo ficar sério. Fica aqui provado que Solnado não era "apenas" um homem da comédia: era excelente na representação.
Mas se há um destaque na representação ele tem de ir obrigatoriamente para Assumpta Serna. Fixei automaticamente este nome. Nunca tinha visto esta actriz espanhola e posso dizê-lo que fiquei enfeitiçado, tal como a personagem Elias Santana. Parece que saiu verdadeiramente dum filme dos anos 60. Tem aquela beleza típica do sixties que não se consegue explicar. Mas não é só uma cara bonita; é uma brilhante actriz. Quando fui pesquisar e vi o currículo da mulher fiquei estupefacto. (e pensava eu que sabia muito de cinema...). É um dos pontos de tensão constante do filme: o confronto surdo entre o Solnado como representante antiquado de quem fecha os 50's e a Serna como a mulher moderna que dá inicio aos 60s.
Depois começam os problemas "técnicos".
O filme é muito bom e tem momentos geniais de cinema, só que tem um péssimo som. Parece que o som é projectado do auscultador de um telefone antigo... ao longe. E ainda por cima a música até está presente e é muito boa (do Alberto Iglesias), contrariamente aos outros filmes portugueses que tenho visto, em que o silêncio só é cortado pelo chão a ranger debaixo dos pés dos actores.
Ao irritante problema "som", juntam-se as dobragens que são horríveis. Sim, dobragens. Como o filme é uma produção Portugal-Espanha e o elenco tem actores de várias nacionalidades, optaram pela dobragem. Por muito que se esforçassem, António Feio, Paula Guedes e Mário Viegas nunca conseguiriam fazer esquecer o ridículo que são as dobragens.
Volto ao início, Balada da Praia dos Cães, é um filme "esquecido, maltratado e difícil de apanhar". Há muitos anos que queria ver este filme e finalmente consegui apanhá-lo na RTP Memória. Foi mesmo difícil. Pergunto eu: não há tempo de antena suficiente para ir repondo por aí uns filmes portugueses mais antigolas, mas muito bons, como este?
Balada da Praia dos Cães parece o filme que quase não existe. Mesmo na vastidão da net, não há disponível um trailer ou um poster. E o IMDB só tem a ficha mínima. É uma pena. Mal tenha oportunidade irei criar um poster em condições. É o mínimo que posso fazer. Este filme merece um tratamento digno.
E faço um apelo sentido aos senhores donos deste filme para que remasterizem este filme e especialmente que tratem daquele som marado. O filme está tão bem feito e é tão moderno que depois podem até reeditá-lo para cinema. Ninguém vai notar. ●●●○○
Inception é um filme muito bom por várias razões. Tem uma boa história - embora algo confusa - mas contada com muita mestria por Christopher Nolan. É uma história que assenta no principio básico da espionagem corporativa: roubar segredos muito bem guardados. Neste caso, muito bem guardados no subconsciente. Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é o melhor de todos os agentes que conseguem extrair essas informações. Numa tentativa de resolver um problema relacionado com o último serviço, Cobb embarca numa missão diferente de tudo o que tinha feito até ali: em vez de retirar, agora vai ter de "semear" uma ideia. Num mundo onde nem o que está encondido dentro de sonhos está a salvo, obviamente tudo se descontrola num frenesim de sonhos cruzados com a própria realidade. Leonardo DiCaprio - que pessoalmente nunca achei um grande actor - está muito bem, assim como o restante elenco mais ou menos comum dos filmes do Nolan (Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Michael Caine). Destaque para Michael Caine, que dá sempre um toque de classe, nem que apareça só por breves minutos e Marion Cotillard como uma distorcida femme fatale .
Em Inception vê-se nitidamente a ligação a outros filmes de Nolan como Memento, The Prestige e a inevitável nova saga Batman. Em parte, parece que este filme é o culminar de toda a experiência cinematográfica de Nolan. E o resultado é muito, muito bom. A história é cheia de camadas que se entrecruzam num universo de sonhos. Como seria de esperar, neste tipo de histórias envolvendo cenários surreais, a realidade mistura-se com a ficção até chegar ao ponto de não se perceber o que é real e o que não é. Em termos de argumento, não é propriamente uma novidade. O que é novidade é conseguir manter esta história tão coerente e tão coesa, apesar de por vezes ter conseguido bloquear-me o cérebro com tanta complexidade e tantas realidades em simultâneo.
Depois, Inception tem um equilìbrio perfeito no uso dos efeitos especiais, que são o principal problema dos filmes actuais. Às vezes os realizadores e produtores têm muita dificuldade em impor um limite aos efeitos e eles acabam por dominar todo um filme, transformando o que poderia ser uma boa obra, apenas num show off. Neste caso, os efeitos estão no sìtio certo, na altura certa e sem exageros. Ajudam a dar uma profundidade e uma complexidade muito maior ao filme. E é para isso mesmo que eles existem. Uma referência técnica obrigatória a outro grande protagonista: o som. Há muito tempo que não via um filme em que o som tivesse um papel tão importante. Até quem não liga muito à parte técnica, não pode deixar de notar. O som é o grande trunfo deste filme. Nolan já tinha vindo a refinar o processo com Batman, mas neste caso, excedeu-se.
Tanto no aspecto técnico, como no aspecto da narrativa, Inception é muito bom. Não é o melhor filme do mundo, mas é muito bom. Por mim, recebe nota (quase) máxima. A única coisa que o prejudica é ser tão complexo. Houve alturas no filme em que uma pessoa se perde um bocado, porque é tanto sonho dentro de tanto sonho que acaba por ser confuso demais. Mas pelo menos, termina em condições: deixa a pessoa a pensar se o amuleto parou ou não. Prolongar o filme para lá da duração do filme é um pormenor genial. Acho que é um daqueles filmes que precisa de "ganhar tempo" para se tornar um clássico incontornável da ficção, como por exemplo Matrix ou Dark City, onde parece ir buscar alguma inspiração.
O resultado final é um filme que entra por todos os poros e põe um espectador a pensar porque é que não há mais filmes assim. No cenário de total pobreza criativa em que se encontra o cinema moderno, Inception não é uma lufada de ar fresco, é uma lufada de ar gelado! É uma obra esteticamente irrepreensível, muito boa a todos os níveis e repleto de imagens assombrosas que irão perdurar por muito tempo. Para ver e rever muitas vezes. ●●●●●
Tenho andado a pensar numa forma de classificar os filmes. Classificar, não. O termo mais correcto será quantificar os filmes.
Apesar de tudo, a classificação é bem mais fácil. Tirando os problemas óbvios dos filmes que têm vários géneros, é muito mais fácil. Um filme ou é de ficção científica ou um drama, um filme de acção ou um documentário. Há até aqueles filmes feitos especificamente para explorar o gosto do público por determinado género como o blaxpoitation. Há filmes que, apesar de não serem bons, são um marco do cinema precisamente por terem criado um novo género como o spaghetti western, por exemplo. Claro que isto não é assim tão simples. Porque o 2001: Odisseia no Espaço não é apenas um filme de ficção científica, nem o Apocalypse Now é um filme de guerra. Há filmes que pura e simplesmente não se conseguem encaixar num determinado rótulo ou género. Por estranho que possa parecer, normalmente até é o que distingue os grandes filmes dos demais. Mas sempre é mais fácil conseguir encaixar um filme num determinado género (ou vários) do que conseguir mostrar o seu valor.
Por isso é que nos jornais e afins, as atribuições dos críticos são tão díspares. Como se costuma dizer na gíria: "é conforme!". Isto é, depende de quem avalia. Se for um crítico mais "virado" para o cinema europeu, qualquer filme com o selo de Hollywood vai ser uma merda e só tem direito a 1 "estrelinha. Se for um crítico com outro interesse ou outra perspectiva diferente, a avaliação do filme muda. Isto sempre me pareceu demasiado abstracto e subjectivo. Portanto, tenho andado a pensar que tem de haver um método mais objectivo para quantificar um filme.
Primeiro pensei que as matemáticas e as médias seriam um bom método a aplicar, mas depois lembrei-me do Dead Poets Society e do sistema métrico de avaliação de poesia do Dr. J. Evans Pritchard, Ph.D.. Não me parece bem andar de regra e esquadro a fazer gráficos para avaliar o que quer que seja. Desisti dessa ideia e percebi que - mesmo que não se queira - há sempre uma grande dose de subjectividade nestas avaliações. O que não é assim tão negativo quanto pensava. Eu sei que é um contraditório afirmar isto, mas é verdade.
Da mesma forma que sempre achei que quantificar os filmes com 5 "estrelas" era demasiado redutor. Estava enganado outra vez. Após muita reflexão sobre o assunto cheguei à conclusão que É MESMO a melhor forma. (Isto acontece-me muitas vezes, contradizer as minha próprias opiniões). Com um acréscimo: a sexta "estrelinha". A "estrela" que distingue os excelentes filmes, dos filmes "fora da escala". Eis a minha lógica de pensamento.
Percebi que existem 5 tópicos (mais 1 extra) que definem a qualidade de um filme. E para tentar ser o mais objectivo possível, analiso os filmes como tendo o tópico preenchido ou não, de forma a eliminar a subjectividade o mais possível.
Primeiro: a realização geral. Na realização geral incluo a visão estética do filme, a direcção dos actores e a forma como são apresentadas as imagens. Convém não esquecer que um filme é acima de tudo uma mostra gráfica. Uma série de imagens estáticas colocadas em movimento. Neste ponto conta muito toda a equipa "visual" que um realizador junta à sua volta, como o director de fotografia, por exemplo. Mas também a visão particular do realizador. Como é que se apresentam emoções? Qual a melhor forma de mostrar arrependimento? Como se mostra à audiência que algo está para acontecer? Ou pôr-lhe os cabelos em pé? Ou dar-lhe um nó no estômago? Pois. Só um grande realizador sabe compor imagens para responder a isso. Outra coisa que se nota nos grandes realizadores é também um aspecto mais abrangente: domínio sobre o filme. Por isso mesmo, é raro um "assalariado" de estúdio conseguir fazer um grande filme. Um "assalariado" faz demasiadas concessões enquanto um grande realizador tem o filme todo na cabeça e controla todos os aspectos do filme. Isto nota-se num filme. Para o bem e para o mal.
Segundo: actores. O que é um filme sem actores? Nada. É como um actor sem público. Uma das forças motrizes de um bom filme são mesmo os actores. Mas não só. É também a escolha dos próprios actores. Alguém imaginou outro actor que não o Harrison Ford a fazer de Indiana Jones? Outro actor no The Shinning que não o Jack Nicholson? Outro Patton que não o George C. Scott? Pode não parecer, mas a escolha inicial de um determinado actor para um determinado papel é muito importante e decisivo para criar um bom filme. E, como é óbvio, o actor tem de ser mesmo bom e de ter um boa performance. Como se costuma dizer, se o actor fizer um daqueles "papelaços" inesquecíveis, mesmo um filme mediano torna-se logo bom.
Terceiro: a história. Antes de um filme existir visualmente, ele vai nascendo no papel através do seu guião. Não sei avaliar a qualidade técnica de um guião, mas mais importante do que isso é quando o realizador lhe dá vida. Mas começar com uma grande história, um tema totalmente inovador é meio caminho andado para ter em mãos um bom filme. Neste aspecto, saliento sempre um factor muito importante. O final da história. Quem escreve sabe bem que finalizar um boa história é sempre muito mais difícil do que iniciá-la. Não me estou a referir os célebres twists. Estou a referir-me àquela "boa" conclusão. Muitas vezes, os filmes têm boas histórias, desenvolvem-se bem, mas o final do filme deixa um sabor amargo. Finais demasiadamente "em aberto" (à europeu), totalmente previsíveis ou que dão tantas voltas (os tais twists) para baralhar o final óbvio, que acabam por ser novamente previsíveis.
Quarto: os aspectos técnicos. Som, luz, cor e efeitos especiais dão camadas extra a um filme. E se elas forem todas muito boas e equilibradas, a qualidade de um filme aumenta exponencialmente. Isto nota-se, pela negativa nos blockbusters. A camada dos efeitos especiais é tão espessa que por vezes tapa todo o filme. Por isso é que é raro ver um "blockbuster de efeitos" que seja um bom filme. Pelo lado positivo, aspectos técnicos bem concebidos, que ajudem a contar a história e exponenciem o trabalho dos actores, elevam os filmes à categoria de clássicos. É como a construção de um pintura: começa-se pelo esboço a carvão, lima-se os pormenores, acrescentam-se cores e finaliza-se os retoques.
Quinto: ritmo. Um dos elementos menos visível de um filme é a montagem. Pode não parecer, mas saber quando cortar uma cena ou prolongá-la faz toda a diferença. Isto é muito importante porque marca o andamento de um filme. Pode torná-lo hiper-rápido ou insuportavelmente lento. Há aqui um paralelismo directo com a música. Há que saber quando meter as guitarradas estridentes e as melodias calmas. Um bom filme tem um equilíbrio perfeito entre a acção e o diálogo. É como uma música dos Pink Floyd: não se percebe muito bem porquê, mas têm o ritmo perfeito. Um bom filme é igual. Tem de ser consistente, mas conseguir, de tempos a tempos, fazer-nos dar um salto na cadeira.
Por último: a sexta "estrela". A "estrela" que faz toda a diferença. Pensei muito no assunto e reparei que o que faz os grandes filmes é sua durabilidade. Ou seja, a capacidade de resistirem à passagem do tempo. É como toda a restante arte: a que faz a diferença é a que perdura. Fazer um filme perdurar no tempo é talvez o mais difícil. Já me aconteceu "n" de vezes rever um filme que achava excelente, mas que agora noto que ficou "marcado" no tempo. Uma pessoa percebe que aquele filme é da década de 70 ou 80, que os aspectos técnicos estão "marcados" e/ou desactualizados, que a temática só tinha validade num tempo específico ou que era dum determinado género que entretanto passou de moda. Acho que esta última "estrela" é o que faz os bons filmes saltarem para uma classe à parte. A classe dos "intemporais". Por isso é que há tão poucos.
Resumindo. Para um filme ser bom é necessário existir uma grande colaboração de talentos em volta de uma boa história, liderados por um líder exemplar. Mas para um filme ser intemporal (até resistir à crítica) é absolutamente necessário que o "homem do leme" consiga criar "aquela estrelinha" extra para colocar no final. Vou ver um filme qualquer só para experimentar esta nova classificação. Perdão. Quantificação.
Apesar de tudo, a classificação é bem mais fácil. Tirando os problemas óbvios dos filmes que têm vários géneros, é muito mais fácil. Um filme ou é de ficção científica ou um drama, um filme de acção ou um documentário. Há até aqueles filmes feitos especificamente para explorar o gosto do público por determinado género como o blaxpoitation. Há filmes que, apesar de não serem bons, são um marco do cinema precisamente por terem criado um novo género como o spaghetti western, por exemplo. Claro que isto não é assim tão simples. Porque o 2001: Odisseia no Espaço não é apenas um filme de ficção científica, nem o Apocalypse Now é um filme de guerra. Há filmes que pura e simplesmente não se conseguem encaixar num determinado rótulo ou género. Por estranho que possa parecer, normalmente até é o que distingue os grandes filmes dos demais. Mas sempre é mais fácil conseguir encaixar um filme num determinado género (ou vários) do que conseguir mostrar o seu valor.
Por isso é que nos jornais e afins, as atribuições dos críticos são tão díspares. Como se costuma dizer na gíria: "é conforme!". Isto é, depende de quem avalia. Se for um crítico mais "virado" para o cinema europeu, qualquer filme com o selo de Hollywood vai ser uma merda e só tem direito a 1 "estrelinha. Se for um crítico com outro interesse ou outra perspectiva diferente, a avaliação do filme muda. Isto sempre me pareceu demasiado abstracto e subjectivo. Portanto, tenho andado a pensar que tem de haver um método mais objectivo para quantificar um filme.
Primeiro pensei que as matemáticas e as médias seriam um bom método a aplicar, mas depois lembrei-me do Dead Poets Society e do sistema métrico de avaliação de poesia do Dr. J. Evans Pritchard, Ph.D.. Não me parece bem andar de regra e esquadro a fazer gráficos para avaliar o que quer que seja. Desisti dessa ideia e percebi que - mesmo que não se queira - há sempre uma grande dose de subjectividade nestas avaliações. O que não é assim tão negativo quanto pensava. Eu sei que é um contraditório afirmar isto, mas é verdade.
Da mesma forma que sempre achei que quantificar os filmes com 5 "estrelas" era demasiado redutor. Estava enganado outra vez. Após muita reflexão sobre o assunto cheguei à conclusão que É MESMO a melhor forma. (Isto acontece-me muitas vezes, contradizer as minha próprias opiniões). Com um acréscimo: a sexta "estrelinha". A "estrela" que distingue os excelentes filmes, dos filmes "fora da escala". Eis a minha lógica de pensamento.
Percebi que existem 5 tópicos (mais 1 extra) que definem a qualidade de um filme. E para tentar ser o mais objectivo possível, analiso os filmes como tendo o tópico preenchido ou não, de forma a eliminar a subjectividade o mais possível.
Primeiro: a realização geral. Na realização geral incluo a visão estética do filme, a direcção dos actores e a forma como são apresentadas as imagens. Convém não esquecer que um filme é acima de tudo uma mostra gráfica. Uma série de imagens estáticas colocadas em movimento. Neste ponto conta muito toda a equipa "visual" que um realizador junta à sua volta, como o director de fotografia, por exemplo. Mas também a visão particular do realizador. Como é que se apresentam emoções? Qual a melhor forma de mostrar arrependimento? Como se mostra à audiência que algo está para acontecer? Ou pôr-lhe os cabelos em pé? Ou dar-lhe um nó no estômago? Pois. Só um grande realizador sabe compor imagens para responder a isso. Outra coisa que se nota nos grandes realizadores é também um aspecto mais abrangente: domínio sobre o filme. Por isso mesmo, é raro um "assalariado" de estúdio conseguir fazer um grande filme. Um "assalariado" faz demasiadas concessões enquanto um grande realizador tem o filme todo na cabeça e controla todos os aspectos do filme. Isto nota-se num filme. Para o bem e para o mal.
Segundo: actores. O que é um filme sem actores? Nada. É como um actor sem público. Uma das forças motrizes de um bom filme são mesmo os actores. Mas não só. É também a escolha dos próprios actores. Alguém imaginou outro actor que não o Harrison Ford a fazer de Indiana Jones? Outro actor no The Shinning que não o Jack Nicholson? Outro Patton que não o George C. Scott? Pode não parecer, mas a escolha inicial de um determinado actor para um determinado papel é muito importante e decisivo para criar um bom filme. E, como é óbvio, o actor tem de ser mesmo bom e de ter um boa performance. Como se costuma dizer, se o actor fizer um daqueles "papelaços" inesquecíveis, mesmo um filme mediano torna-se logo bom.
Terceiro: a história. Antes de um filme existir visualmente, ele vai nascendo no papel através do seu guião. Não sei avaliar a qualidade técnica de um guião, mas mais importante do que isso é quando o realizador lhe dá vida. Mas começar com uma grande história, um tema totalmente inovador é meio caminho andado para ter em mãos um bom filme. Neste aspecto, saliento sempre um factor muito importante. O final da história. Quem escreve sabe bem que finalizar um boa história é sempre muito mais difícil do que iniciá-la. Não me estou a referir os célebres twists. Estou a referir-me àquela "boa" conclusão. Muitas vezes, os filmes têm boas histórias, desenvolvem-se bem, mas o final do filme deixa um sabor amargo. Finais demasiadamente "em aberto" (à europeu), totalmente previsíveis ou que dão tantas voltas (os tais twists) para baralhar o final óbvio, que acabam por ser novamente previsíveis.
Quarto: os aspectos técnicos. Som, luz, cor e efeitos especiais dão camadas extra a um filme. E se elas forem todas muito boas e equilibradas, a qualidade de um filme aumenta exponencialmente. Isto nota-se, pela negativa nos blockbusters. A camada dos efeitos especiais é tão espessa que por vezes tapa todo o filme. Por isso é que é raro ver um "blockbuster de efeitos" que seja um bom filme. Pelo lado positivo, aspectos técnicos bem concebidos, que ajudem a contar a história e exponenciem o trabalho dos actores, elevam os filmes à categoria de clássicos. É como a construção de um pintura: começa-se pelo esboço a carvão, lima-se os pormenores, acrescentam-se cores e finaliza-se os retoques.
Quinto: ritmo. Um dos elementos menos visível de um filme é a montagem. Pode não parecer, mas saber quando cortar uma cena ou prolongá-la faz toda a diferença. Isto é muito importante porque marca o andamento de um filme. Pode torná-lo hiper-rápido ou insuportavelmente lento. Há aqui um paralelismo directo com a música. Há que saber quando meter as guitarradas estridentes e as melodias calmas. Um bom filme tem um equilíbrio perfeito entre a acção e o diálogo. É como uma música dos Pink Floyd: não se percebe muito bem porquê, mas têm o ritmo perfeito. Um bom filme é igual. Tem de ser consistente, mas conseguir, de tempos a tempos, fazer-nos dar um salto na cadeira.
Por último: a sexta "estrela". A "estrela" que faz toda a diferença. Pensei muito no assunto e reparei que o que faz os grandes filmes é sua durabilidade. Ou seja, a capacidade de resistirem à passagem do tempo. É como toda a restante arte: a que faz a diferença é a que perdura. Fazer um filme perdurar no tempo é talvez o mais difícil. Já me aconteceu "n" de vezes rever um filme que achava excelente, mas que agora noto que ficou "marcado" no tempo. Uma pessoa percebe que aquele filme é da década de 70 ou 80, que os aspectos técnicos estão "marcados" e/ou desactualizados, que a temática só tinha validade num tempo específico ou que era dum determinado género que entretanto passou de moda. Acho que esta última "estrela" é o que faz os bons filmes saltarem para uma classe à parte. A classe dos "intemporais". Por isso é que há tão poucos.
Resumindo. Para um filme ser bom é necessário existir uma grande colaboração de talentos em volta de uma boa história, liderados por um líder exemplar. Mas para um filme ser intemporal (até resistir à crítica) é absolutamente necessário que o "homem do leme" consiga criar "aquela estrelinha" extra para colocar no final. Vou ver um filme qualquer só para experimentar esta nova classificação. Perdão. Quantificação.
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