Todd Anderson, um miúdo bastante tímido vai para o mesmo colégio que o irmão mais velho. Neil Perry, o colega de quarto tem uma personalidade diferente, mais aberto e popular. Ambos têm de corresponder às expectativas da família, especialmente Perry, que tem um pai omnipresente e opressivo quanto às suas opções na vida. Juntamente com um grupo de outros jovens rapazes encontram Keating, um novo professor de inglês que lhes fala do Clube dos Poetas Mortos (Dead Poets Society) que os encoraja a irem contra o status quo e "aproveitarem o dia". Cada um à sua maneira vai incorporar este novo pensamento e que os vai mudar radicalmente. Dead Poets Society não só mudou a mentalidade daquelas personagens, mas tenho a certeza, mudou a perspectiva de muitos rapazes que na altura da estreia, tinham mais ou menos a mesma idade. Incluo-me orgulhosamente nesse grupo.
O que me ficou logo na memória foi o inicio do filme com a fórmula matemática para calcular a grandeza de um poema pelo Dr. J. Evans Pritchard. Dizia a fórmula que: P (perfeição) x I (importância) = G (grandeza do poema). Não era (nem sou) um grande fã da poesia, mas percebi a mensagem de que tentar quantificar matematicamente o impacto das palavras é algo inerentemente errado. É como tentar esquematizar emoções. E aí o filme apanhou-me logo.
Depois, o professor Keating. Este é aquele professor que uma pessoa sonha ter quando é aluno. Não impõe coisas pré-estabelecidas, é um rebelde quando comparado com os restantes professores e suporta a liberdade de pensamento dos alunos. Não quer dizer que seja um baldas, simplesmente quer dizer que faz as coisas de forma diferente. Valoriza a capacidade de o aluno se transcender a ele próprio e descobrir coisas que nem sabia que era capaz de fazer.
"Carpe diem. Seize the day, boys. Make your lives extraordinary". Acho que esta mítica frase que, ainda hoje em dia, deve ecoar em muitas cabeças por esse mundo fora, resume o sentimento perfeito do filme: aproveitar a vida e tudo o que ela tem de melhor, sugar-lhe o tutano e aproveitar isto para fazer algo de extraordinário. Por alguma razão aquele "carpe diem" sussurrado pelo Robin Williams ainda perdura no tempo...
Num filme desta intensidade poderia dizer que os principais papéis são para Robin Williams, Robert Sean Leonard, Ethan Hawke, Josh Charles e Kurtwood Smith, mas também não poderia deixar de mencionar Gale Hansen, Dylan Kussman, Allelon Ruggiero, James Waterston, Norman Lloyd e todos os actores sem excepção, até ao mais pequeno papel secundário. Todos estão perfeitos. Obviamente que o Robin Williams é algo... que... nem tenho palavras. É um gajo excepcional. Vai da comédia de situação ao drama mais profundo em 3 segundos. É único. Um dos meus actores preferidos de todos os tempos. Um génio da comédia e do drama.
Sobre este filme de Peter Wier poderiam escrever-se livros inteiros. A dualidade constante na eterna luta entre a tradição e a modernidade; entre a rigidez da disciplina versus a liberdade de pensamento; a complexidade e conflito latente das relações geracionais entre jovens e velhos, entre pais e filhos... as consequências trágicas que podem acontecer quando se tenta seguir os próprios sonhos indo contra a vontade dos outros... Isto dava para enciclopédias. Mas o melhor é simplesmente ver e desfrutar do leque de emoções que Dead Poets Society apresenta.
Algumas coisas carecem de uma explicação lógica... e esta é uma delas: "O Captain! My Captain!"... aquela frase na altura da despedida do Keating... aqueles miúdos a subirem para as secretárias... Esta cena deixa-me em lágrimas só de pensar. Peter Weir criou uma cena que mexe profundamente com os meus sentimentos. Eu já vi este filme uma dúzia de vezes e todas as vezes sem excepção, desato a chorar copiosamente. Há qualquer coisa de... não sei explicar. A única coisa que posso fazer a agradecer ao Peter Weir e ao professor Keating por me terem também mudado para melhor. Por me terem tornado mais motivado e tentar aproveitar o melhor da vida. Se pudesse, também eu estava ali em cima da secretária a dizer com orgulho "O Captain! My Captain!". Não consigo escrever mais... as lágrimas rolam-me cara abaixo. Lá está... não consigo explicar... Carpe Diem para todos. Obviamente, um dos filmes da minha vida. ●●●●● + ●
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Depois de um evento traumático, a relação de um jovem casal americano está por um fio. Dani vive constantemente com o passado e com a tragédia na cabeça e não se sente propriamente enquadrada na realidade mundana, nem no grupo de amigos do namorado. Mas tudo muda quando decide fazer-se de convidada e acompanhá-los numa viagem para assistir a uma festividade pagã numa remota aldeia da Suécia, a terra-natal de um amigo. O que começa como umas agradáveis férias de verão numa terra idílica de céus azuis e em perfeita ordem estética, lentamente se vai transformar em algo muito estranho...
Normalmente não escrevo enquanto ouço música, mas por vezes lá acontece. Curiosamente, a minha playlist fez uma passagem muito interessante do "Inverno" de Vivaldi para a "Lacrimosa" do Requiem de Mozart. E é a banda sonora perfeita para escrever sobre este Midsommar. Não porque tenha algo que ver com o filme, mas porque me recorda que o Inverno para além de majestoso é também mortal. Para pessoas "mediterrânicas" como eu, o inverno é mesmo perigoso. Deprime-me e deita-me completamente abaixo. Não "vivo" no inverno, apenas lhe tento sobreviver até que os dias quentes cheguem novamente. Daí que uma das minhas muitas teorias me diga que os habitantes do norte gelado e levam com uma "vida invernal", são naturalmente deprimidas e moldadas numa certa "escuridão da alma" pela dureza do clima. Faço-me entender? Talvez não, mas também não interessa. O frio deve-me estar a afectar os pensamentos. Nos filmes "de inspiração nórdica" é pelo menos essa a sensação que passa, o que me leva novamente a Midsommar.
Esta é uma história estranha e que dá que pensar. Tradições enraizadas, rituais cristalizados pelo tempo, comunas e pequenas comunidades alternativas. Tudo isto tem um lado estranhamente assustador e violento que parece sempre latente. Enquanto assistia aos estranhos eventos e rituais daquela peculiar comunidade, pensava como era possível as pessoas de fora conseguirem encaixar mentalmente o que acabaram de ver. Enquanto alguns convidados "exteriores" se sentiam revoltados e queriam sair, outros, talvez por estudarem antropologia ficavam fascinados pelos acontecimentos que se desenrolavam.
Extrapolando para além do filme, de facto isto - as tradições e os rituais locais - é algo estranho. Um estrangeiro que chegue aqui a uma aldeia remota no interior para assistir a uma matança do porco, em que alguém literalmente espeta um facalhão enorme directamente no coração de um porco (que diga-se é um animal gigante, o que faz com que o evento seja ainda visualmente mais violento) e o sangra até à morte, de certeza ficará imensamente chocado. Pelo menos eu quero acreditar que sim, porque a única vez que assisti a uma coisa destas fiquei traumatizado para a vida. Apesar das discussões que possam surgir em torno da questão do bem-estar animal e afins (se bem que num matadouro industrial as condições estão ao mesmo nível, mas apenas escondidas dos olhos do público...), para mim, a principal questão é a da normalização social. No dia-a-dia um gajo assiste a coisas que não são nada normais, mas tolera-as e muitas vezes até as justifica porque estão cristalizadas como ritual ou tradição. E, com isto, coisas maradas da cabeça como a matança pública do porco ou as touradas em que se persegue um touro e se lhe espeta ferros no lombo acabam por ser "normais" e até material de entretenimento. Mas podia entrar noutros estranhos comportamentos, mas mais "subtis" como o celibato, por exemplo, para chegar à conclusão que por muito que uma coisa seja estranha, ela deixa de o ser se for aceite socialmente por um grupo relativamente grande.
Por outro lado, penso sempre como é que as pessoas entram assim em cultos esquisitos como este e acabam por abraçar aquilo e ficar como que hipnotizadas. Em parte, este Midsommar é um mapa para entender todo o longo caminho que é preciso percorrer para se chegar ao ponto de normalizar comportamentos que numa situação de "dia-a-dia" seriam completamente reprováveis. Este é o caminho da personagem de Pugh, o que em certa parte faz entender porque é que no final se a vê a sorrir, quando até ali, parecia viver numa profunda depressão. Por vezes, é nos sítios mais recônditos e estranhos que uma pessoa se sente acolhido e compreendido. Acho que é daí que vem aquele sorriso feliz e verdadeiramente sincero.
A história é tão recheada de pormenores e tão complexa que daria facilmente para uma dissertação bastante longa sobre a religião, os cultos, as tradições, mas também sobre a depressão do e no mundo moderno, a ostracização e a aceitação social. Para além de estar muito bem escrito, achei verdadeiramente brilhante a "criação" do culto. É tão recheado e pormenores, tão bem estruturado e tão complexo que parece que de facto, algures numa idílica aldeola sueca, existe mesmo aquele grupo de pessoas estranhas.
Assente neste belo trabalho de pesquisa antropológica e de desenvolvimento da história, está o trabalho não menos brilhante do surpreendente Ari Aster, que é obviamente um realizador para manter debaixo de olho. Midsommar está muito bem feito e recheado de excelentes pormenores de realização, suportado por uma banda sonora poderosa e quase visceral que deixa um gajo sempre de cabelos em pé e o coração com uma batida forte. E ainda falta mencionar as muito boas interpretações de Jack Reynor, Will Poulter, Vilhelm Blomgren e William Jackson Harper, sendo que o destaque em termos de actores tem mesmo de ir para Florence Pugh que tem aqui um desempenho brilhante. Do melhor que já vi nos últimos tempos.
No geral, gostei bastante. Apenas não o considero perfeito porque a determinada altura estava a ser tão bom, tão denso e hipnótico que fiquei à espera de mais, de algo ainda mais surpreendente e chocante. Mas isso sou eu que sou um bocado picuinhas, e porque depois daquele início extremamente possante fiquei à espera dum final (ainda) mais apoteótico... o que obviamente não aconteceu comigo... É a eterna questão da expectativa versus realidade.
Apesar deste pequeno reparo, Midsommar é totalmente recomendado. É um filme que consegue fazer um equilíbrio estranho entre o fictício e o real e entre o macabro e o belo ao mesmo tempo. É inesperado e deixou-me a pensar, o que é sempre algo positivo. Se alguém por aqui gostar de cultos solares estranhos e tradições ocultas, e não tiver grandes problemas a assistir a cenas de sexo ritual, homicídios e suicídios, então este Midsommar é um filme a não perder. E que comecem as festividades... ●●●●○
Normalmente não escrevo enquanto ouço música, mas por vezes lá acontece. Curiosamente, a minha playlist fez uma passagem muito interessante do "Inverno" de Vivaldi para a "Lacrimosa" do Requiem de Mozart. E é a banda sonora perfeita para escrever sobre este Midsommar. Não porque tenha algo que ver com o filme, mas porque me recorda que o Inverno para além de majestoso é também mortal. Para pessoas "mediterrânicas" como eu, o inverno é mesmo perigoso. Deprime-me e deita-me completamente abaixo. Não "vivo" no inverno, apenas lhe tento sobreviver até que os dias quentes cheguem novamente. Daí que uma das minhas muitas teorias me diga que os habitantes do norte gelado e levam com uma "vida invernal", são naturalmente deprimidas e moldadas numa certa "escuridão da alma" pela dureza do clima. Faço-me entender? Talvez não, mas também não interessa. O frio deve-me estar a afectar os pensamentos. Nos filmes "de inspiração nórdica" é pelo menos essa a sensação que passa, o que me leva novamente a Midsommar.
Esta é uma história estranha e que dá que pensar. Tradições enraizadas, rituais cristalizados pelo tempo, comunas e pequenas comunidades alternativas. Tudo isto tem um lado estranhamente assustador e violento que parece sempre latente. Enquanto assistia aos estranhos eventos e rituais daquela peculiar comunidade, pensava como era possível as pessoas de fora conseguirem encaixar mentalmente o que acabaram de ver. Enquanto alguns convidados "exteriores" se sentiam revoltados e queriam sair, outros, talvez por estudarem antropologia ficavam fascinados pelos acontecimentos que se desenrolavam.
Extrapolando para além do filme, de facto isto - as tradições e os rituais locais - é algo estranho. Um estrangeiro que chegue aqui a uma aldeia remota no interior para assistir a uma matança do porco, em que alguém literalmente espeta um facalhão enorme directamente no coração de um porco (que diga-se é um animal gigante, o que faz com que o evento seja ainda visualmente mais violento) e o sangra até à morte, de certeza ficará imensamente chocado. Pelo menos eu quero acreditar que sim, porque a única vez que assisti a uma coisa destas fiquei traumatizado para a vida. Apesar das discussões que possam surgir em torno da questão do bem-estar animal e afins (se bem que num matadouro industrial as condições estão ao mesmo nível, mas apenas escondidas dos olhos do público...), para mim, a principal questão é a da normalização social. No dia-a-dia um gajo assiste a coisas que não são nada normais, mas tolera-as e muitas vezes até as justifica porque estão cristalizadas como ritual ou tradição. E, com isto, coisas maradas da cabeça como a matança pública do porco ou as touradas em que se persegue um touro e se lhe espeta ferros no lombo acabam por ser "normais" e até material de entretenimento. Mas podia entrar noutros estranhos comportamentos, mas mais "subtis" como o celibato, por exemplo, para chegar à conclusão que por muito que uma coisa seja estranha, ela deixa de o ser se for aceite socialmente por um grupo relativamente grande.
Por outro lado, penso sempre como é que as pessoas entram assim em cultos esquisitos como este e acabam por abraçar aquilo e ficar como que hipnotizadas. Em parte, este Midsommar é um mapa para entender todo o longo caminho que é preciso percorrer para se chegar ao ponto de normalizar comportamentos que numa situação de "dia-a-dia" seriam completamente reprováveis. Este é o caminho da personagem de Pugh, o que em certa parte faz entender porque é que no final se a vê a sorrir, quando até ali, parecia viver numa profunda depressão. Por vezes, é nos sítios mais recônditos e estranhos que uma pessoa se sente acolhido e compreendido. Acho que é daí que vem aquele sorriso feliz e verdadeiramente sincero.
A história é tão recheada de pormenores e tão complexa que daria facilmente para uma dissertação bastante longa sobre a religião, os cultos, as tradições, mas também sobre a depressão do e no mundo moderno, a ostracização e a aceitação social. Para além de estar muito bem escrito, achei verdadeiramente brilhante a "criação" do culto. É tão recheado e pormenores, tão bem estruturado e tão complexo que parece que de facto, algures numa idílica aldeola sueca, existe mesmo aquele grupo de pessoas estranhas.
Assente neste belo trabalho de pesquisa antropológica e de desenvolvimento da história, está o trabalho não menos brilhante do surpreendente Ari Aster, que é obviamente um realizador para manter debaixo de olho. Midsommar está muito bem feito e recheado de excelentes pormenores de realização, suportado por uma banda sonora poderosa e quase visceral que deixa um gajo sempre de cabelos em pé e o coração com uma batida forte. E ainda falta mencionar as muito boas interpretações de Jack Reynor, Will Poulter, Vilhelm Blomgren e William Jackson Harper, sendo que o destaque em termos de actores tem mesmo de ir para Florence Pugh que tem aqui um desempenho brilhante. Do melhor que já vi nos últimos tempos.
No geral, gostei bastante. Apenas não o considero perfeito porque a determinada altura estava a ser tão bom, tão denso e hipnótico que fiquei à espera de mais, de algo ainda mais surpreendente e chocante. Mas isso sou eu que sou um bocado picuinhas, e porque depois daquele início extremamente possante fiquei à espera dum final (ainda) mais apoteótico... o que obviamente não aconteceu comigo... É a eterna questão da expectativa versus realidade.
Apesar deste pequeno reparo, Midsommar é totalmente recomendado. É um filme que consegue fazer um equilíbrio estranho entre o fictício e o real e entre o macabro e o belo ao mesmo tempo. É inesperado e deixou-me a pensar, o que é sempre algo positivo. Se alguém por aqui gostar de cultos solares estranhos e tradições ocultas, e não tiver grandes problemas a assistir a cenas de sexo ritual, homicídios e suicídios, então este Midsommar é um filme a não perder. E que comecem as festividades... ●●●●○
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