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Depois de um evento traumático, a relação de um jovem casal americano está por um fio. Dani vive constantemente com o passado e com a tragédia na cabeça e não se sente propriamente enquadrada na realidade mundana, nem no grupo de amigos do namorado. Mas tudo muda quando decide fazer-se de convidada e acompanhá-los numa viagem para assistir a uma festividade pagã numa remota aldeia da Suécia, a terra-natal de um amigo. O que começa como umas agradáveis férias de verão numa terra idílica de céus azuis e em perfeita ordem estética, lentamente se vai transformar em algo muito estranho...
Normalmente não escrevo enquanto ouço música, mas por vezes lá acontece. Curiosamente, a minha playlist fez uma passagem muito interessante do "Inverno" de Vivaldi para a "Lacrimosa" do Requiem de Mozart. E é a banda sonora perfeita para escrever sobre este Midsommar. Não porque tenha algo que ver com o filme, mas porque me recorda que o Inverno para além de majestoso é também mortal. Para pessoas "mediterrânicas" como eu, o inverno é mesmo perigoso. Deprime-me e deita-me completamente abaixo. Não "vivo" no inverno, apenas lhe tento sobreviver até que os dias quentes cheguem novamente. Daí que uma das minhas muitas teorias me diga que os habitantes do norte gelado e levam com uma "vida invernal", são naturalmente deprimidas e moldadas numa certa "escuridão da alma" pela dureza do clima. Faço-me entender? Talvez não, mas também não interessa. O frio deve-me estar a afectar os pensamentos. Nos filmes "de inspiração nórdica" é pelo menos essa a sensação que passa, o que me leva novamente a Midsommar.
Esta é uma história estranha e que dá que pensar. Tradições enraizadas, rituais cristalizados pelo tempo, comunas e pequenas comunidades alternativas. Tudo isto tem um lado estranhamente assustador e violento que parece sempre latente. Enquanto assistia aos estranhos eventos e rituais daquela peculiar comunidade, pensava como era possível as pessoas de fora conseguirem encaixar mentalmente o que acabaram de ver. Enquanto alguns convidados "exteriores" se sentiam revoltados e queriam sair, outros, talvez por estudarem antropologia ficavam fascinados pelos acontecimentos que se desenrolavam.
Extrapolando para além do filme, de facto isto - as tradições e os rituais locais - é algo estranho. Um estrangeiro que chegue aqui a uma aldeia remota no interior para assistir a uma matança do porco, em que alguém literalmente espeta um facalhão enorme directamente no coração de um porco (que diga-se é um animal gigante, o que faz com que o evento seja ainda visualmente mais violento) e o sangra até à morte, de certeza ficará imensamente chocado. Pelo menos eu quero acreditar que sim, porque a única vez que assisti a uma coisa destas fiquei traumatizado para a vida. Apesar das discussões que possam surgir em torno da questão do bem-estar animal e afins (se bem que num matadouro industrial as condições estão ao mesmo nível, mas apenas escondidas dos olhos do público...), para mim, a principal questão é a da normalização social. No dia-a-dia um gajo assiste a coisas que não são nada normais, mas tolera-as e muitas vezes até as justifica porque estão cristalizadas como ritual ou tradição. E, com isto, coisas maradas da cabeça como a matança pública do porco ou as touradas em que se persegue um touro e se lhe espeta ferros no lombo acabam por ser "normais" e até material de entretenimento. Mas podia entrar noutros estranhos comportamentos, mas mais "subtis" como o celibato, por exemplo, para chegar à conclusão que por muito que uma coisa seja estranha, ela deixa de o ser se for aceite socialmente por um grupo relativamente grande.
Por outro lado, penso sempre como é que as pessoas entram assim em cultos esquisitos como este e acabam por abraçar aquilo e ficar como que hipnotizadas. Em parte, este Midsommar é um mapa para entender todo o longo caminho que é preciso percorrer para se chegar ao ponto de normalizar comportamentos que numa situação de "dia-a-dia" seriam completamente reprováveis. Este é o caminho da personagem de Pugh, o que em certa parte faz entender porque é que no final se a vê a sorrir, quando até ali, parecia viver numa profunda depressão. Por vezes, é nos sítios mais recônditos e estranhos que uma pessoa se sente acolhido e compreendido. Acho que é daí que vem aquele sorriso feliz e verdadeiramente sincero.
A história é tão recheada de pormenores e tão complexa que daria facilmente para uma dissertação bastante longa sobre a religião, os cultos, as tradições, mas também sobre a depressão do e no mundo moderno, a ostracização e a aceitação social. Para além de estar muito bem escrito, achei verdadeiramente brilhante a "criação" do culto. É tão recheado e pormenores, tão bem estruturado e tão complexo que parece que de facto, algures numa idílica aldeola sueca, existe mesmo aquele grupo de pessoas estranhas.
Assente neste belo trabalho de pesquisa antropológica e de desenvolvimento da história, está o trabalho não menos brilhante do surpreendente Ari Aster, que é obviamente um realizador para manter debaixo de olho. Midsommar está muito bem feito e recheado de excelentes pormenores de realização, suportado por uma banda sonora poderosa e quase visceral que deixa um gajo sempre de cabelos em pé e o coração com uma batida forte. E ainda falta mencionar as muito boas interpretações de Jack ReynorWill PoulterVilhelm Blomgren e William Jackson Harper, sendo que o destaque em termos de actores tem mesmo de ir para Florence Pugh que tem aqui um desempenho brilhante. Do melhor que já vi nos últimos tempos.
No geral, gostei bastante. Apenas não o considero perfeito porque a determinada altura estava a ser tão bom, tão denso e hipnótico que fiquei à espera de mais, de algo ainda mais surpreendente e chocante. Mas isso sou eu que sou um bocado picuinhas, e porque depois daquele início extremamente possante fiquei à espera dum final (ainda) mais apoteótico... o que obviamente não aconteceu comigo...  É a eterna questão da expectativa versus realidade.
Apesar deste pequeno reparo, Midsommar é totalmente recomendado. É um filme que consegue fazer um equilíbrio estranho entre o fictício e o real e entre o macabro e o belo ao mesmo tempo. É inesperado e deixou-me a pensar, o que é sempre algo positivo. Se alguém por aqui gostar de cultos solares estranhos e tradições ocultas, e não tiver grandes problemas a assistir a cenas de sexo ritual, homicídios e suicídios, então este Midsommar é um filme a não perder. E que comecem as festividades... ●●●●○

Apesar de todas as polémicas recentes, continuo a ser um apreciador dos trabalhos de Lars Von Trier. As borboletas entram em histeria no meu estômago antes de ver um "Von Trier", mas mesmo assim não resisto a ver. É um daqueles prazeres obscuros que é mais forte que eu. Quando li que o Lars ia fazer um filme sobre um psicopata, entrar dentro da sua mente e mostrar o crescimento de um assassino em série, pensei para mim: "Bem é melhor ir reforçar o meu stock de protector gástrico. Isto vai ser dureza...". Fui então ver The House That Jack Built, mas estranhamente, não aconteceu nada disso. Até é um filme relativamente "mole" (vindo de quem vem)... apesar de continuar a ser um filme "difícil" de ver...
É mais uma belíssima composição visual com fantásticos diálogos. Excelente realização como sempre, com actores de outro nível como o grande Matt Dillon, o grande Bruno Ganz e a grande Uma Thurman, entre tantos outros. Tudo muito bom e não me desiludiu nada. Mas o que mais estranhei foi ser um filme do Lars Von Trier. Por outro lado (e posso estar a imaginar coisas) tudo me pareceu extremamente críptico e cheio de segundos significados.
Após as recentes polémicas, parece que Lars Von Trier está a dar sinais exteriores. Às acusações constantes de misógino, ele arranjou uma solução óbvia: um serial killer à "maneira clássica de Hollywood". Pode parecer contraditório, mas quem o vai criticar por isso, quando o cinema moderno está hiper-povoado de serial killers que perseguem criancinhas e mulheres indefesas? Quem o criticasse pela escolha, teria de "enterrar" milhares de slashers e filmes de culto dos mais prestigiados realizadores que ao longo dos anos levaram milhões de pessoas às salas de cinema. Esta escolha por um serial killer não me parece nada inocente. Depois há, aparentemente, uma mensagem "interna". Parece que está a criar um novo manifesto, mas desta vez anti-Dogma95. Parece-me que ou quer acabar, ou quer questionar o seu próprio manifesto. Ou também pode-se dar o caso de estar a ficar sem financiamento e a tentar piscar o olho ao pessoal do dinheiro e dizer que também consegue fazer uns filmes mais ou menos "normais" em que o público não saia a correr deprimido ou a vomitar da sala de cinema. A inclusão constante de Fame de David Bowie pode ser a maior pista disto mesmo (o manifesto supostamente não permitia a inclusão de músicas na pós-produção), mas os efeitos especiais no final e uma série de outros pormenores indiciam que Von Trier se chateou com o grupo que ele próprio ajudou a criar. Ou então, lá está, como dizem os americanos, "money talks, bullshit walks". Não sei. Sinceramente, acho que o problema não é dinheiro. Acho que o problema é o carácter redutor do próprio manifesto e Von Trier já anda a lutar com ele há muitos anos. Parece-me é que decidiu agora dar-lhe a machadada final. Mas isto já são questões laterais...
Não sei muito bem porquê, mas sempre gostei quando os realizadores incorporam stock-footage nos filmes. Isso acontece muito por aqui. Mas há uma parte no final em que o stock-footage é de outros filmes do Lars Von Trier como Europa, Breaking the Waves, Dogville e outros. Apesar de ser mais uma das reflexões internas do Jack sobre a arquitetura e a arte, para mim soou-me a outra coisa. Vendo bem, todo filme é tratado como uma nova e estranha versão da Divina Comédia. A presença de Verge (Virgílio) não é coincidência. Jack comete os crimes e comenta-os com Verge que contra-argumenta ao mesmo tempo que lentamente o encaminha para o Inferno.
Estranhamente fiquei com a ideia de que este Jack é de alguma forma o próprio Lars Von Trier. Ele fez o seu próprio caminho de crimes (os filmes) e agora dirige-se para um Inferno de não-criação onde já não é mais possível criar sem entrar pelo circuito comercial, simbolizado pela recorrente Fame do David Bowie... Não sei... Se calhar estou a ver coisas onde elas não existem e a tirar significados que... Bem, acho que estou a divagar novamente. E demais.
Em relação a The House That Jack Built, a única coisa que posso dizer é que gostei sem ficar deslumbrado. Até gosto deste tom negro, que para além de não ser tão avassalador como seria de esperar, até tem uma qualidade mais refinada, mais polida. Em uma ou outra situação, entra até num tom irónico, quase cómico, o que diga-se, foi uma coisa estranhíssima. Para além de dores de barriga e desconforto, nunca na minha vida pensei esboçar um mini-sorriso a ver um filme do Von Trier.
Só há duas formas de apreciar os trabalhos do Lars: ou se gosta ou se detesta. Não há meio termo. Estou há muitos anos no primeiro grupo. The House That Jack Built, nem é dos meus filmes preferidos, mas veio cimentar - mais uma vez - Lars Von Trier como um dos melhores realizadores das últimas décadas. Muitíssimo recomendado. ●●●●○

Sentado no seu escritório, um escritor recorda os seus tempos de miúdo e as aventuras com os seus amigos mais próximos. Em particular, conta a história marcante de como ele e três amigos decidiram fugir de casa e fazer uma longa viagem para encontrar o corpo de um outro miúdo da vila que tendo desaparecido há algum tempo, se presumia que tivesse morrido. Pelo caminho, vão aprendendo coisas sobre si próprios e sobre a importância da amizade. Mas como têm a concorrência directa de um gang de "gunas", acabam também por aprenderem a defender-se e, mais importante ainda, a levantarem-se sem medo para defender o que está certo.
Baseado em "The Body" do mítico Stephen King e muito bem realizado por Rob Reiner, Stand By Me é um excelente filme de adolescentes. É ternurento, melancólico, alegre e macabro, tudo ao mesmo tempo e tudo muito bem equilibrado entre drama e aventura. Se Richard Dreyfuss, um gajo que sempre curti, é um "Stephen King" muito verosímil, os miúdos rebentam com a escala. Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Jerry O'Connell nos papéis dos bons miúdos, estão excelentes e só posso apontar coisas positivas às performances. Neste grupo, destaca-se de forma óbvia o River Phoenix porque tem uma maturidade e um à-vontade em frente das câmaras muito diferente dos outros. Poderia ter sido um excelente actor, mas como por vezes acontece com os sobredotados, simplesmente "queimam" rápido demais. Kiefer Sutherland é um "bad boy" muito convincente porque é um actor muito bom, como se viria a comprovar nos anos seguintes em montes de filmes.
Para quem não acompanhou o surgimento do cinema teenager nos anos 80 pode ser difícil de perceber porque é que coisas como o Stranger Things e sucedâneos têm tanto sucesso agora e conseguem cativar tanto público. É que este fenómeno não é novo. Tem as suas raízes em filmes como este ou os Goonies por exemplo. Acho que posso dizer que Stand By Me é uma espécie de antepassado destes sucessos actuais e futuros. Stand By Me é um filme que gosto bastante e que recomendo sempre. ●●●●○

Black Hawk Down é bom filme de guerra e retrata um episódio marcante do exército americano, no início dos anos 90. Numa incursão na Somália para capturar um senhor da guerra local, uma série de Rangers acaba por ficar presa numa zona extremamente hostil e sofre pesadas baixas às mãos de milícias armadas. É baseado numa história verídica. Lembro-me bastante bem do incidente original, bastante gráfico e macabro (com pilotos a serem mortos, corpos mutilados e arrastados pelas ruas de Mogadíscio) e que foi amplamente divulgado nos noticiários de todo o mundo.
O filme acaba por passar bastante bem a tensão daqueles momentos e gosto especialmente da forma como Ridley Scott conta a história sem tomar partidos, nem fazer exercícios de moralidade. Normalmente, no cinema americano, há uma tendência para embelezar o soldado americano e transformar o inimigo num demónio. Não é o que acontece aqui. A história incide sobretudo no sofrimento dos soldados, na desorientação, na violência do conflito e no caos da guerra, mais do que tentar justificar acções "boas" ou diabolizar acções "más". Nesse aspecto, está muito bem escrito. É sempre de louvar.
Black Hawk Down tem muitos e bons actores (Josh Hartnett, Ewan McGregor, Tom Sizemore, Eric Bana, Ewen Bremner, entre outros) e muita intensidade e realismo por parte de Ridley Scott, que, provavelmente, tem aqui um dos seus melhores filmes, apesar de não ter tido nem muito boa receção, nem o respectivo sucesso de bilheteira. ●●●○○

 
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