0046 Easy Rider
Posted by artzzz333
Posted on 11:59
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Precisava de ver um bom filme, por isso escolhi o Easy Rider (1969), que nunca tinha visto. Mas como é que se consegue saber se um filme é bom, mesmo antes de o ver? É fácil! Um filme sobre dois "dealers" (Billy e Captain America) que decidem fazer um "coast to coast" de mota para fazer um negócio no mítico Mardi Gras, só pode ser bom. Um filme com Dennis Hopper e Peter Fonda como representantes duma sociedade hippie no pós-1968, que surge como alternativa à (distorcida?) América ultra-conservadora, só pode ser bom. E não há dúvida: Easy Rider, um filme nascido para ser selvagem, é um filme muito bom. A prova disso mesmo é ser uma referência incontornável do cinema e da própria cultura. Até no pormenor da música que popularizou, Born to be Wild, que já foi usada para aí em 30 filmes e é uma referência obrigatória quando se fala em liberdade sem condições ou em querer romper com a rotina. Não achei que fosse uma obra-prima do cinema, principalmente porque Dennis Hopper não parece ser extremamente dotado em termos de realização (a estética é quase nula), mas é um filme muito bom.Uma das sequêcias mais marcantes acontece a meio da viagem, quando conhecem um advogado chamado George (Jack Nicholson) que tenta libertar-se do mundo conservador onde se sente demasiadamente preso. A conversa entre os três, à volta de uma fogueira, em que a personagem de Nicholson, mais habituada ao álcool, decide estrear-se a fumar marijuana, só por si, é um ícone e vale um filme inteiro. Destaque para Jack Nicholson, que em 20 minutos, consegue "roubar" totalmente o filme. Li algures que Terry Shouthern, que tinha já créditos no fenomenal Dr. Strangelove de Stanley Kubrick deu uma ajuda nesta parte do argumento. De facto, nota-se que se destaca do resto do filme. Aliás, também li que foi Shouthern quem tirou da cartola o excelente título, por isso é provável que tenha metido o dedo em mais algumas cenas. Mas isto são pormenores de bastidor.
É um filme sem floreados, cru (se calhar até em demasia), a acelerar estrada fora e sem concessões ao público. A demanda destes dois amigos queimadores de erva, que como diz no cartaz, vão ao encontro da América, mas não a encontram em lado nenhum, acaba por ser bastante linear. Mas o que é interessante não é a viagem propriamente dita, mas sim o que estas duas personagens estranhas encontram durante o percurso. Até porque na sua essência, o filme nem é sobre a viagem. É sobre o medo da mudança. É sobre as forças que nos puxam para trás. É sobre o medo de nos tornarmos autênticos "dinossauros" se não acompanharmos o andamento dos novos tempos. É sobre o choque entre o rural e o urbano. É sobre eras que parecem eternas mas que invevitalmente chegam ao fim. É sobre expectativas que nunca se cumprem. Temas universais que foram, são, e serão sempre actuais.
Easy Rider, tal como todos os grandes filmes, é muito mais do que aparenta. Quer isto dizer que está aberto a interpretações pessoais. Uma pessoa pode classificá-lo como um filmes de hippies cabeludos sem rumo, e outra pode vê-la como um filme sobre novos empreendedores. Afinal, os dois amigos fazem uma longa viagem para fazer negócio e não por diversão. Até o pormenor de Fonda guardar o dinheiro no depósito de gasolina da mota pode ser interpretado como o velho chavão que diz que o dinheiro faz o mundo girar. Cada um vê aquilo que quer ver.
Este filme é um verdadeiro clássico que todos os amantes de bom cinema deveriam ver. Era uma falha no meu reportório, mas agora já está preenchida. Pode não parecer, mas é incrivelmente difícil ver estes filmes.
Já passaram quase 50 anos, mas Easy Rider continua forte e estranhamente actual. As forças em conflito mudaram, mas o choque eterno entre culturas, entre o novo e o velho há-de sempre permanecer. Obviamente que um filme com esta temática, nunca pode acabar bem. Mas qual é o conflito que acaba bem? Isso fica bem expresso numa outra cena icónica, em que depois de tudo correr (mais ou menos) como planeado inicialmente, Fonda, desiludido, diz que estragaram tudo, "we blew it". A que é que ele se referia? Não se sabe. Acho que cada pessoa que vê o filme tirará as suas conclusões muito próprias. Para mim, o que correu mal, foi o próprio sonho americano. Ele funciona em termos económicos, mas perdeu a componente humana. A tolerância pelo diferente. A resistência à mudança nunca irá desaparecer e por isso vão haver sempre conflitos. O sonho idílico de paz e amor, é mesmo só isso, um sonho. Uma utopia, que por natureza, nunca se irá realizar.
Se o filme propriamente dito está aberto a múltiplas interpretações, também o final fica em aberto. E não digo mais nada, porque não quero estragar o clímax do filme. Será que o fim é mesmo o fim? Será que eles se safam e partem novamente em busca do que não encontraram? O melhor é ver Easy Rider e tirar as próprias conclusões. ●●●●●
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