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Jordan Benedict (Rock Hudson) é um rancheiro do Texas que está de visita a Maryland para comprar um garanhão para as suas propriedades. Enquanto negoceia a compra do animal com o dono, acaba por se cruzar com a filha dele (Elizabeth Taylor) e apaixona-se perdidamente. O amor é recíproco entre Leslie e Jordan, o que leva a que os dois se casem imediatamente, mudando-se para a gigantesca propriedade de Jordan no Texas. Aí encontram o cowboy Jett Rink (James Dean), que terá um papel bastante incisivo na história da família.
Vi algures num cartaz promocional do filme que dizia que Giant é um filme tão grande como o próprio Texas. Não conheço o Texas, mas posso dizer que Giant é mesmo... gigante. É um épico maciço de 200 minutos de filme. Não seria para menos. Não só esta é a história de um triângulo estranho de amores e desavenças entre os três protagonistas, como também abarca praticamente três gerações da família Benedict. Desde os tempos iniciais do casamento, ao aparecimento dos primeiros filhos, passando pela divergência com Jett Rink, há muita história para contar. Se fosse hoje, para além do filme, esta história daria uma série para aí com umas três temporadas. E como para além da parte do rancho, esta história também tem que ver com o famoso petróleo do Texas, não me admiraria que tivesse sido a base de inspiração para a série Dallas e restantes soap operas americanas com magnatas do petróleo. Jett Rink no Giant? J.R. Ewing no Dallas? Não me parece que tivesse sido coincidência... Mas adiante.
Apesar das mais de três horas de filme, Giant não é massudo. A realização ampla e muito fluída de George Stevens, mas principalmente o argumento de Fred Guiol e Ivan Moffat fazem toda a diferença. Há sempre coisas novas a acontecer, há sempre reviravoltas e há sempre acção e emoções ao rubro. Está muito bem escrito. A presença no ecrã de verdadeiros monstros do cinema como Rock Hudson, Elizabeth Taylor e James Dean também ajudam. Não é todos os dias que se pode ver um filme em que os actores são verdadeiras lendas. Estes estatutos não se ganham só porque sim. Estes três, especialmente, têm de facto uma auréola. Há qualquer coisa neles que é magnético e inexplicável. E depois, em tanta história para contar, ainda há um rol infindável de excelentes actores como Mercedes McCambridge, Dennis Hopper (não sabia que ele alguma vez tinha sido novo...), Rod Taylor ou Carroll Baker. Tudo prestações clássicas de Hollywood.
Já queria ver este Giant há muitos anos. Tive agora a oportunidade numa reposição em TV. E queria vê-lo porque estava em falta na minha "trilogia James Dean". Os outros dois filmes dele são fantásticos e tinha muita curiosidade em ver Dean neste que foi o seu último papel. Não estando mal na personagem, James Dean foi quem mais me decepcionou. Estava à espera de outra coisa... Acho que foi mais um caso de altas expectativas não correspondidas... Não sei se foi a prestação, se foi a personagem, mas sei que algo não funcionou bem. Acho que aquela personagem com um lado marcadamente mau e ressentido não lhe assentou bem e por isso a performance também acabou por sair estranha. Toda a prestação tem uma aura muito estranha e diferente das anteriores. Jett Rink/James Dean acaba por destoar não só do restante elenco, como até do próprio filme...
O que sei é que para além de serem antagónicos no filme, James Dean e Rock Hudson também se deram bastante mal fora das filmagens. São conhecidas inúmeras situações em que Dean deu uma de bad boy durante a rodagem de Giant, ao ponto de boicotar as filmagens. Pelo que li Dean deu-se mal com toda a gente, inclusive com George Stevens, sendo que a única pessoa com quem se dava bem era precisamente com Elizabeth Taylor. Tudo isto é muito estranho porque basicamente é o guião do próprio filme. Terá sido mais um actor a levar longe demais o papel? Não sei. Mas que é estranho, é.
Precisamente devido ao James Dean, este filme está repleto de mística. No último dia de filmagens, Dean recebeu o célebre Porsche Spyder no cenário. Uma semana depois James Dean teria um acidente fatal. E assim nascia um mito. Um gigante do cinema. Algumas das suas cenas tiveram que ser cortadas e outras tiveram de ser dobradas sonoramente para poderem chegar à versão final de Giant. O filme não se ressentiu e ganhou o estatuto de mítico.
Este épico familiar continua ainda hoje a ter vivacidade, e de certa forma, tem um ar moderno e  contemporâneo porque aborda algumas das mesmas questões fracturantes. As diferença do Texas para com o "mundo exterior". A riqueza e a opulência em confronto com o respeito e a vulgaridade. A interferência da guerra no contexto familiar. A luta pela igualdade e contra o racismo. As personalidades vincadas mas humanamente flexíveis de cada uma das personagens ao longo do tempo. Giant é mesmo grande em tudo. Apesar da pouca visibilidade mediática quando comparado com outros épicos da mesma altura, Giant é um dos marcos do cinema de Hollywood. Um clássico obrigatório. ●●●

Nos anos 90, os estúdios arriscavam tudo por um bom blockbuster. Incluindo filmar (quase) exclusivamente em ambientes aquáticos. Não sou grande conhecedor da parte da produção, mas já li bastante sobre o assunto para perceber que isto é uma receita para o desastre. E foi o que aconteceu. São inúmeras as histórias dos problemas decorrentes de filmar neste tipo de ambientes. É preciso ver estes filmes mais antigos para perceber porque é que um estúdio hoje em dia gasta 100 ou 200 milhões de dólares numa produção. É que na altura gastava essa quantia (e foi o caso do Waterworld) e ficava à espera para ver se o público cobria o gasto baseado no feeling que seria um blockbuster. Era um jogo. Às vezes funcionava, outras vezes não, como foi o caso. E ia levando o estúdio à falência. O que os estúdios aprenderam com estes "erros" é que podiam retirar o risco da equação. Se voltassem sempre às mesmas temáticas, se apostassem no que os fãs querem ver, se fizessem uns estudos de mercados e nuns pré-releases privados para limar as arestas, e filmassem em estúdio com um fundo verde de fundo, os estúdios praticamente não teriam risco. E foi o que aconteceu. Por isso é que estamos neste loop de blockbusters que parecem todos iguais, que têm a mesma história e que parecem assentar todos na mesma estrutura. Ninguém vai arriscar gastar 200 ou 300 milhões de dólares e esperar que o feeling esteja certo. Tem de estar certo. Tem de ser um produto vendável e financeiramente positivo. Daí que os filmes mais recentes parecerem não ter "alma". É porque não têm mesmo. São produtos multimédia de grande consumo. Estão na mesma classe dos electrodomésticos. Bem, neste caso é na classe de entretenimento. É mais um lançamento de um novo parque de diversões da Disney. Aquilo dificilmente falha. Não é coincidência que este Waterworld tenha estreado ao mesmo tempo dois ou três parques de diversão com a mesma temática pela Universal Studios. Mas isso é outra história.
Para além de ter durante muito tempo a etiqueta do filme mais caro de sempre, também teve a infeliz marca do maior flop financeiro de sempre. Terá sido porque a história era demasiado à frente do seu tempo? Não sei dizer. Mas em 1995, vir falar de alterações climáticas extremas, derretimento das calotas polares e subida do nível dos mares é capaz de ter sido um dos factores. Waterworld, de Kevin Reynolds, é quase premonitório. Num futuro distante, as alterações climáticas fazem com que a subida do nível do mares cubra toda a Terra de água. Na senda dos clássicos filmes pós-apocalípticos, a humanidade sobrevive mas altera-se radicalmente. Há pequenas comunidades a viver em atóis artificiais e há piratas que os aterrorizam. Pelo meio há o também clássico anti-herói que não se enquadra nas categorias anteriores. O motor de todo o filme é a procura dum mítico sítio com terra firme. O mapa para esse local está tatuado nas costas de uma miudinha, que é perseguida pelos piratas. E assim o anti-herói vai lentamente envolver-se no conflito. A premissa até é boa e a história até está bem esbugalhada; o problema é terem querido transformar um filme de ficção cientifica num blockbuster de acção e explosões. Os grandes estúdios não conseguem desligar-se do típico guião de acção e do bom contra o mau. E assim, simplesmente, Waterworld dissolve toda e qualquer introspecção sobre a temática ecológica e reduz toda a história a uma perseguição do mau ao bom e em que o bom (Kevin Costner), no último segundo, derrota o mau (Dennis Hopper) e fica com a namorada (Jeanne Tripplehorn) no final. A coisa perdeu-se de tal forma que no final nem é uma coisa nem outra. Por isso mesmo, apesar de ter alguns bons pormenores, Waterworld acaba por ser apenas mediano a descambar para o fracote. É pena porque tinha aqui material para um bom filmito. Este é um dos casos em que considero que deveriam fazer um remake○○○

Precisava de ver um bom filme, por isso escolhi o Easy Rider (1969), que nunca tinha visto. Mas como é que se consegue saber se um filme é bom, mesmo antes de o ver? É fácil! Um filme sobre dois "dealers" (Billy e Captain America) que decidem fazer um "coast to coast" de mota para fazer um negócio no mítico Mardi Gras, só pode ser bom. Um filme com Dennis Hopper e Peter Fonda como representantes duma sociedade hippie no pós-1968, que surge como alternativa à (distorcida?) América ultra-conservadora, só pode ser bom. E não há dúvida: Easy Rider, um filme nascido para ser selvagem, é um filme muito bom. A prova disso mesmo é ser uma referência incontornável do cinema e da própria cultura. Até no pormenor da música que popularizou, Born to be Wild, que já foi usada para aí em 30 filmes e é uma referência obrigatória quando se fala em liberdade sem condições ou em querer romper com a rotina. Não achei que fosse uma obra-prima do cinema, principalmente porque Dennis Hopper não parece ser extremamente dotado em termos de realização (a estética é quase nula), mas é um filme muito bom.
Uma das sequêcias mais marcantes acontece a meio da viagem, quando conhecem um advogado chamado George (Jack Nicholson) que tenta libertar-se do mundo conservador onde se sente demasiadamente preso. A conversa entre os três, à  volta de uma fogueira, em que a personagem de Nicholson, mais habituada ao álcool, decide estrear-se a fumar marijuana, só por si, é um ícone e vale um filme inteiro. Destaque para Jack Nicholson, que em 20 minutos, consegue "roubar" totalmente o filme. Li algures que Terry Shouthern, que tinha já créditos no fenomenal Dr. Strangelove de Stanley Kubrick deu uma ajuda nesta parte do argumento. De facto, nota-se que se destaca do resto do filme. Aliás, também li que foi Shouthern quem tirou da cartola o excelente título, por isso é provável que tenha metido o dedo em mais algumas cenas. Mas isto são pormenores de bastidor.
É um filme sem floreados, cru (se calhar até em demasia), a acelerar estrada fora e sem concessões ao público. A demanda destes dois amigos queimadores de erva, que como diz no cartaz, vão ao encontro da América, mas não a encontram em lado nenhum, acaba por ser bastante linear. Mas o que é interessante não é a viagem propriamente dita, mas sim o que estas duas personagens estranhas encontram durante o percurso. Até porque na sua essência, o filme nem é sobre a viagem. É sobre o medo da mudança. É sobre as forças que nos puxam para trás. É sobre o medo de nos tornarmos autênticos "dinossauros" se não acompanharmos o andamento dos novos tempos. É sobre o choque entre o rural e o urbano. É sobre eras que parecem eternas mas que invevitalmente chegam ao fim. É sobre expectativas que nunca se cumprem. Temas universais que foram, são, e serão sempre actuais.
Easy Rider, tal como todos os grandes filmes, é muito mais do que aparenta. Quer isto dizer que está aberto a interpretações pessoais. Uma pessoa pode classificá-lo como um filmes de hippies cabeludos sem rumo, e outra pode vê-la como um filme sobre novos empreendedores. Afinal, os dois amigos fazem uma longa viagem para fazer negócio e não por diversão. Até o pormenor de Fonda guardar o dinheiro no depósito de gasolina da mota pode ser interpretado como o velho chavão que diz que o dinheiro faz o mundo girar. Cada um vê aquilo que quer ver.
Este filme é um verdadeiro clássico que todos os amantes de bom cinema deveriam ver. Era uma falha no meu reportório, mas agora já está preenchida. Pode não parecer, mas é incrivelmente difícil ver estes filmes.
Já passaram quase 50 anos, mas Easy Rider continua forte e estranhamente actual. As forças em conflito mudaram, mas o choque eterno entre culturas, entre o novo e o velho há-de sempre permanecer. Obviamente que um filme com esta temática, nunca pode acabar bem. Mas qual é o conflito que acaba bem? Isso fica bem expresso numa outra cena icónica, em que depois de tudo correr (mais ou menos) como planeado inicialmente, Fonda, desiludido, diz que estragaram tudo, "we blew it". A que é que ele se referia? Não se sabe. Acho que cada pessoa que vê o filme tirará as suas conclusões muito próprias. Para mim, o que correu mal, foi o próprio sonho americano. Ele funciona em termos económicos, mas perdeu a componente humana. A tolerância pelo diferente. A resistência à mudança nunca irá desaparecer e por isso vão haver sempre conflitos. O sonho idílico de paz e amor, é mesmo só isso, um sonho. Uma utopia, que por natureza, nunca se irá realizar.
Se o filme propriamente dito está aberto a múltiplas interpretações, também o final fica em aberto. E não digo mais nada, porque não quero estragar o clímax do filme. Será que o fim é mesmo o fim? Será que eles se safam e partem novamente em busca do que não encontraram? O melhor é ver Easy Rider e tirar as próprias conclusões. ●●●●●

 
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