Em 1951 estreava The Day the Earth Stood Still para espanto dos frequentadores de cinema. Em 2008 chegou aos cinemas um remake com o mesmo título. A história de base para esta nova adaptação vem realmente do filme e não do conto original, o que demonstra que por si só o filme já é uma fonte de inspiração directa e o quanto foi marcante. Apesar de passar mais de 50 anos desde a estreia do original, as alterações na história não são assim tão substanciais, o que demonstra também que há qualquer coisa de universal e intemporal na mensagem do filme.
Tal como no original, uma misteriosa nave, agora uma misteriosa orbe verde, aterra na América no Central Park. Junto com outros especialistas, Helen Benson (Jennifer Connelly) é uma cientista que é chamada de emergência para resolver esta crise repentina e responder a questões prementes. De dentro da nave sai um extraterrestre com forma humana - que mais tarde se saberá que se chama Klaatu (Keanu Reeves) - e junto com ele, vem também um ameaçador robot gigante. À chegada, a mensagem de Klaatu é de paz e ele diz que vem salvar o planeta Terra. O choque entre civilizações não corre bem e Klaatu é preso e levado para interrogatório. Mas Klaatu tem alguns truques na manga e consegue fugir com a ajuda de Helen e revela que vem salvar a Terra... dos humanos que sem consciência ecológica têm vindo a destruir o planeta.
As comparações com o filme original são óbvias e o cerne da questão continua a ser o mesmo: o conflito. Mas se no primeiro filme, o conflito era a Guerra Fria e a ameaça era a proliferação das armas nucleares, nesta nova versão, o conflito é ecológico e a ameaça é a obliteração do mundo natural. No resto do filme tudo se mantém mais ou menos igual. Obviamente que tendo as ferramentas digitais ao serviço, Scott Derrickson usou e abusou deste artifício. Até em situações em que não faziam falta nenhuma, mas a necessidade de dar velocidade à acção é quase imperativa hoje em dia. Paradoxalmente é o seu maior problema. Mas por outro lado, ajuda bastante como é o caso do robot GORT que invés de ser uma simples "lata metálica" acaba por aparecer totalmente retransformado e muito mais ameaçador que o original. E muito maior também. E para mim, a grande figura do The Day the Earth Stood Still será sempre aquele robot. Aqui, os upgrades são mais que evidentes. GORT agora é significado de Genetically Organized Robotic Technology, uma espécie de forma biológica composta por milhões de nano-robots devoradores de matéria e auto-replicantes. Uma ideia absolutamente aterradora se pensarmos bem. GORT é tão poderoso, que ao contrário do que aconteceu no primeiro filme em que a electricidade é desactivada temporariamente (daí o dia em que a Terra parou), aqui ela é desactivada mundialmente e de forma definitiva, numa clara alusão à necessidade de refrear o ímpeto de destruição da natureza.
Keanu Reeves encaixa perfeitamente no papel de Klaatu. Reeves nunca foi um actor do meu agrado porque me parece pouco expressivo em termos faciais. Não sei explicar muito bem este fenómeno, mas neste caso (como noutros papéis) acho que fica impecável. Jennifer Connelly é a nova humana "compreensiva" e como actriz, Connelly terá sempre a minha aprovação. O restante pessoal é mesmo muito secundário como é normal nestas produções mais mainstream (Kathy Bates, Jaden Smith e John Cleese) por isso o único destaque terá de ser para o Jon Hamm, não pela performance, mas porque é uma versão moderna do original "Hugh Marlowe", replicando exemplarmente a personagem, ao ponto de copiar inteiramente o look físico original. As personagens são todas muito boas, mas acho que a personagem estereotipada do "humano intolerante e desconfiada" da mudança e da novidade é sempre de realçar...
The Day the Earth Stood Still não sofreu muito com o efeito remake moderno. Continua a ter bons momentos e bons pormenores e acabou por se reinventar com uma nova mensagem anti-conflito, desta vez, enveredando pela questão ecológica e com efeitos mais permanentes. Não afronta o original e vê-se bem. ●●○○○
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Um astronauta de sentimentos bastante contidos aceita uma missão através do sistema solar para tentar descobrir a verdade sobre o desaparecimento do pai, 30 anos antes, assim como tentar travar uma ameaça estelar que põe em perigo o planeta Terra e a sobrevivência da Humanidade. A premissa não é má de todo, mas é o desenvolvimento do filme e a própria ambiência e ritmo que acabam por marcar negativamente este Ad Astra.
Apesar do título (uma referência em latim que se traduz qualquer coisa como "para as estrelas"), pouco há de verdadeiramente espacial para ver. É uma das muitas falhas do filme. É inegável a influência de Interstellar, mas que neste caso funciona apenas como uma espécie de cópia mais pobre. Apesar das parecenças, Ad Astra tem muito menos alma, apesar do moralismo omnipresente.
Brad Pitt, Tommy Lee Jones, Donald Sutherland e Ruth Negga compõe o casting principal mas não aquecem nem arrefecem. Aliás, nos últimos tempos, Brad Pitt - em tempos um bad boy irreverente e irrequieto - aparece sempre associado a personagens que nitidamente estão sob o efeito de tranquilizantes. Acho que está a tentar entrar noutro tipo de filmes mas sérios e dramáticos, mas também pode ser um coincidência. Ou então anda mesmo sob o efeito de tranquilizantes. Tommy Lee Jones quase não tem personagem nem tempo de antena para desenvolver convenientemente uma personagem, assim como Sutherland e Negga. A juntar a isto há um ritmo lentíssimo de filme que faz com que se torne desinteressante e que eu quase adormecesse em algumas alturas do filme.
Dito isto, Ad Astra pode parecer um péssimo filme, mas também não é assim tão mau. Eu é que tinha expectativas algo elevadas e a visualização saiu-me furada. Mas do que uma consideração profunda dos conflitos entre pai e filho, Homem e Deus, Ad Astra é mais uma perseguição lenta e solitária no espaço do que outra coisa, que ainda por cima tem final muito pouco satisfatório. Tem bons pormenores na realização (James Gray), um banda sonora melhor que média, o que ajuda a elevar um pouco o filme, mas no conjunto, Ad Astra acaba por se tornar inócuo e totalmente esquecível. Mais uma oportunidade desperdiçada... ●●○○○
Apesar do título (uma referência em latim que se traduz qualquer coisa como "para as estrelas"), pouco há de verdadeiramente espacial para ver. É uma das muitas falhas do filme. É inegável a influência de Interstellar, mas que neste caso funciona apenas como uma espécie de cópia mais pobre. Apesar das parecenças, Ad Astra tem muito menos alma, apesar do moralismo omnipresente.
Brad Pitt, Tommy Lee Jones, Donald Sutherland e Ruth Negga compõe o casting principal mas não aquecem nem arrefecem. Aliás, nos últimos tempos, Brad Pitt - em tempos um bad boy irreverente e irrequieto - aparece sempre associado a personagens que nitidamente estão sob o efeito de tranquilizantes. Acho que está a tentar entrar noutro tipo de filmes mas sérios e dramáticos, mas também pode ser um coincidência. Ou então anda mesmo sob o efeito de tranquilizantes. Tommy Lee Jones quase não tem personagem nem tempo de antena para desenvolver convenientemente uma personagem, assim como Sutherland e Negga. A juntar a isto há um ritmo lentíssimo de filme que faz com que se torne desinteressante e que eu quase adormecesse em algumas alturas do filme.
Dito isto, Ad Astra pode parecer um péssimo filme, mas também não é assim tão mau. Eu é que tinha expectativas algo elevadas e a visualização saiu-me furada. Mas do que uma consideração profunda dos conflitos entre pai e filho, Homem e Deus, Ad Astra é mais uma perseguição lenta e solitária no espaço do que outra coisa, que ainda por cima tem final muito pouco satisfatório. Tem bons pormenores na realização (James Gray), um banda sonora melhor que média, o que ajuda a elevar um pouco o filme, mas no conjunto, Ad Astra acaba por se tornar inócuo e totalmente esquecível. Mais uma oportunidade desperdiçada... ●●○○○
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De Baz Luhrmann. Com um grande sublinhado muito carregado e bem fluorescente. Uma obra cinematográfica única. Ninguém filma de forma tão brilhante como Baz Luhrmann. E brilhante, é uma das palavras-chave deste filme e do reportório seguinte.
Este foi o meu primeiro contacto com Baz e a sensação com que fiquei quando o vi o filme pela primeira vez é que me tinham atado fogo-de-artifício ao cérebro e lhe tinham pegado fogo. Romeo and Juliet (1996), pensando bem, não é bem um filme. É mais um estímulo dos sentidos.
A história trágica de amores desencontrados, separados por famílias em conflito, já toda a gente a conhece e dispensa apresentação. Já a vi ser adaptada para cinema uma meia dúzia de vezes, mas nunca tinha visto (nem vi) nada assim. A única palavra que me vem à cabeça, é mesma essa: único.
É um daqueles filmes que marca uma década e uma geração. Mas por outro lado, o filme é também uma marca da década e da própria geração. É uma mistura improvável, só possível devido aos excessos e à depressão dos anos 90. Poucos filmes conseguem captar o espírito duma geração. Romeo and Juliet, de uma forma estranha e rocambolesca, conseguiu-o. Para além das milhões de adolescentes que se bababam com o protagonista principal, é também o filme em que os adolescentes dos 90's percebem que vão entrar na idade adulta. Só podia ser uma tragédia.
As caras bonitas da altura, à procura de afirmação, mas ainda relativamente desconhecidas, Leonardo DiCaprio e Claire Danes, tornaram-se automaticamente em super-estrelas. E não porque eram apenas caras bonitas, mas porque se revelaram realmente como excelentes actores. Alguém que tenha passado a adolescência nos 90's relaciona instintivamente Dicaprio e Danes com a tragédia de Romeu e Julieta. Acho que isso os torna também, automaticamente, em excelentes actores. É como se, a determinada altura, eles deixassem de representar e se tornassem mesmo nas personagens. Num filme de tom assumidamente burlesco, com uma dificílima linguagem Shakespeareana, ainda abona mais a favor dos dois miúdos. A acompanhar esta dupla perfeita, um elenco underdog, mas de peso como John Leguizamo, Pete Postlethwaite, Brian Dennehy e Paul Sorvino.
Mas a estrela que brilhou mais que todas, foi mesmo Baz Luhrmann. Inventou um género novo de filme: o filme carregado de glitter e fogo-de-artifício, com uma montagem rápida e banda sonora alternativa: o filme tipo-Luhrmann. A qualidade até pode ser discutível, mas o estilo não é de certeza.
Como é que alguém consegue transpor aquela história directamente de Shakespeare, com aquela linguagem imensamente rígida, para um tempo moderno, quase intemporal, e transformá-la num filme pop espectacular? É uma incógnita. Ainda por cima, lá está, com tanto brilho, tanta pluma, tanto fogo-de-artifício? Este filme tinha todos os ingredientes para ser tornar numa aberração. Com um estilo único, diferente de tudo o que já se tinha visto até ali, Baz Luhrmann conseguiu torná-lo numa obra prima dos tempos modernos. ●●●●○
Este foi o meu primeiro contacto com Baz e a sensação com que fiquei quando o vi o filme pela primeira vez é que me tinham atado fogo-de-artifício ao cérebro e lhe tinham pegado fogo. Romeo and Juliet (1996), pensando bem, não é bem um filme. É mais um estímulo dos sentidos.
A história trágica de amores desencontrados, separados por famílias em conflito, já toda a gente a conhece e dispensa apresentação. Já a vi ser adaptada para cinema uma meia dúzia de vezes, mas nunca tinha visto (nem vi) nada assim. A única palavra que me vem à cabeça, é mesma essa: único.
É um daqueles filmes que marca uma década e uma geração. Mas por outro lado, o filme é também uma marca da década e da própria geração. É uma mistura improvável, só possível devido aos excessos e à depressão dos anos 90. Poucos filmes conseguem captar o espírito duma geração. Romeo and Juliet, de uma forma estranha e rocambolesca, conseguiu-o. Para além das milhões de adolescentes que se bababam com o protagonista principal, é também o filme em que os adolescentes dos 90's percebem que vão entrar na idade adulta. Só podia ser uma tragédia.
As caras bonitas da altura, à procura de afirmação, mas ainda relativamente desconhecidas, Leonardo DiCaprio e Claire Danes, tornaram-se automaticamente em super-estrelas. E não porque eram apenas caras bonitas, mas porque se revelaram realmente como excelentes actores. Alguém que tenha passado a adolescência nos 90's relaciona instintivamente Dicaprio e Danes com a tragédia de Romeu e Julieta. Acho que isso os torna também, automaticamente, em excelentes actores. É como se, a determinada altura, eles deixassem de representar e se tornassem mesmo nas personagens. Num filme de tom assumidamente burlesco, com uma dificílima linguagem Shakespeareana, ainda abona mais a favor dos dois miúdos. A acompanhar esta dupla perfeita, um elenco underdog, mas de peso como John Leguizamo, Pete Postlethwaite, Brian Dennehy e Paul Sorvino.
Mas a estrela que brilhou mais que todas, foi mesmo Baz Luhrmann. Inventou um género novo de filme: o filme carregado de glitter e fogo-de-artifício, com uma montagem rápida e banda sonora alternativa: o filme tipo-Luhrmann. A qualidade até pode ser discutível, mas o estilo não é de certeza.
Como é que alguém consegue transpor aquela história directamente de Shakespeare, com aquela linguagem imensamente rígida, para um tempo moderno, quase intemporal, e transformá-la num filme pop espectacular? É uma incógnita. Ainda por cima, lá está, com tanto brilho, tanta pluma, tanto fogo-de-artifício? Este filme tinha todos os ingredientes para ser tornar numa aberração. Com um estilo único, diferente de tudo o que já se tinha visto até ali, Baz Luhrmann conseguiu torná-lo numa obra prima dos tempos modernos. ●●●●○
Precisava de ver um bom filme, por isso escolhi o Easy Rider (1969), que nunca tinha visto. Mas como é que se consegue saber se um filme é bom, mesmo antes de o ver? É fácil! Um filme sobre dois "dealers" (Billy e Captain America) que decidem fazer um "coast to coast" de mota para fazer um negócio no mítico Mardi Gras, só pode ser bom. Um filme com Dennis Hopper e Peter Fonda como representantes duma sociedade hippie no pós-1968, que surge como alternativa à (distorcida?) América ultra-conservadora, só pode ser bom. E não há dúvida: Easy Rider, um filme nascido para ser selvagem, é um filme muito bom. A prova disso mesmo é ser uma referência incontornável do cinema e da própria cultura. Até no pormenor da música que popularizou, Born to be Wild, que já foi usada para aí em 30 filmes e é uma referência obrigatória quando se fala em liberdade sem condições ou em querer romper com a rotina. Não achei que fosse uma obra-prima do cinema, principalmente porque Dennis Hopper não parece ser extremamente dotado em termos de realização (a estética é quase nula), mas é um filme muito bom.
Uma das sequêcias mais marcantes acontece a meio da viagem, quando conhecem um advogado chamado George (Jack Nicholson) que tenta libertar-se do mundo conservador onde se sente demasiadamente preso. A conversa entre os três, à volta de uma fogueira, em que a personagem de Nicholson, mais habituada ao álcool, decide estrear-se a fumar marijuana, só por si, é um ícone e vale um filme inteiro. Destaque para Jack Nicholson, que em 20 minutos, consegue "roubar" totalmente o filme. Li algures que Terry Shouthern, que tinha já créditos no fenomenal Dr. Strangelove de Stanley Kubrick deu uma ajuda nesta parte do argumento. De facto, nota-se que se destaca do resto do filme. Aliás, também li que foi Shouthern quem tirou da cartola o excelente título, por isso é provável que tenha metido o dedo em mais algumas cenas. Mas isto são pormenores de bastidor.
É um filme sem floreados, cru (se calhar até em demasia), a acelerar estrada fora e sem concessões ao público. A demanda destes dois amigos queimadores de erva, que como diz no cartaz, vão ao encontro da América, mas não a encontram em lado nenhum, acaba por ser bastante linear. Mas o que é interessante não é a viagem propriamente dita, mas sim o que estas duas personagens estranhas encontram durante o percurso. Até porque na sua essência, o filme nem é sobre a viagem. É sobre o medo da mudança. É sobre as forças que nos puxam para trás. É sobre o medo de nos tornarmos autênticos "dinossauros" se não acompanharmos o andamento dos novos tempos. É sobre o choque entre o rural e o urbano. É sobre eras que parecem eternas mas que invevitalmente chegam ao fim. É sobre expectativas que nunca se cumprem. Temas universais que foram, são, e serão sempre actuais.
Easy Rider, tal como todos os grandes filmes, é muito mais do que aparenta. Quer isto dizer que está aberto a interpretações pessoais. Uma pessoa pode classificá-lo como um filmes de hippies cabeludos sem rumo, e outra pode vê-la como um filme sobre novos empreendedores. Afinal, os dois amigos fazem uma longa viagem para fazer negócio e não por diversão. Até o pormenor de Fonda guardar o dinheiro no depósito de gasolina da mota pode ser interpretado como o velho chavão que diz que o dinheiro faz o mundo girar. Cada um vê aquilo que quer ver.
Este filme é um verdadeiro clássico que todos os amantes de bom cinema deveriam ver. Era uma falha no meu reportório, mas agora já está preenchida. Pode não parecer, mas é incrivelmente difícil ver estes filmes.
Já passaram quase 50 anos, mas Easy Rider continua forte e estranhamente actual. As forças em conflito mudaram, mas o choque eterno entre culturas, entre o novo e o velho há-de sempre permanecer. Obviamente que um filme com esta temática, nunca pode acabar bem. Mas qual é o conflito que acaba bem? Isso fica bem expresso numa outra cena icónica, em que depois de tudo correr (mais ou menos) como planeado inicialmente, Fonda, desiludido, diz que estragaram tudo, "we blew it". A que é que ele se referia? Não se sabe. Acho que cada pessoa que vê o filme tirará as suas conclusões muito próprias. Para mim, o que correu mal, foi o próprio sonho americano. Ele funciona em termos económicos, mas perdeu a componente humana. A tolerância pelo diferente. A resistência à mudança nunca irá desaparecer e por isso vão haver sempre conflitos. O sonho idílico de paz e amor, é mesmo só isso, um sonho. Uma utopia, que por natureza, nunca se irá realizar.
Se o filme propriamente dito está aberto a múltiplas interpretações, também o final fica em aberto. E não digo mais nada, porque não quero estragar o clímax do filme. Será que o fim é mesmo o fim? Será que eles se safam e partem novamente em busca do que não encontraram? O melhor é ver Easy Rider e tirar as próprias conclusões. ●●●●●
Uma das sequêcias mais marcantes acontece a meio da viagem, quando conhecem um advogado chamado George (Jack Nicholson) que tenta libertar-se do mundo conservador onde se sente demasiadamente preso. A conversa entre os três, à volta de uma fogueira, em que a personagem de Nicholson, mais habituada ao álcool, decide estrear-se a fumar marijuana, só por si, é um ícone e vale um filme inteiro. Destaque para Jack Nicholson, que em 20 minutos, consegue "roubar" totalmente o filme. Li algures que Terry Shouthern, que tinha já créditos no fenomenal Dr. Strangelove de Stanley Kubrick deu uma ajuda nesta parte do argumento. De facto, nota-se que se destaca do resto do filme. Aliás, também li que foi Shouthern quem tirou da cartola o excelente título, por isso é provável que tenha metido o dedo em mais algumas cenas. Mas isto são pormenores de bastidor.
É um filme sem floreados, cru (se calhar até em demasia), a acelerar estrada fora e sem concessões ao público. A demanda destes dois amigos queimadores de erva, que como diz no cartaz, vão ao encontro da América, mas não a encontram em lado nenhum, acaba por ser bastante linear. Mas o que é interessante não é a viagem propriamente dita, mas sim o que estas duas personagens estranhas encontram durante o percurso. Até porque na sua essência, o filme nem é sobre a viagem. É sobre o medo da mudança. É sobre as forças que nos puxam para trás. É sobre o medo de nos tornarmos autênticos "dinossauros" se não acompanharmos o andamento dos novos tempos. É sobre o choque entre o rural e o urbano. É sobre eras que parecem eternas mas que invevitalmente chegam ao fim. É sobre expectativas que nunca se cumprem. Temas universais que foram, são, e serão sempre actuais.
Easy Rider, tal como todos os grandes filmes, é muito mais do que aparenta. Quer isto dizer que está aberto a interpretações pessoais. Uma pessoa pode classificá-lo como um filmes de hippies cabeludos sem rumo, e outra pode vê-la como um filme sobre novos empreendedores. Afinal, os dois amigos fazem uma longa viagem para fazer negócio e não por diversão. Até o pormenor de Fonda guardar o dinheiro no depósito de gasolina da mota pode ser interpretado como o velho chavão que diz que o dinheiro faz o mundo girar. Cada um vê aquilo que quer ver.
Este filme é um verdadeiro clássico que todos os amantes de bom cinema deveriam ver. Era uma falha no meu reportório, mas agora já está preenchida. Pode não parecer, mas é incrivelmente difícil ver estes filmes.
Já passaram quase 50 anos, mas Easy Rider continua forte e estranhamente actual. As forças em conflito mudaram, mas o choque eterno entre culturas, entre o novo e o velho há-de sempre permanecer. Obviamente que um filme com esta temática, nunca pode acabar bem. Mas qual é o conflito que acaba bem? Isso fica bem expresso numa outra cena icónica, em que depois de tudo correr (mais ou menos) como planeado inicialmente, Fonda, desiludido, diz que estragaram tudo, "we blew it". A que é que ele se referia? Não se sabe. Acho que cada pessoa que vê o filme tirará as suas conclusões muito próprias. Para mim, o que correu mal, foi o próprio sonho americano. Ele funciona em termos económicos, mas perdeu a componente humana. A tolerância pelo diferente. A resistência à mudança nunca irá desaparecer e por isso vão haver sempre conflitos. O sonho idílico de paz e amor, é mesmo só isso, um sonho. Uma utopia, que por natureza, nunca se irá realizar.
Se o filme propriamente dito está aberto a múltiplas interpretações, também o final fica em aberto. E não digo mais nada, porque não quero estragar o clímax do filme. Será que o fim é mesmo o fim? Será que eles se safam e partem novamente em busca do que não encontraram? O melhor é ver Easy Rider e tirar as próprias conclusões. ●●●●●
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