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dois tipos de crítica

 
Uma pessoa está a ler o jornal e chega à parte do cinema. Num canto está a avaliação do crítico de cinema que avalia os filmes usando uma escala de estrelas. Nunca liguei muito a essas classificações, porque me apercebi que não batiam certo com a minha lógica. Aliás, parecia que não batia certo com a lógica de ninguém. Cheguei a ouvir pessoas a comentar: "Olha, este filme está cotado com muitas estrelas. Não deve prestar para nada" ou então: "Se estes gajos dizem que o filme não presta então é porque é bom" Presumo que esta situação já deve ter acontecido com toda a gente...

Também acontecia comigo. Normalmente até consultava as tabelas de atribuição de estrelas para saber quais os filmes a ver ou a evitar. E o mais estranho é que normalmente batia certo. Mas como o passar do tempo, e à medida que via cada vez mais filmes, a minha perspectiva começou a mudar... Só há pouco tempo é que percebi porquê.

Ao longo dos tempos apercebi-me que existem dois tipos de crítica: a crítica especializada e a crítica generalizada. Apesar de terem uma base comum - o filme - aparentemente as duas coisas não são mísciveis. (sempre quis usar usar esta palavra e nunca tive a oportunidade. É uma palavra do caraças, não é? Míscivel...).

Há uma diferença considerável entre as duas críticas e isso prova-se pela avaliação dada aos filmes. Os filmes de autor normalmente são sempre muito bem cotados pelo crítico profissional de cinema (a crítica especializada), mas o grande público (a crítica generalizada) geralmente atribui-lhe qualidades como "parado", "não se passa nada" ou como sendo "uma grande seca". Por outro lado, os grandes blockbusters são sempre um enorme sucesso junto do grande público, mas são arrasados pelo crítico de cinema que os classifica, entre muitas outras coisas, como "repetitivos", "sem substância" ou como "entretenimento desmiolado". Estranhamente, começo a enveredar pelo segundo caminho. Digo estranhamente, porque sempre fui um adepto dos efeitos especiais, mas agora critico-os. Sempre fui fã dos grandes espectáculos de acção e agora não os suporto. Tenho de admitir que já não consigo aguentar filmes de efeitos especiais, acção, perseguições e explosões. Vejo-os sempre que tenho oportunidade, mas por vezes vejo-os só mesmo para criticar. Mas há uma explicação para esta mudança.

Já vejo filmes há muitos anos. Não faço mínima ideia de quantos filmes vi (um dos propósitos do site é tentar contabilizar quantos), mas presumo que ultrapasse os milhares. Vejo tudo. Mesmo sabendo de antemão que um filme vai ser uma chachada, eu vejo na mesma.
De início via os filmes exclusivamente como observador, ou seja, estava sentado e só olhava para o ecrã. Após muitos filmes, e em certa parte devido à magia dos efeitos especiais, comecei a interessar-me pelo processo de idealização e construção do filme propriamente dito. Acho que às vezes as pessoas não têm (como eu não tinha) a percepção do trabalho que envolve fazer um filme. As filmagens, a produção, o trabalho dos actores, os efeitos, a montagem final, tudo isto dá uma trabalheira do caraças e até cansa só de pensar os anos de trabalho que estão envolvidos numa produção, só para conseguir apresentar um filme de 2 horas... ou menos.  Às vezes dou por mim a olhar para um filme, mas não estou a vê-lo; estou a tentar perceber como as luzes estão colocadas, como a ambiência duma cena foi criada ou como o actor se terá preparado para dizer aquela frase com aquela emoção específica.
Comecei a notar mais no trabalho atrás das câmaras do que estar passivamente a olhar para as imagens a passar. E isso fez toda a diferença. Comecei então a aperceber-me que existem dois tipos de filmes - o "filme de público" e o "filme de realizador" -, que "por tabela" geram os dois tipos de crítica.

O exemplo mais firme do "filme de público" é o típico blockbuster, concebido especificamente para vender bilhetes (muitos bilhetes) e pipocas nos concessionários. Também se insere nesta categoria o "filme de óscar", que normalmente é um drama meloso que dá para chorar ou com temática de guerra, porque obviamente a marca "óscar", implicitamente, também dá um boost à venda de bilhetes e pipocas, apesar de estes filmes terem muito mais "substância" em comparação com os primeiros.
Estes filmes são adorados pela crítica generalizada. Os primeiros têm todo o fogo de artíficio que justifica o preço alto dos bilhetes. Além disso têm os mais fantásticos efeitos especiais, as perseguições mais alucinantes e as cenas de acção mais violentas que se possa imaginar. Os segundos, normalmente não têm os elementos dos primeiros para justificar a "marca óscar", mas vão dar ao mesmo. É uma espécie de blockbuster só que o único efeito especial é terem no cartaz promocional o "homenzinho dourado". Há até quem tenha, quase por "obrigação" que ver todos os filmes que estão candidatos a Óscares, porque esses "são os melhores".

Depois há os filmes de realizador, ou filmes de autor. São filmes feitos por alguém que tem uma visão do mundo ou sobre um tema qualquer e quer dar a sua opinião muito pessoal através duma obra cinematográfica, independentemente do tema ser polémico, se levanta questões fracturantes ou se choca o grande público. É o que a crítica generalizada normalmente chama de "filmes de seca". Também há outro género que se insere perfeitamente aqui que é o primeiro filme/independente. São filmes dos mais variados géneros - por vezes até de acção, explosões e efeitos -, mas porque têm um orçamento minúsculo optam por aproximações mais singulares ou estéticas, e que normalmente enveredam pelo lado do choque para se fazerem notar.
Neste tipo de filmes não há perseguições, nem há acção em cima de comboios em movimento, nem efeitos especiais, nem explosões. Normalmente o que há é uma história, uma opinião, actores e um realizador atrás das câmaras a tentar mostrar o seu ponto de vista muito particular. Os críticos profissionais adoram estes filmes. Uns porque adoram mesmo, outros, parece-me, porque têm de manter o registo de "qualidade" e não podem dizer mal dum Nanni Moretti ou um Manoel de Oliveira.

Depois de analisar bem este assunto, parece-me que os dois tipos de filmes (e críticas) vão continuar a existir em simultâneo. Por um lado, vai haver sempre muito realizador independente, isto é, um teso, que tem uma ideia para um filme e vai mostrar a sua obra dê lá para onde der. Por outro, acho impossível que os grandes estúdios matem as galinhas dos ovos de ouro, que é como quem diz, o "filme de entertenimento"/"filme de animação divertido tipo Disney/Pixar". E nem sequer é preciso fazer algo novo. Podem continuar a fazer remakes para sempre... Afinal, há sempre público novo, não é verdade?  Enquanto isto acontecer, os dois tipos de crítica também vão continuar a co-existir. Claro que há sempre que contar com a invasão tecnológica. Será que vai nascer um outro tipo de crítica?

Isto tudo para dizer que vou voltar às minhas lides da crítica. Lá porque deixei de comentar/criticar, não deixei de ver filmes. Muitos, muitos filmes.
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