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Em 01/05 de 2020 finalmente este blog atingiu as míticas 10.000 visualizações. Pode parecer muito mas se se pensar que criei o blog em junho de 2010 basta uma conta simples de merceeiro para perceber que precisei de 10 anos para chegar a esta marca. 1000 visualizações por ano. Ok, mas também só em outubro de 2012 é que comecei a publicar coisas... O que é que isso interessa? Praticamente nada. Mas é triste. Ou talvez não. Sinceramente, criei o blog não para ter seguidores ou milhões de visualizações, mas sim para servir de repositório a todos os filmes que vi. Um dia, espero eu, estarei a criar a entrada para o meu filme 10.000. Pelo andar da carruagem ainda vai demorar bastante tempo. Foram precisos oito longos anos para conseguir introduzir "apenas" cerca de 600 filmes. É que isto dá trabalho. Não é só chegar aqui e debitar texto (por acaso até é...) ou fazer copy paste de outros sites. Não. Bem, isso quer dizer que devo precisar de uns 100 anos para listar os restantes 5000 filmes que devo ter visto até agora... Humm! Muito provavelmente não vou ter tempo para isto tudo. Mas também não interessa. O que interessa verdadeiramente são os filmes. E pensando bem, o sucesso é uma coisa relativa...

Foi exactamente há um ano que deixei de publicar aqui no Blogger. Curiosamente, este texto também tem 1 ano de idade. Escrevi-o nesse dia em que decidi deixar o o blogger para trás. Nessa altura descobri uma nova forma, muito mais fácil e imediata, de "indexar" todos os filmes que vi. Isto aconteceu porque o blogger decidiu mudar o backoffice. Estava tudo mais ou menos bem e apesar da trabalheira que isto me dava fazia-o com gosto. Mas o blogger decidiu reinventar a forma como se publica e de certa forma a coisa ia ser ainda mais trabalhosa. Entretanto descobri que havia um sítio (Letterboxd) onde podia fazer praticamente a mesma coisa e com muito menos trabalho. Juntando as duas coisas, a escolha foi óbvia e rápida. Passei para lá. Decidi que iria manter o site por aqui, mas apenas dedicado a temas específicos que não dão para fazer no tal site ou para falar sobre que filmes que me marcaram. E também sobre filmes que não sendo propriamente bons, me levam para outras questões paralelas que ultrapassam os limites do próprio filme. Entretanto... o mundo decidiu também mudar... e eu mudo constantemente com ele. Vamos a ver se não há mais alterações. Provavelmente sim. Deve ser por isso que eu gosto de arquivar coisas. As coisas mudam tanto com o passar do tempo, que a melhor forma de avaliar essas mesma mudanças é compará-las com o tempo passado... Pronto! Já estou novamente a divagar. É exactamente por causa disto que decidi voltar aqui ao site. Às vezes gosto de simplesmente divagar para outros temas começando por um filme...

A partir deste momento, este blog deixa de ser uma site em que publico todos os filmes que vi e torna-se num espaço de reflexão pessoal sobre o mundo, sobre as pessoas sobre tudo o resto, tendo sempre como ponto de partida um filme. Obviamente que as coisas podem descambar para outras vertentes que nada têm que ver com o mundo do cinema. Eu mudo constantemente. Este site simplesmente tenta acompanhar-me... Veremos no que isto dá e por quanto tempo se mantém assim. 

Honey Whitlock é uma grande estrela de Hollywood. Mas é também um produto de estúdio, e portanto uma fachada de falsidade. É então que entra em cena um grupo de cinema de guerrilha independente, liderados pelo realizador louco Cecil B. Demented. O plano é raptar a grande actriz de Hollywood e obrigá-la a ser a estrela de um filme independente.
Apesar de ser um nome reconhecido, John Waters não é de todo um nome cómodo no meio do cinema. Abertamente anti-sistema e um fazedor de "obras-primas de mau gosto", Waters sempre primou por deitar abaixo o status quo dos estúdios de Hollywood. E a coisa é mais ou menos recíproca. Aliás, aqui ele deita abaixo todo o sistema de Hollywood, incluindo agentes e actores.
Cecil B. Demented é uma "coisa" estranha. Devo já dizer que não sou grande fã do John Waters. Aquela coisa da javardice e do mau-gosto não é para mim, mas reconheço-lhe algum valor. Mas apesar disso não gostei nada deste filme. Percebo a crítica aos grandes estúdios, aos grandes blockbusters, e à lógica da fachada extremamente polida mas falsa das grandes estrelas. E por contra-ponto também percebo a crítica à falta de espaço para os filmes de menor dimensão, dos independentes e dos mais experimentais, assim como à falta de espaço de distribuição e divulgação destes filmes, que assim, muitas vezes morrem logo à nascença sem terem hipótese de sequer ser detestados pelo público. É que nem saem das mesas de montagem para os cinemas. Às vezes dá mesmo vontade de raptar alguém e fazer uma espécie de cinema de guerrilha para chamar a atenção das discrepâncias entre os dois tipos de cinema.
O título do filme não é inocente. Cecil B. Demented é obviamente uma sátira ao lendário Cecil B. DeMille, um dos maiores realizadores/produtores de sempre, comummente reconhecido como um dos fundadores da indústria cinematográfica de Hollywood e um dos homens comercialmente mais bem sucedido da história do cinema. Cecil B. Demented é a perfeita antítese. Sem dinheiro, sem valor e sem reconhecimento.
Stephen Dorff dá corpo a Cecil e na sua equipa de renegados há nomes Alicia Witt, Eric Roberts, Michael Shannon and Maggie Gyllenhaal. Também há Melanie Griffith, mas faz o seu próprio papel...
Gostei do olhar, da crítica incisiva e de um ou outro pormenor, mas no geral não gostei assim tanto de Cecil B. Demented como pensei que ia gostar... ○○○

Vi o Parasitas (Gisaengchung, no impronunciável título original) antes de ter vencido uma porrada de Óscares e tinha-o aqui de parte para poder escrever um pouco mais quando tivesse mais tempo livre porque é um filme que justifica. É uma excelente e complexa crítica social. Mas também é uma comédia e um drama. E um thriller também. Parasitas está numa classe totalmente à parte dos filmes que um gajo normalmente vê. Se me perguntassem como é que o classificava ou com o que é parecido... Teria que fazer uma pausa ainda longa e só poderia dizer que é uma estranha mistura asiática resultante da combinação de um "Tarantino" com um "irmãos Coen". Ou seja, tudo está bem até que tudo corre horrivelmente mal.
Parasitas conta a história dos Kims, uma família sul-coreana pobre que vive numa sub-cave e sobrevive fazendo pequenos trabalhos como dobrar caixas de pizza. Mas um acaso do destino acaba por levar a que filho mais novo se relacione com uma família muito rica, entrando pela porta dos fundos como empregado. Primeiro, o filho pobre começa a dar explicações à filha rica, mas depois, tal como um parasita infecta e se multiplica no corpo do seu hospedeiro, toda a restante família começa a entrar sorrateiramente na rotina da casa, sempre com recurso a estratagemas mais ou menos complexos. Curiosamente, a certo ponto, começa a fazê-lo à custa da empregada residente (também ela pobre) que trata de todas as lides da casa. Aliás, a "família" da empregada é tão pobre que ela tem o marido... bem, não vou prosseguir para não estragar a surpresa. Até porque este é um dos grandes pontos fortes da história e de todo o filme, que são as constantes mudanças bruscas na narrativa e os inesperados twists.
O tom de Parasitas é constantemente crítico mas também é nitidamente satírico. E de certa forma é justo na aproximação e não entre nos estereótipos do costume. Nem os pobres são uns coitadinhos, oprimidos ou inocentes, nem os ricos são o diabo com o coração empedernido. De certa forma, Bong Joon Ho atira para os dois lados e não deixa ninguém incólume. Acho que esse é o grande trunfo de toda a narrativa e a mensagem subjacente: seja rico ou seja pobre, um gajo vai fazer tudo ao seu alcance para ter uma vida melhor. Inevitavelmente isso acabará por atropelar outras pessoas, sejam ricas ou pobres. E é aqui que se faz a separação com base na empatia: os "bons" percebem que a determinada altura vão ter de parar; os "maus", nem por isso.
Os actores, sem excepção, são soberbos (Kang-ho Song [sinceramente, o único que conheço], Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, So-dam Park, Jeong-eun Lee) como é costume nos castings asiáticos, mas também são ajudados pelas personagens memoráveis.
Apesar de todos os prémios que arrecadou nunca diria que Parasitas é o melhor filme de Bong Joon Ho que já vi. Gostei tanto deste como gostei do Okja ou do The Host. Acho que simplesmente, Parasitas arrecadou prémios e impactou tanto a opinião pública porque teve o condão de tocar num ponto muito actual (o das desigualdades sociais e económicas), na altura certa. Já para não falar na questão muito criticada da (pouca) multiculturalidade na atribuição dos próprios Óscares.
Seja como for, Bong Joon Ho continua sempre em crescendo e continua a surpreender-me sempre pela positiva. Grande realização e também excelente música e fotografia. Tem momentos absolutamente geniais como por exemplo aquela cena da enxurrada no final. Brilhante. Apesar de todos os prémios que arrecadou, tenho que dizer que não foi o melhor filme que vi no ano passado. Houve um filme ainda melhor, mas isso fica para outra altura... Mas pela diferença, pela surpresa constante e por ser um filme feito de forma muito inteligente, acho muito bem que Parasitas tenha ganho o Óscar para melhor filme. ●●●●○

E agora para algo diferente... Um filmito de acção de outros tempos, com a magia do cinema pelo meio. Depois de décadas como o grande herói de acção da sua geração (e se calhar de sempre), Arnold Schwarzenegger decide lentamente começar a reinventar-se. Os músculos já não estavam no auge (que é como quem diz, não vendia bilhetes), a idade começava a pesar e o público já não era o mesmo. E de uma forma muito inteligente, Schwarzenegger começa a passar do género da acção para outro registo mais leve e consensual, a comédia. De um ponto de vista de carreira, foi um passo muito bem dado e muito bem pensado. Primeiro saltaria para comédia, e um dia quem sabe, quando fosse mais velho e já não pudesse andar aos saltos e aos tiros, poderia enveredar por uma carreira mais dramática. Como se pode comprovar, nunca foi levado assim tão a sério que pudesse saltar para os dramas, mas durante algum tempo Schwarzenegger até deu cartas na comédia. Estranhamente, até é um registo que não lhe fica nada mal. Mas antes disso tudo, decidiu unir as duas coisas, a acção e comédia. Last Action Hero é o exemplo perfeito desta junção. Logo à partida é uma sátira aos próprios filmes à "Schwarzenegger" e são inúmeras as piadas com base na sua figura e até do seu "arqui-inimigo" Silvester Stallone.
Last Action Hero é um bom filmito de acção e comédia, e ainda tem um pozinhos de fantasia à mistura, personificado naquele bilhete mágico que faz desaparecer a fronteira entre a realidade e a ficção. É realizado por um dos mestres do cinema de acção da altura, John McTiernan e isso nota-se perfeitamente no equilíbrio da história e na forma como oscila entre a "realidade real" e o mundo fantasioso e estereotipado do cinema. Também ajuda ter actores como F. Murray Abraham, Tom Noonan e Charles Dance nos papéis mais relevantes para lhe dar alguma estrutura. Aliás, apesar de ser "apenas" um filmito de acção, é um filmito com nomes como Anthony Quinn, Robert Prosky, Frank McRae, Jim Belushi e Ian McKellen. Acho que mesmo hoje em dia, num candidato ao Óscar de melhor Filme não se conseguiria encontrar tantos e bons actores como neste "simples" filme de acção. Mas também são muitos os cameos de famosos. É só estar atento, porque aparece por lá muita gente conhecida, nem que seja por breves instantes... Outros tempos... No casting, talvez o que tenha estragado mais o filme sejam as presenças de Austin O'Brien e Bridgette Wilson, que foram nitidamente um erro enorme. Passados tantos anos, e não sei explicar muito bem porquê, mas o miúdo continua a ser irritante.
Last Action Hero foi um flop na altura, porque aparentemente ainda havia muito público para filmes à "Schwarzenegger" e parece que não estavam preparados para que os seus heróis de acção preferidos desaparecessem. Mas acho que ninguém percebeu mesmo é que era uma sátira aos próprios filmes de acção... O que diz muito da crítica e do público de cinema da altura... Curiosamente, e quase de uma forma quase premonitória, este foi um dos últimos filmes do género com alguma substância digna de relevo. Olhando para trás e visto "daqui", parece que Last Action Hero marcou mesmo o final deste tipo de filmes de acção, tiros e músculos. Mas também já era tempo de mudar. ●○○

O que é que acontece com a crítica de cinema num tempo em que o mundo parou e não há estreias de filmes? Penso que esta deve ser a questão do momento para os críticos profissionais. No meu caso, em que a crítica é mais de arquivo que outra coisa, é totalmente irrelevante. Para mim, se o filme saiu agora mesmo, ou há dez anos, vai dar exactamente ao mesmo, até porque já praticamente não vejo filmes no escuro do cinema. Poderia estar aqui a enumerar todos os argumentos que me levaram a afastar do cinema "tradicional", mas isso inevitavelmente levar-me-ia para campos do insulto a uma parte dos espectadores que associam ir ver um filme com a estranha ideia de uma coisa tipo feira popular, em que um gajo vai lá com os amigos para falar, rir, comer umas pipocas ou uns cachorros, situação que a mim me deixa com os cabelos em pé. Também poderia estar a argumentar sobre a paupérrima qualidade da maioria dos filmes exibidos hoje em dia, mas acho que isso já está explícito nas críticas que faço para mim próprio no resto do blog.
Nesta altura de hiato, acho que os críticos, os ditos profissionais, têm aqui uma óptima oportunidade para instruir o público sobre outros aspectos do cinema, que não sejam unicamente "o" filme. Pormenores normalmente descurados e secundarizados como por exemplo a produção, a montagem, a fotografia, a escrita do guião ou os storyboards dão uma perspectiva diferente do cinema daquela que é a passividade do momento (e que tem sido a norma dos últimos anos), em que o espectador está ali apenas sentado, a "consumir" o produto de entretenimento, sem pensar muito no assunto. O resultado desta cumplicidade passiva entre críticos e espectadores está à vista: o cinema dos últimos anos transformou-se numa espécie de parques de entretenimento passivos e os filmes propriamente ditos são meros produtos de consumo descartável.
Este "novo" tempo livre também seria bom para "desenterrar" referências antigas (que normalmente são melhores que as actuais) para assim servirem de futuras referências, até porque o cinema actual vive numa fase de reciclagem contínua. Quando se vê tantos filmes como eu já vi, percebe-se perfeitamente o padrão das coisas. Às vezes parece que estou preso num loop temporal em que estou sempre a ver a mesma coisa. E não é só por causa das constantes sequelas, reboots, remakes e re-coisos. É porque a maior parte do cinema actual assenta numa fórmula mágica de meia dúzia de guiões "infalíveis", constantemente copiados uns dos outros, até à mais completa exaustão. E isto acontece - e acho que vai continuar a acontecer - porque funciona. Acho que neste aspecto, o crítico profissional, tem um papel a desempenhar e pôr o "dedo na ferida". A crítica de cinema não pode estar - como está neste momento - ligada ao sucesso do box office ou aos ratings intencionalmente inflacionados dos agregadores de críticas. Nunca liguei muito aos Óscares, nem nunca fui atrás dos filmes galardoados em certames internacionais de prestígio para ver um bom filme, mas em 2018, quando o Black Panther da Marvel foi indicado para Melhor Filme e as críticas que li davam conta do melhor filme do ano (WTF???), percebi que algo estava muito errado no mundo do cinema, e mais especificamente no da crítica de filmes. Como é que aquilo era possível? O que é que se estava a passar? Estaríamos a ver a mesma coisa? Com as devidas excepções, parece-me que o crítico profissional, neste momento, simplesmente "vai com a onda". Parece que tem medo de se insurgir contra a ditadura da bilheteira e que se determinado filme tem muito sucesso na área da venda de pipocas, isso quer automaticamente dizer que tem algum valor, quando na realidade o que acontece é exactamente o contrário. Acho que os críticos, se calhar, também têm medo da obstinação dos fãs. Ninguém quer mesmo dizer o que realmente sente em relação ao Endgame dos Avengers ou da franchise Twilight quando há fãs malucos por esse mundo fora que eram capazes de vender um rim para poderem ser os primeiros a assistir à ante-estreia dos filmes, pois não? Mas vou deixar esta questão dos fãs para outra altura, até porque salta mais para os campos do marketing, da psicologia de massas e da sociologia do que propriamente falar de cinema...
O cinema celebra este ano 125 anos de existência, se se considerar que de facto "La Sortie de l'usine Lumière à Lyon" dos irmãos Louis e Auguste Lumière foi mesmo o primeiro filme a ser exibido. Mas se foram os Lumière os primeiros a fazê-lo, se foi Louis Le Prince em 1888 ou Eadweard Muybridge, em 1878 com a animação The Horse in Motion, isso é um pouco irrelevante. Acho é que o crítico de cinema profissional, para além do papel habitual de "comentador de bancada" - e até porque imagino que devem ter algum tipo de formação na área - também podem aproveitar o espaço que têm na opinião pública para cultivarem o público, para fomentar outro tipo de conhecimento, mas principalmente para darem a conhecer a história do próprio cinema, da sua evolução e dos seus milhentos intervenientes ao longo de todos estes 125 anos. Há seguramente muito mais cinema para além dos mais de 500.000 filmes que já se fizeram até hoje.
Como pessimista convicto que sou, sinceramente, não estou à espera que as coisas mudem. Este género de aproximação passiva gera imenso dinheiro e por isso mesmo ninguém quer mexer na "equipa ganhadora". Para além de que escrever um texto (ou criar uma parte nova de um programa de TV) sobre a história do cinema também dá muito mais trabalho do que completar os templates habituais da crítica de cinema. Eu que o diga, que estou aqui há horas a escrever este texto. Tal como tantos outros exemplos nesta vida, parece-me que tanto no cinema, como na crítica de cinema, a mentalidade vigente é não mexer muito no status quo e esperar que tudo volte ao "normal". Toda a gente ganha. Apenas o (bom) cinema fica a perder. Está mal, mas as coisas são o que são. Pessoalmente, haja ou não mudanças no mundo do cinema, é-me irrelevante. Vou continuar a ver os meus filmes e vou continuar a fazer o meu arquivo pessoal de crítica. A única coisa que vai mudar, é que provavelmente vou ter mais tempo para dedicar aqui ao blog.



PS: Uma sugestão para as TV's: ponham a rolar umas repetições, que tanto podem ser os grandes clássicos do cinema, como os "ridículos" filmes de série B que têm quase sempre excelentes histórias e são constantemente copiados e reciclados à socapa: não há Educação sem se conhecer a História. E por outro lado, há toda uma nova geração de pessoas que nunca teve oportunidade de ver os filmes intemporais. Já vi muito filme e mesmo assim tenho uma listagem imensa de grandes clássicos que nunca consegui ver porque são dificílimos de encontrar. Uma sugestão para os programas de cinema da TV: aproveitem esta altura de paragem de estreias e apresentem filmes de outros tempos, que apesar de serem antigolas, continuam a ser relevantes e actuais.




PS2: A título de arquivo, fica aqui também a "Saída do Pessoal Operário da Camisaria Confiança", da autoria de Aurélio da Paz dos Reis, um pioneiro do cinema em Portugal. É uma cópia do filme francês, mas ainda assim merece todo o destaque. Podemos não ser os gajos mais originais do mundo, mas também não somos assim tão atrasados como sempre nos foi ensinado... 
Senti tanto hype à volta deste mother! que tinha mesmo de o ver. Especialmente li bastante sobre o que significava o filme, o que me deixou algo apreensivo, pois o Darren Aronofsky não costuma ser muito dúbio nas suas abordagens à história. Se bem que ultimamente com o Black Swan e o Noah, a coisa até já foi um pouco diferente.
Para grande surpresa minha, o filme não tinha grande coisa para duvidar. É um grande filme com uma história bíblica na base, vista por um ateu que acredita em qualquer coisa. Das primeiras vezes em que ouvi falar do enredo, notei que estava mencionado o facto de ser um filme tipo "home invasion". Um casal estaria sossegado na sua casa quando a vê assaltada por estranhos personagens. Mas para além disso, havia sempre a referência a significados dúbios e não estava a perceber muito bem porque é que ninguém conseguia chegar a nenhuma conclusão nem especificar o que raio se passava no filme. É um filme de terror? Não. Seria uma fábula muito negra que descamba para o filme de terror? Também não. Uma alegoria? Um conto premonitório sobre o futuro com base nos constantes ataques ambientais que o mundo moderno sujeita a natureza? Nada disso. Mas também poderia ser isto tudo junto. Não entendia nada do que lia. Isto apenas aguçou mais a minha curiosidade. E então, lá fui, furiosamente curioso, ver o enigmático mother!. Depois de ver uns 15 ou 30 minutos de filme, o meu cérebro disparou em auto-funcionamento e comecei profundamente a duvidar do que tinha lido... As pessoas que viram o filme antes de mim, que criticavam e comentavam não queriam estragar a "surpresa"  do filme ou simplesmente não tinham nenhum conhecimento bíblico para entender o que estavam a ver? Ainda agora persiste a dúvida.
Para quem tem algum conhecimento das histórias bíblicas, mother! não tem nada que enganar ou que possa ser considerado dúbio. Ao fim de muito pouco tempo, percebe-se perfeitamente o que se está a ver, o que se vai ver a seguir e praticamente de antemão já se sabe como vai tudo acabar. Como a dúvida persiste (será que os críticos de cinema conhecem de facto as histórias bíblicas?) não vou entrar em grandes pormenores. Não vou dizer que se trata da primeira e da última história da Bíblia ligadas entre si e misturadas com a personagem da Mãe Natureza. Como também não vou dizer que não tem nada a ver com uma invasão de casa, mas que por outro lado, de um ponto de vista natural, pode perfeitamente ser interpretado assim mesmo. E nem vale a pena mencionar o conceito do eterno retorno do meu caro amigo Nietzsche. O melhor é mesmo ver e tirar as próprias conclusões, mas minha opinião, não há enigma nem conclusão nenhuma para tirar. Se bem que aquele pó amarelo misturado na água ainda agora me dá a volta ao cérebro, e aí, tenho de admitir, não consegui chegar a nenhuma conclusão que valha a pena partilhar...
Seja como for, gostei bastante da forma com a história é contada, reinterpretada e misturada com outros conceitos exteriores ao livro sagrado e à religião. Darren Aronofsky é um gajo que admiro, com muita qualidade na realização e que não tem medo de pegar em temas complexos e fracturantes. Tem uma visão muito própria das coisas com as quais eu (por vezes) me identifico. Ainda que nos últimos filmes tenha "patinado" bastante. Sempre que se mete em temas muito generalistas e pouco focados nas pessoas, normalmente mete água. Ia dar como exemplo, o caso do "Noah" mas aí tinha mesmo de meter água... Bem, mas deu para perceber... No caso de mother! esteve outra vez quase a patinar. O que ajudou a equilibrar este filme estranho foram nitidamente as presenças marcantes de Jennifer Lawrence (grande surpresa! mesmo grande surpresa!), Javier Bardem (sempre imponente) e as presenças fugazes de Ed Harris e Michelle Pfeiffer. Mas se as personagens (e os seus actores) aguentam muito bem o filme durante a maior parte do tempo, o melhor está mesmo reservado para a parte final, que num aparente take longo e contínuo leva-nos de arrasto para o final dos dias, para o caos da guerra, para as atrocidades humanas e para o inferno na Terra. E este final bombástico e quase orgásmico é todo da responsabilidade de Aronofsky. Essa última parte "separa-se" tanto do resto do filme que a determinada altura, fiquei com a sensação que foi para poder criar e realizar aqueles minutos finais que Aronofsky concebeu toda a história. Parece que ele teve mesmo que filmar aquilo, como se fizesse parte de uma terapia qualquer. Ou também posso estar a imaginar coisas e nem sequer seria a primeira vez. Às vezes são só sensações que tenho. Não interessa...
mother! não é um filme nada fácil de ver. É violento e exige conhecimentos essenciais pré-visualização. Aconselho uma mente aberta e um estômago forte. Seja para dar início a uma longa e séria discussão sobre religião ou seja para assistir a um espectáculo raro hoje dia que é a obra de arte cinematográfica com base na visão do realizador, mother! é um filme que tem mesmo de se ver. ●●●●○

Vox Lux começa muito bem com uma série de acontecimentos estranhos e comecei a ficar empolgado. Decidi seguir a antiga fórmula de ver cinema que é não saber rigorosamente nada do filme que vou ver. Sabia que era com a Natalie Portman e que o enredo era sobre uma performer do mundo pop musical. E até certo ponto foi mais ou menos isto. O problema é que começou a esmorecer...
E esmoreceu tanto e tornou-se tão confuso que mais para o fim fiquei na dúvida se estava a ver um filme que era uma crítica ao mundo de fachada da pop ou uma forma de mostrar respeito e admiração pelo árduo trabalho do performer pop por detrás da cortina da fama. Hoje não continuo com essa dúvida porque o filme é totalmente esquecível. Varreu-se-me da mente. Havia aqui material para fazer um grande filme, mas Brady Corbet ou não tem a maturidade suficiente para sacar uns coelhos da cartola ou simplesmente não conseguiu (ou não quis) entrar num registo demasiado crítico e incisivo. Parece-me que ele quis ir por aí, ou então não e simplesmente não consegue fazer melhor. Acontece a quem está a começar.
Até do casting (Natalie Portman, Jude Law, Stacy Martin, Jennifer Ehle, Raffey Cassidy) poderiam ter saído muito melhor performances, porque os actores são bons, mas infelizmente a forma como o guião funciona abafa qualquer hipótese de grandes representações. Muitas vezes fala-se dos bons e dos maus actores (normalmente até só se enfatizam os bons, porque os críticos oficiais tendem a não querer ferir susceptibilidades) e como uns se destacam mais que outros. Nesse aspecto, Vox Lux é um bom exercício de aprendizagem e observação. É gritante como se nota que Portman e Law estão nitidamente num patamar de representação muito superior ao dos restante actores... Até o Willem Dafoe que "apenas" dá a voz ao narrador emprega mais personalidade e capacidade de representação que muitos actores que aparecem em carne e osso na tela...
Vox lux é um filme com muita potencialidade mas que tem muitos problemas. O que é uma pena porque em determinadas alturas parece que vai descolar, mas depois decepciona exactamente porque se torna previsível e mantém sempre o mesmo registo. Fiquei sempre à espera de um grande momento de inspiração ou revelação, mas isso nunca aconteceu. Pelo aspecto do trailer (e pela presença da Natalie Portman) parece que se vai ver uma espécie de Black Swan do mundo pop, mas isso é um engano muito grande. Não tem nada a ver.
Apesar de ter um bom início e estar polvilhado aqui e ali de bons pormenores, Vox Lux é visível, mas devido à estrutura narrativa e emocional demasiado "mole" acaba por se tornar totalmente insípido e dispensável. ●●○○

Venom... Mais um spin-off, mais um derivativo qualquer do universo da BD da não sei das quantas, mais um filme de "bonecada" digital sem o menor pingo de nada... Vale pelo Tom Hardy (gajo que curto valentemente e que não percebo o que está a fazer aqui...) e pouco mais. Andam por lá outros actores (Woody Harrelson, Michelle Williams) mas tudo o resto é acessório. Só conta mesmo a acção e mais nada. É o blockbuster do costume. Bem, não vale a pena gastar o meu latim numa coisa tão fraca. Por isso vou falar de outra coisa.
Numa entrevista após a saída do filme, o co-criador da personagem Todd McFarlane, insurgiu-se com as críticas negativas e disse que os críticos são demasiado velhos para apreciar o filme. Sem ser textual, ele disse que os críticos entram no cinema com os seus 40 e tal anos e depois saem para dizer que o filme foi uma merda. Mas que quando o público tem 16 anos, vai ver o filme e acha um espectáculo. Os miúdos adoram.
É exactamente isso que eu também acho. Se tivesse 16 anos adoraria o filme. Quanto tinha 16 anos, os filmes de entretenimento nem chegavam aos calcanhares destes. Só havia um blockbuster por ano e apenas existiam heróis de acção (nem sequer tinham super-poderes) e um deles era o Van Damme... Puff! Isto agora é mesmo para meninos... Os filmes nem sequer tinham efeitos especiais, meu! Por isso, claro que os miúdos de 16 anos - de agora - adoram o filme. Tem efeitos especiais a rodos, transformações digitais, violência desnecessária, má linguagem aos pontapés, uma história linear - para ser percebida por qualquer miúdo que curta video-jogos (e são quase todos) -, gajos constantemente a voar em todas as direções, pancadaria velha e explosões a cada 3 minutos. Isto de facto, é o que qualquer miúdo de 16 anos adora. Não tenho dúvidas disso. Mas isso não invalida o facto de o crítico ter na mesma os 40 e tal anos, pois não? Nem o facto de ele achar que o filme é de facto uma merda, porque o filme não foi feito para ele; foi feito para o tal miúdo de 16 anos. Pergunta lá ao miúdo de 16 anos o que é que ele achou daquele clássico do Kubrick? Ou do novo filme do Michael Haneke? Aposto que a a resposta seria... "uma merda"! "As pessoas só falam!" "Não há socos e nem uma única explosão!"...
Se se faz um filme exclusivamente para um público não se pode querer agradar ao outro. Não se pode ter o crítico e a bilheteira na mesma mão. Ou se tem uma coisa ou se tem a outra. É tão simples como isso. É a vida. Ou será que ele prefere trocar os 900 milhões de receita de bilheteira por uma excelente crítica reconhecida internacionalmente? Não me parece... ●○○○○

"No início é o ruído, o desespero e o abuso. Mariana quer sair do Inferno. Estende a mão a um homem meio morto, Leão. Mariana, plena de vida, pensa que talvez possam escapar juntos do inferno. Acredita que pode trazer o homem morto para o mundo dos vivos. Sete dias e sete noites mais tarde percebe que estava enganada. Trouxe um homem vivo para o meio dos mortos." Esta é a sinopse oficial de "Casa de Lava". A história até é boa e, teoricamente, poderia dar um bom filme.
Não é este o caso. Tudo aqui é tão pobremente péssimo que se torna horrível. É penoso de ver. É o exemplo mais gritante de um daqueles filmes pseudo-intelectuais que dá mau nome aos filmes pseudo-intelectuais. Chateiam-me estes filmes esotéricos de festival internacional, que não são mais do que filmes da treta. Irritam-me. Tiram-me do sério. Isto é o quê? Um drama abstracto? Um filme-documentário? O que é isto? É que eu não consigo classificar. A narrativa é praticamente inexistente. O som é péssimo. A imagem e a fotografia são horríveis, apesar das paisagens serem deslumbrantes. Os actores, coitados, nem sequer consigo comentar. É um estilo de cinema que me passa totalmente ao lado. A mim e ao resto do mundo, sendo que a excepção são os outros pseudo-intelectuais que têm de viver de subsídios estatais para fazer "cinema-arte" -  porque ninguém entra com o dinheiro para produzir estas coisas que têm literalmente zero de audiência - o elenco envolvido, a restante equipa de produção e o júri de Cannes. E o Paulo Branco..
Conheço perfeitamente esta lógica cinematográfica. Colar ruídos mecânicos às coisas más e deixar rolar a câmara serenamente para dar a sensação de conforto e passividade. Mostrar rostos humanos. Planos excruciantemente longos e estáticos para mostrar a "crueldade do momento". Já vi esse estratagema milhentas vezes e de todas as vezes que vejo, detesto. Há quem diga que é a "arte do cinema", mas eu chamo-lhe vazio e pseudo-intelectual. Para mim, isto não é nada. Vale zero. Isto é quase como dizer que a simplicidade é uma parede branca, portanto vamos ficar 2 horas a olhar para a parede branca e assim imaginamos o filme que quisermos. Bem, já houve um gajo que pôs toda a gente a olhar para uma tela negra a imaginar como seria o filme, portanto... Mas esse era tolo e tinha outras intenções que são bem conhecidas... Mas isto é outra coisa. É treta "moderna", o que não deixa de ser uma treta, mesmo que tenha milhentos prémios internacionais. É tão vazio como os filmes de super-heróis da Marvel, se bem que esses, pelo menos, levam pessoas aos cinemas e dão lucro.
Este é o verdadeiro filme de eleição do "crítico profissional de cinema". É que estou mesmo a ver. "A rudeza dos planos, a inexistência de contextos aplicáveis, a desconexão emocional. O realizador filma a vida como se estivesse coberta por um lençol de cinzas que abafa o quotidiano, a estética, a materialidade e a forma..." Tretas, tretas, tretas e mais tretas pseudo-intelectuais... Eu avisei logo de início que estes filmes me irritam... "Obriguei-me" a despender duas horas da minha vida, só para confirmar aquilo que já estava à espera. Irritou-me tanto, que o gravei na televisão só para ter o prazer de o apagar logo de seguida... ●○○○○ E dou-lhe uma "bolinha", porque de facto, o filme até tem subjacente uma boa história e que podia e deveria ter sido bem aproveitada. Pode ser que alguém se lembre de pegar nela e fazer algo que valha mesmo a pena ver...

Life Itself é um documentário que mostra a vida do célebre crítico de cinema Roger Ebert, desde os primeiros passos no jornalismo, passando pelo prémio Pulitzer que ganhou em 1975 quando escrevia críticas no Chicago Sun-Times (nunca um crítico de cinema tinha ganho este prémio), até aos últimos dias de vida em 2013, quando já tinha perdido o maxilar para um cancro e nem sequer conseguia comer ou falar.
Tenho uma relação antiga e estranha com o Roger Ebert. Conhecia-o sem nunca o ter visto, quando via nas capas dos VHS's e dos DVDs aquela expressão do “two thumbs up”. Foi ele que a popularizou. Mas genericamente falando, acho que na realidade ninguém liga a essas coisas. É como ver anúncios de detergentes para a louça que prometem repelir a gordura sem esforço: toda a gente sabe que aquilo só ali está para vender o produto. Não é "verdadeiro", digamos assim. Eu nunca liguei a essas mensagens com 5 estrelas por baixo, do género "Soberbo - LA Times" ou "Imperdível - Variety". O que é isso quer dizer? Que alguém do LA Times acha aquele filme "soberbo"? O gajo do LA Times provavelmente nem gosta dos meus filmes que eu, portanto... Sempre achei que a crítica é uma voz pessoal. Pouco importa se esta ou aquela pessoa escreve que isto ou aquilo é bom ou mau... Acho que nem sequer faz sentido dar crédito pela opinião. Mas por outro lado, acho que a forma como a pessoa escreve a crítica, isso sim, tem material para ser avaliado. Bem, entusiasmei-me um bocado e estou a divagar. Novamente.
Voltando ao Life Itself e ao Roger Ebert. Por um lado é um dos principais impulsionadores deste blog; por outro, nunca li uma única crítica dele. É estranho, mas passo a explicar.
Há uns anos li um artigo sobre um conhecido crítico de cinema chamado Roger Ebert (que na altura eu desconhecia) em que se dizia que o homem era uma máquina de ver e criticar filmes. Tinha visto mais de 10.000 filmes, aos quais tinha feito crítica a mais de 6.000. E isso levou-me a pensar em quantos filmes já teria eu visto. Pensei para com os meus botões: "será que eu, um vulgar amador, já vi mais filmes que o 'senhor dos filmes'?" Contas feitas por alto, tenho a certeza que já vi mais do que 3.000 filmes. Mas quantos terei visto ao certo? Sinceramente não sei. Daí surgiu a ideia para este "Todos os filme que vi - Um gajo 'normal' comenta todos os filmes que viu". Não queria competir com o Ebert, mas apenas ter a certeza de quantos filmes já vi.
Quanto a nunca ter lido uma crítica escrita pelo Ebert. Já o disse algures por aqui: sou bastante "esponjoso". Absorvo tudo o que me rodeia. Daí que não tenha querido ler nada do que ele escreveu para não ficar "influenciado". O homem ganhou um Pulitzer pelas suas críticas. Não é preciso muito para perceber que era mesmo muito bom.
Life Itself, de Steve James conta com as presenças de pessoal de peso do cinema como Martin Scorsese, Steven Zaillian, Gene Siskel ou Werner Herzog, e é um documentário muito, muito bom. Estruturalmente perfeito. Muito completo. Potente. Dramático. Humano. Por vezes, até cómico, mas acima de tudo, inspirador. Acho que é esse o grande trunfo deste documentário. Depois de ver este Life Itself, pessoalmente, Roger Ebert tornou-se numa nova referência do universo do cinema. E acho que ele teria gostado desta pequena, mas merecida homenagem. ●●●●○

Algumas citações do Roger Ebert que encontrei algures aí pela net e com as quais me identifico completamente:

- "It’s hard to explain the fun to be found in seeing the right kind of bad movie."

- "In the past 25 years I have probably seen 10,000 movies and reviewed 6,000 of them. I have forgotten most of them, I hope, but I remember those worth remembering, and they are all on the same shelf in my mind."

- "Entertainment is about the way things should be. Art is about the way they are."

O cinema de Hollywood está sem ideias e entrou num loop de repetições "fáceis" e lucro garantido. Por outro lado, se os actores tiverem mais que 19 anos já são "velhos", visto que os filmes parecem todos dirigidos a um público que é maioritariamente adolescente. Pelo que tenho percebido, é uma crítica mais ou menos generalizada e consensual até entre o pessoal do meio. Mas se por um lado, os estúdios de Hollywood estão-se a cagar para este tipo de crítica (facturam literalmente biliões com os chamados filmes-pipoca que todo o crítico [amador ou profissional] adora odiar), por outro lado parece-me que também leva a crítica a sério e mais importante que isso, reconhece-a como verdadeira.
A realidade é que Hollywood está numa encruzilhada: ou fica só com as sequelas, prequelas, remakes, reboots e repetições de êxitos garantidos (já para não falar naquela altura do ano em que aparecem uma dúzia de dramas feitos à medida para os Óscares [é apenas outro "mercado"]) e vai ficar conotada como sendo apenas mais uma entidade anónima que apenas anseia pelo lucro fácil vendendo um produto inflacionado e artificial (e isso tem dado muito trabalho a todas as outras multinacionais só para "limpar" o nome) ou... permite que exista algum cinema de autor americano saído dos grandes estúdios, mas este vai obviamente criticar o status quo. Ou então promove filmes que são uma crítica para "dentro", profunda, objectiva e por vezes até insultuosa, só para poder dizer que percebe as críticas e até as aceita, como este Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance). Já há muito tempo que não me lembro de ver um filme com uma mensagem assim tão directa e acutilante para "dentro".
No papel principal está Michael Keaton, representando um actor que tenta regressar ao activo depois de grandes sucessos de acção e, posteriormente caído em desgraça por ser velho para os novos "sucessos de acção". Michael Keaton obviamente representa-se a si próprio e fá-lo espectacularmente bem. Na realidade, foi um daqueles regressos em grande.
Outro exemplo é Edward Norton, que anda um bocado afastado da representação por ter uma reputação de irascível, e que representa uma personagem que é abrasiva e com quem é difícil de trabalhar, apesar de ser um excelente actor. Mais uma vez, Edward Norton representa-se a si próprio e autoparodia-se (se é que a palavra existe...). Mas há muito mais referências para "dentro", não só aos chamados "filmes de consumo", como ao cinema em geral, aos próprios actores e ao pessoal mais técnico.
Mas à parte das mensagens, há muitas coisas excelentes por aqui. Alejandro Iñárritu está cada vez melhor na cadeira de realizador e na escrivaninha dos argumentos. Chegou rapidamente àquele ponto em que pouco há a dizer. Neste momento, tudo em que toca transforma-se em ouro. Birdman, em particular, é uma autêntica obra de arte cinematográfica. Acho que à porta de casa de Iñárritu deve haver neste momento uma enorme fila de actores à espera do seu próximo trabalho... Neste caso tiveram sorte Emma Stone, Zach Galifianakis, Amy Ryan, Andrea Riseborough e Naomi Watts, entre muitos outros.
Mas não é só excelente na direcção de actores. Pode passar despercebido, mas Birdman tem uma montagem contínua, sem costuras, fluída, brilhante...Um trabalho técnico do outro mundo.
Não me canso de o dizer, seja em que pormenor for, Birdman é um excelente filme. É uma sátira mordaz ao mundo de Hollywood, um megafone crítico que está a disparar constantemente em todas as direcções, brilhantemente realizado por Iñárritu. Um clássico instantâneo. É um filme obrigatório. Não sei se já tinha dito isto, mas Birdman é um excelente filme. ●●●●●

 
Uma pessoa está a ler o jornal e chega à parte do cinema. Num canto está a avaliação do crítico de cinema que avalia os filmes usando uma escala de estrelas. Nunca liguei muito a essas classificações, porque me apercebi que não batiam certo com a minha lógica. Aliás, parecia que não batia certo com a lógica de ninguém. Cheguei a ouvir pessoas a comentar: "Olha, este filme está cotado com muitas estrelas. Não deve prestar para nada" ou então: "Se estes gajos dizem que o filme não presta então é porque é bom" Presumo que esta situação já deve ter acontecido com toda a gente...

Também acontecia comigo. Normalmente até consultava as tabelas de atribuição de estrelas para saber quais os filmes a ver ou a evitar. E o mais estranho é que normalmente batia certo. Mas como o passar do tempo, e à medida que via cada vez mais filmes, a minha perspectiva começou a mudar... Só há pouco tempo é que percebi porquê.

Ao longo dos tempos apercebi-me que existem dois tipos de crítica: a crítica especializada e a crítica generalizada. Apesar de terem uma base comum - o filme - aparentemente as duas coisas não são mísciveis. (sempre quis usar usar esta palavra e nunca tive a oportunidade. É uma palavra do caraças, não é? Míscivel...).

Há uma diferença considerável entre as duas críticas e isso prova-se pela avaliação dada aos filmes. Os filmes de autor normalmente são sempre muito bem cotados pelo crítico profissional de cinema (a crítica especializada), mas o grande público (a crítica generalizada) geralmente atribui-lhe qualidades como "parado", "não se passa nada" ou como sendo "uma grande seca". Por outro lado, os grandes blockbusters são sempre um enorme sucesso junto do grande público, mas são arrasados pelo crítico de cinema que os classifica, entre muitas outras coisas, como "repetitivos", "sem substância" ou como "entretenimento desmiolado". Estranhamente, começo a enveredar pelo segundo caminho. Digo estranhamente, porque sempre fui um adepto dos efeitos especiais, mas agora critico-os. Sempre fui fã dos grandes espectáculos de acção e agora não os suporto. Tenho de admitir que já não consigo aguentar filmes de efeitos especiais, acção, perseguições e explosões. Vejo-os sempre que tenho oportunidade, mas por vezes vejo-os só mesmo para criticar. Mas há uma explicação para esta mudança.

Já vejo filmes há muitos anos. Não faço mínima ideia de quantos filmes vi (um dos propósitos do site é tentar contabilizar quantos), mas presumo que ultrapasse os milhares. Vejo tudo. Mesmo sabendo de antemão que um filme vai ser uma chachada, eu vejo na mesma.
De início via os filmes exclusivamente como observador, ou seja, estava sentado e só olhava para o ecrã. Após muitos filmes, e em certa parte devido à magia dos efeitos especiais, comecei a interessar-me pelo processo de idealização e construção do filme propriamente dito. Acho que às vezes as pessoas não têm (como eu não tinha) a percepção do trabalho que envolve fazer um filme. As filmagens, a produção, o trabalho dos actores, os efeitos, a montagem final, tudo isto dá uma trabalheira do caraças e até cansa só de pensar os anos de trabalho que estão envolvidos numa produção, só para conseguir apresentar um filme de 2 horas... ou menos.  Às vezes dou por mim a olhar para um filme, mas não estou a vê-lo; estou a tentar perceber como as luzes estão colocadas, como a ambiência duma cena foi criada ou como o actor se terá preparado para dizer aquela frase com aquela emoção específica.
Comecei a notar mais no trabalho atrás das câmaras do que estar passivamente a olhar para as imagens a passar. E isso fez toda a diferença. Comecei então a aperceber-me que existem dois tipos de filmes - o "filme de público" e o "filme de realizador" -, que "por tabela" geram os dois tipos de crítica.

O exemplo mais firme do "filme de público" é o típico blockbuster, concebido especificamente para vender bilhetes (muitos bilhetes) e pipocas nos concessionários. Também se insere nesta categoria o "filme de óscar", que normalmente é um drama meloso que dá para chorar ou com temática de guerra, porque obviamente a marca "óscar", implicitamente, também dá um boost à venda de bilhetes e pipocas, apesar de estes filmes terem muito mais "substância" em comparação com os primeiros.
Estes filmes são adorados pela crítica generalizada. Os primeiros têm todo o fogo de artíficio que justifica o preço alto dos bilhetes. Além disso têm os mais fantásticos efeitos especiais, as perseguições mais alucinantes e as cenas de acção mais violentas que se possa imaginar. Os segundos, normalmente não têm os elementos dos primeiros para justificar a "marca óscar", mas vão dar ao mesmo. É uma espécie de blockbuster só que o único efeito especial é terem no cartaz promocional o "homenzinho dourado". Há até quem tenha, quase por "obrigação" que ver todos os filmes que estão candidatos a Óscares, porque esses "são os melhores".

Depois há os filmes de realizador, ou filmes de autor. São filmes feitos por alguém que tem uma visão do mundo ou sobre um tema qualquer e quer dar a sua opinião muito pessoal através duma obra cinematográfica, independentemente do tema ser polémico, se levanta questões fracturantes ou se choca o grande público. É o que a crítica generalizada normalmente chama de "filmes de seca". Também há outro género que se insere perfeitamente aqui que é o primeiro filme/independente. São filmes dos mais variados géneros - por vezes até de acção, explosões e efeitos -, mas porque têm um orçamento minúsculo optam por aproximações mais singulares ou estéticas, e que normalmente enveredam pelo lado do choque para se fazerem notar.
Neste tipo de filmes não há perseguições, nem há acção em cima de comboios em movimento, nem efeitos especiais, nem explosões. Normalmente o que há é uma história, uma opinião, actores e um realizador atrás das câmaras a tentar mostrar o seu ponto de vista muito particular. Os críticos profissionais adoram estes filmes. Uns porque adoram mesmo, outros, parece-me, porque têm de manter o registo de "qualidade" e não podem dizer mal dum Nanni Moretti ou um Manoel de Oliveira.

Depois de analisar bem este assunto, parece-me que os dois tipos de filmes (e críticas) vão continuar a existir em simultâneo. Por um lado, vai haver sempre muito realizador independente, isto é, um teso, que tem uma ideia para um filme e vai mostrar a sua obra dê lá para onde der. Por outro, acho impossível que os grandes estúdios matem as galinhas dos ovos de ouro, que é como quem diz, o "filme de entertenimento"/"filme de animação divertido tipo Disney/Pixar". E nem sequer é preciso fazer algo novo. Podem continuar a fazer remakes para sempre... Afinal, há sempre público novo, não é verdade?  Enquanto isto acontecer, os dois tipos de crítica também vão continuar a co-existir. Claro que há sempre que contar com a invasão tecnológica. Será que vai nascer um outro tipo de crítica?

Isto tudo para dizer que vou voltar às minhas lides da crítica. Lá porque deixei de comentar/criticar, não deixei de ver filmes. Muitos, muitos filmes.
Uma pessoa que tem um site/blog em que o tema são os filmes, de certeza que consulta muitas coisas na net e lê imenso sobre cinema, certo? Errado. Tento por todos os meios não consultar nada. Pode parecer estranho, mas é verdade. Dito assim, parece que não posso fundamentar as minhas críticas/opiniões. O que se passa é o seguinte: sou uma esponja. Se leio muita coisa, acabo por escrever da mesma forma e com o mesmo conteúdo. Não sei se isto é generalizado ou se só acontece comigo, mas o que é certo é que acontece.
Apesar de não pesquisar, claro que volta e meia, lá leio uma coisas. Normalmente até em sítios que nada têm a a ver com cinema como a Wired, a Flavorwire ou a Listverse.
Por vezes estou a ver sites de notícias como The Guardian, Wall Street Journal, The Economist ou o Business Insider e se há uma referência ao cinema não resisto a dar uma leitura rápida.
A Wikipedia é útil em tudo e não ia ser excepção com o cinema.
O Youtube também tem alguma culpa no cartório porque "sugere" conteúdos e às vezes não consigo resistir a ver um bocadinho mais... e mais... e mais...



Tudo isto tem uma lógica estranha: saber tudo de antemão sobre um filme, de certa forma estraga-me o filme. Sempre ouvi dizer que informação a mais é tão má como informação a menos, e neste caso confirma-se. Pessoalmente, acho que eleva as expectactivas e depois obrigatoriamente defrauda perante a realidade do filme. Já se fazem filmes há mais de 100 anos e já existem muitos filmes excepcionais sobre os mais variados temas, portanto o normal é que seja cada vez mais difícil fazer algo original e acima de tudo, melhor que o que já foi feito.
Quanto a isso tenho uma teoria: só 1% dos filmes são de 6 estrelas. Por isso só irei comentar esses filmes tão especiais de 100 em 100. Daqui por uns tempos, quando a base de dados estiver mais preenchida, saberei se a minha teoria está certa. Mas isso é outra questão.
Muito raramente pesquiso sobre filmes ou crítica de filmes. Normalmente até pesquiso mais sobre temas relacionados com cinema do que sobre filmes propriamente ditos. O que acontece é que como não sou uma enciclopédia ambulante, por vezes tenho de saber o que estou a dizer ou perceber alguns conceitos que desconhecia. A última vez que isso aconteceu foi com Dogme 95, o grupo do Lars e as suas estranhas teorias sobre como o cinema deve ser. Como sou um fã incondicional do Von Trier tinha mesmo de perceber a lógica da coisa.
Como qualquer outro site, este é uma espécie de missão de campo em que o principal objectivo é explorar e documentar o mundo, neste caso do cinema. Claro que a perspectiva muda sempre que muda o "explorador", por isso é que há opiniões para todos os gostos e blogs sobre tudo e sobre nada. 
 
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