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O que é que acontece com a crítica de cinema num tempo em que o mundo parou e não há estreias de filmes? Penso que esta deve ser a questão do momento para os críticos profissionais. No meu caso, em que a crítica é mais de arquivo que outra coisa, é totalmente irrelevante. Para mim, se o filme saiu agora mesmo, ou há dez anos, vai dar exactamente ao mesmo, até porque já praticamente não vejo filmes no escuro do cinema. Poderia estar aqui a enumerar todos os argumentos que me levaram a afastar do cinema "tradicional", mas isso inevitavelmente levar-me-ia para campos do insulto a uma parte dos espectadores que associam ir ver um filme com a estranha ideia de uma coisa tipo feira popular, em que um gajo vai lá com os amigos para falar, rir, comer umas pipocas ou uns cachorros, situação que a mim me deixa com os cabelos em pé. Também poderia estar a argumentar sobre a paupérrima qualidade da maioria dos filmes exibidos hoje em dia, mas acho que isso já está explícito nas críticas que faço para mim próprio no resto do blog.
Nesta altura de hiato, acho que os críticos, os ditos profissionais, têm aqui uma óptima oportunidade para instruir o público sobre outros aspectos do cinema, que não sejam unicamente "o" filme. Pormenores normalmente descurados e secundarizados como por exemplo a produção, a montagem, a fotografia, a escrita do guião ou os storyboards dão uma perspectiva diferente do cinema daquela que é a passividade do momento (e que tem sido a norma dos últimos anos), em que o espectador está ali apenas sentado, a "consumir" o produto de entretenimento, sem pensar muito no assunto. O resultado desta cumplicidade passiva entre críticos e espectadores está à vista: o cinema dos últimos anos transformou-se numa espécie de parques de entretenimento passivos e os filmes propriamente ditos são meros produtos de consumo descartável.
Este "novo" tempo livre também seria bom para "desenterrar" referências antigas (que normalmente são melhores que as actuais) para assim servirem de futuras referências, até porque o cinema actual vive numa fase de reciclagem contínua. Quando se vê tantos filmes como eu já vi, percebe-se perfeitamente o padrão das coisas. Às vezes parece que estou preso num loop temporal em que estou sempre a ver a mesma coisa. E não é só por causa das constantes sequelas, reboots, remakes e re-coisos. É porque a maior parte do cinema actual assenta numa fórmula mágica de meia dúzia de guiões "infalíveis", constantemente copiados uns dos outros, até à mais completa exaustão. E isto acontece - e acho que vai continuar a acontecer - porque funciona. Acho que neste aspecto, o crítico profissional, tem um papel a desempenhar e pôr o "dedo na ferida". A crítica de cinema não pode estar - como está neste momento - ligada ao sucesso do box office ou aos ratings intencionalmente inflacionados dos agregadores de críticas. Nunca liguei muito aos Óscares, nem nunca fui atrás dos filmes galardoados em certames internacionais de prestígio para ver um bom filme, mas em 2018, quando o Black Panther da Marvel foi indicado para Melhor Filme e as críticas que li davam conta do melhor filme do ano (WTF???), percebi que algo estava muito errado no mundo do cinema, e mais especificamente no da crítica de filmes. Como é que aquilo era possível? O que é que se estava a passar? Estaríamos a ver a mesma coisa? Com as devidas excepções, parece-me que o crítico profissional, neste momento, simplesmente "vai com a onda". Parece que tem medo de se insurgir contra a ditadura da bilheteira e que se determinado filme tem muito sucesso na área da venda de pipocas, isso quer automaticamente dizer que tem algum valor, quando na realidade o que acontece é exactamente o contrário. Acho que os críticos, se calhar, também têm medo da obstinação dos fãs. Ninguém quer mesmo dizer o que realmente sente em relação ao Endgame dos Avengers ou da franchise Twilight quando há fãs malucos por esse mundo fora que eram capazes de vender um rim para poderem ser os primeiros a assistir à ante-estreia dos filmes, pois não? Mas vou deixar esta questão dos fãs para outra altura, até porque salta mais para os campos do marketing, da psicologia de massas e da sociologia do que propriamente falar de cinema...
O cinema celebra este ano 125 anos de existência, se se considerar que de facto "La Sortie de l'usine Lumière à Lyon" dos irmãos Louis e Auguste Lumière foi mesmo o primeiro filme a ser exibido. Mas se foram os Lumière os primeiros a fazê-lo, se foi Louis Le Prince em 1888 ou Eadweard Muybridge, em 1878 com a animação The Horse in Motion, isso é um pouco irrelevante. Acho é que o crítico de cinema profissional, para além do papel habitual de "comentador de bancada" - e até porque imagino que devem ter algum tipo de formação na área - também podem aproveitar o espaço que têm na opinião pública para cultivarem o público, para fomentar outro tipo de conhecimento, mas principalmente para darem a conhecer a história do próprio cinema, da sua evolução e dos seus milhentos intervenientes ao longo de todos estes 125 anos. Há seguramente muito mais cinema para além dos mais de 500.000 filmes que já se fizeram até hoje.
Como pessimista convicto que sou, sinceramente, não estou à espera que as coisas mudem. Este género de aproximação passiva gera imenso dinheiro e por isso mesmo ninguém quer mexer na "equipa ganhadora". Para além de que escrever um texto (ou criar uma parte nova de um programa de TV) sobre a história do cinema também dá muito mais trabalho do que completar os templates habituais da crítica de cinema. Eu que o diga, que estou aqui há horas a escrever este texto. Tal como tantos outros exemplos nesta vida, parece-me que tanto no cinema, como na crítica de cinema, a mentalidade vigente é não mexer muito no status quo e esperar que tudo volte ao "normal". Toda a gente ganha. Apenas o (bom) cinema fica a perder. Está mal, mas as coisas são o que são. Pessoalmente, haja ou não mudanças no mundo do cinema, é-me irrelevante. Vou continuar a ver os meus filmes e vou continuar a fazer o meu arquivo pessoal de crítica. A única coisa que vai mudar, é que provavelmente vou ter mais tempo para dedicar aqui ao blog.



PS: Uma sugestão para as TV's: ponham a rolar umas repetições, que tanto podem ser os grandes clássicos do cinema, como os "ridículos" filmes de série B que têm quase sempre excelentes histórias e são constantemente copiados e reciclados à socapa: não há Educação sem se conhecer a História. E por outro lado, há toda uma nova geração de pessoas que nunca teve oportunidade de ver os filmes intemporais. Já vi muito filme e mesmo assim tenho uma listagem imensa de grandes clássicos que nunca consegui ver porque são dificílimos de encontrar. Uma sugestão para os programas de cinema da TV: aproveitem esta altura de paragem de estreias e apresentem filmes de outros tempos, que apesar de serem antigolas, continuam a ser relevantes e actuais.




PS2: A título de arquivo, fica aqui também a "Saída do Pessoal Operário da Camisaria Confiança", da autoria de Aurélio da Paz dos Reis, um pioneiro do cinema em Portugal. É uma cópia do filme francês, mas ainda assim merece todo o destaque. Podemos não ser os gajos mais originais do mundo, mas também não somos assim tão atrasados como sempre nos foi ensinado... 
Como começar a descrever o Delicatessen? Num futuro pós-apocalíptico em que a comida é um bem raro e tardada como se fosse dinheiro, há um prédio nos arredores de Paris em que o talhante do rés-do chão arranja carne... só que não é vaca nem porco... Dito assim, é uma descrição algo pesada, mas na realidade, Delicatessen é uma comédia. Negra, mas para todos os efeitos, uma comédia. Diria mais, uma comédia única, saída das mentes geniais de Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet.
Após responder a um estranho anúncio de emprego, um ex-palhaço (Dominique Pinon) apaixona-se pela filha (Marie-Laure Dougnac) do maquiavélico talhante (Jean-Claude Dreyfus). A partir daqui, todo o prédio - que é habitado pelas mais fantásticas personagens que vi nos últimos tempos em filme (como a Aurore e as suas infrutíferas mas engenhosas tentativas de suicídio, o homem rã, o carteiro louco ou o casal Tapioca) - entra num frenesim de acontecimentos cómicos.
Bastante interessante para os dias de hoje, é a batalha implícita entre os comedores de "carne" e os vegetarianos, "gentilmente" apelidados de "trogloditas" pelos carnívoros. Pensando bem, eles poderiam co-exisitir na mesma realidade, mas há de facto uma guerra entre os que querem continuar a comer carne e viver na superfície e os que preferem ficar restritos aos grãos e aos vegetais e por isso são escorraçados para o sub-solo. Como nunca há uma explicação lógica para se chegar ao ponto de existir um "Delicatessen" com aquela carne tão peculiar, eu assumo que o mundo se dividiu (inclusive com guerras à mistura) entre os que querem manter um estilo de vida obviamente insustentável (a não ser à custa do sacrifício de outros) e os que preferem seguir outro rumo, nem que para isso se neguem a uma existência "normal" e tenham de se refugiar debaixo de terra. Na realidade, a história principal de Delicatessen nunca é bem explicada e permanece omissa durante todo o filme. Mas acho que sei porque é que isso aconteceu. Em 1991 falar de ecologia ou ambiente era como falar de hippies ou de cultos estranhos. Nessa altura a única coisa que se falava era do buraco de ozono e mesmo assim ninguém sabia o que era; apenas era melhor usar pouco Óleo Johnson nos dias de praia porque se podia ficar com aquela cor de pele alaranjada como os temidos cremes de cenoura dos anos 80. Isso e a possível falta de pressão nas latas de aerossol. Esta era a principal preocupação da população em relação ao buraco do ozono. Porra, no final da década de 90 é que se começou a equacionar tirar o chumbo dos combustíveis, portanto só por aqui dá para perceber o que significa ecologia naqueles tempos. Portanto, temas como ecologia, sustentabilidade, dietas carnívoras ou vegetarianismo, mesmo sendo um tema subtil, era algo muito à frente do seu tempo e inevitavelmente incompreensível. Diria mesmo que o tema de base do Delicatessen não foi mais desenvolvido, porque o público simplesmente não iria entender. Foda-se, estamos no século XXI e o público ainda não consegue entender, quanto mais nos anos 90... Bem, por muito atrasado que um gajo fosse nos 90's, pelo menos não lhe passaria pela cabeça defender a teoria de que a Terra é plana... Raios parta que o pessoal está a ficar cada vez mais estúpido... Mas pronto... estou a divagar novamente... voltando ao filme...
Delicatessen é uma obra única, meticulosamente criada e montada como um relógio suíço por parte de Caro e Jeunet. E convém ressalvar o pormenor importante de que este foi o filme de estreia desta dupla. Em termos visuais, de trabalho de câmara, música e também na construção e desenvolvimento das personagens é do melhor que há. Só o genérico inicial é uma pequena obra de arte.
Este é um filme que não seria possível hoje em dia. Nem a maioria do público com a mente disneyficada por décadas de filmes de super-heróis e efeitos especiais digitais conseguiria aguentar tanto tempo sentado sem explosões, nem os estúdios poriam um cêntimo que fosse para financiar uma obra destas. Delicatessen não é um filme assim tão antigo, mas já é um clássico e um sinal do que vai acontecer com o cinema para o futuro: uma polarização brutal que provavelmente levará à morte o filme de autor nas salas de cinema. Por muito bom que um filme seja, estará restrito a um serviço de streaming qualquer ou será corrido para um ciclo de cinema que ainda passe filmes não-blockbuster. É uma tristeza, mas é o que é.
Delicatessen é um filme que ainda está presente no meu cérebro. Está tão bem escrito e tão bem filmado que é inesquecível. Tem associado aquele sentimento de uma certa inocência que já raramente se vê. É tão único que tive dificuldade em descrevê-lo de início. Ainda hoje não consigo arranjar equivalência. Se alguém me perguntar de que género é o Delicatessen, vou ter a mesma dificuldade que tinha na altura. É uma comédia? É, mas não é bem. É ficção científica? Sim, mas não é bem isso. Tem números circenses e musicais, mas também parece que vai descambar para o gore sanguinário. Será do tipo comédia negra de ficção científica com inspiração circense?!? Não sei. É difícil de explicar e de qualificar. Delicatessen é apenas igual a... Delicatessen. Lá está: é peça única. Mais que um filme, Delicatessen é uma obra de arte cinematográfica que tem sempre que ser mencionada quando se fala de cinema. Absolutamente essencial. ●●●●●

Década de 30. Bonnie Parker é uma empregada de mesa farta da sua vida quotidiana. Clyde Barrow é um criminoso que acaba de cumprir pena e é libertado da prisão. Quando os dois se cruzam, a chama é imediata. A partir daí, juntos, semeiam o pânico e o caos enveredando por uma corrida mortal de assaltos a bancos e assassinato que nunca poderia acabar bem...
Há filmes que são revolucionários e que marcam uma era. Não porque são muito avançados em ideias ou questões técnicas, mas porque dão voz ou se ligam ao público da altura e que por determinados motivos se sente excluído de tudo o resto. Bonnie and Clyde é nitidamente um desses filmes. É um clássico e uma peça de história cinematográfica que, na altura, redefiniu todo o conceito de "filme de Hollywood" para um nova geração de público, que já estava farta dos "velhos" filmes de polícias a perseguir gangsters.
Numa altura em que os estereótipos do "bom" e do "mau" definia quem ia ficar com a rapariga no fim e quem iria morrer, eis que aparece Bonnie and Clyde, muda todos os conceitos e surpreende pela empatia com que põe o público do lado dos supostos maus. Ter o público a "puxar" pelo ladrão e pelos fugitivos, e de alguma forma, os polícias é que são os "maus" que merecem morrer por estarem a interromper o romance maldito deste casal perdido de amores, tornaria Bonnie and Clyde como derradeiro filme anti-establishment. Com todas estas condicionantes, ou seria um flop total ou seria uma referência para próximos filmes e realizadores. Em vez disso, tornou-se num clássico.
Actores monstruosos e icónicos como Warren Beatty, Faye Dunaway, Michael J. Pollard, Gene Hackman (e um novíssimo Gene Wilder, em estreia absoluta) protagonizam um dos grandes filmes do cinema, dirigidos pelo mítico Arthur Penn. Um clássico totalmente obrigatório. ●●●●●

 
Uma pessoa está a ler o jornal e chega à parte do cinema. Num canto está a avaliação do crítico de cinema que avalia os filmes usando uma escala de estrelas. Nunca liguei muito a essas classificações, porque me apercebi que não batiam certo com a minha lógica. Aliás, parecia que não batia certo com a lógica de ninguém. Cheguei a ouvir pessoas a comentar: "Olha, este filme está cotado com muitas estrelas. Não deve prestar para nada" ou então: "Se estes gajos dizem que o filme não presta então é porque é bom" Presumo que esta situação já deve ter acontecido com toda a gente...

Também acontecia comigo. Normalmente até consultava as tabelas de atribuição de estrelas para saber quais os filmes a ver ou a evitar. E o mais estranho é que normalmente batia certo. Mas como o passar do tempo, e à medida que via cada vez mais filmes, a minha perspectiva começou a mudar... Só há pouco tempo é que percebi porquê.

Ao longo dos tempos apercebi-me que existem dois tipos de crítica: a crítica especializada e a crítica generalizada. Apesar de terem uma base comum - o filme - aparentemente as duas coisas não são mísciveis. (sempre quis usar usar esta palavra e nunca tive a oportunidade. É uma palavra do caraças, não é? Míscivel...).

Há uma diferença considerável entre as duas críticas e isso prova-se pela avaliação dada aos filmes. Os filmes de autor normalmente são sempre muito bem cotados pelo crítico profissional de cinema (a crítica especializada), mas o grande público (a crítica generalizada) geralmente atribui-lhe qualidades como "parado", "não se passa nada" ou como sendo "uma grande seca". Por outro lado, os grandes blockbusters são sempre um enorme sucesso junto do grande público, mas são arrasados pelo crítico de cinema que os classifica, entre muitas outras coisas, como "repetitivos", "sem substância" ou como "entretenimento desmiolado". Estranhamente, começo a enveredar pelo segundo caminho. Digo estranhamente, porque sempre fui um adepto dos efeitos especiais, mas agora critico-os. Sempre fui fã dos grandes espectáculos de acção e agora não os suporto. Tenho de admitir que já não consigo aguentar filmes de efeitos especiais, acção, perseguições e explosões. Vejo-os sempre que tenho oportunidade, mas por vezes vejo-os só mesmo para criticar. Mas há uma explicação para esta mudança.

Já vejo filmes há muitos anos. Não faço mínima ideia de quantos filmes vi (um dos propósitos do site é tentar contabilizar quantos), mas presumo que ultrapasse os milhares. Vejo tudo. Mesmo sabendo de antemão que um filme vai ser uma chachada, eu vejo na mesma.
De início via os filmes exclusivamente como observador, ou seja, estava sentado e só olhava para o ecrã. Após muitos filmes, e em certa parte devido à magia dos efeitos especiais, comecei a interessar-me pelo processo de idealização e construção do filme propriamente dito. Acho que às vezes as pessoas não têm (como eu não tinha) a percepção do trabalho que envolve fazer um filme. As filmagens, a produção, o trabalho dos actores, os efeitos, a montagem final, tudo isto dá uma trabalheira do caraças e até cansa só de pensar os anos de trabalho que estão envolvidos numa produção, só para conseguir apresentar um filme de 2 horas... ou menos.  Às vezes dou por mim a olhar para um filme, mas não estou a vê-lo; estou a tentar perceber como as luzes estão colocadas, como a ambiência duma cena foi criada ou como o actor se terá preparado para dizer aquela frase com aquela emoção específica.
Comecei a notar mais no trabalho atrás das câmaras do que estar passivamente a olhar para as imagens a passar. E isso fez toda a diferença. Comecei então a aperceber-me que existem dois tipos de filmes - o "filme de público" e o "filme de realizador" -, que "por tabela" geram os dois tipos de crítica.

O exemplo mais firme do "filme de público" é o típico blockbuster, concebido especificamente para vender bilhetes (muitos bilhetes) e pipocas nos concessionários. Também se insere nesta categoria o "filme de óscar", que normalmente é um drama meloso que dá para chorar ou com temática de guerra, porque obviamente a marca "óscar", implicitamente, também dá um boost à venda de bilhetes e pipocas, apesar de estes filmes terem muito mais "substância" em comparação com os primeiros.
Estes filmes são adorados pela crítica generalizada. Os primeiros têm todo o fogo de artíficio que justifica o preço alto dos bilhetes. Além disso têm os mais fantásticos efeitos especiais, as perseguições mais alucinantes e as cenas de acção mais violentas que se possa imaginar. Os segundos, normalmente não têm os elementos dos primeiros para justificar a "marca óscar", mas vão dar ao mesmo. É uma espécie de blockbuster só que o único efeito especial é terem no cartaz promocional o "homenzinho dourado". Há até quem tenha, quase por "obrigação" que ver todos os filmes que estão candidatos a Óscares, porque esses "são os melhores".

Depois há os filmes de realizador, ou filmes de autor. São filmes feitos por alguém que tem uma visão do mundo ou sobre um tema qualquer e quer dar a sua opinião muito pessoal através duma obra cinematográfica, independentemente do tema ser polémico, se levanta questões fracturantes ou se choca o grande público. É o que a crítica generalizada normalmente chama de "filmes de seca". Também há outro género que se insere perfeitamente aqui que é o primeiro filme/independente. São filmes dos mais variados géneros - por vezes até de acção, explosões e efeitos -, mas porque têm um orçamento minúsculo optam por aproximações mais singulares ou estéticas, e que normalmente enveredam pelo lado do choque para se fazerem notar.
Neste tipo de filmes não há perseguições, nem há acção em cima de comboios em movimento, nem efeitos especiais, nem explosões. Normalmente o que há é uma história, uma opinião, actores e um realizador atrás das câmaras a tentar mostrar o seu ponto de vista muito particular. Os críticos profissionais adoram estes filmes. Uns porque adoram mesmo, outros, parece-me, porque têm de manter o registo de "qualidade" e não podem dizer mal dum Nanni Moretti ou um Manoel de Oliveira.

Depois de analisar bem este assunto, parece-me que os dois tipos de filmes (e críticas) vão continuar a existir em simultâneo. Por um lado, vai haver sempre muito realizador independente, isto é, um teso, que tem uma ideia para um filme e vai mostrar a sua obra dê lá para onde der. Por outro, acho impossível que os grandes estúdios matem as galinhas dos ovos de ouro, que é como quem diz, o "filme de entertenimento"/"filme de animação divertido tipo Disney/Pixar". E nem sequer é preciso fazer algo novo. Podem continuar a fazer remakes para sempre... Afinal, há sempre público novo, não é verdade?  Enquanto isto acontecer, os dois tipos de crítica também vão continuar a co-existir. Claro que há sempre que contar com a invasão tecnológica. Será que vai nascer um outro tipo de crítica?

Isto tudo para dizer que vou voltar às minhas lides da crítica. Lá porque deixei de comentar/criticar, não deixei de ver filmes. Muitos, muitos filmes.
 
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