É difícil ter acesso às grandes estrelas, sem ser através de um documentário. Este Listen to me Marlon é uma pérola e um privilégio. Com locução do próprio Marlon Brando, com recurso a horas de cassetes gravadas pelo mesmo, é uma oportunidade única para mergulhar no complexo interior da cabeça de um dos melhores actores de sempre. Pioneiro do Método, Marlon é um actor completo e único na história do próprio cinema, mas que também desprezava o próprio trabalho. Para uma pessoa que simplesmente odiava a mentira, representar (que basicamente é mentir propositadamente para uma câmara) foi corroendo-o totalmente por dentro, ao ponto de o levar à reclusão e ao nojo pela própria profissão.
Um génio que se transforma num eremita é basicamente a derradeira definição de... lenda. Que é o que Marlon Brando inegavelmente é.
Apesar de só o "conhecer" muito tarde na carreira (ainda não consegui ver alguns dos seus clássicos mais antigos!), sempre me identifiquei muito com as personagens de Brando. Depois do documentário, identifiquei-me muito mais com o homem. É uma pessoa que está em guerra constante, mas numa busca pela paz. Esta dualidade acaba sempre por fazer mossa, e no caso do super-exposto e super-mediático Marlon foi absolutamente determinante.
De super-estrela a super-odiado, passando pelo regresso no final dos 70's e o auto-exílio, passando pelas grandes turbulências amorosas e tragédias da sua vida pessoal, o afastamento da carreira e as disposições activistas e políticas (até na cerimónia de entrega dos Óscares), tudo é extremamente bem contado e narrado para mostrar como um "simples" actor se transformou numa lenda de Hollywood e do cinema em geral.
Listen to me Marlon é documentário muito bom, muitíssimo bem escrito e enquadrado da autoria de Stevan Riley. Apenas não gostei do tom predominantemente negro, por vezes quase a roçar o documentário de "exploração". Houve ali uma tentaçãozinha de explorar o lado mais escandaloso, mas vá lá, Riley acabou por se conter e fez muitíssimo bem, porque acabou por construir um dos melhores documentários sobre actores que já vi. Absolutamente obrigatório. ●●●●○
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Se Apocalypse Now é o melhor filme de guerra que alguma vez vi (e de um modo geral, um dos melhores de sempre), então Hearts of Darkness é o melhor documentário sobre cinema. E também sobre quão difícil é todo o processo criativo que está por trás de um filme, desde os primeiros passos na escrita do guião até à tela gigante de cinema. Fiquei um bocado marcado quando vi este documentário. A partir de determinado ponto deixei de conseguir dissociar um do outro.
Sempre que via o Apocalypse Now intrigava-me a construção do próprio filme. É tão denso, real (na sua surrealidade muito particular), cru e verdadeiro que sempre achei que o processo criativo devia ser algo estranho. Já tinha lido bastantes coisas sobre a forma caótica como Francis Ford Coppola dirigiu toda a operação (e também como foi sendo "dirigido" por acontecimentos bizarros). E era mesmo uma operação, quase militar. Ali não haviam fundos azuis ou efeitos especiais. Quando era necessário que aparecessem helicópteros ou uma gigantesca explosão, tinham mesmo de estar lá helicópteros militares ou uma gigantesca explosão para se poder filmar. Num filme com a escala de Apocalypse Now é quase mirabolante imaginar como foi possível filmar tudo aquilo.
Nesse aspecto, Hearts of Darkness é uma dádiva para os amantes do cinema. Uma rara oportunidade de ver um artista a trabalhar na cadeira de realizador, de ver artistas como Marlon Brando a criar uma personagem como Kurtz, de ver um filme desta envergadura ser construído peça a peça como se fosse um gigantesco puzzle. É um documentário brilhante e único. Até no pormenor de ter sido feito a três mãos: Fax Bahr, George Hickenlooper e Eleanor Coppola. Mesmo como peça "solta", Hearts of Darkness é excelente e muito completo. As entrevistas, as revelações e o método dos actores, as imagens por detrás da câmara, as dificuldades contra os elementos, a luta quase corpo a corpo para se conseguir juntar todas as peças, está lá tudo. E assim percebe-se um pouco porque Apocalypse Now é o filme que é. Fazê-lo, foi em si mesmo, uma guerra contra tudo e todos.
Sempre que revejo o Hearts of Darkness fico com a sensação que Eleanor Coppola, quando começou a filmar, percebeu imediatamente que este seria um filme muito difícil de fazer e por isso seria necessário registar tudo para a posteridade, como uma prova do valor e perseverança de Francis Ford Coppola. E é preciso dizer-lo: só mesmo alguém tão brilhante como o Coppola conseguiria montar uma produção desta envergadura, mandar tudo de avião para o meio da floresta nas Filipinas e fazer o Apocalypse Now.
Até hoje, é simplesmente o melhor documentário que vi sobre a concepção de um filme. E acaba também por ser um tributo à genialidade de Francis Ford Coppola. Para quem gosta de cinema, Hearts of Darkness é absolutamente obrigatório. ●●●●●
Sempre que via o Apocalypse Now intrigava-me a construção do próprio filme. É tão denso, real (na sua surrealidade muito particular), cru e verdadeiro que sempre achei que o processo criativo devia ser algo estranho. Já tinha lido bastantes coisas sobre a forma caótica como Francis Ford Coppola dirigiu toda a operação (e também como foi sendo "dirigido" por acontecimentos bizarros). E era mesmo uma operação, quase militar. Ali não haviam fundos azuis ou efeitos especiais. Quando era necessário que aparecessem helicópteros ou uma gigantesca explosão, tinham mesmo de estar lá helicópteros militares ou uma gigantesca explosão para se poder filmar. Num filme com a escala de Apocalypse Now é quase mirabolante imaginar como foi possível filmar tudo aquilo.
Nesse aspecto, Hearts of Darkness é uma dádiva para os amantes do cinema. Uma rara oportunidade de ver um artista a trabalhar na cadeira de realizador, de ver artistas como Marlon Brando a criar uma personagem como Kurtz, de ver um filme desta envergadura ser construído peça a peça como se fosse um gigantesco puzzle. É um documentário brilhante e único. Até no pormenor de ter sido feito a três mãos: Fax Bahr, George Hickenlooper e Eleanor Coppola. Mesmo como peça "solta", Hearts of Darkness é excelente e muito completo. As entrevistas, as revelações e o método dos actores, as imagens por detrás da câmara, as dificuldades contra os elementos, a luta quase corpo a corpo para se conseguir juntar todas as peças, está lá tudo. E assim percebe-se um pouco porque Apocalypse Now é o filme que é. Fazê-lo, foi em si mesmo, uma guerra contra tudo e todos.
Sempre que revejo o Hearts of Darkness fico com a sensação que Eleanor Coppola, quando começou a filmar, percebeu imediatamente que este seria um filme muito difícil de fazer e por isso seria necessário registar tudo para a posteridade, como uma prova do valor e perseverança de Francis Ford Coppola. E é preciso dizer-lo: só mesmo alguém tão brilhante como o Coppola conseguiria montar uma produção desta envergadura, mandar tudo de avião para o meio da floresta nas Filipinas e fazer o Apocalypse Now.
Até hoje, é simplesmente o melhor documentário que vi sobre a concepção de um filme. E acaba também por ser um tributo à genialidade de Francis Ford Coppola. Para quem gosta de cinema, Hearts of Darkness é absolutamente obrigatório. ●●●●●

