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De todos os vídeos mais consumidos no mundo inteiro, há uns que saltam à vista: são os trailers de filmes. Eles são as melhores ferramentas de promoção que os filmes e os estúdios têm à disposição. Fazem toda a diferença no que toca em chegar ao público e os estúdios sabem muito bem disso. Mas sendo um eterno curioso, sempre me intrigou o nome. Porquê trailer? Tipo, como em "semi-reboque"? Uma coisa que é suposto "vir a seguir a...", mas que aparece "antes de..."? Não me fazia sentido nenhum. Fui então descobrir a origem do humilde, mas omnipresente trailer...
Hoje em dia não preciso partir muito a cabeça à procura das coisas, por isso aqui fica o link. Mas seja como for, um pequeno resumo para mim próprio.
O termo trailer vem do pormenor de terem sido originalmente exibidos no final das longas-metragens (ou seja, a reboque do filme, daí o "trailer"). No entanto, tal como acontece hoje dia, em que ninguém liga ao créditos finais, acabado o filme, o público normalmente abandonava a sala de cinema e então via os trailers. Assim, os trailers passaram para a parte inicial da exibição dos filmes.
Como sempre acontece quando um gajo pesquisa coisas na net, encontra discrepências. Historicamente, há discussões sobre se o primeiro trailer foi do filme The Adventures of Kathlyn, em 1913 ou se foi o Pleasure Seekers de 1912. Questões técnicas à parte, os trailers foram para o início dos filmes e foram-se disseminando como uma parte integrante do próprio cinema. Se bem que ultimamente foram recuperados nos grandes blockbusters da Marvel. O que foi vinculado como uma grande novidade, afinal não é mais que uma repetição... Mas para além desta questões ,alguém consegues imaginar o cinema sem trailers?
Há tantos aspectos nos trailers, tanta história e tanto para falar que acho que conseguia escrever um livro inteiro sobre o tema. Mas vou-me conter e mencionar apenas alguns pormenores que acho relevantes. Logo à partida há os trailers clássicos, que para mim, são aqueles que acho que melhor representam os trailers à moda antiga.



Vendo as coisas em perspectivas, por definição, os primeiros trailers eram na verdade teasers. Pequenos trechos do filme que viria a seguir sem mostrar quase nada do filme, apenas para aguçar a curiosidade. É curioso que isso aconteça porque hoje em dia, o primeiro contacto dos filmes com o público é precisamente com o teaser. Os estúdios lançam "n" de teasers, por vezes, meses antes da estreia e com os filmes ainda na mesa de montagem ou pós-produção, só para manterem o público em contacto e a salivar. Um exemplo recente de um teaser para o lançamento do próprio teaser trailer (!!!) e um exemplo antigo que apostou bastante no efeito surpresa...




Uma das coisas que mais sucesso faz hoje em dia no mundo dos trailers é pegar num filme antigo e fazer-lhe um trailer moderno.  Há que dar todo o mérito a este pessoal com tempo, saber e paciência suficiente para fazer estas coisas. Na maior parte dos casos fazem um trabalho verdadeiramente espectacular. Mas mais importante que esta renovação visual dos filmes antigos, mostram um pormenor importantíssimo: a promoção é tudo! Já não é a primeira vez que noto que o trailer é muito melhor que o filme. Às vezes engana bem o público. O trailer é profissional e tem um tom que o filme, de aspecto às vezes amador, nem lhe chega perto... Mas o mais relevante é o que "amadores" conseguem fazer com o material original...





A recente entrada em acção dos mega-blockbusters, para além de "industrializar" os lançamentos, os argumentos e as próprias estruturas narrativas dos filmes, acabou por contaminar também os próprios trailers. Agora já não são só os filmes que parecem todos iguais; os trailers também são todos iguais. É a derradeira invasão do cliché...




Agora uma homenagem. Eu não sei se isto aconteceu com mais alguém, mas durante anos estranhei o facto de todos os filmes terem a mesma locução. Havia uma série de pessoas com vozes muito parecidas, espectacularmente graves a fazer a narração dos trailers em doses industriais? A resposta é não. Havia apenas um homem. Quando se fala de trailers há um nome que simplesmente não pode ser ignorado. Don Lafontaine. Apesar de ser um ilustre desconhecido, a sua voz é omnipresente. Milhares de trailers, décadas de trabalho, e uma voz profunda e inconfundível nos quatros cantos de mundo fizeram com que gerações inteiras reconheçam este génio na sombra. Merece todo o meu reconhecimento e aplausos porque é parte integrante do mundo do cinema.



E por último, pergunto eu: dada a importância e a omnipresença, não deveria haver um prémio anual, tipo Óscar, para o melhor trailer? Fica aqui a sugestão...
Vi o Parasitas (Gisaengchung, no impronunciável título original) antes de ter vencido uma porrada de Óscares e tinha-o aqui de parte para poder escrever um pouco mais quando tivesse mais tempo livre porque é um filme que justifica. É uma excelente e complexa crítica social. Mas também é uma comédia e um drama. E um thriller também. Parasitas está numa classe totalmente à parte dos filmes que um gajo normalmente vê. Se me perguntassem como é que o classificava ou com o que é parecido... Teria que fazer uma pausa ainda longa e só poderia dizer que é uma estranha mistura asiática resultante da combinação de um "Tarantino" com um "irmãos Coen". Ou seja, tudo está bem até que tudo corre horrivelmente mal.
Parasitas conta a história dos Kims, uma família sul-coreana pobre que vive numa sub-cave e sobrevive fazendo pequenos trabalhos como dobrar caixas de pizza. Mas um acaso do destino acaba por levar a que filho mais novo se relacione com uma família muito rica, entrando pela porta dos fundos como empregado. Primeiro, o filho pobre começa a dar explicações à filha rica, mas depois, tal como um parasita infecta e se multiplica no corpo do seu hospedeiro, toda a restante família começa a entrar sorrateiramente na rotina da casa, sempre com recurso a estratagemas mais ou menos complexos. Curiosamente, a certo ponto, começa a fazê-lo à custa da empregada residente (também ela pobre) que trata de todas as lides da casa. Aliás, a "família" da empregada é tão pobre que ela tem o marido... bem, não vou prosseguir para não estragar a surpresa. Até porque este é um dos grandes pontos fortes da história e de todo o filme, que são as constantes mudanças bruscas na narrativa e os inesperados twists.
O tom de Parasitas é constantemente crítico mas também é nitidamente satírico. E de certa forma é justo na aproximação e não entre nos estereótipos do costume. Nem os pobres são uns coitadinhos, oprimidos ou inocentes, nem os ricos são o diabo com o coração empedernido. De certa forma, Bong Joon Ho atira para os dois lados e não deixa ninguém incólume. Acho que esse é o grande trunfo de toda a narrativa e a mensagem subjacente: seja rico ou seja pobre, um gajo vai fazer tudo ao seu alcance para ter uma vida melhor. Inevitavelmente isso acabará por atropelar outras pessoas, sejam ricas ou pobres. E é aqui que se faz a separação com base na empatia: os "bons" percebem que a determinada altura vão ter de parar; os "maus", nem por isso.
Os actores, sem excepção, são soberbos (Kang-ho Song [sinceramente, o único que conheço], Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, So-dam Park, Jeong-eun Lee) como é costume nos castings asiáticos, mas também são ajudados pelas personagens memoráveis.
Apesar de todos os prémios que arrecadou nunca diria que Parasitas é o melhor filme de Bong Joon Ho que já vi. Gostei tanto deste como gostei do Okja ou do The Host. Acho que simplesmente, Parasitas arrecadou prémios e impactou tanto a opinião pública porque teve o condão de tocar num ponto muito actual (o das desigualdades sociais e económicas), na altura certa. Já para não falar na questão muito criticada da (pouca) multiculturalidade na atribuição dos próprios Óscares.
Seja como for, Bong Joon Ho continua sempre em crescendo e continua a surpreender-me sempre pela positiva. Grande realização e também excelente música e fotografia. Tem momentos absolutamente geniais como por exemplo aquela cena da enxurrada no final. Brilhante. Apesar de todos os prémios que arrecadou, tenho que dizer que não foi o melhor filme que vi no ano passado. Houve um filme ainda melhor, mas isso fica para outra altura... Mas pela diferença, pela surpresa constante e por ser um filme feito de forma muito inteligente, acho muito bem que Parasitas tenha ganho o Óscar para melhor filme. ●●●●○

O que é que acontece com a crítica de cinema num tempo em que o mundo parou e não há estreias de filmes? Penso que esta deve ser a questão do momento para os críticos profissionais. No meu caso, em que a crítica é mais de arquivo que outra coisa, é totalmente irrelevante. Para mim, se o filme saiu agora mesmo, ou há dez anos, vai dar exactamente ao mesmo, até porque já praticamente não vejo filmes no escuro do cinema. Poderia estar aqui a enumerar todos os argumentos que me levaram a afastar do cinema "tradicional", mas isso inevitavelmente levar-me-ia para campos do insulto a uma parte dos espectadores que associam ir ver um filme com a estranha ideia de uma coisa tipo feira popular, em que um gajo vai lá com os amigos para falar, rir, comer umas pipocas ou uns cachorros, situação que a mim me deixa com os cabelos em pé. Também poderia estar a argumentar sobre a paupérrima qualidade da maioria dos filmes exibidos hoje em dia, mas acho que isso já está explícito nas críticas que faço para mim próprio no resto do blog.
Nesta altura de hiato, acho que os críticos, os ditos profissionais, têm aqui uma óptima oportunidade para instruir o público sobre outros aspectos do cinema, que não sejam unicamente "o" filme. Pormenores normalmente descurados e secundarizados como por exemplo a produção, a montagem, a fotografia, a escrita do guião ou os storyboards dão uma perspectiva diferente do cinema daquela que é a passividade do momento (e que tem sido a norma dos últimos anos), em que o espectador está ali apenas sentado, a "consumir" o produto de entretenimento, sem pensar muito no assunto. O resultado desta cumplicidade passiva entre críticos e espectadores está à vista: o cinema dos últimos anos transformou-se numa espécie de parques de entretenimento passivos e os filmes propriamente ditos são meros produtos de consumo descartável.
Este "novo" tempo livre também seria bom para "desenterrar" referências antigas (que normalmente são melhores que as actuais) para assim servirem de futuras referências, até porque o cinema actual vive numa fase de reciclagem contínua. Quando se vê tantos filmes como eu já vi, percebe-se perfeitamente o padrão das coisas. Às vezes parece que estou preso num loop temporal em que estou sempre a ver a mesma coisa. E não é só por causa das constantes sequelas, reboots, remakes e re-coisos. É porque a maior parte do cinema actual assenta numa fórmula mágica de meia dúzia de guiões "infalíveis", constantemente copiados uns dos outros, até à mais completa exaustão. E isto acontece - e acho que vai continuar a acontecer - porque funciona. Acho que neste aspecto, o crítico profissional, tem um papel a desempenhar e pôr o "dedo na ferida". A crítica de cinema não pode estar - como está neste momento - ligada ao sucesso do box office ou aos ratings intencionalmente inflacionados dos agregadores de críticas. Nunca liguei muito aos Óscares, nem nunca fui atrás dos filmes galardoados em certames internacionais de prestígio para ver um bom filme, mas em 2018, quando o Black Panther da Marvel foi indicado para Melhor Filme e as críticas que li davam conta do melhor filme do ano (WTF???), percebi que algo estava muito errado no mundo do cinema, e mais especificamente no da crítica de filmes. Como é que aquilo era possível? O que é que se estava a passar? Estaríamos a ver a mesma coisa? Com as devidas excepções, parece-me que o crítico profissional, neste momento, simplesmente "vai com a onda". Parece que tem medo de se insurgir contra a ditadura da bilheteira e que se determinado filme tem muito sucesso na área da venda de pipocas, isso quer automaticamente dizer que tem algum valor, quando na realidade o que acontece é exactamente o contrário. Acho que os críticos, se calhar, também têm medo da obstinação dos fãs. Ninguém quer mesmo dizer o que realmente sente em relação ao Endgame dos Avengers ou da franchise Twilight quando há fãs malucos por esse mundo fora que eram capazes de vender um rim para poderem ser os primeiros a assistir à ante-estreia dos filmes, pois não? Mas vou deixar esta questão dos fãs para outra altura, até porque salta mais para os campos do marketing, da psicologia de massas e da sociologia do que propriamente falar de cinema...
O cinema celebra este ano 125 anos de existência, se se considerar que de facto "La Sortie de l'usine Lumière à Lyon" dos irmãos Louis e Auguste Lumière foi mesmo o primeiro filme a ser exibido. Mas se foram os Lumière os primeiros a fazê-lo, se foi Louis Le Prince em 1888 ou Eadweard Muybridge, em 1878 com a animação The Horse in Motion, isso é um pouco irrelevante. Acho é que o crítico de cinema profissional, para além do papel habitual de "comentador de bancada" - e até porque imagino que devem ter algum tipo de formação na área - também podem aproveitar o espaço que têm na opinião pública para cultivarem o público, para fomentar outro tipo de conhecimento, mas principalmente para darem a conhecer a história do próprio cinema, da sua evolução e dos seus milhentos intervenientes ao longo de todos estes 125 anos. Há seguramente muito mais cinema para além dos mais de 500.000 filmes que já se fizeram até hoje.
Como pessimista convicto que sou, sinceramente, não estou à espera que as coisas mudem. Este género de aproximação passiva gera imenso dinheiro e por isso mesmo ninguém quer mexer na "equipa ganhadora". Para além de que escrever um texto (ou criar uma parte nova de um programa de TV) sobre a história do cinema também dá muito mais trabalho do que completar os templates habituais da crítica de cinema. Eu que o diga, que estou aqui há horas a escrever este texto. Tal como tantos outros exemplos nesta vida, parece-me que tanto no cinema, como na crítica de cinema, a mentalidade vigente é não mexer muito no status quo e esperar que tudo volte ao "normal". Toda a gente ganha. Apenas o (bom) cinema fica a perder. Está mal, mas as coisas são o que são. Pessoalmente, haja ou não mudanças no mundo do cinema, é-me irrelevante. Vou continuar a ver os meus filmes e vou continuar a fazer o meu arquivo pessoal de crítica. A única coisa que vai mudar, é que provavelmente vou ter mais tempo para dedicar aqui ao blog.



PS: Uma sugestão para as TV's: ponham a rolar umas repetições, que tanto podem ser os grandes clássicos do cinema, como os "ridículos" filmes de série B que têm quase sempre excelentes histórias e são constantemente copiados e reciclados à socapa: não há Educação sem se conhecer a História. E por outro lado, há toda uma nova geração de pessoas que nunca teve oportunidade de ver os filmes intemporais. Já vi muito filme e mesmo assim tenho uma listagem imensa de grandes clássicos que nunca consegui ver porque são dificílimos de encontrar. Uma sugestão para os programas de cinema da TV: aproveitem esta altura de paragem de estreias e apresentem filmes de outros tempos, que apesar de serem antigolas, continuam a ser relevantes e actuais.




PS2: A título de arquivo, fica aqui também a "Saída do Pessoal Operário da Camisaria Confiança", da autoria de Aurélio da Paz dos Reis, um pioneiro do cinema em Portugal. É uma cópia do filme francês, mas ainda assim merece todo o destaque. Podemos não ser os gajos mais originais do mundo, mas também não somos assim tão atrasados como sempre nos foi ensinado... 
Um pianista de bar aspirante a músico de Jazz (Ryan Gosling) e uma jovem actriz (Emma Stone) à procura da sua oportunidade num cenário doce-amargo de Los Angeles. Acho que posso resumir assim La La Land. Esperei muito tempo para ver este filme. Tinha muitas reservas. Quando sinto muito hype em relação a um filme (ainda por cima, um musical), fico sempre de pé atrás, por eleva demasiado a expectiva e normalmente o resultado é uma enorme decepção. Mas não foi o caso. O hype foi totalmente justificado. Se soubesse que o realizador era o Damien Chazelle tinha-o visto mais cedo, porque até hoje nunca me falhou. É um excelente filme. Daqueles sem mácula. As músicas de Justin Hurwitz são soberbas e ficam imediatamente no ouvido. Passaram quase imediatamente a fazer parte da minha playlist regular, o que não é nada fácil de acontecer. La La Land cheira bem. E cheira a novo. Mas também tem aquele cheiro característico dos antigos filmes musicais, verdadeiros, com o Gene Kelly ou o Fred Astaire. É genuíno, faço-me entender? Gostei muito. La La Land começa bem, desenvolve-se em ritmo de crescendo e termina ainda melhor, com aquele final excepcional, tudo no correcto e idílico tom la-la-land. Quando um filme é assim tão bom, não há muito para dizer. O melhor é mesmo ver, ouvir, apreciar e ponto final. ●●●●●



PS: Para além do excelente filme que é, La La Land venceu inúmeros prémios incluindo uma série de Óscares. No entanto, vai ficar ligado a uma das maiores gaffes de sempre. Na apresentação do prémio para melhor filme, um problema com os envelopes  levou a que Warren Beatty e Faye Dunaway (os eternos Bonnie and Clyde) erradamente entregassem o prémio a La La Land. Os produtores foram como é normal para o palco fazer os seus discursos, quando se instala a confusão. Afinal, o vencedor era o filme Moonlight e não La La Land. Os produtores devolveram o Óscar e lá saíram calmamente pela lateral do palco para dar lugar aos produtores de Moonlight que lá receberam o prémio de melhor filme. Mas a troca dos envelopes e a apresentação errada do vencedor é que acabou por ficar para a história. De toda esta história rocambolesca, a única coisa que me passou pela cabeça foi que Beatty e Dunaway na realidade nunca largaram os papéis de Bonnie e Clyde. E uma vez gangster, para sempre gangster... Gosto de imaginar que foi assim e não uma simples troca de envelopes. Qual é a graça disso?...
Midnight Express é um daqueles dramalhaços que dispensa apresentações. É um potente soco no estômago do princípio ao fim. Baseado na incrível história de Billy Hayes, um jovem americano que nos politicamente instáveis anos 70 é preso no aeroporto de Istambul na posse de drogas e posteriormente condenado a 40 anos de prisão. Se isso já seria mau o suficiente nos dias de hoje, o caso torna-se ainda mais dramático se se considerar uma prisão turca nos 70's. Ou pelo menos, a prisão do filme, porque nos anos seguintes e até aos dias de hoje, toda a gente envolvida no filme tem vindo constantemente a público desculpar-se pela horrenda imagem que fizeram passar dos turcos e do seu sistema penal e prisional. De facto, há que admitir, que parece que uma pessoa está ver mais uma prisão medieval do que uma prisão nos anos 70. Sinceramente, é-me igual. Nunca iria colar um rótulo tão negativo a uma nação inteira só porque vi um filme que exagera nos acontecimentos e no drama. É um filme, certo? Não é a realidade. Quando bem feito, produz as mesmas emoções que a realidade, mas ainda assim, não é a realidade. Mas essa "realidade" encenada de emoções é que distingue os maus dos bons filmes. E se há coisa que Midnight Express faz muito bem, é despertar emoções. Angústia, raiva, tristeza, revolta, sacrifício... Não são propriamente boas coisas que saem deste filme, mas... é a vida.
Ver a loucura a apoderar-se de um gajo e depois vê-lo a ressurgir dos seus próprios escombros é absolutamente espantoso. Um tour-de-force inesquecível de Brad Davis. O filme é tenso e imensamente dramático. Mas só pelo interpretação soberba de Davis levava um "5" garantido... Seguramente uma das melhores interpretações que já vi. Mas curiosamente, Davis nem sequer foi nomeado para um Óscar. E porquê? Ninguém sabe... Politiquices internas, uma personalidade extravagante e/ou jogos de bastidores, suspeito eu... Mas não posso confirmar nada, por isso mantenho-me na ignorância. Para além de Davis e da sua brilhante performance, também há pessoal de "peso", como Paolo Bonacelli, Paul L. Smith e John Hurt, mas o restante casting não lhe fica atrás. Nada falha neste filme. A música de Giorgio Moroder é sublime e o guião de Oliver Stone, idem aspas. Os dois receberam Óscares como prémio. Mas para mim, o melhor prémio é mesmo poder ver um excelente filme como o Midnight Express. E depois... Alan Parker. Ai Alan Parker, Alan Parker, que saudades eu tenho de realizadores como tu. Um verdadeiro mestre. Um artesão emocional de filmes. O cinema no seu melhor e um dos meus filmes preferidos. Midnight Express é um clássico intemporal e verdadeiramente um filme de culto. ●●●●●



P.S. Não consegui resistir e resolvi dar uma vista de olhos nos comentários de pessoal anónimo e não profissional como eu. Tanto a opinião do crítico de renome como o do vulgar "toino" como eu, tem o mesmo efeito: zero. Lá porque muita gente acha que este filme é uma obra prima ou uma cagada em três actos, para mim é totalmente indiferente. Na realidade, é mesmo isso que acontece. A crítica é extremamente polarizada. Tanto é considerado uma obra-prima, como é uma nociva propaganda racista. No entanto, esta polarização simplesmente não muda a minha opinião. Mas choca-me o facto de ver tanta gente a criticar o filme como sendo uma obra de propaganda anti-islão, ou anti-turca, ou anti-outra coisa qualquer. Deixa-me a pensar. Já estamos assim tão embrenhados no nauseabundo politicamente correcto que não se pode dramatizar, sem cair no exagero de ter sempre uma etiqueta de racista para ser colado em tudo e todos? É que isto assim está a tornar-se perigoso. Qualquer dia eu não posso ver um filme da Leni Riefenstahl - nem que seja só para ver os aspectos técnicos e cinematográficos - sem ser considerado um apologista do nazismo! Ou alguém vai-me acusar de estar fazer propaganda nazi, se eu comentar aqui o filme? Vamos também começar a destruir "carochas" porque foram idealizados por esse regime? Se calhar estou a exagerar nas extrapolações, se calhar não, até porque há uma importante questão em volta deste tema: e se a história de Billy Hayes fosse 100% verídica? Toda a gente ia marchar pelas ruas a pedir o castigo de uma nação que existiu há 30 ou 40 anos atrás? E já agora, vai-se continuar a martelar nos soviéticos da era da Guerra Fria? Nos regimes opressivos pré-civilização moderna? Vamos banir todos os antigos westerns pela forma como retratavam os índios, os verdadeiros americanos? Vamos destruir cópias do Jaws porque fez milhões de pessoas odiarem os tubarões? Aonde é que isto pára?... Mas para mim, começa a ser chocante o facto de tudo ter de ser apolítico, assexuado e sem contornos definidos porque senão ofende sempre alguém e não se pode fazer nem dizer nada.
Já me começa a chatear. Isto é só um filme que, do meu ponto de vista, tenta enfatizar e dramatizar ao máximo o inferno que é estar preso no estrangeiro, no meio de uma cultura e de uma língua diferente e rodeado de tudo o que é estranho. Não é sobre a Turquia, nem sobre a cultura turca, nem sobre as suas pessoas. Não é mais que isto. Acho que o pessoal anda a levar tudo demasiado a sério. E não digo mais nada, porque já me estou a chatear a mim próprio com este assunto...
An Inconvenient Truth é um documentário de Davis Guggenheim sobre alterações climáticas. Apesar de ter ganho o Óscar para Melhor Documentário quem ficou com os créditos foi o Al Gore. Ainda hoje há quem pense que o Al Gore ganhou um Óscar. É compreensível. A forma apaixonada como Al Gore apresentou os factos científicos e alertou o público desatento do que se passava no mundo levou muita gente a pensar que ele era o grande mastermind por detrás da criação deste documentário. Mas isso é apenas um pormenor. Aqui a verdadeira importância vai para a questão climática, as suas causas, os desequilíbrios e os efeitos no planeta. O documentário é muito bom e está muito bem escrito, sendo que neste aspecto os louros vão mesmo para o Al Gore.
No que toca às questões ambientais todas as chamadas de atenção merecem relevância. Há muito tempo que a classe científica tem vindo a alertar que estamos a danificar de tal forma o funcionamento natural do planeta que eventualmente teremos de sofrer as consequências. Estranhamente, isto já está amplamente à vista de todos, mas parece que o melhor é ignorar e que não se passa (quase) nada. Acho que isso acontece porque por um lado, tem implicações económicas e na "Santa Economia" ninguém pode mexer. "Se o dinheiro pára, o que será de nós?", é esta a lógica do momento. Este é um dos grandes problemas do mundo e, ninguém tenha dúvidas, o dinheiro literalmente "manda" neste mundo. Por outro lado - que se calhar até mais grave -, temos os maluquinhos "negacionistas" - apoiados e impulsionados pelos senhores da economia, que sabem que perderiam as suas fortunas se isto mudasse para um mundo verdadeiramente "verde" - que simplesmente acham que os problemas ambientais do mundo são "normais", "são culpa do sol", "já aconteceram antes" ou que são "tangas inventadas por governos comunistas ou proto-totalitários".
Sinceramente, acho que temos em mãos um problema pior que as alterações climáticas, que, quer queiramos quer não, irão ser corrigidas à força: a estupidez. Ou como lhe chamam agora, a desinformação, se bem que não é bem a mesma coisa. A desinformação pode ser combatida, já a estupidez é incurável. Porque pensando bem, não é preciso ser nenhum cientista para perceber o que se está a fazer de errado. Quando se lançam toneladas de pesticidas sintéticos num campo, isso é errado. Quando se lançam toneladas de plásticos no mar, isso é errado. Quando se consome o dobro do que se precisa, isso é errado. Quando se chacina animais e ecossistemas inteiros até à extinção, isso é errado. Quando se manipula geneticamente milhões de anos de evolução em favor do presente, isso é errado. Quando se queimam milhões de toneladas de combustíveis fósseis para a atmosfera, isso é errado. E os exemplos não param. O que é que é difícil de perceber aqui? É assim tão difícil de perceber que nós não podemos ir a um sítio, chegar lá, foder aquilo tudo e depois não querer que o sítio se vire contra nós? E esse sítio é a Terra e é única. Se existissem mais 10 planetas iguais ao nosso, de certa forma até conseguiria entender. Agora fazer isto na única "casa" que temos? É incompreensível este suicídio coletivo. Sinceramente, não entendo. Acho que é uma forma de provar que o ser humano é simplesmente uma criança estúpida que vai perceber da pior maneira que não pode fazer tudo o que lhe vai na tola. É triste, mas é a verdade. E acho que esta é que é mesmo a Verdade Inconveniente. Bem, já estou a divagar novamente.
Não faço grandes comentários ao documentário propriamente dito, porque nesta matéria acaba por ser irrelevante. Este, ou outro documentário qualquer, é sempre importante para alertar e consciencializar as pessoas e mereceria da minha parte a classificação máxima. Isto ultrapassa as questões técnico-cinematográficas e afins. Isto é sobre a preservação da vida na Terra como a conhecemos. Não só do maravilhoso mundo natural como do próprio Homem. Obrigatório. (sem nota)

The Shape of Water conta a história de amor entre um ser anfíbio (mitológico?!) preso num laboratório secreto e uma mulher muda que também lá trabalha. Ambientado na década de 60 é uma história estranha e diferente. Acaba por funcionar um pouco como uma homenagem aos grandes monstros clássicos do cinema assim como aos desajustados e outsiders deste mundo.
Gostei do tom geral mas também tenho de dizer que não gostei do início com aquele tom exageradamente sexual. Parece deslocado do resto do filme e inclusive vai decrescendo até desaparecer totalmente. Acho que a lógica dessa inclusão sexual foi uma forma de mandar alguns pais com filhos para fora da sala de cinema. É que o filme tem um tom inegavelmente de fábula e parece que Del Toro quis um público exclusivamente adulto. Por mim, Del Toro, pode fazer o que quiser. Tem crédito para isso, porque é simplesmente o melhor realizador do fantástico do momento. Aliás, já o é há alguns anos. Se ainda existe a temática da fantasia no cinema moderno - sem ser aparvalhado ou disneyficado - isso deve-se em grande parte ao Guillermo del Toro. É um gajo impecável. Tão impecável que foi o primeiro gajo na história a ganhar um Óscar para melhor filme com um filme de ficção científica. Tem uma realização tão segura, de uma precisão e de uma qualidade que é de louvar. Tem sempre uma belíssima história para contar, sempre muito bem escrita e sempre muito contada por excelentes actores. Neste caso o destaque vai para Sally Hawkins, Richard Jenkins e Octavia Spencer, sendo que nunca consigo deixar de mencionar o Michael Shannon como (provavelmente) o melhor actor da actualidade, ou pelo menos, o mais multifacetado.
A única coisa que me "chateou" no Shape of Water é exactamente a personagem do anfíbio. Apesar da negação de Del Toro, não consigo descolar da personagem Abe Sapien do HellBoy. Talvez seja a "fatiota" e a aparência geral, talvez seja porque o actor que lhe dá corpo é o mesmo: Doug Jones. Mas pensando bem, também é muito parecido com a criatura de Creature from the Black Lagoon. Pode ser só coincidência ou apenas uma inspiração inconsciente, mas quem sabe? O que sei é que é bom voltar atrás no tempo, a um altura em que ainda existiam fábulas e fantasia... Não é o melhor filme de sempre - como ouvi muita gente dizer!(?!) - mas é muito bom. ●●●●○

A Guerra Civil Americana continua a mastigar homens nos campos de batalha. No meio de toda esta carnificina, o presidente americano, Abraham Lincoln, tem a sua própria luta interna: emancipar os escravos e acabar constitucionalmente com a escravatura. Para isso tem de conseguir os votos sufucientes dos adeversários assim como do seu próprio partido.
Este é o ponto de partida de Lincoln, mais uma super-produção de Steven Spielberg, agora em versão biográfica. Lincoln entra directamente na minha categoria de mixed-feelings. Apesar de muito bem feito, acho-o demasiado denso, lento e meloso para o meu gosto. Ainda que tenha alguns fogachos de emoção, são demasiado poucos. Com os actores que tem (Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones [só aqui um triunvirato que grita para prémio de Óscares], Joseph Gordon-Levitt, James Spader) podia e deveria ter muito mais intensidade. Fica-se "apenas" por um biopic extremamente bem escrito e realizado.

Por vezes parece demasiado encenado como que a piscar o olho à Academia, e como se costuma dizer, "sem sair da zona de conforto". É esse mesmo o principal problema: Spielberg não quer confrontar nenhuma ideia nem nenhuma opinião e por isso mantém-se sempre a uma distância teatral de qualquer futuro problema que o filme lhe pudesse causar. Não quis tomar partido e assim não tomou rigorosamente nada. Fica uma obra para a posteridade que soa a perfeito, mas insípida e algo "oca". Ligeiramente desapontante... Desapontantemente ligeira. ●●●○○

Não me vou demorar muito. Em termos críticos, vou "despachar" isto num instante, tal como se "despacha" uma obra de arte que poucos (ou nenhuns) defeitos tem. The Revenant é um filme perfeito. Épico. Gigante. Cru. Violento. Visceral. Real. Genuíno. Por vezes é até arrebatador. Um mix perfeitamente equilibrado entre a beleza frágil e estéril de um filme artístico e o nojo do cuspo de tabaco de mascar de um western de barba rija. Excepcional. Digno de todos os aplausos e de todos os prémios. Logo à partida, aplausos para Alejandro Iñárritu, que sem dúvida nenhuma, é o melhor realizador do momento. E tem vindo inequivocamente a prová-lo filme após filme. Nem é preciso dizer mais nada. Nem é preciso ver com muita atenção para se perceber que este é um filme "verdadeiro". Totalmente genuíno. Quase que se cheira a lama molhada... Para mim, isto é cinema puro.
Depois, mais aplausos para Leonardo DiCaprio (um gajo que nem aprecio particularmente) e para Tom Hardy (um gajo que particularmente aprecio), que apesar de estarem nitidamente a "piscar o olho" a um prémio nos Óscares, têm uma performance acima do normal, até para eles próprios. Mais uma vez, influência directa do Iñárritu, que leva actores muito bons, simplesmente para outro nível muito superior.
Visualmente, The Revenant, é avassalador. A fotografia é gélida e distante, mas ao mesmo tempo é penetrante. Os grandes planos naturais que conscientemente esmagam as personagens. As filmagens de acção "sem costuras"... Tudo pensado ao pormenor. Brilhante. Faltam-me os adjectivos. Até voltei a pensar em coisas que, em termos de cinema, já tinham desaparecido da minha mente, como quando fui confrontado com aquela cena do ataque do urso e pensei: "como é que fazem isto?". Já nem lembrava dessa sensação! Obrigado, Alejandro, muito obrigado.
Apesar de ser baseado numa história verídica de violência e sobrevivência, acho que em The Revenant, o Iñárritu teve a inteligência de introduzir outra grande "moral da história" mais subtil: se retirarmos tudo o que é conforto do elemento humano e confrontarmos as pessoas com a natureza selvagem, as pessoas tornam-se elas próprios em elementos selvagens. E lidar com uma ou outra situação, acaba por ser fatal, para qualquer interveniente. Ninguém sai ileso. Acho que essa a grande mensagem de fundo deste The Revenant: teremos que lidar com a selvajaria humana e perceber como evitá-la a todo o custo, porque é visceral horrível e ninguém irá sair sem marcas profundas desse confronto. Uma recordação do já que aconteceu para mostrar um vislumbre do que está para acontecer, se continuarmos a destruir a natureza. E quando falo em natureza, refiro-me ao mundo natural, mas também à própria natureza humana que é intrinsecamente equilibrada. The Revenant é um grande, grande filme, com uma mensagem poderosíssima de fundo, que me deixou muito surpreendido pela positiva. Mesmo no espaço comercial, ainda há alguma esperança para o cinema de qualidade. Um clássico instantâneo, uma mensagem inteligente e um filme obrigatório. ●●●●●

É difícil ter acesso às grandes estrelas, sem ser através de um documentário. Este Listen to me Marlon é uma pérola e um privilégio. Com locução do próprio Marlon Brando, com recurso a horas de cassetes gravadas pelo mesmo, é uma oportunidade única para mergulhar no complexo interior da cabeça de um dos melhores actores de sempre. Pioneiro do Método, Marlon é um actor completo e único na história do próprio cinema, mas que também desprezava o próprio trabalho. Para uma pessoa que simplesmente odiava a mentira, representar (que basicamente é mentir propositadamente para uma câmara) foi corroendo-o totalmente por dentro, ao ponto de o levar à reclusão e ao nojo pela própria profissão.
Um génio que se transforma num eremita é basicamente a derradeira definição de... lenda. Que é o que Marlon Brando inegavelmente é.
Apesar de só o "conhecer" muito tarde na carreira (ainda não consegui ver alguns dos seus clássicos mais antigos!), sempre me identifiquei muito com as personagens de Brando. Depois do documentário, identifiquei-me muito mais com o homem. É uma pessoa que está em guerra constante, mas numa busca pela paz. Esta dualidade acaba sempre por fazer mossa, e no caso do super-exposto e super-mediático Marlon foi absolutamente determinante.
De super-estrela a super-odiado, passando pelo regresso no final dos 70's e o auto-exílio, passando pelas grandes turbulências amorosas e tragédias da sua vida pessoal, o afastamento da carreira e as disposições activistas e políticas (até na cerimónia de entrega dos Óscares), tudo é extremamente bem contado e narrado para mostrar como um "simples" actor se transformou numa lenda de Hollywood e do cinema em geral.
Listen to me Marlon é documentário muito bom, muitíssimo bem escrito e enquadrado da autoria de Stevan Riley. Apenas não gostei do tom predominantemente negro, por vezes quase a roçar o documentário de "exploração". Houve ali uma tentaçãozinha de explorar o lado mais escandaloso, mas vá lá, Riley acabou por se conter e fez muitíssimo bem, porque acabou por construir um dos melhores documentários sobre actores que já vi. Absolutamente obrigatório. ●●●●○

Há filmes que me marcaram e dos quais nunca mais esqueci, nem que seja apenas porque uma cena foi tão surpreendente que ficou cá para sempre. An American Werewolf in London, filme mítico dos anos 80 (devido aos efeitos especiais; ganhou o primeiro Óscar para esta categoria!), é um desses casos. Revi-o há pouco tempo, porque não me lembrava bem do filme. Só me lembrava daquela transformação de homem em lobisomem. Foi espectacular e algo nunca antes visto.
Para além dessa cena brutal, An American Werewolf in London é um filme muito particular, diria mesmo, estranhíssimo para os padrões actuais. Nem sei se teria algum sucesso hoje em dia, ou sequer se passaria num cinema comercial. É de uma espécie diferente: é um filme de terror com algum gore à mistura, e uma comédia com algum power sexual. Basta ver que a derradeira cena do filme se passa num cinema porno recheado de mortos-vivos que parecem saídos do videoclip de Thriller. (Que por acaso até foi realizado pelo mesmo John Landis. Li que depois de ver o filme, Michael Jackson ficou tão impressionado que decidiu contratar Landis para o dirigir o também mítico clip.)
A história é do mais simples e directo que existe. Dois amigos (David Naughton e Griffin Dunne) viajam de mochila às costas pelas zonas rurais inglesas quando são atacados por um lobisomem. Um deles morre e transforma-se num zombie (que só pode ser visto por lobisomens [??!]) e o outro, após conhecer uma enfermeira sexy (para os padrões da altura...) (Jenny Agutter) e um longo processo de transformação, torna-se num lobisomem sedento de presas e sangue...
An American Werewolf in London é um filme vintage. É uma raridade. É mais um dos grandes representantes dos filmes do anos 80, com a vincada característica dos filmes (e não só) dessa altura, em que tudo parecia possível, tudo parecia permitido. Simplesmente não havia limites. O pessoal queria ver algo novo e diferente. E com An American Werewolf in London foi exactamente isso que tiveram. Apesar de toda a estranheza e sanguinolência é imperdível. ●●○○○

Em 1781, Antonio Salieri é o compositor oficial do imperador austríaco Joseph II (Jeffrey Jones). Com a chegada à corte de um jovem prodígio chamado Wolfgang Amadeus Mozart, o reconhecido compositor italiano sente-se imediatamente confrontado com aquela peculiar personalidade, mas especialmente, afrontado com a sua genialidade natural. O seu lugar de destaque na corte pode estar em perigo. Enraivecido com toda a situação, Salieri fará tudo ao seu alcance para acabar com a crescente reputação de Mozart. Se calhar até mesmo matá-lo.
Amadeus está tão bem escrito (Óscar para Peter Shaffer) e tão bem realizado (Óscar para Milos Forman) que durante anos pensei mesmo que Mozart tinha morrido às mãos de Salieri (Óscar para F. Murray Abraham). Nunca ouvi falar desse compositor e nem sequer ouvi uma única musica dele, mas detestava-o só por causa do que ele fez ao Mozart.
Sou um fã incondicional de Mozart (só será talvez suplantado por Beethoven) por isso este é um filme mesmo à minha medida. E depois de ver tanta loucura e tanta tragédia, estranhamente, ainda fiquei mais ligado à música de Mozart.
Repleto dos excessos habitualmente presentes nos filmes de Milos Forman, Amadeus é uma peça única. É cómico e dramático, é louco e humano, é trágico e carinhoso, é sujo e charmoso, é épico e intimista, mas acima de tudo é uma fantástica homenagem ao génio de Mozart e do seu trabalho. É um daqueles filmes que está perfeito a todos os níveis. Não há nada de mal para dizer...
Incompreensivelmente, esta é uma produção "menor". Não faz parte de nenhum dos grandes estúdios de Hollywood. Pelo que li, parece que ninguém estava muito interessado em financiar um épico de quase 3 horas sobre música clássica. Deve ser por causa disso que não há "grandes" nomes no casting. Vincent Schiavelli, Roy Dotrice, Elizabeth Berridge ou Cynthia Nixon não são propriamente actores que arrastem público para os cinemas, não é verdade? Mas a realidade é que com "nome" ou sem "nome", são na mesma bons actores.
Uma referência imprescindível para Tom Hulce, num daqueles papelaços para ficar na história. Ninguém conseguiria fazer melhor, e não estou a ver outro actor que pudesse interpretar este papel. É tão simples quanto isso. Hulce "é" Mozart. Hulce "é" Amadeus. Totalmente obrigatório. ●●●●●

Hitchcock não é um biopic de Alfred Hitchcock. É sobre a vida de Hitchcock enquanto filmava o clássico de terror Psycho, uma adaptação do livro de Robert Bloch, que por sua vez era baseado no serial-killer verdadeiro, Ed Gein. Só por curiosidade: Gein, além de ser a inspiração para a personagem de Norman Bates, também o foi para outras personagens sinistras como o Leatherface do ínfame Texas Chainsaw Massacre e o Buffalo Bill do Silence of the Lambs... que nesse filme, por acaso, tinha uma personagem muito conhecida, chamada Hannibal Lecter, que foi interpretada por... Anthony Hopkins. Curioso, não é? Realmente, as coisas acabam por dar a volta...
Alfred Hitchcock tinha acabado de estrear North by Northwest e era considerado o maior realizador da altura.  Mas como já estava um bocado farto de intrigas internacionais e espiões em apuros, decide procurar inspiração noutros campos mais negros e é aí que entra o livro Psycho de Robert Bloch. Contra tudo e contra todos, Hitchcock decide mergulhar no mundo do terror pela primeira vez e causa um turbilhão nos estúdios e no seu casamento.
Mesmo não estando 100% correcto historicamente (e pensando bem, também o que é que está?) é sempre bom perceber o que se passa durante a rodagem dos filmes. E no caso de um dos melhores filmes de sempre, então ainda melhor.
Hitchcock é um filme que se mantém equilibrado nas emoções: tem um bom "mood" (o que não será alheio o sentido de humor muito próprio de Hitchcock) e não é excessivamente dramático. O que traduzido quer dizer que não esteve a tentar "tirar um prémio de óscar" para figurar na capa do DVD ou no cartaz de cinema. (Nem o verdadeiro Alfred Hitchcock conseguiu ganhar um Óscar, o que demonstra bem a capacidade de avaliação de Hollywood)
O casting é muito bom. Anthony Hopkins é um grande, grande actor. As parecenças físicas com Hitchcock não são muitas por isso teve de levar com toneladas de make-up para ficar mais parecido. Mas os maneirismos e a forma de falar é excepcional. Por vezes até me esqueci que não era o Anthony Hopkins que ali estava. Se bem que por vezes também me pareceu uma mistura de Alfred Hitchcock com Hannibal Lecter. (há coisas nas personagens que parece que ficam "coladas" nos actores) Ainda assim, muito bom. Helen Mirren no papel da mulher, Alma Reville, está muito... A Helen Mirren está sempre excelente seja em que filme for. É a septuagenária mais sexy do mundo.
Ainda tem Scarlett Johansson como Janet Leigh, Michael Wincott como Ed Gein e um James D'Arcy arrepiantemente parecido com o Anthony Perkins. E ainda há uma legião de secundários muito bons como Danny Huston, Toni Collette, Jessica Biel e Kurtwood Smith. Um destaque para a música bem encaixada de Danny Elfman.
Filmado em apenas 35 dias (!) e realizado pelo estreante Sasha Gervasi, Hitchcock é um filme muito competente, como se costuma dizer na crítica profissional. Gostei. ●●●○○

Baseado numa história verídica, The Elephant Man mostra os últimos capítulos da vida atribulada de John Merrick (apesar do verdadeiro nome ser Joseph Merrick), após ser descoberto pelo médico Frederick Treves que o retira duma vida degradante como atração de circo.
Devido a ter o corpo horrivelmente deformado e em consequência ser rejeitado pela sociedade vitoriana, é usado como mero objecto de demonstração por Bytes, um homem sem escrúpulos. É-lhe negado qualquer tipo de humanidade, conforto ou vislumbre de felicidade.
The Elephant Man é uma história excepcional sobre a elevação do ser humano. É a história da luta da inclusão e do humanismo contra a humilhação, o ódio pela diferença, o medo do desconhecido e principalmente contra a ignorância. Sempre ouvi dizer que a realidade é muito mais estranha que a ficção. The Elephant Man é a prova disso.
Dificilmente conseguiria imaginar outros actores aqui. Tudo verdadeiros "senhores" do cinema: Anthony Hopkins, Anne Bancroft, John Gielgud e Freddie Jones, com o óbvio destaque para o John Hurt, que apesar de não aparecer (na sua forma "original", digamos assim), tornou-se imediatamente num dos meus actores favoritos de sempre.
The Elephant Man é uma obra prima cinematográfica de David Lynch. Parece óbvio que vai buscar muita inspiração visual (e sonora) ao alucinado Eraserhead, feito uns anos antes, como por exemplo a fotografia a preto e branco que é do outro mundo. A música de John Morris encaixa perfeitamente... É uma verdadeira obra de arte audiovisual. Foi nomeado para inúmeros prémios e ganhou outros tantos, desde Óscares a BAFTAS. É muito bom. Gosto imenso do David Lynch e de todos os seus filmes (mesmo que por vezes não os entenda), mas se calhar, elejo este como o melhor. Não consigo apontar-lhe defeitos ou algo que pudesse estar melhor. Intemporal e obrigatório. ●●●●● + ●


O detective Frank Bullit tem uma missão simples para cumprir: proteger uma testemunha importante e levá-la em segurança até ao julgamento. Mas pouco depois de assumir a missão, a sua testemunha está morta, não deixando mais nada para Bullit fazer a não ser descobrir e perseguir os responsáveis.
A história é bem mais complexa que estas três linhas, mas já tanto foi escrito sobre Bullit que não vale a pena alongar-me mais.
Bullit é um thriller de acção que faz parte da própria história do cinema. E é assim por várias razões. Não é por ser um filme de acção explosivo; visto pela primeira vez nos dias de hoje é provavelmente considerado como um filme parado. Também não é por ser um thriller que nos deixa constantemente na expectativa do que vai acontecer a seguir, ou porque é muito realista e mostra com exactidão todos os procedimentos clínicos ou processuais da polícia; hoje em dia isso é levado à exaustão. É uma peça histórica pela novidade (na altura da estreia - 1968), pela qualidade séria da realização de Peter Yates, pela música tensa de Lalo Schifrin, pela montagem frenética da acção (levou um Óscar), mas também pela "fibra" diferente dos actores: Robert Vaughn, Jacqueline Bisset, Robert Duvall fazem parte de outro nível. Mas o destaque óbvio vai para um dos monstros sagrados do cinema: Steve McQueen, um dos meus actores preferidos de todos os tempos, que provavelmente, é mesmo o melhor de todos. Não porque fosse melhor actor que os outros, mas pela força de presença no ecrã. É difícil de explicar, mas também é difícil de deixar de olhar. Steve McQueen não precisa de diálogos, basta aparecer, olhar para câmara e deixar transparecer carisma. Há ali qualquer coisa de inexplicável. Há ali qualquer coisa de... Steve McQueen. Não é por nada que lhe chamavam Mr. Cool. Steve McQueen, parece ele próprio, uma personagem cool de um qualquer grande filme. Em parte, ele é ambíguo como a própria personagem: há os maus polícias e os bons polícias, mas depois há Bullit...
E depois há aquela épica perseguição de carro pelas ruas de São Francisco. É tão excelente e tão icónica que passou para a cultura geral. Toda a gente a conhece, mesmo que nunca tenha visto o filme. Já foi copiada tantas e tantas vezes, mas nunca igualada.
Bullit não é um filme só para ver; é um filme para guardar e depois ver outra vez. ●●●●●


Há filmes que por natureza não vejo. Ou porque os trailers mostram um filme pateta igual a milhares de outros e não me apetece perder tempo a vê-lo, ou porque são comédias românticas de domingo à tarde. Filmes com banda sonora de rap (ou hip hop e categorias semelhantes) e de danças urbanas com adolescentes também passo. Não é um tipo de música que goste, portanto não me diz nada.
Pensei que era um filme sobre rap e/ou sobre a história do Eminem. Não sei onde fui buscar esta ideia. Por esta razão, achei que o filme não era para mim e andei anos sem ver 8 Mile. E foi um erro enorme. Porque definitivamente, 8 Mile é um filme muito bom.
Mal acabei de ver o filme, fui pesquisar um pouco e descobri que o Eminem ganhou o Óscar para a Melhor Música Original. Pelos vistos foi a primeira vez que um rapper ganhou este prémio. A música chama-se "Lose Yourself" e dá o tom ao filme. Só para tirar uma dúvida dei-me ao trabalho de procurar a letra...

"Lose Yourself" 
Look, if you had, one shot, or one opportunity
To seize everything you ever wanted. In one moment
Would you capture it, or just let it slip?
Yo

His palms are sweaty, knees weak, arms are heavy
There's vomit on his sweater already, mom's spaghetti
He's nervous, but on the surface he looks calm and ready to drop bombs,
But he keeps on forgetting what he wrote down,
The whole crowd goes so loud
He opens his mouth, but the words won't come out
He's choking how, everybody's joking now
The clock's run out, time's up, over, bloah!
Snap back to reality, Oh there goes gravity
Oh, there goes Rabbit, he choked
He's so mad, but he won't give up that
Easy, no
He won't have it, he knows his whole back's to these ropes
It don't matter, he's dope
He knows that but he's broke
He's so stagnant, he knows
When he goes back to his mobile home, that's when it's
Back to the lab again, yo
This whole rhapsody
He better go capture this moment and hope it don't pass him

[Hook:]
You better lose yourself in the music, the moment
You own it, you better never let it go (go)
You only get one shot, do not miss your chance to blow
This opportunity comes once in a lifetime yo
You better lose yourself in the music, the moment
You own it, you better never let it go (go)
You only get one shot, do not miss your chance to blow
This opportunity comes once in a lifetime yo
(You better)

The soul's escaping, through this hole that is gaping
This world is mine for the taking
Make me king, as we move toward a new world order
A normal life is boring, but superstardom's close to post mortem
It only grows harder, homie grows hotter
He blows. It's all over. These hoes is all on him
Coast to coast shows, he's known as the globetrotter
Lonely roads, God only knows
He's grown farther from home, he's no father
He goes home and barely knows his own daughter
But hold your nose 'cause here goes the cold water
His hoes don't want him no more, he's cold product
They moved on to the next schmoe who flows
He nose dove and sold nada
So the soap opera is told and unfolds
I suppose it's old partner but the beat goes on
Da da dum da dum da da da da

[Hook]

No more games, I'm a change what you call rage
Tear this motherfucking roof off like two dogs caged
I was playing in the beginning, the mood all changed
I've been chewed up and spit out and booed off stage
But I kept rhyming and stepped right into the next cypher
Best believe somebody's paying the pied piper
All the pain inside amplified by the fact
That I can't get by with my 9 to 5
And I can't provide the right type of life for my family
Cause man, these goddamn food stamps don't buy diapers
And it's no movie, there's no Mekhi Phifer, this is my life
And these times are so hard, and it's getting even harder
Trying to feed and water my seed, plus
Teeter totter caught up between being a father and a prima donna
Baby mama drama's screaming on her
Too much for me to wanna
Stay in one spot, another day of monotony
Has gotten me to the point, I'm like a snail
I've got to formulate a plot or I end up in jail or shot
Success is my only motherfucking option, failure's not
Mom, I love you, but this trailer's got to go
I cannot grow old in Salem's lot
So here I go it's my shot.
Feet, fail me not, this may be the only opportunity that I got

[Hook]

You can do anything you set your mind to, man

...Sinceramente, não entendo. Não é a letra, é a extensão dela! Como é possível alguém conseguir decorar isto tudo? Ainda por cima, junto com muitas outras músicas do filme. Juro que não entendo.
E então apercebi-me que o meu não entendimento era uma constante neste filme. Passo a explicar. Há coisas que naturalmente me causam repulsa. Uma delas é a decadência. Quando se assiste diariamente à decadência, ela deixa de ter glamour... Também por essa razão eu não deveria ter gostado de 8 Mile, mas gostei. Em 8 Mile, a decadência não é só uma condição em que as personagens vivem; a decadência é quase uma personagem. Está tão bem tratada, estilizada, filmada e tão presente que interaje com os actores. Isto é sinal de um realizador que tem muito tacto social. Quer isto dizer que Curtis Hanson é um daqueles realizadores que tem os pés no chão, que observa as a interagirem na vida real e transpõe-na para o cinema com todas as suas qualidades e defeitos inerentes.
Depois tem Eminem. Eu sou um gajo do rock e do punk, por isso o hip hop, o R&B e restantes sucedâneos não fazem efeito. Pelo contrário, é um tipo de música que me faz mudar a estação de rádio. Mais uma razão para eu não ter gostado de 8 Mile, mas acabei por gostar. E pensando bem, a banda sonora não podia ser outra. Este é o tipo de música que melhor encaixa na história. E embora me custe admitir, o Eminem surpreendeu-me bastante como actor. Podem ter sido dicas de representação da Kim Basinger, pode ter sido pelo facto de ele ser originário duma zona "maravilhosa" como Detroit, por ter tido uma vida pessoal relativamente semelhante à do papel que intrepreta, mas também há a hipótese do gajo poder ser mesmo bom. O que é certo é que está perfeito no papel. Brittany Murphy, no papel de companheira à distância, movida pelo interesse pessoal também está muito bem, como sempre.
8 Mile é um retrato muito bem feito da decadência das grandes periferias, da cultura white trash nas suas caravanas arruinadas e imundas, das lutas pela sobrevivência urbana, em que o mundo dos gangs muitas vezes parecem ser a única salvação para quem sabe que não tem salvação possível, mas sobretudo mostra como por vezes, a salvação vem dos sítios mais inesperados. Mas acima disto tudo, 8 Mile é um filme dramático, tenso, excepcionalmente bem ritmado e no geral, muito bom. Posso dizer que 8 Mile é um daqueles bons filmes "à moda antiga", muitíssimo bem dirigido por Curtis Hanson, que merece ser visto, mesmo que à partida o tema não seja (aparentemente) muito agradável. ●●●●○

 
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