Joker é um excelente filme e foi totalmente inesperado. Mas também é um filme perigoso. E é perigoso porque em traços muito gerais diz: matem os ricos. O dinheiro é a raiz de todos os males e os ricos, porque têm muito dinheiro, são as folhas que brotam da raiz do mal. Não é por nada que após a estreia do filme, venderam-se milhares de máscaras do Joker e elas apareceram misturadas em manifestações juntamente com a máscara também icónica do Guy Fawkes. De certo forma, elas representam a mesma coisa: a oposição à massa elitista e reinante que menospreza o "pequeno e anónimo cidadão", que não é mais que um "criado" destinado a servir o "amo". Joker tornou-se imediatamente num símbolo. Aquele look tornou-se numa máscara para representar os oprimidos... Pensando um bocado no estado do mundo, cheira-me que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver muitas máscaras destas por aí...
Mas deixando as questões das desigualdades económicas e sociológicas para outra altura, a personagem do Joker é talvez o melhor vilão de sempre. Já é a terceira vez que faz aparições memoráveis. Jack Nicholson (como sempre a fazer dele próprio, que é como quem diz, excepcional), Heath Legder (sem dúvida nenhuma, o melhor de todos) e agora Joaquin Phoenix (noutro registo completamente diferente). Três grandes actores a darem corpo a uma personagem que tem lentamente evoluído para algo muito maior que simplesmente ser o "mau" que se opõe ao Batman. Como personagem, a vantagem de Joker em relação a outras personagens da BD é que ele não tem uma história de fundo. Não existe a históoria de como surgiu o Joker. Cada um pode imaginar o que quiser. É por isso que ao longo do tempo, e conforme o filme em questão, Joker tem vários nomes e nunca ninguém percebeu muito bem porque é que ele é assim, porque é que tem aquela aparência ou porque é que ele tem os impulsos maníacos que tem. É um vilão sem amarras e sem história. O que o torna no mais perigoso de todos.
Mas neste filme, o Joker é muito mais que um vilão. Aqui, nem sequer parece fazer parte do universo DC Comics e do mundo fantástico dos super-heróis e super-vilões. Aqui, Joker é um gajo "normal". Ele não quer dominar o mundo, tornar-se líder do sub-mundo do crime ou perseguir os bons da fita porque é o "vilão" e é isso que uma pessoa espera. Joker é simplesmente uma figura que tenta fazer pela vida, que quer ter uma vida normal, mas que é menosprezada, espancada, espezinhada e posta de parte da sociedade, porque é diferente dos restantes. E quando uma personagem destas se "passa" da cabeça e consegue ganhar algum protagonismo e poder, eventualmente, alguém vai pagá-las. Por isso é que eu disse que Joker é um filme perigoso. É que isto já não é ficção. Isto já não é um super-vilão. Isto já alcança a realidade do dia-a-dia e isto revê-se na actualidade. De certa forma, está implícito que ao virar de uma qualquer esquina pode aparecer o próximo Joker. E pode vir armado. Ou vir acompanhado com outros Jokers. Por isso, Joker não só é um filme perigoso, como é complexo na forma como vê e mostra a sociedade e por causa disso vai ser sempre polémico. Ultrapassa a ficcionalidade do cinema e ocupa as ruas.
Não deixa de ser curioso que seja um realizador de comédia a pegar no Joker desta forma. Faz todo o sentido. Não há nada pior que um palhaço frustrado e humilhado. Acho que Todd Phillips deu um salto épico em frente, na forma como pegou no tema. O filme é excepcional pela intensidade e pela tensão constante. Muito rapidamente uma pessoa se apercebe que está a ver um drama moderno e não um vulgar filme de super-vilões.
A ambiência do filme é do melhor que já tenho visto e isso em parte é devido à banda sonora original de Hildur Guðnadóttir que é excepcional. A música é tão importante neste filme porque ela foi criada à posteriori para que pudesse dar o tom certo às próprias filmagens. E mesmo a música que não foi composta para o filme foi espectacularmente bem escolhida. Aquele Joker completamente fora da realidade, a dançar a escadaria ao som daquela música imaginária que só passa na sua cabeça... Já é uma cena icónica do cinema. Não é todos os dias que se vê uma coisa dessas acontecer. É preciso ver muitos filmes para encontrar momentos únicos deste género. Mas os pontos positivos são muitos mais. A cinematografia e a estética visual tem óbvias influências dos filmes "violentos" de rua da Nova York dos anos 70, como o Death Wish, o The French Connection ou o Taxi Driver. Foi mais uma excelente escolha, porque cria um ambiente que é imediatamente reconhecível.
O casting é todo muito bom (Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen e com Robert De Niro à cabeça porque já é uma lenda viva), mas como é óbvio todo o destaque tem de ir para Joaquin Phoenix, porque simplesmente rouba todo o show. É mais uma daquelas interpretações que vai ficar para a história. Não só pela questão física (Phoenix absolutamente esquelético e quase irreconhecível) mas principalmente pela carga psicológica que consegue transmitir e que passa para a tela. Genial. Acho que é mais uma performance que vai deixar marcas no actor. Nota-se que aquilo foi tão emotivo, tão visceralmente profundo, que Phoenix ficará marcado pelo Joker para sempre. Há alturas que eu noto que o "Método" leva o actores um pouco longe demais; vão tão para dentro das personagens, que quando saem, um pouco da personagem vem com eles: acho que este é mais um dos casos. Mas também o Joaquin Phoenix sempre teve aquele crazy eye característico... e sempre achei que vivia muito mais gente dentro daquela cabeça. Joaquin Phoenix é um gajo à maneira...
Nos últimos tempos, não me lembro de ter visto um filme que me enchesse tanto as medidas como este Joker. Brilhante. Surpreendente. Faltam-me adjectivos. Não estava nada à espera desta pancada. Pensei que ia ver um filme normal e sem dúvida nenhuma, acabei por ver o melhor filme de 2019. We are all clowns. Obrigatório. ●●●●●
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Há filmes que por natureza não vejo. Ou porque os trailers mostram um filme pateta igual a milhares de outros e não me apetece perder tempo a vê-lo, ou porque são comédias românticas de domingo à tarde. Filmes com banda sonora de rap (ou hip hop e categorias semelhantes) e de danças urbanas com adolescentes também passo. Não é um tipo de música que goste, portanto não me diz nada.
Pensei que era um filme sobre rap e/ou sobre a história do Eminem. Não sei onde fui buscar esta ideia. Por esta razão, achei que o filme não era para mim e andei anos sem ver 8 Mile. E foi um erro enorme. Porque definitivamente, 8 Mile é um filme muito bom.
Mal acabei de ver o filme, fui pesquisar um pouco e descobri que o Eminem ganhou o Óscar para a Melhor Música Original. Pelos vistos foi a primeira vez que um rapper ganhou este prémio. A música chama-se "Lose Yourself" e dá o tom ao filme. Só para tirar uma dúvida dei-me ao trabalho de procurar a letra...
"Lose Yourself"
Look, if you had, one shot, or one opportunity
To seize everything you ever wanted. In one moment
Would you capture it, or just let it slip?
Yo
His palms are sweaty, knees weak, arms are heavy
There's vomit on his sweater already, mom's spaghetti
He's nervous, but on the surface he looks calm and ready to drop bombs,
But he keeps on forgetting what he wrote down,
The whole crowd goes so loud
He opens his mouth, but the words won't come out
He's choking how, everybody's joking now
The clock's run out, time's up, over, bloah!
Snap back to reality, Oh there goes gravity
Oh, there goes Rabbit, he choked
He's so mad, but he won't give up that
Easy, no
He won't have it, he knows his whole back's to these ropes
It don't matter, he's dope
He knows that but he's broke
He's so stagnant, he knows
When he goes back to his mobile home, that's when it's
Back to the lab again, yo
This whole rhapsody
He better go capture this moment and hope it don't pass him
[Hook:]
You better lose yourself in the music, the moment
You own it, you better never let it go (go)
You only get one shot, do not miss your chance to blow
This opportunity comes once in a lifetime yo
You better lose yourself in the music, the moment
You own it, you better never let it go (go)
You only get one shot, do not miss your chance to blow
This opportunity comes once in a lifetime yo
(You better)
The soul's escaping, through this hole that is gaping
This world is mine for the taking
Make me king, as we move toward a new world order
A normal life is boring, but superstardom's close to post mortem
It only grows harder, homie grows hotter
He blows. It's all over. These hoes is all on him
Coast to coast shows, he's known as the globetrotter
Lonely roads, God only knows
He's grown farther from home, he's no father
He goes home and barely knows his own daughter
But hold your nose 'cause here goes the cold water
His hoes don't want him no more, he's cold product
They moved on to the next schmoe who flows
He nose dove and sold nada
So the soap opera is told and unfolds
I suppose it's old partner but the beat goes on
Da da dum da dum da da da da
[Hook]
No more games, I'm a change what you call rage
Tear this motherfucking roof off like two dogs caged
I was playing in the beginning, the mood all changed
I've been chewed up and spit out and booed off stage
But I kept rhyming and stepped right into the next cypher
Best believe somebody's paying the pied piper
All the pain inside amplified by the fact
That I can't get by with my 9 to 5
And I can't provide the right type of life for my family
Cause man, these goddamn food stamps don't buy diapers
And it's no movie, there's no Mekhi Phifer, this is my life
And these times are so hard, and it's getting even harder
Trying to feed and water my seed, plus
Teeter totter caught up between being a father and a prima donna
Baby mama drama's screaming on her
Too much for me to wanna
Stay in one spot, another day of monotony
Has gotten me to the point, I'm like a snail
I've got to formulate a plot or I end up in jail or shot
Success is my only motherfucking option, failure's not
Mom, I love you, but this trailer's got to go
I cannot grow old in Salem's lot
So here I go it's my shot.
Feet, fail me not, this may be the only opportunity that I got
[Hook]
You can do anything you set your mind to, man
...Sinceramente, não entendo. Não é a letra, é a extensão dela! Como é possível alguém conseguir decorar isto tudo? Ainda por cima, junto com muitas outras músicas do filme. Juro que não entendo.
E então apercebi-me que o meu não entendimento era uma constante neste filme. Passo a explicar. Há coisas que naturalmente me causam repulsa. Uma delas é a decadência. Quando se assiste diariamente à decadência, ela deixa de ter glamour... Também por essa razão eu não deveria ter gostado de 8 Mile, mas gostei. Em 8 Mile, a decadência não é só uma condição em que as personagens vivem; a decadência é quase uma personagem. Está tão bem tratada, estilizada, filmada e tão presente que interaje com os actores. Isto é sinal de um realizador que tem muito tacto social. Quer isto dizer que Curtis Hanson é um daqueles realizadores que tem os pés no chão, que observa as a interagirem na vida real e transpõe-na para o cinema com todas as suas qualidades e defeitos inerentes.
Depois tem Eminem. Eu sou um gajo do rock e do punk, por isso o hip hop, o R&B e restantes sucedâneos não fazem efeito. Pelo contrário, é um tipo de música que me faz mudar a estação de rádio. Mais uma razão para eu não ter gostado de 8 Mile, mas acabei por gostar. E pensando bem, a banda sonora não podia ser outra. Este é o tipo de música que melhor encaixa na história. E embora me custe admitir, o Eminem surpreendeu-me bastante como actor. Podem ter sido dicas de representação da Kim Basinger, pode ter sido pelo facto de ele ser originário duma zona "maravilhosa" como Detroit, por ter tido uma vida pessoal relativamente semelhante à do papel que intrepreta, mas também há a hipótese do gajo poder ser mesmo bom. O que é certo é que está perfeito no papel. Brittany Murphy, no papel de companheira à distância, movida pelo interesse pessoal também está muito bem, como sempre.
8 Mile é um retrato muito bem feito da decadência das grandes periferias, da cultura white trash nas suas caravanas arruinadas e imundas, das lutas pela sobrevivência urbana, em que o mundo dos gangs muitas vezes parecem ser a única salvação para quem sabe que não tem salvação possível, mas sobretudo mostra como por vezes, a salvação vem dos sítios mais inesperados. Mas acima disto tudo, 8 Mile é um filme dramático, tenso, excepcionalmente bem ritmado e no geral, muito bom. Posso dizer que 8 Mile é um daqueles bons filmes "à moda antiga", muitíssimo bem dirigido por Curtis Hanson, que merece ser visto, mesmo que à partida o tema não seja (aparentemente) muito agradável. ●●●●○
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