Não sou uma pessoa de riso fácil. Admito isso. E por causa disso pode parecer que não gosto de comédias. Isso não é verdade. O que acontece é que a maioria das comédias modernas, como quase tudo o resto, foram invadidas pelo recente género de youtube-teenage-stupid (inventei a expressão agora mesmo...). No entanto, e para provar que de facto gosto de uma boa comédia, posso dar um exemplo perfeito: Ferris Bueller's Day Off. Um filme "simples", centrado num único dia de três adolescentes que decidem faltar às aulas. Um filme simples, mas brilhante. Um filme que está sempre actual porque toca nas emoções mais básicas: toda gente quer ser livre. Toda a gente quer ter um dia livre para simplesmente fazer o que lhe apetece e soltar-se das amarras sociais do dia-a-dia. Toda a gente quer ser o Ferris Bueller nem que seja apenas por único dia.
Ferris Bueller's Day Off é o protótipo da comédia perfeita. Tem inteligência, tem profundidade, tem algum drama à mistura, mas especialmente faz-me rir. Ao longo dos anos já o devo ter visto uma dúzia de vezes. É um daqueles filmes a que simplesmente não consigo resistir. Estou a aqui a escrever e já me está a dar vontade de o ver novamente. Lembra-me sempre um sítio feliz.
Além de ser um filme consensualmente bem aceite por gerações diferentes, também é um filme que gera discussões e teorias. Uma das teorias que tenho seguido ao longo dos anos é a de Ferris Bueller's Day Off é uma espécie de enredo do tipo Fight Club. Por muito descabido que possa parecer, na realidade, até tem o seu nexo. A estranha teoria suporta-se na ideia de que o Ferris Bueller não existe e é apenas um alter-ego do Cameron Frye. Estranhamente, faz um certo sentido, já que apesar do filme se centrar na figura despreocupada do Ferris, a narrativa segue de igual forma, o despertar do Cameron para uma vida mais relaxada, fora do alcance opressivo dos pais, que culmina na cena da destruição do Ferrari. Pode ser só uma teoria (e eu até acho que é uma simples coincidência), mas é um sinal que um simples filme de adolescentes é muito mais que um "simples filme de adolescentes". Lá está, tem profundidade, as personagens têm camadas, têm substância e fibra. Representam muito mais do que aquilo que se vê.
John Hughes é um mestre neste tipo de filmes. Para além das capacidades na realização, o que sempre gostei no John Hughes é a visão diferente das coisas. Tal como agora, na altura, o teenage movie era uma coisa estúpida. Os adolescentes eram (e são) associados a uma sub-espécie subdesenvolvida mentalmente, burra como uma porta, de moralidade muito duvidosa e que só se conseguem divertir se se estiverem a magoar ou a fazer coisas estúpidas. Apesar de ser o estereótipo comummente aceite, Hughes (e eu partilho a visão) vê os adolescentes de uma forma diferente. Vê-os com as mesmas qualidades emocionais do adulto, mas com a diferença de serem mais rebeldes, mais impulsivos e com uma vontade enorme de serem livres.
E o que dizer do casting? Matthew Broderick "é" o Ferris Bueller e Alan Ruck "é" o Cameron Frye. Nunca poderia ser de outra forma. Às vezes tenho aquela sensação de que o actor "nasceu" para aquele papel. É este o caso. Mas o restante pessoal (Jennifer Grey, Mia Sara) não lhe ficam atrás. As personagens são tão ricas que às vezes só precisam de aparecer 5 minutos para serem memoráveis como Edie McClurg, Charlie Sheen ou Ben Stein. Para além de que nos falam directamente através da tela... E o que dizer de Jeffrey Jones? Hilariante. Aquela cena final no autocarro, já com os créditos a rolar, é das melhores coisas que já vi na minha vida. Aquela miúda com os óculos gigantes e aquela música estranha nunca mais me saiu da cabeça.
Para além de ser um filme que nunca vai "morrer", Ferris Bueller's Day Off é um dos meus filmes favoritos de sempre. Seja por efeitos da nostalgia ou pelo seu próprio valor, coloco-o orgulhosamente ao lado dos grandes clássicos do cinema. E já agora... Save Ferris... ●●●●●
Mostrar mensagens com a etiqueta estereótipo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta estereótipo. Mostrar todas as mensagens
Vi o Parasitas (Gisaengchung, no impronunciável título original) antes de ter vencido uma porrada de Óscares e tinha-o aqui de parte para poder escrever um pouco mais quando tivesse mais tempo livre porque é um filme que justifica. É uma excelente e complexa crítica social. Mas também é uma comédia e um drama. E um thriller também. Parasitas está numa classe totalmente à parte dos filmes que um gajo normalmente vê. Se me perguntassem como é que o classificava ou com o que é parecido... Teria que fazer uma pausa ainda longa e só poderia dizer que é uma estranha mistura asiática resultante da combinação de um "Tarantino" com um "irmãos Coen". Ou seja, tudo está bem até que tudo corre horrivelmente mal.
Parasitas conta a história dos Kims, uma família sul-coreana pobre que vive numa sub-cave e sobrevive fazendo pequenos trabalhos como dobrar caixas de pizza. Mas um acaso do destino acaba por levar a que filho mais novo se relacione com uma família muito rica, entrando pela porta dos fundos como empregado. Primeiro, o filho pobre começa a dar explicações à filha rica, mas depois, tal como um parasita infecta e se multiplica no corpo do seu hospedeiro, toda a restante família começa a entrar sorrateiramente na rotina da casa, sempre com recurso a estratagemas mais ou menos complexos. Curiosamente, a certo ponto, começa a fazê-lo à custa da empregada residente (também ela pobre) que trata de todas as lides da casa. Aliás, a "família" da empregada é tão pobre que ela tem o marido... bem, não vou prosseguir para não estragar a surpresa. Até porque este é um dos grandes pontos fortes da história e de todo o filme, que são as constantes mudanças bruscas na narrativa e os inesperados twists.
O tom de Parasitas é constantemente crítico mas também é nitidamente satírico. E de certa forma é justo na aproximação e não entre nos estereótipos do costume. Nem os pobres são uns coitadinhos, oprimidos ou inocentes, nem os ricos são o diabo com o coração empedernido. De certa forma, Bong Joon Ho atira para os dois lados e não deixa ninguém incólume. Acho que esse é o grande trunfo de toda a narrativa e a mensagem subjacente: seja rico ou seja pobre, um gajo vai fazer tudo ao seu alcance para ter uma vida melhor. Inevitavelmente isso acabará por atropelar outras pessoas, sejam ricas ou pobres. E é aqui que se faz a separação com base na empatia: os "bons" percebem que a determinada altura vão ter de parar; os "maus", nem por isso.
Os actores, sem excepção, são soberbos (Kang-ho Song [sinceramente, o único que conheço], Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, So-dam Park, Jeong-eun Lee) como é costume nos castings asiáticos, mas também são ajudados pelas personagens memoráveis.
Apesar de todos os prémios que arrecadou nunca diria que Parasitas é o melhor filme de Bong Joon Ho que já vi. Gostei tanto deste como gostei do Okja ou do The Host. Acho que simplesmente, Parasitas arrecadou prémios e impactou tanto a opinião pública porque teve o condão de tocar num ponto muito actual (o das desigualdades sociais e económicas), na altura certa. Já para não falar na questão muito criticada da (pouca) multiculturalidade na atribuição dos próprios Óscares.
Seja como for, Bong Joon Ho continua sempre em crescendo e continua a surpreender-me sempre pela positiva. Grande realização e também excelente música e fotografia. Tem momentos absolutamente geniais como por exemplo aquela cena da enxurrada no final. Brilhante. Apesar de todos os prémios que arrecadou, tenho que dizer que não foi o melhor filme que vi no ano passado. Houve um filme ainda melhor, mas isso fica para outra altura... Mas pela diferença, pela surpresa constante e por ser um filme feito de forma muito inteligente, acho muito bem que Parasitas tenha ganho o Óscar para melhor filme. ●●●●○
Parasitas conta a história dos Kims, uma família sul-coreana pobre que vive numa sub-cave e sobrevive fazendo pequenos trabalhos como dobrar caixas de pizza. Mas um acaso do destino acaba por levar a que filho mais novo se relacione com uma família muito rica, entrando pela porta dos fundos como empregado. Primeiro, o filho pobre começa a dar explicações à filha rica, mas depois, tal como um parasita infecta e se multiplica no corpo do seu hospedeiro, toda a restante família começa a entrar sorrateiramente na rotina da casa, sempre com recurso a estratagemas mais ou menos complexos. Curiosamente, a certo ponto, começa a fazê-lo à custa da empregada residente (também ela pobre) que trata de todas as lides da casa. Aliás, a "família" da empregada é tão pobre que ela tem o marido... bem, não vou prosseguir para não estragar a surpresa. Até porque este é um dos grandes pontos fortes da história e de todo o filme, que são as constantes mudanças bruscas na narrativa e os inesperados twists.
O tom de Parasitas é constantemente crítico mas também é nitidamente satírico. E de certa forma é justo na aproximação e não entre nos estereótipos do costume. Nem os pobres são uns coitadinhos, oprimidos ou inocentes, nem os ricos são o diabo com o coração empedernido. De certa forma, Bong Joon Ho atira para os dois lados e não deixa ninguém incólume. Acho que esse é o grande trunfo de toda a narrativa e a mensagem subjacente: seja rico ou seja pobre, um gajo vai fazer tudo ao seu alcance para ter uma vida melhor. Inevitavelmente isso acabará por atropelar outras pessoas, sejam ricas ou pobres. E é aqui que se faz a separação com base na empatia: os "bons" percebem que a determinada altura vão ter de parar; os "maus", nem por isso.
Os actores, sem excepção, são soberbos (Kang-ho Song [sinceramente, o único que conheço], Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, So-dam Park, Jeong-eun Lee) como é costume nos castings asiáticos, mas também são ajudados pelas personagens memoráveis.
Apesar de todos os prémios que arrecadou nunca diria que Parasitas é o melhor filme de Bong Joon Ho que já vi. Gostei tanto deste como gostei do Okja ou do The Host. Acho que simplesmente, Parasitas arrecadou prémios e impactou tanto a opinião pública porque teve o condão de tocar num ponto muito actual (o das desigualdades sociais e económicas), na altura certa. Já para não falar na questão muito criticada da (pouca) multiculturalidade na atribuição dos próprios Óscares.
Seja como for, Bong Joon Ho continua sempre em crescendo e continua a surpreender-me sempre pela positiva. Grande realização e também excelente música e fotografia. Tem momentos absolutamente geniais como por exemplo aquela cena da enxurrada no final. Brilhante. Apesar de todos os prémios que arrecadou, tenho que dizer que não foi o melhor filme que vi no ano passado. Houve um filme ainda melhor, mas isso fica para outra altura... Mas pela diferença, pela surpresa constante e por ser um filme feito de forma muito inteligente, acho muito bem que Parasitas tenha ganho o Óscar para melhor filme. ●●●●○
Labels:
-kyun Lee,
2019,
Bong Joon Ho,
comédia,
crítica,
desigualdade,
drama,
estereótipo,
Gisaengchung,
Jeong-eun Lee,
Kang-ho Song,
nota4,
Óscar,
Parasitas,
pobres,
prémios,
ricos,
sociedade,
Sun,
thriller
No futuro, em 2197, o mundo é ostensivamente militar e implicitamente totalitarista. Toda a gente quer ser um "cidadão", mas para isso é preciso passar pelo rigor militar. É uma má altura para isso, pois a humanidade está prestes a entrar em guerra aberta contra um planeta de insectos alienígenas. Eis Starship Troopers.
Quando penso em exagero, um dos primeiros gajos que me vem à cabeça é o Paul Verhoeven. Já vi coisas muito maradas em termos de violência gráfica e gore, mas de alguma forma os filmes de Verhoeven têm qualquer coisa de visceral que me leva sempre a pensar no exagero dos exageros. Acho que é por causa do tom satírico aliado a carradas de sangue, mas sinceramente não sei.
Starship Troopers é um filme que gosto bastante, por muitas razões. Gosto do uso quase subliminar da imagética nazi do lado dos "bons". Gosto de como ele cola rótulos de fascista a montes de instituições sem nunca as apontar. Gosto da achega à comunicação social alarmante e às notícias da net, com aquele "Queres saber mais?". Gosto daquela aproximação "toda sorrisos", tipo Beverly Hills 90210 no espaço militar - se isto não é sátira, não sei o que será. Gosto da forma, como que em tom de brincadeira, Verhoeven sublinha os piores aspectos dos "bons" actuais recorrendo a cenas do futuro. Gosto muito deste filme. Casper Van Dien, Dina Meyer, Denise Richards, Neil Patrick Harris, Michael Ironside estão todos perfeitos nos seus estereótipos profundamente marcados.
Starship Troopers, como tantos outros filmes, apesar de à primeira vista ser uma patetice total - nem tem sequer nenhuma base científica lógica em que se possa pegar -, tem algo que me atrai quase magneticamente. Se estiver a repor em algum canal eu não lhe consigo resistir. Paul Verhoeven deve ter feito alguma coisa muito bem... Sei que fizeram mais uma sequelas, mas não quis estragar as minhas memórias, por isso nunca as vi. E acho que nunca vou ver... ●●●○○
Quando penso em exagero, um dos primeiros gajos que me vem à cabeça é o Paul Verhoeven. Já vi coisas muito maradas em termos de violência gráfica e gore, mas de alguma forma os filmes de Verhoeven têm qualquer coisa de visceral que me leva sempre a pensar no exagero dos exageros. Acho que é por causa do tom satírico aliado a carradas de sangue, mas sinceramente não sei.
Starship Troopers é um filme que gosto bastante, por muitas razões. Gosto do uso quase subliminar da imagética nazi do lado dos "bons". Gosto de como ele cola rótulos de fascista a montes de instituições sem nunca as apontar. Gosto da achega à comunicação social alarmante e às notícias da net, com aquele "Queres saber mais?". Gosto daquela aproximação "toda sorrisos", tipo Beverly Hills 90210 no espaço militar - se isto não é sátira, não sei o que será. Gosto da forma, como que em tom de brincadeira, Verhoeven sublinha os piores aspectos dos "bons" actuais recorrendo a cenas do futuro. Gosto muito deste filme. Casper Van Dien, Dina Meyer, Denise Richards, Neil Patrick Harris, Michael Ironside estão todos perfeitos nos seus estereótipos profundamente marcados.
Starship Troopers, como tantos outros filmes, apesar de à primeira vista ser uma patetice total - nem tem sequer nenhuma base científica lógica em que se possa pegar -, tem algo que me atrai quase magneticamente. Se estiver a repor em algum canal eu não lhe consigo resistir. Paul Verhoeven deve ter feito alguma coisa muito bem... Sei que fizeram mais uma sequelas, mas não quis estragar as minhas memórias, por isso nunca as vi. E acho que nunca vou ver... ●●●○○


