No futuro, em 2197, o mundo é ostensivamente militar e implicitamente totalitarista. Toda a gente quer ser um "cidadão", mas para isso é preciso passar pelo rigor militar. É uma má altura para isso, pois a humanidade está prestes a entrar em guerra aberta contra um planeta de insectos alienígenas. Eis Starship Troopers.
Quando penso em exagero, um dos primeiros gajos que me vem à cabeça é o Paul Verhoeven. Já vi coisas muito maradas em termos de violência gráfica e gore, mas de alguma forma os filmes de Verhoeven têm qualquer coisa de visceral que me leva sempre a pensar no exagero dos exageros. Acho que é por causa do tom satírico aliado a carradas de sangue, mas sinceramente não sei.
Starship Troopers é um filme que gosto bastante, por muitas razões. Gosto do uso quase subliminar da imagética nazi do lado dos "bons". Gosto de como ele cola rótulos de fascista a montes de instituições sem nunca as apontar. Gosto da achega à comunicação social alarmante e às notícias da net, com aquele "Queres saber mais?". Gosto daquela aproximação "toda sorrisos", tipo Beverly Hills 90210 no espaço militar - se isto não é sátira, não sei o que será. Gosto da forma, como que em tom de brincadeira, Verhoeven sublinha os piores aspectos dos "bons" actuais recorrendo a cenas do futuro. Gosto muito deste filme. Casper Van Dien, Dina Meyer, Denise Richards, Neil Patrick Harris, Michael Ironside estão todos perfeitos nos seus estereótipos profundamente marcados.
Starship Troopers, como tantos outros filmes, apesar de à primeira vista ser uma patetice total - nem tem sequer nenhuma base científica lógica em que se possa pegar -, tem algo que me atrai quase magneticamente. Se estiver a repor em algum canal eu não lhe consigo resistir. Paul Verhoeven deve ter feito alguma coisa muito bem... Sei que fizeram mais uma sequelas, mas não quis estragar as minhas memórias, por isso nunca as vi. E acho que nunca vou ver... ●●●○○
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Qualquer semelhança deste Hollow Man com o clássico The Invisible Man é pura coincidência. Uns cientistas que trabalham para o governo em instalações secretas, conseguem fazer com que animais fiquem invisiveis. Tudo se complica quando um deles experimenta em si próprio e não consegue voltar à sua forma visível.
Hollow Man é um filme jeitoso de acção/ficção científica/terror. Quer dizer, não é bem terror, o Paul Verhoeven é que é sempre um bocado violento e visceral, a descair para o gore... Até nos diálogos... Já para não falar nas inúmeras referências sexuais, mais ou menos subtis. Faz parte do seu estilo muito próprio. Sou fã dele exactamente por causa disso. Bom elenco principal com Elisabeth Shue, Kevin Bacon e Josh Brolin e, na altura (se bem que se aguentam muito ainda hoje) com uns efeitos especiais espectaculares.
É absolutamente prevísivel, mas não deixa de ser um bom filmito que se vê bastante bem. E fica a pergunta no ar: o que é que uma pessoa faria se pudesse ficar invisível?... ●●●○○
Hollow Man é um filme jeitoso de acção/ficção científica/terror. Quer dizer, não é bem terror, o Paul Verhoeven é que é sempre um bocado violento e visceral, a descair para o gore... Até nos diálogos... Já para não falar nas inúmeras referências sexuais, mais ou menos subtis. Faz parte do seu estilo muito próprio. Sou fã dele exactamente por causa disso. Bom elenco principal com Elisabeth Shue, Kevin Bacon e Josh Brolin e, na altura (se bem que se aguentam muito ainda hoje) com uns efeitos especiais espectaculares.
É absolutamente prevísivel, mas não deixa de ser um bom filmito que se vê bastante bem. E fica a pergunta no ar: o que é que uma pessoa faria se pudesse ficar invisível?... ●●●○○
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Sempre que se falar de ficção científica, Total Recall será mencionado. Porquê? Porque é icónico, original, violento e por vezes até é cómico, roçando o satírico. É um filme que marca verdadeiramente pela diferença. Paul Verhoeven conseguiu criar um visual que é tão particular que se torna inconfundível. Quando uma pessoa vê Total Recall não se lembra de mais nada parecido. Só mesmo... Total Recall. Ou outro filme posterior de Verhoeven.
É uma história tão louca, paranóica e original que só podia vir da cabeça mirabolante de Philip K. Dick. E ninguém melhor que Verhoeven para a adaptar ao cinema. Há cenas memoráveis como a da cabeça explosiva da velhota, sem esquecer os muitos personagens mutantes, especialmente aquela com as inesquecíveis três mamas. Este filme é uma soma de todos os excessos dos anos 80. É curioso perceber que nos anos 80 o futuro era visto como sendo sempre muito colorido e recheado de cores fortes... Hoje em dia, o futuro é sempre visto em tons de azul escuro...
A história tem tudo que ver com percepção, perda de identidade, realidade ou ficção e não podia ser melhor. Num futuro próximo, os humanos colonizam Marte e tentam transformar o planeta num sítio habitável. Como o futuro no cinema é sempre distópico, no meio do processo há opressores e oprimidos, com uma "resistência" a intrometer-se na história. Aqui na Terra, um pacato funcionário da construção que tem sonhos recorrentes com Marte, sente um vazio na sua vida e decide recorrer a uma empresa, a Rekall Inc., que garante conseguir implantar memórias iguais às verdadeiras. A Rekall é como uma empresa de viagens, mas sem a chatice de ter que andar com as malas às costas ou lidar com taxistas sem escrúpulos, como diz no filme. E podem-se escolher recordações temáticas, como por exemplo ser agente secreto e estar envolvido numa grande conspiração para salvar o planeta. E é exactamente isso que acontece. O filme está muito bem dirigido porque constantemente somos confrontados com o que é realidade ou o que é uma memória "falsa" implantada, produto da Rekall. Está-se sempre na dúvida sobre quem são os amigos ou os inimigos. E tudo o que parece, pode ser outra coisa completamente diferente.
A combinação improvável de Arnold Schwarzenegger e Sharon Stone estranhamente até funciona. Michael Ironside é um vilão à altura e Ronny Cox, como sempre, dá uma credibilidade aos papéis que é de mencionar: é o típico gajo que uma pessoa adora odiar.
Os efeitos especiais de Rob Bottin ainda se aguentam nos dias de hoje, mas na altura deixaram toda a gente de boca aberta. Nesse aspecto, é um dos últimos filmes "old school". Ainda eram usados truques de câmara, animações em stop motion e miniaturas para os efeitos especiais. A única cena digital presente no filme é aquela em que Quaid passa por uma espécie de raio-x num checkpoint/aeroporto(?) marciano, em que se vêm as armas e os esqueletos dos passageiros. Marcou o final duma era tecnológica no cinema. A banda sonora original é de Jerry Goldsmith, e como sempre, é muito boa.
O sucesso de Total Recall foi tanto que esteve para acontecer uma sequela, baseada noutra história de Philip K. Dick, em que se explorava o lado místico e presciente dos mutantes marcianos. A sequela nunca passou de uma ideia no papel. Mas mais tarde acabou mesmo por chegar às salas de cinema, pela mão de Steven Spielberg, num filme completamente diferente e que toda a gente (provavelmente) já viu: Minority Report. E que por acaso também é muito bom.
Total Recall é um filme de acção violento. Tão violento, e por vezes até sanguinário, que algumas cenas tiveram de ser cortadas para não ser classificado como "para adultos". Mas acima de tudo é um grande filme de ficção científica, com uma excelente história, com muito músculo à mistura, é certo, mas que também tem muito cérebro. Como envolve marcianos e mutantes, se calhar até tem 2 cérebros! ●●●●○
Total Recall, o "novo". Eis um remake que não entendo. O filme não é péssimo e até tem alguns bons pormenores. O que não percebo é porque é que pegaram na história de um filme anterior e fizeram outro completamente diferente, aproveitando apenas alguns elementos. É que quase não ficou nada do original a não ser os nomes das personagens e a Rekall, que até quase nem é mencionada... Não percebo.
O novo Total Recall perde muito porque tem lacunas e muita falta de pormenor. Basta pensar que tudo gira em torno da falta de espaço para viver, mas Quaid (Colin Farrell) vive num apartamento super espaçoso enquanto toda a gente parece viver num enorme bairro de lata. Não tem sentido. Depois, a premissa de falta de espaço deriva do facto do planeta ter sido totalmente devastado numa guerra química... entre quem? Não se sabe. O que se sabe é que só restaram duas federações - Inglaterra(?) e Austrália(?) - onde está apinhada toda a gente que sobreviveu. Mas por outro lado, no meio desta quase destruição, conseguiu-se fazer um túnel no planeta, passando pelo núcleo incandescente, porque as pessoas vivem de um lado do mundo mas trabalham no outro. Ah?! É um bocado rebuscado demais. Até para ficção cientifica...
E depois, pior que os problemas na narrativa de base, é que se fica com a sensação de estar a ver um mix de filmes: o aspecto geral, e em especial, a perseguição de carros flutuantes parece uma cópia de Minority Report, misturado com os nomes e alguns pormenores do filme original, reciclados e espalhados pelo guião. Para quem conhece o primeiro filme, torna tudo desconexo e parece uma colagem. A determinada altura, dei por mim mais entretetido a tentar encontrar referências do primeiro filme, do que propriamente a ver o filme...
O design de produção até está bastante bom, por isso, sinceramente, acho que mais valia terem feito alguns ajustes na história original e criarem um novo argumento que se sairia muito melhor. E isso provavelmente daria um novo filme de ficção científica, se calhar até um bom, e não seria apenas e só um remake pobre de Total Recall. ●○○○○
Há filmes que causam tanto impacto na estreia que têm obrigatoriamente que ter seguimento. É o caso de Robocop (1987). Deu origem a duas sequelas, uma série de tv, um jogo de computador, toneladas de merchandising e, recentemente foi alvo da nova moda de hollywood, o reboot.
A história de Robocop passa-se num futuro próximo (de 1987), numa Detroit distópica, onde o crime domina a cidade. Como se não bastasse, a cidade está prestes a ser totalmente privatizada e a cair nas mãos da OCP, uma mega-corporação omnipresente, omnipotente, corrupta e gananciosa que não olha a meios para atingir os seus fins. (Não deixa de ser curioso que o enredo do filme se tenha aproximado tanto da Detroit dos dias de hoje.)
A OCP tem apenas um propósito para a velha cidade: destruí-la e começar tudo de novo. Perante a impotência da polícia para travar a criminalidade, a OCP decide recorrer a robots para pacificar a zona, antes de iniciar a sua reconstrução total. A derradeira resposta ao crime urbano é o ED-209, um robot monstruoso e armado até aos dentes. Quando numa violentíssima cena, o ED-209 dá erro e mata alguns executivos da OCP, a corporação vira-se para um projecto alternativo, mistura de homem e máquina, chamado Robocop. Para isso, usam o que restou do polícia Alex Murphy (Peter Weller), violentamente morto por um grupo de perigosos criminosos com ligações à cúpula da OCP.
O filme tornou-se automaticamente num clássico da ficção científica, recheado de hiper-violência e crítica em forma de sátira às modernas sociedades de consumo. Apesar de não ser o primeiro filme de Paul Verhoeven em solo americano (o primeiro foi o excelente e esquecido Flesh & Blood) não deixa de ser uma "estreia" de arromba e um marco para o cinema e para o próprio Verhoeven. A partir daqui, seguiu quase sempre o mesmo registo violento e satírico (como em Starship Troopers e Total Recall), o que aparentemente levou a que nunca se afirmasse como grande realizador que é. Talvez o grande problema de Verhoeven é ser demasiado excessivo para Hollywood.
E, não há dúvidas, Robocop é excessivo. Para já, na própria mensagem e temática do filme: deturpação dos media, corrupção e violência generalizada, autoristarismo, ganância desmedida, desumanização, capitalismo selvagem e perversão da própria natureza humana. Depois, visualmente, para um filme de base "comercial" da altura, contém algumas das cenas mais violentas que já vi. Isto é o que poderia afectar o filme negativamente. Não foi o caso, porque o positivo suplanta em muito o potencial negativo.
Em primeiro, Robocop tem um conjunto brilhante de actores, a começar por Peter Weller, passando por Ronny Cox, Kurtwood Smith e Miguel Ferrer que dão uma seriedade impecável ao filme. Em segundo, tem uma história muito boa e totalmente original (convém sublinhar bem este factor, original) que criou um ícone/super-herói do cinema, assim como um supervilão muito diferente do habitual, a maléfica OCP. Em terceiro, os aspectos técnicos: a banda sonora é excelente assim como toda a componente de som; os efeitos especiais eram do melhor que havia na altura e, por se tratarem de robots, ainda se aguentam bem, mesmo passado tanto tempo.
Por último, Robocop tem um irreverente Paul Verhoeven atrás das câmaras, que, sem fazer nenhum tipo de concessões ao grande público, consegue manter um tom sério ao mesmo tempo que não despreza a acção pura e dura. Pelos exemplos das sequelas, percebe-se o quanto é difícil não entrar no campo do ridículo, principalmente quando se tem um polícia-robot como protagonista principal.
Quando o vi pela primeira vez, gostei imenso. Hoje, continuo a gostar. Para mim, é um clássico moderno da ficção científica, totalmente original, e que merece estar em qualquer lista dos melhores de sempre. ●●●●○
No seguimento do grande sucesso do primeiro filme, surgiu inevitavelmente uma sequela, Robocop2 (1990) . Esta, nem é assim tão má, como costumam ser as sequelas "tradicionais". Fica apenas uns furos abaixo do original. O enredo não foge muito à lógica do primeiro, com a excepção do confronto entre o Robocop original e um novo robot (o Robocop2), agora comandado por um traficante/criador de drogas sintéticas.
Este Robocop 2 não acrescenta nada de novo, mas também não cai no ridículo como aconteceu no terceiro filme. Perdeu obviamente, o efeito surpresa, o que já é bastante. Mas no fim, acaba por ser um filme medianamente bom. É dirigido por um realizador muito competente e habituado às grandes produções de acção, Irvin Kershner (Star Wars: Episódio V e 007, Never Say Never Again), continua a ser suportado por (alguns) bons actores, tem um argumento light, mas aceitável, e tem um ritmo acelerado e coerente durante todo o filme, que é o que se pretende num filme de acção.
Como se costuma dizer na gíria: "não é de especial, mas vê-se bem..." ●●●○○
É uma coisa que me intriga: como é que responsáveis por um estúdio de cinema vêm a montagem final de um filme destes e dizem: está bom, siga para as salas de cinema. Só vejo uma razão para isto acontecer. É alguém dizer: "vamos vender uns bilhetes, que as pessoas querem é ver o Robocop". E a lógica de querer vender bilhetes à força dá nisto: Robocop3 (1993). Uma anedota de filme. Um fim inglório para uma personagem icónica. Não há nada que se aproveite neste filme. O argumento é ridículo e mais parece que misturaram a história do Robocop com uma história duma moderna ascensão nazi. Chega ao absurdo de se substituir o actor principal por um parecido com o Peter Weller do filme original. É possível ir mais ao fundo? É, pois! Os efeitos especiais regrediram e são estupidamente ultrapassados. Repito: este é o exemplo de filmes feitos propositadamente para cavalgar o êxito dos anteriores, vender mais alguns bilhetes e mais nada. Na nova história, Robocop tem agora como adversário um "suposto" andróide japonês (a OCP foi comprada por uma empresa rival japonesa) que é uma espécie de robot-ninja (!?), que só se sabe que é um robot, porque quando morre emite algumas faíscas. Ridículo. Pior ainda, é que durante a maior parte do filme, o Robocop está partido ao bocados, avariado, desligado, a ser consertado ou está estatelado no chão, indefeso. E depois, no fim, ainda voa graças a um jet-pack... Não há palavras para descrever tanta mediocridade. Um filme que é uma nulidade, mas acima de tudo é uma cuspidela sem vergonha numa das melhores criações originais do cinema. Na ânsia do lucro fácil, os estúdios de Hollywood por vezes comportam-se como pequenas versões cinematográfica da OCP: não olham a meios para fazer uns dólares extra, nem que para isso tenham de matar e atirar para sarjeta as suas próprias criações. Inacreditável. ○○○○○
Como toda a gente já percebeu, em Hollywood, as ideias morreram há bastante tempo. Agora só existem adaptações de bandas desenhadas e/ou novelas gráficas, sequelas, prequelas, remakes e reboots de êxitos antigos. Inevitavelmente, o reboot tinha de chegar a Robocop (2014).
Tenho de admitir que não foi tão decepcionante como previa. Mas também não trouxe nada de novo, o que acaba por ser algo... decepcionante, já que a expectativa de ter José Padilha atrás das câmaras era bastante grande. É o chamado "mixed feeling".
A nova história é algo diferente. A OCP continua a ser a megacorporação ultra-gananciosa do original mas agora é mais global e militarizada. Presume-se que esteja numa fase mais avançada, tendo já em terreno estrangeiro robots a pacificar zonas urbanas em conflito. Já o agente Murphy torna-se em Robocop mais ou menos da mesma forma que o original. A dualidade homem-máquina acaba por ser um pouco mais aprofundada, mas ainda assim de uma forma muito light. Para além do update (mais ou menos bem conseguido) ao aspecto do próprio cyborg, a grande diferença deste filme para o primeiro é a abordagem dos media, menos satírica e muito mais contundente e crítica. Para isso muito ajuda Samuel L. Jackson a interpretar a figura de um grande comunicador de massas, que chega quase a ser assustador e que parece uma voz da propaganda do regime. E muito do filme gira em torno desse tema "quente": devem ou não, os robots ser introduzidos na vida quotidina como agentes da autoridade? Como se costuma dizer: é um tema complicado...
Como filme, tecnicamente é irrepeensível. Vindo dum realizador como José Padilha não seria de esperar outra coisa. Tudo faz sentido e tudo está bem feito. Tem um casting que não necessita de grandes comentários: Gary Oldman, Samuel L. Jackson e Michael Keaton. Só este trio, corrigia qualquer defeito maior que o filme pudesse ter.
Se este reboot perde em relação ao original, é precisamente por causa disso: não é original. É apenas um reboot de uma grande êxito antigo. Apesar do novo Robocop ser um filme relativamente bom, sinceramente, espero que os estúdios fiquem por aqui. O melhor é dedicarem-se a criar personagens novas, originais e icónicas como aconteceu com o primeiro Robocop. ●●●○○
A história de Robocop passa-se num futuro próximo (de 1987), numa Detroit distópica, onde o crime domina a cidade. Como se não bastasse, a cidade está prestes a ser totalmente privatizada e a cair nas mãos da OCP, uma mega-corporação omnipresente, omnipotente, corrupta e gananciosa que não olha a meios para atingir os seus fins. (Não deixa de ser curioso que o enredo do filme se tenha aproximado tanto da Detroit dos dias de hoje.)
A OCP tem apenas um propósito para a velha cidade: destruí-la e começar tudo de novo. Perante a impotência da polícia para travar a criminalidade, a OCP decide recorrer a robots para pacificar a zona, antes de iniciar a sua reconstrução total. A derradeira resposta ao crime urbano é o ED-209, um robot monstruoso e armado até aos dentes. Quando numa violentíssima cena, o ED-209 dá erro e mata alguns executivos da OCP, a corporação vira-se para um projecto alternativo, mistura de homem e máquina, chamado Robocop. Para isso, usam o que restou do polícia Alex Murphy (Peter Weller), violentamente morto por um grupo de perigosos criminosos com ligações à cúpula da OCP.
O filme tornou-se automaticamente num clássico da ficção científica, recheado de hiper-violência e crítica em forma de sátira às modernas sociedades de consumo. Apesar de não ser o primeiro filme de Paul Verhoeven em solo americano (o primeiro foi o excelente e esquecido Flesh & Blood) não deixa de ser uma "estreia" de arromba e um marco para o cinema e para o próprio Verhoeven. A partir daqui, seguiu quase sempre o mesmo registo violento e satírico (como em Starship Troopers e Total Recall), o que aparentemente levou a que nunca se afirmasse como grande realizador que é. Talvez o grande problema de Verhoeven é ser demasiado excessivo para Hollywood.
E, não há dúvidas, Robocop é excessivo. Para já, na própria mensagem e temática do filme: deturpação dos media, corrupção e violência generalizada, autoristarismo, ganância desmedida, desumanização, capitalismo selvagem e perversão da própria natureza humana. Depois, visualmente, para um filme de base "comercial" da altura, contém algumas das cenas mais violentas que já vi. Isto é o que poderia afectar o filme negativamente. Não foi o caso, porque o positivo suplanta em muito o potencial negativo.
Em primeiro, Robocop tem um conjunto brilhante de actores, a começar por Peter Weller, passando por Ronny Cox, Kurtwood Smith e Miguel Ferrer que dão uma seriedade impecável ao filme. Em segundo, tem uma história muito boa e totalmente original (convém sublinhar bem este factor, original) que criou um ícone/super-herói do cinema, assim como um supervilão muito diferente do habitual, a maléfica OCP. Em terceiro, os aspectos técnicos: a banda sonora é excelente assim como toda a componente de som; os efeitos especiais eram do melhor que havia na altura e, por se tratarem de robots, ainda se aguentam bem, mesmo passado tanto tempo.
Por último, Robocop tem um irreverente Paul Verhoeven atrás das câmaras, que, sem fazer nenhum tipo de concessões ao grande público, consegue manter um tom sério ao mesmo tempo que não despreza a acção pura e dura. Pelos exemplos das sequelas, percebe-se o quanto é difícil não entrar no campo do ridículo, principalmente quando se tem um polícia-robot como protagonista principal.
Quando o vi pela primeira vez, gostei imenso. Hoje, continuo a gostar. Para mim, é um clássico moderno da ficção científica, totalmente original, e que merece estar em qualquer lista dos melhores de sempre. ●●●●○
No seguimento do grande sucesso do primeiro filme, surgiu inevitavelmente uma sequela, Robocop2 (1990) . Esta, nem é assim tão má, como costumam ser as sequelas "tradicionais". Fica apenas uns furos abaixo do original. O enredo não foge muito à lógica do primeiro, com a excepção do confronto entre o Robocop original e um novo robot (o Robocop2), agora comandado por um traficante/criador de drogas sintéticas.
Este Robocop 2 não acrescenta nada de novo, mas também não cai no ridículo como aconteceu no terceiro filme. Perdeu obviamente, o efeito surpresa, o que já é bastante. Mas no fim, acaba por ser um filme medianamente bom. É dirigido por um realizador muito competente e habituado às grandes produções de acção, Irvin Kershner (Star Wars: Episódio V e 007, Never Say Never Again), continua a ser suportado por (alguns) bons actores, tem um argumento light, mas aceitável, e tem um ritmo acelerado e coerente durante todo o filme, que é o que se pretende num filme de acção.
Como se costuma dizer na gíria: "não é de especial, mas vê-se bem..." ●●●○○
É uma coisa que me intriga: como é que responsáveis por um estúdio de cinema vêm a montagem final de um filme destes e dizem: está bom, siga para as salas de cinema. Só vejo uma razão para isto acontecer. É alguém dizer: "vamos vender uns bilhetes, que as pessoas querem é ver o Robocop". E a lógica de querer vender bilhetes à força dá nisto: Robocop3 (1993). Uma anedota de filme. Um fim inglório para uma personagem icónica. Não há nada que se aproveite neste filme. O argumento é ridículo e mais parece que misturaram a história do Robocop com uma história duma moderna ascensão nazi. Chega ao absurdo de se substituir o actor principal por um parecido com o Peter Weller do filme original. É possível ir mais ao fundo? É, pois! Os efeitos especiais regrediram e são estupidamente ultrapassados. Repito: este é o exemplo de filmes feitos propositadamente para cavalgar o êxito dos anteriores, vender mais alguns bilhetes e mais nada. Na nova história, Robocop tem agora como adversário um "suposto" andróide japonês (a OCP foi comprada por uma empresa rival japonesa) que é uma espécie de robot-ninja (!?), que só se sabe que é um robot, porque quando morre emite algumas faíscas. Ridículo. Pior ainda, é que durante a maior parte do filme, o Robocop está partido ao bocados, avariado, desligado, a ser consertado ou está estatelado no chão, indefeso. E depois, no fim, ainda voa graças a um jet-pack... Não há palavras para descrever tanta mediocridade. Um filme que é uma nulidade, mas acima de tudo é uma cuspidela sem vergonha numa das melhores criações originais do cinema. Na ânsia do lucro fácil, os estúdios de Hollywood por vezes comportam-se como pequenas versões cinematográfica da OCP: não olham a meios para fazer uns dólares extra, nem que para isso tenham de matar e atirar para sarjeta as suas próprias criações. Inacreditável. ○○○○○
Como toda a gente já percebeu, em Hollywood, as ideias morreram há bastante tempo. Agora só existem adaptações de bandas desenhadas e/ou novelas gráficas, sequelas, prequelas, remakes e reboots de êxitos antigos. Inevitavelmente, o reboot tinha de chegar a Robocop (2014).
Tenho de admitir que não foi tão decepcionante como previa. Mas também não trouxe nada de novo, o que acaba por ser algo... decepcionante, já que a expectativa de ter José Padilha atrás das câmaras era bastante grande. É o chamado "mixed feeling".
A nova história é algo diferente. A OCP continua a ser a megacorporação ultra-gananciosa do original mas agora é mais global e militarizada. Presume-se que esteja numa fase mais avançada, tendo já em terreno estrangeiro robots a pacificar zonas urbanas em conflito. Já o agente Murphy torna-se em Robocop mais ou menos da mesma forma que o original. A dualidade homem-máquina acaba por ser um pouco mais aprofundada, mas ainda assim de uma forma muito light. Para além do update (mais ou menos bem conseguido) ao aspecto do próprio cyborg, a grande diferença deste filme para o primeiro é a abordagem dos media, menos satírica e muito mais contundente e crítica. Para isso muito ajuda Samuel L. Jackson a interpretar a figura de um grande comunicador de massas, que chega quase a ser assustador e que parece uma voz da propaganda do regime. E muito do filme gira em torno desse tema "quente": devem ou não, os robots ser introduzidos na vida quotidina como agentes da autoridade? Como se costuma dizer: é um tema complicado...
Como filme, tecnicamente é irrepeensível. Vindo dum realizador como José Padilha não seria de esperar outra coisa. Tudo faz sentido e tudo está bem feito. Tem um casting que não necessita de grandes comentários: Gary Oldman, Samuel L. Jackson e Michael Keaton. Só este trio, corrigia qualquer defeito maior que o filme pudesse ter.
Se este reboot perde em relação ao original, é precisamente por causa disso: não é original. É apenas um reboot de uma grande êxito antigo. Apesar do novo Robocop ser um filme relativamente bom, sinceramente, espero que os estúdios fiquem por aqui. O melhor é dedicarem-se a criar personagens novas, originais e icónicas como aconteceu com o primeiro Robocop. ●●●○○
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