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A Guerra causa-me repulsa, mas ao mesmo tempo atrai-me. Intriga-me todo o desenvolvimento necessário até chegar a um conflito. No caso das Guerras Mundiais, fico pasmado com tudo o que tem de acontecer no passado, para que se chegue a um conflito à escala global. Por causa dos filmes, muito se fala e vê sobre a II Guerra Mundial. Os avanços nas câmaras de filmar, os cineastas que acompanharam in loco o conflito, e mais tarde, o cinema de acção banalizou de tal forma o conceito de guerra, que a II GM ganhou todo o protagonismo quando se fala de um conflito global. Mas para mim, a I Guerra Mundial é não só o ponto mais marcante da História da Guerra, como da História da própria Humanidade. É um momento novo e ao mesmo tempo decisivo na história. Uma mudança completa e imediata de paradigma, que mudou radicalmente o rumo da História, com implicações directas no mundo actual em que vivemos.
A Humanidade e a Guerra parece que sempre co-existiram. O conflito parece ter raízes profundas no próprio ADN humano. Um mundo sem conflitos e sem guerra é quase um conceito distópico. Sempre existiram conflitos e os homens têm-se matado uns aos outros por este ou aquele motivo, desde tempos imemoriais. Milhões de pessoas foram assassinadas da maneira mais cruel, milhões de soldados perderam a vida em milhares de guerras por toda a história do mundo. O que muda então com a I Guerra Mundial? A principal e mais marcante novidade foi a globalização do conflito em si. Mas acrescem pormenores novos como a industrialização da guerra, a transposição do plano de conflito para além da terra, para o mar e até para os céus, a massificação da morte, e mais importante, a normalização da indiferença perante a guerra.
A I Primeira Guerra Mundial mostrou uma nova faceta da maldade humana e não só. A situação desgastante, infernal e desumana das trincheiras e das terras de ninguém que levou a novos píncaros a loucura da guerra. A utilização dos gases venenosos. A indiferença das chefias militares e o desprezo levados a níveis industriais, quando confrontados com o sofrimento dos soldados, traduzido na célebre expressão de carne para canhão. O vazio de emoções, a falta total de empatia, a crueldade e a estupidez humanas levados a novos extremos. O Inferno na Terra.
A guerra que iria acabar com todas as guerras, era tão ilusória que levou o mundo a desintegrar-se, e mergulhou-o anos depois num conflito ainda maior, que não resolvendo nada em definitivo, muito pelo contrário, ainda aprofundou os conflitos anteriores, criou outros novos e mais complexos e, acredito eu, ainda nos levará a um conflito porventura ainda maior que todos os outros anteriores. Tudo estava tão iludido com a magia da nova indústria e do avanço científico que traria um final rápido a qualquer guerra, que ninguém pensou sequer nas consequências do que viria a seguir. Bem, após cem anos de conflitos bélicos por todo o mundo, milhões de mortos militares e civis, divisões profundas entre países e continentes e a recorrente ameaça de erradicação nuclear, o mundo parece estar numa espécie de banho-maria para um futuro mega-conflito planetário. Espero estar enganado, mas infelizmente não me parece que esteja. A ver vamos. Mas adiante.
They Shall Not Grow Old é um documentário sobre a I Guerra Guerra Mundial produzido e realizado por Peter Jackson. O que pode ser uma surpresa para alguns, é que Peter Jackson já tinha feito um outro documentário antes. Forgotten Silver não é bem um documentário, mas antes um documentário falso, encomendado pela TV Neozelandesa, sobre um realizador famoso daquele país que caiu no esquecimento. Tive a sorte de o ver numa edição do Fantasporto (quando o Peter Jackson ainda era o gajo das entranhas, sangue a rodos e muito, muito gore, e não o gajo respeitável do cinema que é hoje...) Apesar de não ter nada a ver com isto, Peter Jackson já tinha os skills necessários para fazer um restauro de uma obra deste género porque já tinha feito o caminho inverso: filmar e envelhecer. Aqui foi pegar nas filmagens originais e restaurá-las. E fez um trabalho técnico absolutamente fabuloso. Já vi muita coisa da I Guerra, mas nada como isto. Foi a primeira vez que tive um vislumbre real do que aconteceu. A cores e com o movimento correcto. Como naquela altura a passagem da bobine de fita era manual e o operador tinha de dar à manivela, a velocidade da imagem saía sempre estranha. Aqui, tudo isso foi corrigido e acrescentado material sonoro para dar mais autenticidade. Apesar de ser uma época tão distante, sei que já nos anos 10 se faziam experiências com cor nos filmes, mas este restauro é outra coisa totalmente diferente. Tecnicamente é absolutamente irrepreensível. Mas como documentário, sinceramente, já vi melhor. Parece-me que o Peter Jackson não se quis alongar nas raízes do próprio conflito e na história complexa (tanto dentro do cenário de guerra e dos seus intervenientes, como nas implicações na vida do cidadão comum fora do conflito directo), mas apenas mostrar como era a vida, sofrimento e morte de um simples soldado inglês nas trincheiras da frente de batalha. Eu entendo isso, mas acaba por ser demasiado redutor. Nesse campo, sinceramente esperava mais, mas tudo bem, entendo... É uma aproximação mais técnica do que propriamente histórica. Por isso mesmo, tenho um feeling que o Peter Jackson ainda vai voltar a este assunto da I Guerra Mundial.
Apesar desta limitação compreensível, They Shall Not Grow Old é um documentário totalmente obrigatório. Primeiro pela questão cinematográfica e técnica (sublime), que é em certa parte, também história do próprio cinema, dos filmes, como eles são feitos e como a parte técnica vai evoluindo ao longo dos tempos. E em segundo, porque é importante não esquecer a história. É um chavão, mas é totalmente verdade. Quem esquece a história, acaba por a repetir, assim como os erros dos passado. No caso de uma guerra com estas proporções e implicações no futuro, isto deveria passar nas escolas. Devia-se mostrar aos miúdos (mas não só, até porque andam por aí muitos adultos com mentalidades de criança...) que um conflito com esta escala de tamanho planetário, crueldade e sofrimento humano nunca pode ser esquecido, mas especialmente, nunca se poderá repetir. ●●●○○

Um bom filmito, este War Horse. Do mestre Steven Spielberg tambem não seria de esperar outra coisa. Na realidade, há pequenas coisas que falham. Está um bocadinho "esticado" demais e por vezes falta-lhe a intensidade que Spielberg emprega em todos os filmes. Se calhar o problema é associar o Spielberg ao Saving Private Ryan que colava as pessoas aos assentos, e este filme tem um tom totalmente diferente. Parece quase um filme familiar, como que a convidar os pais a levar as crianças ao cinema para lhes dar uma lição sobre a violência irracional da guerra e como o amor e amizade acabam por transcender todo esse mal. Talvez por isso mesmo, Jeremy Irvine, Peter Mullan, Emily Watson, Tom Hiddleston e Benedict Cumberbatch, todos estejam muito bem nos seus papéis, mas num inócuo "tom beje" de representação. Na verdade, apesar do tom (surpreendentemente) leve (para um filme passado na I Guerra Mundial), até gostei de War Horse. As poucas cenas de guerra estão verdadeiramente espectaculares e houve momentos muito bons, como quando numa cena, o cavalo fica emaranhado em arame farpado no meio de trincheiras. É um bom filmito. Para ver e rever daqui por uns anos. ●●●○○

Sempre que vejo filmes de acção com super-heróis, tenho sempre presente uma pergunta que me acompanha desde o início do filme até ao final: "porque é eu vejo estes filmes?" Normalmente acabo por ver as imensas letrinhas dos créditos finais e enquanto ouço aquelas músicas para desocupar salas de cinema, aquela pergunta vai ecoando no meu cérebro, enquanto abano negativamente com a cabeça. Acho que já falei aqui desta sensação desconfortável e da sua resposta que é: inconscientemente, procuro pela excepção que confirma a regra.
Wonder Woman é essa excepção. É um bom filmito de acção e efeitos especiais. Muito bem feito e muito bem filmado. Tem grandes e espectaculares cenas de acção sem ser exagerado, como é costume neste tipo de filmes. E ainda bem que alguém se lembrou de mostrar algo sobre a 1.ª Guerra Mundial, que estranhamente é um tópico muito pouco explorado. Vá-se lá perceber...
Gal Gadot, como seria de esperar, tem todos os focos virados para si. É normal, até porque o papel assenta-lhe como uma luva. É daqueles castings perfeitos. Não consigo imaginar outra actriz neste papel. Também tem alguns actores de "segunda linha", mas que são muito bons como Chris Pine, Danny Huston, Connie Nielsen ou Ewen Bremner, o que ajuda sempre.
Apesar da realização "à super-herói" de Patty Jenkins é notória a influência de Zack Snyder. Por vezes, quase parece um mix do 300 com o Man of Steel. Mas achei isso totalmente normal. Afinal de contas, a Wonder Woman faz parte da Justice League... E a DC Comics deve tudo ao Zack Snyder, há que dizê-lo. Destaque para um pormenor que nos últimos anos tem sido menosprezado mas que era uma imagem de marca dos grandes filmes de acção e aventura do passado: o tema musical. Regressou em força em Wonder Woman.
Não é o melhor filme do mundo (como curiosamente ouvi alguém dizer...), mas dentro deste tipo de filmes-pipoca de super-heróis e efeitos especiais, é um dos mais equilibrados e dos melhores que já vi. ●●●○○

 
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