Normalmente nunca diria isto, mas vou ter de o dizer... Idiocracy é um dos piores filmes que já vi na minha vida... mas que vale a pena dar uma vista de olhos. Por muito estranho que pareça é mesmo verdade. Apesar do filme ser mesmo mau, o cerne do filme merece uma reflexão, nem que seja só por 10 minutos.
Um soldado americano (Luke Wilson) é escolhido para uma experiência secreta envolvendo hibernação prolongada. Ele foi escolhido por ser um gajo absolutamente mediano e sem ligações familiares. Junto com ele vai também participar uma prostituta (Maya Rudolph), "emprestada" pelo seu chulo a troco de favores. A experiência acaba por correr mal devido a uma escândalo com o chulo, e o que deveria ser uma coisa com duração de um ano, acaba por ser esquecida e prolongar-se por 500 anos. Quando o soldado mediano finalmente acorda no futuro, 500 anos mais tarde, descobre que a inteligência foi extinta e que a América é uma sociedade tão estupidificada que ele é seguramente o humano mais inteligente à face da Terra. É então escolhido para resolver uma série de problemas... resultado de causas verdadeiramente estúpidas.
Idiocracy está num limbo. Teoricamente é uma comédia de ficção científica, mas na realidade nem é uma coisa nem outra. Como comédia é um contrassenso pois para além de não ser nada cómico, ainda por cima é um tipo de comédia que só é apelativo para o tipo de pessoal que está literalmente a criticar. Como ficção cientifica é mesmo só porque se passa no futuro, porque nem a história é nova (ou original) nem sequer o tema é muito aprofundado para além dos óbvios sketches. Para além disto, o próprio filme esteve envolvido numa disputa bastante feia com os estúdio da Fox. O que é absolutamente compreensível vendo o teor do filme. Até a Foz News é descaradamente gozada... Os estúdios ficaram com o filme completamente feito em carteira durante um ano e só o distribuíram em meia dúzia de cinema, sem promoção nenhuma, sem trailers, sem nada. Foi mesmo só para cumprir o contrato que previa a estreia em cinema. E depois o filme desapareceu do público... Idiocracy merece destaque precisamente por causa disto tudo. Como é possível que um filme que é essencialmente mal feito, sem distribuição, sem marketing, sem trailer e que quase caiu no esquecimento se torna uma referência da comédia politica entre os críticos e o público e ainda arranja o "título" de filme de culto? É um mistério.
Mas se há uma resposta certa, acho que é por o filme tocar num ponto muito sensível, e basicamente, por apontar para o elefante no meio da sala da América... A estupidez. Não vale a pena estar aqui com grandes rodeios. A América, outrora o grande centro de mentes brilhantes está a tornar-se cada vez mais estúpida. Uma maioria de pessoas elegeu o Donald Trump como presidente, portanto está tudo dito. Não é por nada que Mike Judge, o realizador que já tem créditos como o criador, produtor e dono das vozes de Beavis and Butt-Head, tem sido referido como um grande profeta. Depois de Donald Trump como presidente, acho que ninguém estranharia muito se agora fosse eleito um wrestler (como a personagem de Terry Crews) ou um culturista sem qualquer formação política ou social. De certa forma o filme é premonitório por ir mais além do racional e mostrar que o ridículo se pode tornar realidade, e também porque sendo uma comédia pode brincar com todos estes temas muito sérios. Muita vezes vi referida até a expressão: "o filme que lentamente se vai tornando num documentário social"... É estranho, mas é verdade. A linguagem utilizada, já muito longe do inglês, cheia de jargão e siglas... Uma comunidade manipulada e controlada por grandes corporações que apenas querem que a sociedade seja uma população de consumidores acéfalos... As séries e filmes sem continuidade tipo jackass que estreiam em primeiro lugar nos cinemas americanos... A omnipresente hipersexualização... de tudo, basicamente... As pilhas de lixo infindáveis provocadas por um consumismo desenfreado... Enfim... a realidade que ninguém quer ver ou admitir...
A realidade é que esta ficção é bem mais real e muito menos futurista e utópica do que parece. Este tema do homem que acorda no futuro para perceber que a humanidade se estupidificou ao ponto de quase se aniquilar não é nova. No Time Machine do H.G. Wells isto já é em parte mencionado. No conto The Marching Morons de Cyril Kornbluth também já se trata da temática sobre o que é que acontece quando se tem uma sociedade em que a população se expande exponencialmente e ao mesmo tempo há uma uma falta de pressão evolucionária...
Falar da estupidez crescente na sociedade daria para uma site completo porque as razões são imensas e muito interligadas. E aí tenho que dar o braço a torcer porque Idiocracy toca em quase tudo de uma forma muito leviana, mas ao mesmo tempo muito acertada. Vai desde o pormenor da Fox News com os seus apresentadores musculados e apresentadoras quase de mamas à mostra, passando pela crítica a uma sociedade dominada pelo marketing das grandes empresas que diz que "os electrólitos são tão bons que substituem a água simples" e que assim levam a uma catástrofe ecológica. E quem diz electrólitos, poderia dizer L. Casei Imunitass...
E se se avançar um pouco mais no tempo, ainda temos as redes sociais que têm sido o grande megafone desta estupidez crescente e alarmante que muita gente já percebeu que vai acabar mal. Mas não se pode dizer mal das redes sociais nem dos seus malefícios... porque gera imensa receita ("i love money, don't you?" deve ser a expressão que aparece mais vezes no filme...) e imensa gente adora as redes sociais e já nem sequer conseguem viver sem elas. Se este tema entrasse no filme (ainda nem sequer tinham grande expressão na altura da estreia), seguramente o filme teria mais 1 hora de duração... Pode ser que Mike Judje volte ao tema mais tarde... ou se calhar é melhor não o deixar dizer mais nada para não tocar novamente em pontos sensíveis...
De certa forma, Idiocracy é um olhar satírico para dentro. É como uma parte da América se revê e como tem noção de como o mundo começa a ver a própria América. E têm razão. Não tenho dúvida nenhuma, que cada vez mais, o mundo olha para a América, não como a grande super-potência de outros tempos, mas como o grande centro exportador de estupidez para o resto do mundo...
Estupidez é uma coisa aparentemente hereditária e altamente contagiosa. Isto fica bem demonstrado nos geniais primeiros minutos. E, cada vez mais me apercebo, que afinal pode não ter cura. E isto sou eu a ser um bocadinho optimista, porque na realidade o meu cérebro pessimista o que me diz é que a estupidez não tem cura e que eventualmente vamos estar bem fodidos por não tratarmos deste problema a tempo... Este tema da estupidez chateia-me. Fico com comichões e dá-me vontade de bater em alguém... é melhor ficar por aqui e não me alongar mais... ...
Sinto-me muito dividido em relação a este Idiocracy. Nunca o veria novamente de tão mau que é, mas sou obrigado a recomendá-lo pela reflexão que obriga a fazer... ●○○○○ - ●●●●●
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Damian (Ben Kingsley) é um homem extremamente rico. Quando descobre que tem um cancro e que a morte o espera muito brevemente, decide recorrer a uma misteriosa empresa (liderada por Matthew Goode) que alega poder transferir a "velha consciência" para um novo corpo mais jovem (Ryan Reynolds). A intervenção é um sucesso e Damian redescobre os prazeres da vida... mas rapidamente percebe que não se pode alterar o curso natural das coisas sem ter de se pagar um preço elevado...
Self/less é um bom filmito de acção e ficção cientifica, e a determinadas alturas mais parece um thriller. Tem bom ritmo, uma muito boa realização de Tarsem Singh, que mais uma vez mergulha no tema das realidades alternativas e das mentiras que o cérebro nos consegue pregar. Sem ser espectacular ou memorável, Self/less é um filme que mantém o espectador intrigado durante algum tempo. Só quando começa a abrir o jogo todo é que se torna algo previsível, que é o que mais marca negativamente este argumento. Havia aqui matéria prima para ir muito mais longe, até porque a temática dá pano para mangas: vida, morte, imortalidade, opulência, polaridade...
Não sendo totalmente original (...já alguém viu o Seconds do John Frankenheimer?... é mais ou menos a mesma coisa) é um bom filmito de ficção científica que até tem algum miolo. Vê-se e não chateia. ●●○○○
PS: Uma pequena curiosidade: logo no início, o apartamento opulento e dourado de Damian não é CGI. Aquele apartamento existe mesmo e foi inspirado no Palácio de Versailles. O verdadeiro dono? Donald Trump... só podia ser, não é verdade?
Self/less é um bom filmito de acção e ficção cientifica, e a determinadas alturas mais parece um thriller. Tem bom ritmo, uma muito boa realização de Tarsem Singh, que mais uma vez mergulha no tema das realidades alternativas e das mentiras que o cérebro nos consegue pregar. Sem ser espectacular ou memorável, Self/less é um filme que mantém o espectador intrigado durante algum tempo. Só quando começa a abrir o jogo todo é que se torna algo previsível, que é o que mais marca negativamente este argumento. Havia aqui matéria prima para ir muito mais longe, até porque a temática dá pano para mangas: vida, morte, imortalidade, opulência, polaridade...
Não sendo totalmente original (...já alguém viu o Seconds do John Frankenheimer?... é mais ou menos a mesma coisa) é um bom filmito de ficção científica que até tem algum miolo. Vê-se e não chateia. ●●○○○
PS: Uma pequena curiosidade: logo no início, o apartamento opulento e dourado de Damian não é CGI. Aquele apartamento existe mesmo e foi inspirado no Palácio de Versailles. O verdadeiro dono? Donald Trump... só podia ser, não é verdade?
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An Inconvenient Sequel: Truth to Power é a sequela de An Inconvenient Truth. É um pouco mais "deslavado" que o primeiro porque já não tem tanto impacto, mas é um bom ponto de partida para uma conversa séria sobre o ambiente.
Depois de mais de 10 anos de alertas sobre questões climáticas e desequilíbrios naturais provocados pelo Homem, o que realmente mudou? Quase nada. Vendem-se mais painéis solares e agora há o hype dos carros eléctricos. Estranhamente, isto vai de encontro a esta sequela, Truth to Power. Ainda não percebi muito bem porquê, mas parece que a mensagem climática e do planeta moribundo, não tem sido bem transmitida. Para além de ter de "lutar" contra a estupidez e os "Trumps" deste "mundus econominus", parece que não temos de regredir no impacto, mas apenas tornar esse impacto "mais verde" ou "eléctrico". Fico com a ideia de que, mais do que resolver os problemas, estamos a tentar contorná-los. Parece que a salvação para este autêntico Apocalipse em câmara lenta reside no activismo, nas eólicas, nas apps, nos híbridos, em Marte e na quinoa. Não percebo o que é que se passa. A devastação neste planeta é tão grande, que sinceramente acho que já não temos salvação. Faço a minha vidinha e tento não pensar muito no assunto porque senão entro logo em depressão. Já nem consigo ver um documentário do mundo natural.
Para quem estiver desse lado do blog a pensar: "mas quem é este palhaço para vir para aqui com esta treta? Já fizeste palestras? O que é que fazes para resolver a questão? Qual é a tua solução mágica para resolver este enorme problema?", eu poderia responder de uma forma "verde", inocente e politicamente correcta: ando sempre a pé; consumo o mínimo possível; evito ao máximo o plástico; reutilizo ao máximo e reciclo tudo; e muito importante, apenas "dou" o meu dinheiro a quem causa o mínimo de impactos no planeta. Mas especialmente, aprendi a partilhar este mundo com os animais e as plantas, cada um no seu espaço, porque isto também é deles. E sei que sem eles, nós não conseguimos viver cá. Mas actualmente a minha resposta é outra. Não é fácil de ouvir - e ainda por cima ninguém a quer aceitar -, mas é muito simples: temos de ser todos pobres. Ou pelo menos viver como tal, com o mínimo de coisas e consumo. Não há outra forma. Aliás, isso é o que vai inevitavelmente acontecer se não houver uma ruptura violenta e completa na forma como vivemos. Mas, ei!, quem sou eu para fazer previsões e dizer aos restantes o que fazer? Ninguém muito relevante. Ninguém precisa de seguir os meus conselhos. Afinal sou só mais um anónimo qualquer, um "gajo normal", que escreve num blog sobre filmes. As minhas convicções são muito fáceis de desmontar. É só deixar o tempo passar e esperar para ver. Falamos novamente daqui a 10 anos. Se ainda estivermos cá todos... (sem nota)
Depois de mais de 10 anos de alertas sobre questões climáticas e desequilíbrios naturais provocados pelo Homem, o que realmente mudou? Quase nada. Vendem-se mais painéis solares e agora há o hype dos carros eléctricos. Estranhamente, isto vai de encontro a esta sequela, Truth to Power. Ainda não percebi muito bem porquê, mas parece que a mensagem climática e do planeta moribundo, não tem sido bem transmitida. Para além de ter de "lutar" contra a estupidez e os "Trumps" deste "mundus econominus", parece que não temos de regredir no impacto, mas apenas tornar esse impacto "mais verde" ou "eléctrico". Fico com a ideia de que, mais do que resolver os problemas, estamos a tentar contorná-los. Parece que a salvação para este autêntico Apocalipse em câmara lenta reside no activismo, nas eólicas, nas apps, nos híbridos, em Marte e na quinoa. Não percebo o que é que se passa. A devastação neste planeta é tão grande, que sinceramente acho que já não temos salvação. Faço a minha vidinha e tento não pensar muito no assunto porque senão entro logo em depressão. Já nem consigo ver um documentário do mundo natural.
Para quem estiver desse lado do blog a pensar: "mas quem é este palhaço para vir para aqui com esta treta? Já fizeste palestras? O que é que fazes para resolver a questão? Qual é a tua solução mágica para resolver este enorme problema?", eu poderia responder de uma forma "verde", inocente e politicamente correcta: ando sempre a pé; consumo o mínimo possível; evito ao máximo o plástico; reutilizo ao máximo e reciclo tudo; e muito importante, apenas "dou" o meu dinheiro a quem causa o mínimo de impactos no planeta. Mas especialmente, aprendi a partilhar este mundo com os animais e as plantas, cada um no seu espaço, porque isto também é deles. E sei que sem eles, nós não conseguimos viver cá. Mas actualmente a minha resposta é outra. Não é fácil de ouvir - e ainda por cima ninguém a quer aceitar -, mas é muito simples: temos de ser todos pobres. Ou pelo menos viver como tal, com o mínimo de coisas e consumo. Não há outra forma. Aliás, isso é o que vai inevitavelmente acontecer se não houver uma ruptura violenta e completa na forma como vivemos. Mas, ei!, quem sou eu para fazer previsões e dizer aos restantes o que fazer? Ninguém muito relevante. Ninguém precisa de seguir os meus conselhos. Afinal sou só mais um anónimo qualquer, um "gajo normal", que escreve num blog sobre filmes. As minhas convicções são muito fáceis de desmontar. É só deixar o tempo passar e esperar para ver. Falamos novamente daqui a 10 anos. Se ainda estivermos cá todos... (sem nota)


