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Em 1951 estreava The Day the Earth Stood Still para espanto dos frequentadores de cinema. Em 2008 chegou aos cinemas um remake com o mesmo título. A história de base para esta nova adaptação vem realmente do filme e não do conto original, o que demonstra que por si só o filme já é uma fonte de inspiração directa e o quanto foi marcante. Apesar de passar mais de 50 anos desde a estreia do original, as alterações na história não são assim tão substanciais, o que demonstra também que há qualquer coisa de universal e intemporal na mensagem do filme.
Tal como no original, uma misteriosa nave, agora uma misteriosa orbe verde, aterra na América no Central Park. Junto com outros especialistas, Helen Benson (Jennifer Connelly) é uma cientista que é chamada de emergência para resolver esta crise repentina e responder a questões prementes. De dentro da nave sai um extraterrestre com forma humana - que mais tarde se saberá que se chama Klaatu (Keanu Reeves) - e junto com ele, vem também um ameaçador robot gigante. À chegada, a mensagem de Klaatu é de paz e ele diz que vem salvar o planeta Terra. O choque entre civilizações não corre bem e Klaatu é preso e levado para interrogatório. Mas Klaatu tem alguns truques na manga e consegue fugir com a ajuda de Helen e revela que vem salvar a Terra... dos humanos que sem consciência ecológica têm vindo a destruir o planeta.
As comparações com o filme original são óbvias e o cerne da questão continua a ser o mesmo: o conflito. Mas se no primeiro filme, o conflito era a Guerra Fria e a ameaça era a proliferação das armas nucleares, nesta nova versão, o conflito é ecológico e a ameaça é a obliteração do mundo natural. No resto do filme tudo se mantém mais ou menos igual. Obviamente que tendo as ferramentas digitais ao serviço, Scott Derrickson usou e abusou deste artifício. Até em situações em que não faziam falta nenhuma, mas a necessidade de dar velocidade à acção é quase imperativa hoje em dia. Paradoxalmente é o seu maior problema. Mas por outro lado, ajuda bastante como é o caso do robot GORT que invés de ser uma simples "lata metálica" acaba por aparecer totalmente retransformado e muito mais ameaçador que o original. E muito maior também. E para mim, a grande figura do The Day the Earth Stood Still será sempre aquele robot. Aqui, os upgrades são mais que evidentes. GORT agora é significado de Genetically Organized Robotic Technology, uma espécie de forma biológica composta por milhões de nano-robots devoradores de matéria e auto-replicantes. Uma ideia absolutamente aterradora se pensarmos bem. GORT é tão poderoso, que ao contrário do que aconteceu no primeiro filme em que a electricidade é desactivada temporariamente (daí o dia em que a Terra parou), aqui ela é desactivada mundialmente e de forma definitiva, numa clara alusão à necessidade de refrear o ímpeto de destruição da natureza.
Keanu Reeves encaixa perfeitamente no papel de Klaatu. Reeves nunca foi um actor do meu agrado porque me parece pouco expressivo em termos faciais. Não sei explicar muito bem este fenómeno, mas neste caso (como noutros papéis) acho que fica impecável. Jennifer Connelly é a nova humana "compreensiva" e como actriz, Connelly terá sempre a minha aprovação. O restante pessoal é mesmo muito secundário como é normal nestas produções mais mainstream (Kathy Bates, Jaden Smith e John Cleese) por isso o único destaque terá de ser para o Jon Hamm, não pela performance, mas porque é uma versão moderna do original "Hugh Marlowe", replicando exemplarmente a personagem, ao ponto de copiar inteiramente o look físico original. As personagens são todas muito boas, mas acho que a personagem estereotipada do "humano intolerante e desconfiada" da mudança e da novidade é sempre de realçar...
The Day the Earth Stood Still não sofreu muito com o efeito remake moderno. Continua a ter bons momentos e bons pormenores e acabou por se reinventar com uma nova mensagem anti-conflito, desta vez, enveredando pela questão ecológica e com efeitos mais permanentes. Não afronta o original e vê-se bem. ●●

Num futuro não muito distante, a Humanidade vê-se confrontada com a extinção iminente. Apenas sobrevive em subterrâneos para escapar a um vírus mortal que assola a superfície e para o qual não há cura. Numa última tentativa para inverter a situação, um grupo de cientistas desenvolve uma máquina do tempo e envia o soldado James Cole (Bruce Willis) numa missão quase impossível: encontrar o terrível bando dos 12 Macacos (uma organização terrorista liderada por Jeffrey Goines (Brad Pitt), um louco com uma visão fanática da ecologia e anti-corporativista), responsável pela criação e disseminação do vírus que dizimou a maior parte da Humanidade e levar uma amostra para o futuro para tentar desenvolver uma cura. Pelo caminho, apaixona-se por Kathryn (Madeleine Stowe), uma bela mulher que nunca conheceu, mas que no entanto aparece recorrentemente nos seus sonhos.
As premissas do filme são assustadoras. Não é por acaso que a personagem de Madeleine Stowe é apresentada a meio de uma conferência em que o tema é o Complexo de Cassandra. Aqui a temática é de uma verdadeira pandemia mortal, mas sem ter origens naturais como as que temos vivido nos últimos anos. Esta é voluntária, concebida, planeada e executada por um grupo de ecologistas fanáticos que face ao descontrolo e agressão constante ao meio ambiente decide tomar as rédeas dos acontecimentos, "vingar" o planeta e simplesmente erradicar a Humanidade do problema. Em 1995 poderia parecer um tema um pouco para o chalado e completamente fora da caixa, mas agora já não é (infelizmente) assim tão descabido.
Agora vou-me afastar um pouco do filme, porque este é um tema marado. Uma das coisas que sempre me chamou à atenção nos últimos surtos virais recentes foram as teorias da conspiração. Apesar de toda a comunidade cientifica vir a público alertar que o que acontece é resultante exclusivo de factores naturais e que até são cíclicos, uma grande parte da opinião pública arranja sempre uma teoria alternativa que envolve um agressor humano. Antes, os culpados eram o russos, depois passaram a ser os americanos e agora são os chineses. As teorias são constantemente desmontadas como falsas mas no entanto elas andam por aí e cada vez com mais força. E depois ainda há um mundo inteiro que vive com os fantasmas do terrorismo. É só juntar 2+2. Terrorismo e armas biológicas. A única coisa que falta para juntar estas duas forças imensas é a vontade. Num mundo cada vez mais regido por autênticos psicopatas eleitos e apoiados por uma população crescente que parece cada mais estupidificada para lhes dar poder... Não auguro nada de bom para a Humanidade. Voltando ao 12 Monkeys... espero que não venham para aqui tirar ideias... Sinceramente, acho que não. Está a dar para perceber que o impacto económico de uma pandemia pode ser mais devastador que a própria doença. E o que rege o mundo é o dinheiro. Logo, sem pessoas, não há economia e por tabela não há dinheiro. Mas há por esse mundo fora, grupos fundamentalistas para quem o dinheiro não é a prioridade numero um, por isso convém ter este cenário sempre presente. Como dizia o outro: há pessoas que só querem ver o mundo a arder. Não é difícil de imaginar (ou prever) que mais cedo ou mais tarde, intencionalmente ou não, uma doença contagiosa poderá causar imensos danos à Humanidade, até porque já aconteceu algumas vezes na história. Apesar de vivermos numa altura em que parece que estamos acima do mundo natural, na realidade, estamos ao mesmo nível de todos os outros seres vivos deste planeta. A situação actual de pandemia de Covid-19 prova exactamente isso. Espero sinceramente que isto não descambe mais e que se resolva rapidamente com o mínimo de sofrimento humano possível, mas também espero que a Humanidade aproveite esta paragem forçada para corrigir erros e reposicionar-se mais equilibradamente no planeta. De certa forma, eu vejo o que está a acontecer agora como uma espécie de lição planetária. Veremos se alguém aprende alguma coisa com estes acontecimentos dramáticos.
Mas vamos aligeirar um pouco a coisa e voltar ao 12 Monkeys. Um dos meus realizadores preferidos é sem dúvida o Terry Gilliam. Não só pela colaboração com os Monty Python mas principalmente pela carreira posterior a solo. A ligação umbilical aos Python justifica porque muitos filmes estejam imersos na loucura, no entanto, ironicamente, Gilliam criou também alguns dos melhores filmes relacionados com a opressão, a distopia e também a temática pós-apocalíptica. Um dos melhores exemplos tem mesmo de ser o 12 Monkeys, que mistura brilhantemente tudo isto num cocktail explosivo. Não consigo imaginar outra pessoas para além de Gilliam na cadeira do realizador. É o gajo ideal para conseguir misturar todos estes temas bem pesados sem que um gajo fique automaticamente deprimido. Sem ser um filme de acção, 12 Monkeys tem um movimento constante, seja pelas filmagens tipicamente estranhas de Gilliam, seja pelas prestações dos actores que oscilam entre o brilhante e o totalmente louco. O design de produção é excelente e o guião é intocável na sua complexidade. Ainda por cima, quando uma das temáticas envolvidas é a viagem no tempo, o que normalmente resulta numa salgalhada que arruína qualquer filme. Sem ser um remake oficial do francês La Jetée, na verdade parece mais uma extrapolação directa. E aqui há que dividir o mérito pelo David Peoples (mais uma vez aplausos para o guião) que conseguiu expandir 28 minutos do conceito original para a complexidade deste 12 Monkeys, duma forma tão fragmentada, mas ao mesmo tempo tão consistente.
Tenho a certeza que vamos ver um ressurgimento do filme nos próximos tempos. Ainda bem, porque muito para além da temática algo deprimente, 12 Monkeys é um filme muito bem interpretado, muito bem realizado, muito bem escrito e muito bem feito. Um dos meus filmes de ficção cientifica preferidos. Já me está a apetecer revê-lo... novamente. ●●●●○

Nos anos 90, os estúdios arriscavam tudo por um bom blockbuster. Incluindo filmar (quase) exclusivamente em ambientes aquáticos. Não sou grande conhecedor da parte da produção, mas já li bastante sobre o assunto para perceber que isto é uma receita para o desastre. E foi o que aconteceu. São inúmeras as histórias dos problemas decorrentes de filmar neste tipo de ambientes. É preciso ver estes filmes mais antigos para perceber porque é que um estúdio hoje em dia gasta 100 ou 200 milhões de dólares numa produção. É que na altura gastava essa quantia (e foi o caso do Waterworld) e ficava à espera para ver se o público cobria o gasto baseado no feeling que seria um blockbuster. Era um jogo. Às vezes funcionava, outras vezes não, como foi o caso. E ia levando o estúdio à falência. O que os estúdios aprenderam com estes "erros" é que podiam retirar o risco da equação. Se voltassem sempre às mesmas temáticas, se apostassem no que os fãs querem ver, se fizessem uns estudos de mercados e nuns pré-releases privados para limar as arestas, e filmassem em estúdio com um fundo verde de fundo, os estúdios praticamente não teriam risco. E foi o que aconteceu. Por isso é que estamos neste loop de blockbusters que parecem todos iguais, que têm a mesma história e que parecem assentar todos na mesma estrutura. Ninguém vai arriscar gastar 200 ou 300 milhões de dólares e esperar que o feeling esteja certo. Tem de estar certo. Tem de ser um produto vendável e financeiramente positivo. Daí que os filmes mais recentes parecerem não ter "alma". É porque não têm mesmo. São produtos multimédia de grande consumo. Estão na mesma classe dos electrodomésticos. Bem, neste caso é na classe de entretenimento. É mais um lançamento de um novo parque de diversões da Disney. Aquilo dificilmente falha. Não é coincidência que este Waterworld tenha estreado ao mesmo tempo dois ou três parques de diversão com a mesma temática pela Universal Studios. Mas isso é outra história.
Para além de ter durante muito tempo a etiqueta do filme mais caro de sempre, também teve a infeliz marca do maior flop financeiro de sempre. Terá sido porque a história era demasiado à frente do seu tempo? Não sei dizer. Mas em 1995, vir falar de alterações climáticas extremas, derretimento das calotas polares e subida do nível dos mares é capaz de ter sido um dos factores. Waterworld, de Kevin Reynolds, é quase premonitório. Num futuro distante, as alterações climáticas fazem com que a subida do nível do mares cubra toda a Terra de água. Na senda dos clássicos filmes pós-apocalípticos, a humanidade sobrevive mas altera-se radicalmente. Há pequenas comunidades a viver em atóis artificiais e há piratas que os aterrorizam. Pelo meio há o também clássico anti-herói que não se enquadra nas categorias anteriores. O motor de todo o filme é a procura dum mítico sítio com terra firme. O mapa para esse local está tatuado nas costas de uma miudinha, que é perseguida pelos piratas. E assim o anti-herói vai lentamente envolver-se no conflito. A premissa até é boa e a história até está bem esbugalhada; o problema é terem querido transformar um filme de ficção cientifica num blockbuster de acção e explosões. Os grandes estúdios não conseguem desligar-se do típico guião de acção e do bom contra o mau. E assim, simplesmente, Waterworld dissolve toda e qualquer introspecção sobre a temática ecológica e reduz toda a história a uma perseguição do mau ao bom e em que o bom (Kevin Costner), no último segundo, derrota o mau (Dennis Hopper) e fica com a namorada (Jeanne Tripplehorn) no final. A coisa perdeu-se de tal forma que no final nem é uma coisa nem outra. Por isso mesmo, apesar de ter alguns bons pormenores, Waterworld acaba por ser apenas mediano a descambar para o fracote. É pena porque tinha aqui material para um bom filmito. Este é um dos casos em que considero que deveriam fazer um remake○○○

Como começar a descrever o Delicatessen? Num futuro pós-apocalíptico em que a comida é um bem raro e tardada como se fosse dinheiro, há um prédio nos arredores de Paris em que o talhante do rés-do chão arranja carne... só que não é vaca nem porco... Dito assim, é uma descrição algo pesada, mas na realidade, Delicatessen é uma comédia. Negra, mas para todos os efeitos, uma comédia. Diria mais, uma comédia única, saída das mentes geniais de Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet.
Após responder a um estranho anúncio de emprego, um ex-palhaço (Dominique Pinon) apaixona-se pela filha (Marie-Laure Dougnac) do maquiavélico talhante (Jean-Claude Dreyfus). A partir daqui, todo o prédio - que é habitado pelas mais fantásticas personagens que vi nos últimos tempos em filme (como a Aurore e as suas infrutíferas mas engenhosas tentativas de suicídio, o homem rã, o carteiro louco ou o casal Tapioca) - entra num frenesim de acontecimentos cómicos.
Bastante interessante para os dias de hoje, é a batalha implícita entre os comedores de "carne" e os vegetarianos, "gentilmente" apelidados de "trogloditas" pelos carnívoros. Pensando bem, eles poderiam co-exisitir na mesma realidade, mas há de facto uma guerra entre os que querem continuar a comer carne e viver na superfície e os que preferem ficar restritos aos grãos e aos vegetais e por isso são escorraçados para o sub-solo. Como nunca há uma explicação lógica para se chegar ao ponto de existir um "Delicatessen" com aquela carne tão peculiar, eu assumo que o mundo se dividiu (inclusive com guerras à mistura) entre os que querem manter um estilo de vida obviamente insustentável (a não ser à custa do sacrifício de outros) e os que preferem seguir outro rumo, nem que para isso se neguem a uma existência "normal" e tenham de se refugiar debaixo de terra. Na realidade, a história principal de Delicatessen nunca é bem explicada e permanece omissa durante todo o filme. Mas acho que sei porque é que isso aconteceu. Em 1991 falar de ecologia ou ambiente era como falar de hippies ou de cultos estranhos. Nessa altura a única coisa que se falava era do buraco de ozono e mesmo assim ninguém sabia o que era; apenas era melhor usar pouco Óleo Johnson nos dias de praia porque se podia ficar com aquela cor de pele alaranjada como os temidos cremes de cenoura dos anos 80. Isso e a possível falta de pressão nas latas de aerossol. Esta era a principal preocupação da população em relação ao buraco do ozono. Porra, no final da década de 90 é que se começou a equacionar tirar o chumbo dos combustíveis, portanto só por aqui dá para perceber o que significa ecologia naqueles tempos. Portanto, temas como ecologia, sustentabilidade, dietas carnívoras ou vegetarianismo, mesmo sendo um tema subtil, era algo muito à frente do seu tempo e inevitavelmente incompreensível. Diria mesmo que o tema de base do Delicatessen não foi mais desenvolvido, porque o público simplesmente não iria entender. Foda-se, estamos no século XXI e o público ainda não consegue entender, quanto mais nos anos 90... Bem, por muito atrasado que um gajo fosse nos 90's, pelo menos não lhe passaria pela cabeça defender a teoria de que a Terra é plana... Raios parta que o pessoal está a ficar cada vez mais estúpido... Mas pronto... estou a divagar novamente... voltando ao filme...
Delicatessen é uma obra única, meticulosamente criada e montada como um relógio suíço por parte de Caro e Jeunet. E convém ressalvar o pormenor importante de que este foi o filme de estreia desta dupla. Em termos visuais, de trabalho de câmara, música e também na construção e desenvolvimento das personagens é do melhor que há. Só o genérico inicial é uma pequena obra de arte.
Este é um filme que não seria possível hoje em dia. Nem a maioria do público com a mente disneyficada por décadas de filmes de super-heróis e efeitos especiais digitais conseguiria aguentar tanto tempo sentado sem explosões, nem os estúdios poriam um cêntimo que fosse para financiar uma obra destas. Delicatessen não é um filme assim tão antigo, mas já é um clássico e um sinal do que vai acontecer com o cinema para o futuro: uma polarização brutal que provavelmente levará à morte o filme de autor nas salas de cinema. Por muito bom que um filme seja, estará restrito a um serviço de streaming qualquer ou será corrido para um ciclo de cinema que ainda passe filmes não-blockbuster. É uma tristeza, mas é o que é.
Delicatessen é um filme que ainda está presente no meu cérebro. Está tão bem escrito e tão bem filmado que é inesquecível. Tem associado aquele sentimento de uma certa inocência que já raramente se vê. É tão único que tive dificuldade em descrevê-lo de início. Ainda hoje não consigo arranjar equivalência. Se alguém me perguntar de que género é o Delicatessen, vou ter a mesma dificuldade que tinha na altura. É uma comédia? É, mas não é bem. É ficção científica? Sim, mas não é bem isso. Tem números circenses e musicais, mas também parece que vai descambar para o gore sanguinário. Será do tipo comédia negra de ficção científica com inspiração circense?!? Não sei. É difícil de explicar e de qualificar. Delicatessen é apenas igual a... Delicatessen. Lá está: é peça única. Mais que um filme, Delicatessen é uma obra de arte cinematográfica que tem sempre que ser mencionada quando se fala de cinema. Absolutamente essencial. ●●●●●

Após voltar à vida, o "novo" Spock junta-se à tripulação da USS Enterprise na viagem de regresso para a Terra. Daí o Star Trek IV: The Voyage Home. Porém, a caminho de casa, encontram uma misteriosa nave alienígena que ameaça destruir o planeta. Quando descobrem que a indestrutível estrutura está a tentar comunicar com as baleias - entretanto extintas - a tripulação percebe que vai ter viajar no tempo, para o passado, e tentar trazê-las para o presente e assim poderem responder ao chamamento da misteriosa sonda. Este foi o último Star Trek que vi "em directo", ou seja, no tempo da estreia. Achei tão ridículo e tão mau que nunca mais vi nenhum Star Trek. Apesar da mensagem claramente ecologista (diga-se, muito à frente do seu tempo), o filme parece tão infantil que não o consegui levar a sério. Para além de ser Spock, Leonard Nimoy realiza e também escreve, dando azo a uma disputa de protagonismo da série com o incontestado líder William Shatner. A restante equipa continua nos seus postos do costume. Catherine Hicks é a cara nova da série e um protótipo perfeito da actriz loira dos anos 80, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Um par de anos mais tarde teve a oportunidade de ser a "mãe" do Chucky e... mais nada que me lembre. E já não é nada mau... Há que ser sincero: para 1986, Star Trek IV, apesar de ainda girar em torno de conceitos de ficção científica engraçados - como sempre foi apanágio da série -, está um pouco desfasado no tempo, tanto em termos de construção narrativa, como até em termos técnicos. É a velha cena do "adormecer à sombra do sucesso" e do "...em equipa vencedora não se mexe". Normalmente isso dá cabo dos franchises e foi exactamente isso que aconteceu com a maioria do público.●○○○○


An Inconvenient Sequel: Truth to Power é a sequela de An Inconvenient Truth. É um pouco mais "deslavado" que o primeiro porque já não tem tanto impacto, mas é um bom ponto de partida para uma conversa séria sobre o ambiente.
Depois de mais de 10 anos de alertas sobre questões climáticas e desequilíbrios naturais provocados pelo Homem, o que realmente mudou? Quase nada. Vendem-se mais painéis solares e agora há o hype dos carros eléctricos. Estranhamente, isto vai de encontro a esta sequela, Truth to Power. Ainda não percebi muito bem porquê, mas parece que a mensagem climática e do planeta moribundo, não tem sido bem transmitida. Para além de ter de "lutar" contra a estupidez e os "Trumps" deste "mundus econominus", parece que não temos de regredir no impacto, mas apenas tornar esse impacto "mais verde" ou "eléctrico". Fico com a ideia de que, mais do que resolver os problemas, estamos a tentar contorná-los. Parece que a salvação para este autêntico Apocalipse em câmara lenta reside no activismo, nas eólicas, nas apps, nos híbridos, em Marte e na quinoa. Não percebo o que é que se passa. A devastação neste planeta é tão grande, que sinceramente acho que já não temos salvação. Faço a minha vidinha e tento não pensar muito no assunto porque senão entro logo em depressão. Já nem consigo ver um documentário do mundo natural.
Para quem estiver desse lado do blog a pensar: "mas quem é este palhaço para vir para aqui com esta treta? Já fizeste palestras? O que é que fazes para resolver a questão? Qual é a tua solução mágica para resolver este enorme problema?", eu poderia responder de uma forma "verde", inocente e politicamente correcta: ando sempre a pé; consumo o mínimo possível; evito ao máximo o plástico; reutilizo ao máximo e reciclo tudo; e muito importante, apenas "dou" o meu dinheiro a quem causa o mínimo de impactos no planeta. Mas especialmente, aprendi a partilhar este mundo com os animais e as plantas, cada um no seu espaço, porque isto também é deles. E sei que sem eles, nós não conseguimos viver cá. Mas actualmente a minha resposta é outra. Não é fácil de ouvir - e ainda por cima ninguém a quer aceitar -, mas é muito simples: temos de ser todos pobres. Ou pelo menos viver como tal, com o mínimo de coisas e consumo. Não há outra forma. Aliás, isso é o que vai inevitavelmente acontecer se não houver uma ruptura violenta e completa na forma como vivemos. Mas, ei!, quem sou eu para fazer previsões e dizer aos restantes o que fazer? Ninguém muito relevante. Ninguém precisa de seguir os meus conselhos. Afinal sou só mais um anónimo qualquer, um "gajo normal", que escreve num blog sobre filmes. As minhas convicções são muito fáceis de desmontar. É só deixar o tempo passar e esperar para ver. Falamos novamente daqui a 10 anos. Se ainda estivermos cá todos... (sem nota)

An Inconvenient Truth é um documentário de Davis Guggenheim sobre alterações climáticas. Apesar de ter ganho o Óscar para Melhor Documentário quem ficou com os créditos foi o Al Gore. Ainda hoje há quem pense que o Al Gore ganhou um Óscar. É compreensível. A forma apaixonada como Al Gore apresentou os factos científicos e alertou o público desatento do que se passava no mundo levou muita gente a pensar que ele era o grande mastermind por detrás da criação deste documentário. Mas isso é apenas um pormenor. Aqui a verdadeira importância vai para a questão climática, as suas causas, os desequilíbrios e os efeitos no planeta. O documentário é muito bom e está muito bem escrito, sendo que neste aspecto os louros vão mesmo para o Al Gore.
No que toca às questões ambientais todas as chamadas de atenção merecem relevância. Há muito tempo que a classe científica tem vindo a alertar que estamos a danificar de tal forma o funcionamento natural do planeta que eventualmente teremos de sofrer as consequências. Estranhamente, isto já está amplamente à vista de todos, mas parece que o melhor é ignorar e que não se passa (quase) nada. Acho que isso acontece porque por um lado, tem implicações económicas e na "Santa Economia" ninguém pode mexer. "Se o dinheiro pára, o que será de nós?", é esta a lógica do momento. Este é um dos grandes problemas do mundo e, ninguém tenha dúvidas, o dinheiro literalmente "manda" neste mundo. Por outro lado - que se calhar até mais grave -, temos os maluquinhos "negacionistas" - apoiados e impulsionados pelos senhores da economia, que sabem que perderiam as suas fortunas se isto mudasse para um mundo verdadeiramente "verde" - que simplesmente acham que os problemas ambientais do mundo são "normais", "são culpa do sol", "já aconteceram antes" ou que são "tangas inventadas por governos comunistas ou proto-totalitários".
Sinceramente, acho que temos em mãos um problema pior que as alterações climáticas, que, quer queiramos quer não, irão ser corrigidas à força: a estupidez. Ou como lhe chamam agora, a desinformação, se bem que não é bem a mesma coisa. A desinformação pode ser combatida, já a estupidez é incurável. Porque pensando bem, não é preciso ser nenhum cientista para perceber o que se está a fazer de errado. Quando se lançam toneladas de pesticidas sintéticos num campo, isso é errado. Quando se lançam toneladas de plásticos no mar, isso é errado. Quando se consome o dobro do que se precisa, isso é errado. Quando se chacina animais e ecossistemas inteiros até à extinção, isso é errado. Quando se manipula geneticamente milhões de anos de evolução em favor do presente, isso é errado. Quando se queimam milhões de toneladas de combustíveis fósseis para a atmosfera, isso é errado. E os exemplos não param. O que é que é difícil de perceber aqui? É assim tão difícil de perceber que nós não podemos ir a um sítio, chegar lá, foder aquilo tudo e depois não querer que o sítio se vire contra nós? E esse sítio é a Terra e é única. Se existissem mais 10 planetas iguais ao nosso, de certa forma até conseguiria entender. Agora fazer isto na única "casa" que temos? É incompreensível este suicídio coletivo. Sinceramente, não entendo. Acho que é uma forma de provar que o ser humano é simplesmente uma criança estúpida que vai perceber da pior maneira que não pode fazer tudo o que lhe vai na tola. É triste, mas é a verdade. E acho que esta é que é mesmo a Verdade Inconveniente. Bem, já estou a divagar novamente.
Não faço grandes comentários ao documentário propriamente dito, porque nesta matéria acaba por ser irrelevante. Este, ou outro documentário qualquer, é sempre importante para alertar e consciencializar as pessoas e mereceria da minha parte a classificação máxima. Isto ultrapassa as questões técnico-cinematográficas e afins. Isto é sobre a preservação da vida na Terra como a conhecemos. Não só do maravilhoso mundo natural como do próprio Homem. Obrigatório. (sem nota)

O ano é 2022 e a realidade é um distopia viva. O mundo do detective Thorn (Charlton Heston) dá uma volta de 180 graus quando lhe é designada uma investigação de homicídio numa zona rica e exclusiva da cidade. Mas o mundo de Thorn é também um mundo superpovoado (40 milhões de pessoas só em Nova York), poluído e de recursos sobreexplorados e escassos. É um mundo onde a eutanásia é uma matéria de estado que tem centros próprios para acabar com os idosos, que no momento em que são envenenados e esperam a morte, podem finalmente rever num monitor o extinto mundo natural em todo o seu esplendor... É neste mundo pessimista e terminal que Thorn conhece Shirl (Leigh Taylor-Young), uma "mobília". Soylent Green tem conceitos muito fixes e muito avançados. "Mobília", por exemplo é o que se chamam às mulheres que fazem parte do contrato de arrendamento que os ricos assinam quando vão para os tais apartamentos chiques na "alta" e vivem numa realidade paralela dos milhões de pessoas a viver em vãos de escadas... As pessoas são tantas que são literalmente tratadas como lixo... O próprio termo "soylent" é uma mistura de soja (soybeans) e lentilhas o que me lembra imediatamente a mudança nos conceitos alimentares relativamente recentes...
Soylent Green foi adaptado do livro de Harry Harrison, "Make Room! Make Room!", e lida com temas extremos como a conspiração, distopia, canibalismo, homicídio e destruição ecológica à escala planetária. E é uma obra negra, pessimista e que não acaba bem. É mesmo típico dos filmes dos 70's. Os anos 70 foram ao mesmo tempo o pináculo e a década do nascimento da verdadeira ficção científica. Foi quando se começou a aliar a lógica e o pensamento científico ao espectáculo do cinema. Apesar de só ter contacto com este e outros filmes do género muito mais tarde (nos 80's), isso teve um efeito profundo em mim. Neste caso específico, fez com que começasse a estar alerta para a ecologia e começou a incutir-me a curiosidade de como o mundo natural funcionava e como o homem o poderia desestabilizar ou até mesmo o destruir. Até essa altura eu não tinha noção que isso seria sequer possível. Não tinha conhecimentos nem inteligência suficiente para perceber. Soylent Green foi um filme que literalmente mudou o meu mundo e que mudou a forma como via o mundo. E também mudou a forma como via os filmes. Aquele final simplesmente explodiu-me com o cérebro... E teve o condão de o pôr a funcionar de outra forma. Aquilo seria possível? Seria possível a Terra e o Homem chegarem àquele ponto? Quem eram aquelas pessoas que conseguiam imaginar um futuro assim? Ainda hoje, sempre que ouço um camião do lixo a carregar ao longe, lembro-me sempre do Soylent Green. Claro que é um filme que está datado no tempo e faltam-lhe muitas "coisas" de 2022. Mas quem é que consegue imaginar o mundo daqui a 50 anos e mostrá-lo exactamente como será viver nele? É preciso dar o desconto devido...
Este foi o último filme de Edward G. Robinson que se debatia com um cancro, embora ninguém soubesse. Na cena da eutanásia, Heston estava mesmo a chorar devido à actuação "real" de Robinson... Pensando bem, é de facto, cruel. A última coisa que filmou foi a sua "morte", o que viria realmente a acontecer uns dias depois do final das filmagens. Mais um elemento mítico a juntar ao próprio carácter mítico do filme em si.
Soylent Green é um clássico intemporal, imperdível e imprescindível. É daqueles filmes que tem uma história que dá para infindáveis dissertações e discussões. Mas o melhor é ver. Diria que é mesmo obrigatório ver. E que seja a uma terça-feira, pois terça-feira é dia de Soylent Green... ●●●●● + ●

Não me vou demorar muito. Em termos críticos, vou "despachar" isto num instante, tal como se "despacha" uma obra de arte que poucos (ou nenhuns) defeitos tem. The Revenant é um filme perfeito. Épico. Gigante. Cru. Violento. Visceral. Real. Genuíno. Por vezes é até arrebatador. Um mix perfeitamente equilibrado entre a beleza frágil e estéril de um filme artístico e o nojo do cuspo de tabaco de mascar de um western de barba rija. Excepcional. Digno de todos os aplausos e de todos os prémios. Logo à partida, aplausos para Alejandro Iñárritu, que sem dúvida nenhuma, é o melhor realizador do momento. E tem vindo inequivocamente a prová-lo filme após filme. Nem é preciso dizer mais nada. Nem é preciso ver com muita atenção para se perceber que este é um filme "verdadeiro". Totalmente genuíno. Quase que se cheira a lama molhada... Para mim, isto é cinema puro.
Depois, mais aplausos para Leonardo DiCaprio (um gajo que nem aprecio particularmente) e para Tom Hardy (um gajo que particularmente aprecio), que apesar de estarem nitidamente a "piscar o olho" a um prémio nos Óscares, têm uma performance acima do normal, até para eles próprios. Mais uma vez, influência directa do Iñárritu, que leva actores muito bons, simplesmente para outro nível muito superior.
Visualmente, The Revenant, é avassalador. A fotografia é gélida e distante, mas ao mesmo tempo é penetrante. Os grandes planos naturais que conscientemente esmagam as personagens. As filmagens de acção "sem costuras"... Tudo pensado ao pormenor. Brilhante. Faltam-me os adjectivos. Até voltei a pensar em coisas que, em termos de cinema, já tinham desaparecido da minha mente, como quando fui confrontado com aquela cena do ataque do urso e pensei: "como é que fazem isto?". Já nem lembrava dessa sensação! Obrigado, Alejandro, muito obrigado.
Apesar de ser baseado numa história verídica de violência e sobrevivência, acho que em The Revenant, o Iñárritu teve a inteligência de introduzir outra grande "moral da história" mais subtil: se retirarmos tudo o que é conforto do elemento humano e confrontarmos as pessoas com a natureza selvagem, as pessoas tornam-se elas próprios em elementos selvagens. E lidar com uma ou outra situação, acaba por ser fatal, para qualquer interveniente. Ninguém sai ileso. Acho que essa a grande mensagem de fundo deste The Revenant: teremos que lidar com a selvajaria humana e perceber como evitá-la a todo o custo, porque é visceral horrível e ninguém irá sair sem marcas profundas desse confronto. Uma recordação do já que aconteceu para mostrar um vislumbre do que está para acontecer, se continuarmos a destruir a natureza. E quando falo em natureza, refiro-me ao mundo natural, mas também à própria natureza humana que é intrinsecamente equilibrada. The Revenant é um grande, grande filme, com uma mensagem poderosíssima de fundo, que me deixou muito surpreendido pela positiva. Mesmo no espaço comercial, ainda há alguma esperança para o cinema de qualidade. Um clássico instantâneo, uma mensagem inteligente e um filme obrigatório. ●●●●●

 
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