0251 Los Últimos Días

Los Últimos Días é um filme espanhol de ficção científica. Ou será um filme apocalíptico espanhol? O mais correcto será dizer que é um filme espanhol muito bem feito sobre os últimos dias da Humanidade.
Sem recorrer ao habitual foguetório de Hollywood, este filme da dupla de irmãos David/Alex Pastor consegue mostrar de forma muito verosímil o que acontecerá se se der um colapso mundial. (nunca passei por uma situação dessas, mas imagino que seja algo semelhante) Neste caso, provocado por ataques de pânico em massa, uma espécie de histeria colectiva faz com que todas as pessoas tenham pânico de sair à rua e consequentemente o mundo acaba por parar. A única solução é movimentar-se por túneis de metro de forma a evitar pôr um pé na rua. Se isso acontece, inexplicavelmente, as pessoas veem-se confrontadas com uma espécie de agorafobia e acabam por morrer de ataques de coração ou por puro pânico. Porque é que isso acontece? Ninguém sabe ao certo.
Pode ter sido um agente patogénico libertado no ar, alienígenas escondidos ou pode ter sido o "governo". Quem sabe? Ninguém. E tem toda a lógica. Se acontecesse um colapso civilizacional abrupto, o mais provável era a informação deixar de circular, tal como tudo o resto. A explicação nunca seria totalmente objectiva e isso passa bem no filme. Isto mostra como Los Últimos Días foi bem escrito e especialmente bem dirigido.
A história é simples: dois homens (Quim Gutiérrez e José Coronado) têm de chegar aos seus destinos: um quer ver o pai que ficou retido num hospital, o outro quer ver a namorada (Marta Etura) que ficou em casa. Numa realidade normal, seria uma tarefa fácil, mas quando não se pode andar a céu aberto, até atravessar uma rua é um feito heróico. A história é contada com recurso a flashbacks e, em termos de montagem, está excelente.
Apesar de não ser o típico filme apocalíptico de acção, Los ultimos Dias nunca pára. É uma sucessão de acontecimentos muito bem encaixados uns nos outros, uma espécie de tapete rolante que os protagonistas têm de acompanhar ou então ficam para trás.
A única coisa verdadeiramente negativa é uma rídicula e completamente desnecessária luta com um urso. (?!) Nitidamente, foi um piscar de olhos ao cinema blockbuster de Hollywood. E isso leva-me à questão fundamental: não estarão os efeitos digitais e a facilidade que os realizadores têm à disposição para incorporar qualquer elemento (como o urso), a "matar" a criatividade de Hollywood no que diz respeito às histórias? Para mim, a resposta é sim.
Este filme em particular vem provar essa teoria. Se David/Alex Pastor em vez de uma produção espanhola de 5 milhões, tivessem à disposição uma produção "de Hollywood" com recursos muito maiores, Los Últimos Días seria um filme melhor? Com uma história mais desenvolvida? Não me parece. Acho seria exactamente ao contrário e caminharia para o "costume": mais umas explosões, uns cenários apocalípticos digitais mais prolongados e "espectaculares", o que tornaria o filme noutro 2012 ou noutro San Andreas. Provavelmente a história nem precisaria de tanto enredo nem tanto background, porque estaria cheio de cenas de acção e perseguições. E em vez de uma cena com um urso, se calhar seria com o zoo inteiro. E estou a especular...
Los Últimos Días vê-se bem. ●●○○○

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