0237 Lost in translation

Lost in Translation tem algo que o transcende como filme. Tal como Trainspotting uns anos antes, é mais que um filme, é uma marca geracional. Não é pela história de amor estranha e diferente, não é pela cultura e modo de vida japonês tão próprio, não é pelo contexto de deslocamento, nem é por nada em especial. É por conseguir identificar-se com toda uma geração que nessa altura (2003) também parecia que estava deslocada do seu habitat natural, que estava desiludida com o que tinha à mão deixado por uma incompreensível geração anterior, um futuro incerto sem caminho delineado, a querer o que não podia ter, à espera de algo que nunca chega.
Nos anos 90, Douglas Coupland popularizou o termo Geração X, para identificar um grupo de jovens que estava meio perdido num mundo em mudança acelerada e que queria lutar contra qualquer coisa que não sabia muito bem o que era. Mas nunca fui adepto destas classificações porque são muito estanques, e esta coisa das gerações é muito subjectiva. Mas para mim, Lost in Translation tem um significado especial, porque fecha o ciclo duma geração que tinha visto o mundo mudar radicalmente desde os anos 90. Era altura de deixar de "lutar" contra a desilusão e aceitar a realidade o melhor possível. Lost in Translation também tem qualquer coisa disto à mistura... Estou a divagar...
O mérito vai todo para o génio de Sofia Coppola que conseguiu capturar os pormenores, mais que o the big picture. Muitas vezes ouço dizer que o mais importante é ver o contexto geral, mais isso faz com que estejamos todos muitos distantes, não é verdade? E assim acabamos por não conseguir ver nenhum dos pormenores, que por vezes são muito mais importantes e belos que a imagem no seu todo... E estou a divagar novamente...
Lost in Translation é um filme sem falhas mas de difícil catalogação: é um drama, um romance, uma comédia? Não consigo definir. A história de Coppola é envolvente, humana, dramática, tocante, divertida, romântica e bipolar, tal como a vida é. Tem dois excepcionais actores, Bill Murray e Scarlett Johansson, que são totalmente a "alma" do filme. Fazem o par mais romântico, mas também mais improvável dos últimos anos. São imensamente diferentes um do outro, mas nota-se uma química genuína. Tem uma fotografia lindíssima que dá logo vontade de viajar até Tóquio para cantar karaoke e tem uma banda sonora alternativa (que guardo religiosamente) ainda melhor. Está perfeitamente escrito e realizado por Sofia Coppola. Um clássico instantâneo. Não tenho nada a apontar... Para ver sempre que possível. ●●●●●

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