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Quando saiu da prisão, condenado por matar dois negros que lhe tentaram roubar o carro, um antigo skinhead tenta evitar que o irmão mais novo siga os mesmo trilhos perigosos e errados. Neo-nazis, questões raciais e sociais fracturantes e cinzentas, a perda da influência paternal e as más influências, um ciclo de violência que é errático e que ataca quem está ao nosso lado. Tudo isto são temas muito difícies de pegar e especialmente ambíguos para mostrar em filme. Por isso mesmo, American History X não é propriamente um filme fácil. Desde aquele "momento" no lancil do passeio, passando pelo chuveiro da prisão até ao final imprevisível mas traumático, tudo neste filme é musculado e duro. É um mergulho num mundo violento, a "preto e branco" e pouco conhecido da sociedade. Um vislumbre do submundo dos skinheads e da supremacia racial branca. Apesar de ser um filme de 1998, é irónico que alguns discursos do filme encaixem perfeitamente na retórica do actual presidente americano, Donad Trump, o que ajuda a perceber melhor porque esta administralção é recorrentemente acusada de ser racista e conotada (ou colada) com a propaganda da supremacia branca. Este tema/trauma racial é latente na sociedade americana, daí que seria uma boa altura para rever o filme e perceber o quão actual se mantém. Curiosamente, se o filme fosse lançado neste momento é provável que fosse extremamente polémico e traria ainda mais gasolina para a fogueira do debate público. É caso para dizer que um tema desta magnitude nunca sai de cima da mesa da actualidade...
American History X é realizado na perfeição por Tony Kaye, que nos vai levando para a frente e para trás na história (brilhante fotografia a preto e branco) para mostrar um drama intimista e familiar com toques de conto moral mas sem ser objetivamente moralista. Impecável. Ninguém diria que Kaye teve grandes discordâncias com o corte final, a ponto de querer (e processar o estúdio) para retirar o seu nome dos créditos do filme. É um dos poucos casos em que o realizador não gosta na peça final, mas que aparentemente tudo acaba por se conjugar na perfeição.
Beverly D'Angelo, Elliott Gould, Stacy Keach, Edward Furlong e em especial destaque Edward Norton, no papel irreconhecível de um musculado skinhead arrependido, todos dão uma prestação espectacular e inesquecível. A realização é limpa, impecável e a história circular de violência é quase um pequeno conto moderno. Não poderia pedir mais. American History X é um grande filme e está recomendadíssimo. ●●●●○

Depois da recusa do verdadeiro Bourne (Matt Damon) em continuar a saga de espiões, teve de se inventar um novo protagonista na esperança de conseguir fazer uma nova trilogia.
A lógica é a mesma, o tom é o mesmo, apesar de mais "polido". Portanto, The Bourne Legacy, é como estar a ver um qualquer filme do Bourne, mas sem o actor principal. Por muito bom que o filme fosse (e neste caso, nem é um filme bom ou mau; está naquela classe de filme bem feito - por Tony Gilroy -, mas desinteressante), iria sempre sofrer do "efeito Lazenby"... A cara simplesmente não bate com a careta. Por muito que tentem, Bourne é o Matt Damon e ponto final. Tentar mudar isso é retirar uma grande parte do filme. Jeremy Renner até nem está mal, mas simplesmente parece deslocado. Parece que entrou no filme errado e está a tentar imitar o Matt Damon. Ajuda ter ao lado nomes como Rachel Weisz, Scott Glenn, Stacy Keach e Edward Norton, mas não resolve tudo.
Apesar de até ter pegado bem na história anterior e dar-lhe uma certa continuidade, The Bourne Legacy é mais uma tentativa de facturar do que propriamente um "novo" filme. É um filme "normal", mas totalmente esquecível. É apenas facturação, mas até se vê bem. ●●○○○

O cinema de Hollywood está sem ideias e entrou num loop de repetições "fáceis" e lucro garantido. Por outro lado, se os actores tiverem mais que 19 anos já são "velhos", visto que os filmes parecem todos dirigidos a um público que é maioritariamente adolescente. Pelo que tenho percebido, é uma crítica mais ou menos generalizada e consensual até entre o pessoal do meio. Mas se por um lado, os estúdios de Hollywood estão-se a cagar para este tipo de crítica (facturam literalmente biliões com os chamados filmes-pipoca que todo o crítico [amador ou profissional] adora odiar), por outro lado parece-me que também leva a crítica a sério e mais importante que isso, reconhece-a como verdadeira.
A realidade é que Hollywood está numa encruzilhada: ou fica só com as sequelas, prequelas, remakes, reboots e repetições de êxitos garantidos (já para não falar naquela altura do ano em que aparecem uma dúzia de dramas feitos à medida para os Óscares [é apenas outro "mercado"]) e vai ficar conotada como sendo apenas mais uma entidade anónima que apenas anseia pelo lucro fácil vendendo um produto inflacionado e artificial (e isso tem dado muito trabalho a todas as outras multinacionais só para "limpar" o nome) ou... permite que exista algum cinema de autor americano saído dos grandes estúdios, mas este vai obviamente criticar o status quo. Ou então promove filmes que são uma crítica para "dentro", profunda, objectiva e por vezes até insultuosa, só para poder dizer que percebe as críticas e até as aceita, como este Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance). Já há muito tempo que não me lembro de ver um filme com uma mensagem assim tão directa e acutilante para "dentro".
No papel principal está Michael Keaton, representando um actor que tenta regressar ao activo depois de grandes sucessos de acção e, posteriormente caído em desgraça por ser velho para os novos "sucessos de acção". Michael Keaton obviamente representa-se a si próprio e fá-lo espectacularmente bem. Na realidade, foi um daqueles regressos em grande.
Outro exemplo é Edward Norton, que anda um bocado afastado da representação por ter uma reputação de irascível, e que representa uma personagem que é abrasiva e com quem é difícil de trabalhar, apesar de ser um excelente actor. Mais uma vez, Edward Norton representa-se a si próprio e autoparodia-se (se é que a palavra existe...). Mas há muito mais referências para "dentro", não só aos chamados "filmes de consumo", como ao cinema em geral, aos próprios actores e ao pessoal mais técnico.
Mas à parte das mensagens, há muitas coisas excelentes por aqui. Alejandro Iñárritu está cada vez melhor na cadeira de realizador e na escrivaninha dos argumentos. Chegou rapidamente àquele ponto em que pouco há a dizer. Neste momento, tudo em que toca transforma-se em ouro. Birdman, em particular, é uma autêntica obra de arte cinematográfica. Acho que à porta de casa de Iñárritu deve haver neste momento uma enorme fila de actores à espera do seu próximo trabalho... Neste caso tiveram sorte Emma Stone, Zach Galifianakis, Amy Ryan, Andrea Riseborough e Naomi Watts, entre muitos outros.
Mas não é só excelente na direcção de actores. Pode passar despercebido, mas Birdman tem uma montagem contínua, sem costuras, fluída, brilhante...Um trabalho técnico do outro mundo.
Não me canso de o dizer, seja em que pormenor for, Birdman é um excelente filme. É uma sátira mordaz ao mundo de Hollywood, um megafone crítico que está a disparar constantemente em todas as direcções, brilhantemente realizado por Iñárritu. Um clássico instantâneo. É um filme obrigatório. Não sei se já tinha dito isto, mas Birdman é um excelente filme. ●●●●●

 
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