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O cinema de Hollywood está sem ideias e entrou num loop de repetições "fáceis" e lucro garantido. Por outro lado, se os actores tiverem mais que 19 anos já são "velhos", visto que os filmes parecem todos dirigidos a um público que é maioritariamente adolescente. Pelo que tenho percebido, é uma crítica mais ou menos generalizada e consensual até entre o pessoal do meio. Mas se por um lado, os estúdios de Hollywood estão-se a cagar para este tipo de crítica (facturam literalmente biliões com os chamados filmes-pipoca que todo o crítico [amador ou profissional] adora odiar), por outro lado parece-me que também leva a crítica a sério e mais importante que isso, reconhece-a como verdadeira.
A realidade é que Hollywood está numa encruzilhada: ou fica só com as sequelas, prequelas, remakes, reboots e repetições de êxitos garantidos (já para não falar naquela altura do ano em que aparecem uma dúzia de dramas feitos à medida para os Óscares [é apenas outro "mercado"]) e vai ficar conotada como sendo apenas mais uma entidade anónima que apenas anseia pelo lucro fácil vendendo um produto inflacionado e artificial (e isso tem dado muito trabalho a todas as outras multinacionais só para "limpar" o nome) ou... permite que exista algum cinema de autor americano saído dos grandes estúdios, mas este vai obviamente criticar o status quo. Ou então promove filmes que são uma crítica para "dentro", profunda, objectiva e por vezes até insultuosa, só para poder dizer que percebe as críticas e até as aceita, como este Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance). Já há muito tempo que não me lembro de ver um filme com uma mensagem assim tão directa e acutilante para "dentro".
No papel principal está Michael Keaton, representando um actor que tenta regressar ao activo depois de grandes sucessos de acção e, posteriormente caído em desgraça por ser velho para os novos "sucessos de acção". Michael Keaton obviamente representa-se a si próprio e fá-lo espectacularmente bem. Na realidade, foi um daqueles regressos em grande.
Outro exemplo é Edward Norton, que anda um bocado afastado da representação por ter uma reputação de irascível, e que representa uma personagem que é abrasiva e com quem é difícil de trabalhar, apesar de ser um excelente actor. Mais uma vez, Edward Norton representa-se a si próprio e autoparodia-se (se é que a palavra existe...). Mas há muito mais referências para "dentro", não só aos chamados "filmes de consumo", como ao cinema em geral, aos próprios actores e ao pessoal mais técnico.
Mas à parte das mensagens, há muitas coisas excelentes por aqui. Alejandro Iñárritu está cada vez melhor na cadeira de realizador e na escrivaninha dos argumentos. Chegou rapidamente àquele ponto em que pouco há a dizer. Neste momento, tudo em que toca transforma-se em ouro. Birdman, em particular, é uma autêntica obra de arte cinematográfica. Acho que à porta de casa de Iñárritu deve haver neste momento uma enorme fila de actores à espera do seu próximo trabalho... Neste caso tiveram sorte Emma Stone, Zach Galifianakis, Amy Ryan, Andrea Riseborough e Naomi Watts, entre muitos outros.
Mas não é só excelente na direcção de actores. Pode passar despercebido, mas Birdman tem uma montagem contínua, sem costuras, fluída, brilhante...Um trabalho técnico do outro mundo.
Não me canso de o dizer, seja em que pormenor for, Birdman é um excelente filme. É uma sátira mordaz ao mundo de Hollywood, um megafone crítico que está a disparar constantemente em todas as direcções, brilhantemente realizado por Iñárritu. Um clássico instantâneo. É um filme obrigatório. Não sei se já tinha dito isto, mas Birdman é um excelente filme. ●●●●●


Contact começa com uma sequência inicial que é absolutamente genial: suga-nos directamente para os confins do Universo. Este é só um dos muitos pormenores de realização fantásticos - como a miúda que vem a correr em direcção à câmara e depois percebe-se que afinal é um reflexo no espelho - do excepcional mas sempre esquecido e menosprezado Robert Zemeckis.
Toda a parte técnica do filme está irreprensível como é comum nos filmes de Zemeckis: o som é excelente, especialmente o som criado para dar a impressão da "descoberta", os efeitos são muito bons, a montagem fluída consegue dar um andamento rápido a um filme que não é o típico de efeitos especiais/explosões/perseguições, e os actores, para além de serem muitos e bons, estão também muito bem dirigidos. Aliás, é uma mini-parada de estrelas: Jodie Foster, Matthew McConaughey, Tom Skerritt, Angela Bassett e James Woods, só para mencionar os mais conhecidos.
Contact conta a história do primeiro contacto extraterrestre à Humanidade. É uma história de Carl Sagan que curiosamente começou como um guião de cinema e que se acabou por transformar num livro. Mais tarde, daria este filme. Curioso, não? Tratado mais como ciência do que propriamente como ficção científica, Contact tem de facto um toque muito realista. Quase que parece que se fossemos mesmo contactados por extraterrestres, provavelmente a história iria desenrolar-se mais ou menos desta forma.  Cientificamente falando, faz todo o sentido.
O argumento, brilhantemente escrito, baseia-se muito naquela observação do Carl Sagan que diz que "a ausência de evidências não é evidência de ausência". Por outro lado, Sagan também observou que "alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias". Isto basicamente é a premissa de base para a procura de vida extraterreste. Mas isto tem implicações graves. Porque imaginemos que se encontra mesmo vida extraterrestre inteligente. A acontecer, diga-se, deitaria por terra praticamente todas a religiões. Basta pensar que a maior parte delas, pelo menos as mais divulgadas, têm por base a criação original e exclusiva da Humanidade. Portanto se existirem extraterrestres, o conceito de Deus criador, exclusivo, que é como o conhecemos, deixa de fazer sentido, não é verdade? E se assim for, qual seria a lógica para continuarem a existir religiões?....
Mas por outro lado, pergunto eu: então e o conceito de Deus, não é explicado por esta mesma argumentação de Carl Sagan? Parece-me que o argumento funciona para os dois lados...
Contact é por isso, mais que um filme de ficção científica, um duelo teórico: quem acredita nos extraterrrestres? Quem acredita em Deus? Quais as provas mais objectivas de um e do outro lado? Algum dia existirão provas irrefutáveis da existência de um ou do outro? E se um dia, se provar alguma coisa, irá a fé sobrepor-se à ciência? Ou vice-versa?
Carl Sagan e Robert Zemeckis tentam puxar o cobertor para os dois lados, porque também existe uma inversão óbvia na argumentação. Por exemplo, no final, é o não crente no divino (o "crente científico" por assim dizer) que acaba por ficar desamparado, implorando aos outros que acreditem em algo sem provas físicas, pedindo que tenham fé... É a suprema ironia. É provar exactamente o mesmo veneno. Se não há provas científicas que comprovem um acontecimento, como é que as pessoas vão acreditar a não ser recorrendo a esses estranho fenómeno chamado de fé?
Contact é uma disputa teológica e filosófica, sem respostas definitivas ou peremptórias. É uma tentativa séria de fazer ficção científica baseada no rigor científico. Talvez seja esta a única falha: por um lado tem uma grande carga teórica (científica e até teológica), mas por outro tenta ser "acessível" demais. O que Zemeckis quis aqui é impossível: uma mistura de precisão cientifica e filme de bilheteira. Acaba por não ser nem uma coisa nem outra. Mas isto é apenas um pormenor crítico. Sem ser a derradeira obra de ficção científica, Contact é um dos grandes filmes de ficção científica que nunca perco a oportunidade de (re)ver. ●●●●○


Seven é um filme excelente. Não consigo ser mais sintético. É um dos melhores policiais que já vi envolvendo o tema sempre magnético dos serial killers. Desde o genérico inicial até aos créditos finais, nota-se que cada cena foi pensada e executada ao pormenor. Seven é o filme que todos os realizadores gostariam de ter feito: é simples mas ao mesmo tempo é complexo. Tem um aspecto decadente, mas também é esteticamente belo. É um drama. Um policial negro. Um filme de suspense que também está repleto de acção.
Tecnicamente é irrepreensível. Tem a música de Howard Shore que é sempre óptima e dá uma ambiência decadente e quase mística ao filme. Mas não é só a música. Tudo está primoroso em Seven: o som, a iluminação, a montagem... Tudo perfeitamente consistente. O facto de David Fincher ser um gajo dos telediscos poderia ter destruído o filme. A anterior experiência de realização tinha sido um fracasso relativo (Alien3), mas foi mais por culpa da estrutura do próprio filme do que do Fincher. (E já agora, o Alien3 só não é o melhor de todos os Alien, porque existe um Aliens do Jim Cameron...). David Fincher surpreendeu-me imenso e tornou-se imediatamente num dos meus realizadores de eleição, precisamente por ter pegado em toda a experiência visual dos telediscos e ter transformado um policial que poderia ser banal numa quase obra prima. Mas a palavra-chave aqui não é visual. É consistência. Tudo está perfeitamente unido. É um puzzle gigante em que no final todas as peças soltas encaixam na perfeição. Lembro-me perfeitamente do detective Somerset dizer algures no meio do filme que a história não ia acabar bem...
Em termos de argumento, Seven é como um relógio suíço. É uma obra de precisão meticulosamente manufacturada em que o autor está atento ao mais ínfimo pormenor. E ainda por cima está repleto de considerações acutilantes ao funcionamento da sociedade actual, que uma pessoa sabe que são verdadeiras, mas não tem coragem de as afirmar. Sendo que a base do argumento são os 7 pecados capitais, não dar uma "tacadas moralistas", seria perder uma oportunidade de ouro, não é verdade?
Nos papéis principais, estão dois excelente actores no "pico de forma" que são tão diferentes e antagónicos que só podiam funcionar bem juntos: Morgan Freeman e Brad Pitt. Gwyneth Paltrow num papel mais secundário do que habitual como a super fragilizada mulher de Pitt está perfeita, mas quem rouba o show é sem dúvida Kevin Spacey (John Doe é sem dúvida um dos melhores serial killers da história do cinema) que apesar de só aparecer durante poucos minutos consegue ter tanto impacto no filme quando os outros actores. Muito bom.
Seven é daqueles filmes que não preciso de rever, se bem que o faço sempre que dá na TV. Não consigo resistir. Vi-o no cinema na altura da estreia. . Não sabia ao que ia. Tinha gostado imenso do filme de estreia do Fincher e fiquei curioso para ver o que iria apresentar. Logo no aspecto inicial dos créditos percebi que ia ver algo especial. Quando comecei a ouvir e a musica era NIN eu soube que vinha aí algo de único. E não me enganei-me. Mais: suplantou todas as minhas expectativas. Levei uma autêntica "pancada" na cabeça. E foi espectacular. Saí da sala de cinema e só me apetecia voltar e rever o filme... Tem cenas tão brutais, únicas e inesperadas que ficam gravadas na memória. Não é preciso lembrar ninguém do salto que deram na cadeira quando o Victor (um esquelético, mas "verdadeiro" Michael Reid MacKay) repentinamente se começa mexer naquela cama suja, pois não? Ou daquela caixa no final...
Mas como todos os filmes que são excelentes, Seven tinha de ter o final perfeito. Para mim, tem um dos melhores finais que já vi. É difícil rematar bem uma história, principalmente quando ela se vai desenvolvendo em crescendo: é preciso um daqueles finais bombásticos. Seven cumpre totalmente. Tem o remate perfeito. Seven é um daqueles raros filmes que uma pessoa tem mesmo de ver. ●●●●●

 
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