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Como estamos numa altura de pandemia global, convém relembrar alguns filmes em que a temática é pós-apocalíptica e que até isto é uma situação recorrente.
Não sei o que se passou nos anos 70, mas sei que o sentimento latente não deveria ser muito diferente dos dias de hoje, porque muitos dos grande filmes pós-apocalípticos vieram dessa altura. Não é que sejam os melhores ou os mais bem feitos, mas são geralmente os que têm as melhores ideias e alguns até foram estranhamente premonitórios. O que não é o caso deste The Ultimate Warrior, de Robert Clouse.
Apesar de se passar no futuro (se bem que 2012 já parece um passado longínquo, era um ano muito à frente no calendário para uma produção de 1975), The Ultimate Warrior é mais um western que um filme de ficção cientifica. A única premissa "futurista" é a de que o planeta foi dizimado por uma peste misteriosa, a sociedade descambou totalmente e o mundo é agora um sitio sem leis. Ou seja, tornou-se o velho e caótico Oeste, regido à lei da bala e do mais forte. O próprio guião e até a música parecem saídos dum daqueles westerns mais tardios tirando um outro som mais esquisóide e estridente, esse sim bem evocativo do sci-fi dos anos 70 e 80. A história é basicamente a de uma comunidade assolada por um bando de desordeiros e que por isso precisa desesperadamente da protecção de um homem de acção, que neste caso é o carismático Yul Brynner. Diga-se de passagem, que Yul Brynner, tal como muitos outros "cowboys", fizeram uma passagem breve pela ficção cientifica pós-apocalíptica dos anos 70. Mas neste caso, convém ressalvar o pormenor de Brynner, provavelmente ter sido o único a fazer essa passagem sem nunca mudar de vestimenta: manteve sempre a fatiota preta e as texanas! Basta lembrar que também no Westworld ele veste-se da mesma forma... é por estas e outras que o Yul Brynner é um dos meus actores favoritos de sempre. E por falar em actores, há que mencionar Max von Sydow, que foi e sempre será um senhor do cinema. Até numa produção chungosa como esta, Sydow consegue manter a postura. Aliás, são estes dois actores que dão algo de positivo ao filme. Tudo o resto é de uma pobreza constrangedora. Normalmente vejo estes filmes "maus" porque sei que há sempre bons pormenores a reter, porque muitos dos grandes blockbusters buscam aqui inspiração à socapa, ou porque as histórias têm muito potencial. Não é o caso. The Ultimate Warrior é apenas mais uma peça arqueológica sem grande valor. Destaco o espectacular design do poster promocional, que como era (quase) norma da altura, estava muitos pontos acima do próprio filme. ○○○

Indo directo ao assunto, Dragon - The Bruce Lee Story, é um filme fraquinho. Tem ar de telefilme. Mas é sempre bom para conhecer um pouco mais sobre o ícone das artes marciais (e do cinema em geral), até porque contou com a participação na escrita do próprio Robert "Enter the Dragon" Clouse.
Um dos principais problemas em fazer uma biografia do Bruce Lee será logo à partida, a escolha do actor principal. Dificilmente a escolha será consensual. É simplesmente muito difícil arranjar alguém que tenha um carisma e uma "presença" em frente às câmaras, semelhante ao Bruce. É como tentar arranjar alguém para fazer de Steve McQueen. Ou de Schwarzenegger. Há gajos que simplesmente são únicos; não há hipótese de encontrar substitutos ou parecidos... Neste caso em particular, acho que foi uma péssima escolha. Não é que tenha nada contra o Jason Scott Lee (...o Lee é mera coincidência), mas não tem carisma suficiente para representar o Bruce Lee. Ainda por cima, nem sequer é um bom actor para este papel. Pode ser considerado um bom "actor de porrada", mas falta-lhe toda a parte dramática, que seria bastante necessário numa obra de cariz biográfica. Nota-se que até vai melhorando à medida que o filme decorre, mas para mim, foi o pior de todo o filme. Os restantes actores simplesmente escapam (Lauren Holly e Robert Wagner).
A história até está bem escrita, com aquele paralelismo da luta imaginária contra o grande guerreiro negro, mas foi muito pouco explorada. Lá está, parece tudo muito superficial, muito... telefilme. O que é estranho, porque ao leme está Rob Cohen, um realizador com muitos créditos no universo dos filmes de acção. Mas lá está; às vezes as coisas não correm bem... Parece que pegar no que quer que seja que esteja relacionado com o Bruce Lee, vai dar mau resultado. É como se realmente houvesse uma maldição qualquer à volta do clã Lee. É estranho. Muito estranho.
Infelizmente (e digo infelizmente, porque gostaria que o Bruce tivesse um documentário que fizesse jus à sua reputação), já vi documentários melhores que este Dragon. Apenas e só para fãs inveterados do Bruce Lee... como eu. ●○○○○


Para vingar a morte da irmã, Lee, um exímio lutador, vai ter de se infiltrar numa exclusiva competição de artes marciais patrocinada pelo enigmático e diabólico Han. Na realidade, toda a organização de Han (sediada numa ilha particular muito ao estilo dos vilões do James Bond) é uma fachada para negócios pouco recomendáveis como a produção e tráfico de ópio e a prostituição.
Pode parecer banal, mas a história linear de vingança do Enter the Dragon tornou-se no standard que todos os filmes de porrada dos anos 70 e 80 acabaram por seguir.
(Tenho de me desviar um bocadinho do assunto só para mencionar a qualidade gráfica do cartaz. É simplesmente cool a todos os níveis...)
Aprendi muita coisa com o Enter the Dragon. Fiquei a saber que esta foi a primeira produção de Hollywood de um filme chinês de artes marciais; que o John Saxon (conhecia-o de outros filmes que não eram de porrada) só foi contratado porque era cinturão nego em karaté e finalmente percebi porque o Han (Kien Shih) tinha uma pronúncia tão estranha: na realidade ele não falava inglês, apenas imitava o movimento de lábios e depois teve de ser dobrado... Após muitas visualizações do filme (em miúdo via-o, rebobinava a cassete de VHS e depois via novamente...), até notei que o Jackie Chan aparece em algumas das cenas de porrada.
Outro pormenor que gosto muito é a banda sonora do Lalo Schifrin, que é um gajo que raramente falha. Acompanha perfeitamente todo o filme. Muito boa.
As cenas de acção dirigidas por Robert Clouse não são espectaculares, mas para além de parecem realistas, têm algo de diferente: o Bruce Lee, que é simplesmente uma lenda do cinema. E nota-se porquê: tem aquele carisma natural, tem uma aura de estrela, tem aquela inexplicável atracção e tem uma força na tela que se sente.
Bruce Lee é um daqueles gajos estranhos. É magrito e baixo, mas tem ali um crazy eye qualquer que faz como eu não quisesse pegar-me à porrada com ele. Bruce Lee pertence a uma classe totalmente à parte no cinema. Pertence à classe das grandes estrelas. Das lendas. Dos ícones. Lembro-me de ver um documentário sobre ele e ver as filas intermináveis para assistir à estreia deste filme. Também não será alheio o facto de ele ter morrido umas semanas antes da estreia. Até no pormenor trágico da morte prematura, parece que ele estava destinado ao grande Panteão do Cinema. Foi uma pena. Fui, sou e sempre serei um fã incondicional do Bruce Lee. E fica a pergunta no ar: se não fosse o Bruce Lee e o Enter the Dragon, será que os filmes de artes marciais alguma vez teriam chegado em força ao cinema ocidental? ●●●●○

 
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