Aqui há uns tempos li algures uma frase que me ficou gravada. "Toda a geração tem o Jaws que merece". Parece-me uma frase absoutamente verdadeira.
O final dos anos 90 tiveram este Deep Blue Sea... para o bem e para o mal. A história é no mínimo estranha: um grupo de cientistas isolado numas instalações aquático-futuristas, tenta encontrar a cura para a doença de Alzheimer, fazendo experiências com tubarões vivos para lhe retirar do cérebro a tal cura. As experiências têm por base tornar os tubarões maiores e mais inteligentes, o que obviamente leva a que acabem por se virar contra os cientistas. Podia ser mais estranho mas era difícil. Mas também isso pouco interessa porque é apenas o disparo para as cenas de ação com tubarões digitais. E para poder dizer com toda a moralidade: "não deviam mexer com a natureza das coisas. Agora a presa tornou-se no caçador". É um enorme cliché mas também não é importante.
O que é mais estranho neste filme, é que apesar de ser ostensivamente uma chachada, de alguma forma entretém sem chatear. Tem acção. Tem suspense. Tem choque. E até uns toquezinhos cómicos aqui e ali. Na altura, a única grande estrela do elenco era o Samuel L. Jackson. E a personagem, chocantemente, nem sequer chega ao fim do filme. O restante pessoal, a funcionar apenas como "carne para canhão" (ou neste caso, "carne para tubarão") eram todos ilustres secundários (Thomas Jane, Saffron Burrows, Michael Rapaport, Stellan Skarsgård, LL Cool J) mas que funcionam perfeitamente bem. Renny Harlin é um bom realizador para este tipo de filmes de acção. Tem ritmo e introduz habilmente alguns elementos de comédia para o meio da tensão, o que eficazmente atenua a sanguinolência... E diga-se, até há bastante...
Apesar de toda a deficiência científica (para não dizer falhas graves), dos já maus efeitos especiais digitais (eram muito bons em 1999) e da história sem pés nem cabeça, Deep Blue Sea é um filme que estranhamente não me chateia nada (re)ver. Não tenho nenhuma explicação para este fenómeno. Deve ser só saudosismo... ●●○○○
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In the Heart of the Sea: The Tragedy of the Whaleship Essex é um livro de Nathaniel Philbrick que conta a história verídica do baleeiro Essex que se afundou em 1820 devido a um ataque de uma baleia. Estes acontecimentos históricos seriam mais tarde aproveitados por Herman Melville para escrever o clássico Moby Dick.
É deste porto que Ron Howard zarpa para uma nova adaptação deste clássico de sobrevivência. O único problema é que este In the Heart of the Sea saiu muito flat. Poderia ser um bom filme, mas é apenas uma nova adaptação de Moby Dick, agora com efeitos especiais decentes. E é só isso.
Chris Hemsworth e restante grupo (especialmente Cillian Murphy e Brendan Gleeson) estão naquele nível suficiente, mas parece-me que o problema não é dos actores. O problema deste filme é querer, à força, ser uma recriação histórica séria mas entrecruzada com momentos de acção espectacular. Não resultou. Nem consegue ser uma coisa nem outra. E isso estraga o filme todo, que até tem alguns momentos muitos bons. É pena, porque a história tinha muito para dar. É talvez a única coisa boa neste filme, a par com os efeitos especiais.
Pergunto-me: será possível pegar em temas como navegar para o desconhecido, caçar baleias com arpões, ataques de baleias albinas, vidas no limite e mortes, naufrágios e canibalismo e fazer um filme sem emoção nenhuma? In the Heart of the Sea é a resposta. ●●○○○
É deste porto que Ron Howard zarpa para uma nova adaptação deste clássico de sobrevivência. O único problema é que este In the Heart of the Sea saiu muito flat. Poderia ser um bom filme, mas é apenas uma nova adaptação de Moby Dick, agora com efeitos especiais decentes. E é só isso.
Chris Hemsworth e restante grupo (especialmente Cillian Murphy e Brendan Gleeson) estão naquele nível suficiente, mas parece-me que o problema não é dos actores. O problema deste filme é querer, à força, ser uma recriação histórica séria mas entrecruzada com momentos de acção espectacular. Não resultou. Nem consegue ser uma coisa nem outra. E isso estraga o filme todo, que até tem alguns momentos muitos bons. É pena, porque a história tinha muito para dar. É talvez a única coisa boa neste filme, a par com os efeitos especiais.
Pergunto-me: será possível pegar em temas como navegar para o desconhecido, caçar baleias com arpões, ataques de baleias albinas, vidas no limite e mortes, naufrágios e canibalismo e fazer um filme sem emoção nenhuma? In the Heart of the Sea é a resposta. ●●○○○
No meio do Oceano Índico, um velejador solitário é acordado a meio da noite por um grande estrondo. Quase de imediato, o barco à vela começa violentamente a meter água.
Com este início prometedor e sendo que o velejador solitário era o lendário Robert Redford pensei que iria ver um filme excelente. Enganei-me. Muito.
Não consegui ultrapassar o facto de o filme não ter falas. Para quem ainda não o viu, desculpem estragar o filme, mas o Robert Redford praticamente não abre a boca durante todo o filme! São 100 minutos de filme com um único actor e o actor não fala. É um bocadinho demais, não? Acima de tudo, é estranho. Fazendo uma analogia com o oceano, este filme lembra-me um close-up calmante de um mar tranquilo a bater suavemente na areia da praia. Ou melhor, é como estar a ver um pedaço de madeira a flutuar delicadamente num oceano sem ondas. Ou então, uma espécie de... Bem, estou a dispersar novamente...
O filme até tem algum ritmo e alguns pormenores muito bons, mas não encaixo a ausência de deixas. E ainda por cima também quase não tem música e tem um fraquíssimo uso do som por parte do realizador J.C. Chandor. All is Lost é flat. É uma pena. É um filme com muitas potencialidades que parece que nunca saiu da fase de screen tests. A única coisa positiva deste filme é precisamente o Robert Redford que mais uma vez mostrou que é um senhor do cinema. Mas é muito pouco. Não consigo gostar disto... ●○○○○
Com este início prometedor e sendo que o velejador solitário era o lendário Robert Redford pensei que iria ver um filme excelente. Enganei-me. Muito.
Não consegui ultrapassar o facto de o filme não ter falas. Para quem ainda não o viu, desculpem estragar o filme, mas o Robert Redford praticamente não abre a boca durante todo o filme! São 100 minutos de filme com um único actor e o actor não fala. É um bocadinho demais, não? Acima de tudo, é estranho. Fazendo uma analogia com o oceano, este filme lembra-me um close-up calmante de um mar tranquilo a bater suavemente na areia da praia. Ou melhor, é como estar a ver um pedaço de madeira a flutuar delicadamente num oceano sem ondas. Ou então, uma espécie de... Bem, estou a dispersar novamente...
O filme até tem algum ritmo e alguns pormenores muito bons, mas não encaixo a ausência de deixas. E ainda por cima também quase não tem música e tem um fraquíssimo uso do som por parte do realizador J.C. Chandor. All is Lost é flat. É uma pena. É um filme com muitas potencialidades que parece que nunca saiu da fase de screen tests. A única coisa positiva deste filme é precisamente o Robert Redford que mais uma vez mostrou que é um senhor do cinema. Mas é muito pouco. Não consigo gostar disto... ●○○○○
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Filmes que envolvem o elemento água, normalmente "metem água". Os custos de produção, as adversidades técnicas e os prazos que se extendem mais que o normal, costumam corroer estes filmes. The Abyss não foi excepção. Na altura da estreia, foi um flop de bilheteira e, pelo que li, um desastre financeiro. Mas este é um daqueles filmes ao retardador: não foi bem recebido no momento de estreia, mas gradualmente foi ganhando adeptos. Em 25 anos, passou de fracasso a marco da ficção científica.
The Abyss, mais que um grande filme de ficção científica é um filme anti-militarista. É um tema a que James Cameron voltou várias vezes, sendo que o exemplo mais gritante é o bombástico Avatar, que vai buscar imenso material e inspiração precisamente a The Abyss. Mas a versão final (a que estreou em 1989) omite grande parte desta questão. O estúdio mutilou o filme, mas mesmo assim, na versão original cortada, o filme não perde (quase) nada. No entanto, também já li algures que foi o próprio Cameron a fazer os cortes - as cenas cortadas nem sequer estariam prontas na pós-produção -, sacrificando a totalidade da história, mas apenas por razões de duração do filme. Aparentemente, nos anos 80, o público não estava muito receptivo a filmes de quase três horas e os realizadores/estúdios optavam por cortar os filmes nas duas horas. Na versão especial com o corte do realizador, o filme ganha ainda algo mais: uma mensagem política. Não é muito usual blockbusters conterem mensagens políticas, por isso acho que o corte foi mais influenciado pelo estúdio que pelo Cameron... Ainda por cima, no contexto histórico e político da altura...
A história tem toda a lógica. O mundo vivia em plena Guerra Fria, em que parecia que a qualquer momento poderia rebentar uma guerra nuclear entre a América e a extinta URSS. Se se pensar bem no assunto, a única forma de parar um conflito deste tipo, é entrar em guerra (que só terá um desfecho negativo) ou esperar que um dos lados definhe e colapse, que por acaso até foi o que aconteceu com os russos.
Há uma outra solução, uma carta fora do baralho da realidade, que é a de todos se unirem contra um inimigo comum. Este cenário não existe, mas para isso há o cinema. E é aqui que entra a verdadeira ficção científica. E se extraterrestres - o derradeiro inimigo comum - visitassem o nosso planeta? Qual seria o impacto nas nossas relações, neste caso, bélicas? E se eles já cá estivessem, se calhar desde sempre? Onde é que eles se esconderiam, sem que ninguém os visse?
A resposta mais lógica, mas cientificamente mais correcta, só podia ser no fundo do oceano. Tem tanta lógica que acho que James Cameron teve de se meter num submarino e ir lá ver se tinha razão. Há um paralelismo óbvio entre o fundo oceânico e o espaço profundo. Ambos são inexplorados, difíceis de aceder e totalmente inóspitos.
Como filme, The Abyss tem outra qualidade. É intemporal. Tanto pela parte da história bem concebida (e até parece que estamos a entrar novamente numa espécie de Guerra Fria e com os mesmos intervenientes), como pela parte da estética. Sendo praticamente todo rodado num ambiente fechado, dificilmente se consegue datar o filme. Nem os cabelos parecem ser dos anos 80. Há algo nos efeitos especiais que começa a falhar, mas ainda assim, mesmo hoje em dia, desenrascam-se muitíssimo bem. Prova de que Cameron sempre esteve no topo da inovação tecnológica do cinema. E é tudo "verdadeiro", (quase que) não há magia digital. Tudo em The Abyss é a boa e velha magia do cinema a funcionar.
Ironicamente, Cameron que sempre se expressou como muito preocupado com o rumo da tecnologia e seu o impacto na sociedade, tem sido ele mesmo, o grande inovador, recorrendo sempre à mais moderna tecnologia para fazer os seus filmes. Neste caso, uma das grandes inovações tecnológicas foi aquela cena da água que ganha vida e percorre o interior da estrutura. Até aquela altura foi a maior cena digital presente num filme.
Quanto a actores, James Cameron aposta (quase) sempre em actores de "segunda linha". Mas "segunda linha" não quer dizer que sejam maus. Quer dizer que não são as grandes estrelas do momento, apenas excelentes actores. The Abyss é mais um desses exemplos. Ed Harris, Mary Elizabeth Mastrantonio e também Michael Biehn fazem uma tripla excelente que só acrescenta valor ao filme. Especialmente Ed Harris, um daqueles actores que é ao mesmo tempo muito credenciado e muito menosprezado.
Recordo-me em especial de uma cena em que a morte da personagem de Mastrantonio parece eminente, para não dizer definitiva. Muitos filmes têm esta cena clichê em que o protagonista quase morre, ficando inconsciente, e depois há aquele suspense no ar para saber se morreu ou não. Normalmente, toda a gente percebe que é só uma pausa e que a qualquer momento o "artista" vai voltar à cena a respirar ofegantemente. É um clichê, lá está. Toda a gente sabe o que acontece. Mas neste caso, Cameron fez a melhor cena de todas. É assim que todas deviam ser feitas. Tem uma intensidade dramática que é invulgar para filmes deste género. O que só demonstra como James Cameron é um excelente realizador de "efeitos especiais", mas também um excelente director de actores. E claro que os actores serem muito bons também ajuda. Sempre que me lembro de Ed Harris, lembro-me da interpretação (e realização!) de Pollock e desta cena em particular. Muito bom.
Na versão original ou com o corte do realizador, The Abyss é um dos meus filmes preferidos. É cinema e ficção científica no seu melhor, repleto de imaginação, fantasia, com uma grande história, paralelismos com a realidade, acção, bons efeitos especiais, com excelentes actores e uma mensagem bem vincada e pelos vistos, sempre actual. Um "James Cameron" intemporal e obrigatório. ●●●●●

