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O que é que acontece com a crítica de cinema num tempo em que o mundo parou e não há estreias de filmes? Penso que esta deve ser a questão do momento para os críticos profissionais. No meu caso, em que a crítica é mais de arquivo que outra coisa, é totalmente irrelevante. Para mim, se o filme saiu agora mesmo, ou há dez anos, vai dar exactamente ao mesmo, até porque já praticamente não vejo filmes no escuro do cinema. Poderia estar aqui a enumerar todos os argumentos que me levaram a afastar do cinema "tradicional", mas isso inevitavelmente levar-me-ia para campos do insulto a uma parte dos espectadores que associam ir ver um filme com a estranha ideia de uma coisa tipo feira popular, em que um gajo vai lá com os amigos para falar, rir, comer umas pipocas ou uns cachorros, situação que a mim me deixa com os cabelos em pé. Também poderia estar a argumentar sobre a paupérrima qualidade da maioria dos filmes exibidos hoje em dia, mas acho que isso já está explícito nas críticas que faço para mim próprio no resto do blog.
Nesta altura de hiato, acho que os críticos, os ditos profissionais, têm aqui uma óptima oportunidade para instruir o público sobre outros aspectos do cinema, que não sejam unicamente "o" filme. Pormenores normalmente descurados e secundarizados como por exemplo a produção, a montagem, a fotografia, a escrita do guião ou os storyboards dão uma perspectiva diferente do cinema daquela que é a passividade do momento (e que tem sido a norma dos últimos anos), em que o espectador está ali apenas sentado, a "consumir" o produto de entretenimento, sem pensar muito no assunto. O resultado desta cumplicidade passiva entre críticos e espectadores está à vista: o cinema dos últimos anos transformou-se numa espécie de parques de entretenimento passivos e os filmes propriamente ditos são meros produtos de consumo descartável.
Este "novo" tempo livre também seria bom para "desenterrar" referências antigas (que normalmente são melhores que as actuais) para assim servirem de futuras referências, até porque o cinema actual vive numa fase de reciclagem contínua. Quando se vê tantos filmes como eu já vi, percebe-se perfeitamente o padrão das coisas. Às vezes parece que estou preso num loop temporal em que estou sempre a ver a mesma coisa. E não é só por causa das constantes sequelas, reboots, remakes e re-coisos. É porque a maior parte do cinema actual assenta numa fórmula mágica de meia dúzia de guiões "infalíveis", constantemente copiados uns dos outros, até à mais completa exaustão. E isto acontece - e acho que vai continuar a acontecer - porque funciona. Acho que neste aspecto, o crítico profissional, tem um papel a desempenhar e pôr o "dedo na ferida". A crítica de cinema não pode estar - como está neste momento - ligada ao sucesso do box office ou aos ratings intencionalmente inflacionados dos agregadores de críticas. Nunca liguei muito aos Óscares, nem nunca fui atrás dos filmes galardoados em certames internacionais de prestígio para ver um bom filme, mas em 2018, quando o Black Panther da Marvel foi indicado para Melhor Filme e as críticas que li davam conta do melhor filme do ano (WTF???), percebi que algo estava muito errado no mundo do cinema, e mais especificamente no da crítica de filmes. Como é que aquilo era possível? O que é que se estava a passar? Estaríamos a ver a mesma coisa? Com as devidas excepções, parece-me que o crítico profissional, neste momento, simplesmente "vai com a onda". Parece que tem medo de se insurgir contra a ditadura da bilheteira e que se determinado filme tem muito sucesso na área da venda de pipocas, isso quer automaticamente dizer que tem algum valor, quando na realidade o que acontece é exactamente o contrário. Acho que os críticos, se calhar, também têm medo da obstinação dos fãs. Ninguém quer mesmo dizer o que realmente sente em relação ao Endgame dos Avengers ou da franchise Twilight quando há fãs malucos por esse mundo fora que eram capazes de vender um rim para poderem ser os primeiros a assistir à ante-estreia dos filmes, pois não? Mas vou deixar esta questão dos fãs para outra altura, até porque salta mais para os campos do marketing, da psicologia de massas e da sociologia do que propriamente falar de cinema...
O cinema celebra este ano 125 anos de existência, se se considerar que de facto "La Sortie de l'usine Lumière à Lyon" dos irmãos Louis e Auguste Lumière foi mesmo o primeiro filme a ser exibido. Mas se foram os Lumière os primeiros a fazê-lo, se foi Louis Le Prince em 1888 ou Eadweard Muybridge, em 1878 com a animação The Horse in Motion, isso é um pouco irrelevante. Acho é que o crítico de cinema profissional, para além do papel habitual de "comentador de bancada" - e até porque imagino que devem ter algum tipo de formação na área - também podem aproveitar o espaço que têm na opinião pública para cultivarem o público, para fomentar outro tipo de conhecimento, mas principalmente para darem a conhecer a história do próprio cinema, da sua evolução e dos seus milhentos intervenientes ao longo de todos estes 125 anos. Há seguramente muito mais cinema para além dos mais de 500.000 filmes que já se fizeram até hoje.
Como pessimista convicto que sou, sinceramente, não estou à espera que as coisas mudem. Este género de aproximação passiva gera imenso dinheiro e por isso mesmo ninguém quer mexer na "equipa ganhadora". Para além de que escrever um texto (ou criar uma parte nova de um programa de TV) sobre a história do cinema também dá muito mais trabalho do que completar os templates habituais da crítica de cinema. Eu que o diga, que estou aqui há horas a escrever este texto. Tal como tantos outros exemplos nesta vida, parece-me que tanto no cinema, como na crítica de cinema, a mentalidade vigente é não mexer muito no status quo e esperar que tudo volte ao "normal". Toda a gente ganha. Apenas o (bom) cinema fica a perder. Está mal, mas as coisas são o que são. Pessoalmente, haja ou não mudanças no mundo do cinema, é-me irrelevante. Vou continuar a ver os meus filmes e vou continuar a fazer o meu arquivo pessoal de crítica. A única coisa que vai mudar, é que provavelmente vou ter mais tempo para dedicar aqui ao blog.



PS: Uma sugestão para as TV's: ponham a rolar umas repetições, que tanto podem ser os grandes clássicos do cinema, como os "ridículos" filmes de série B que têm quase sempre excelentes histórias e são constantemente copiados e reciclados à socapa: não há Educação sem se conhecer a História. E por outro lado, há toda uma nova geração de pessoas que nunca teve oportunidade de ver os filmes intemporais. Já vi muito filme e mesmo assim tenho uma listagem imensa de grandes clássicos que nunca consegui ver porque são dificílimos de encontrar. Uma sugestão para os programas de cinema da TV: aproveitem esta altura de paragem de estreias e apresentem filmes de outros tempos, que apesar de serem antigolas, continuam a ser relevantes e actuais.




PS2: A título de arquivo, fica aqui também a "Saída do Pessoal Operário da Camisaria Confiança", da autoria de Aurélio da Paz dos Reis, um pioneiro do cinema em Portugal. É uma cópia do filme francês, mas ainda assim merece todo o destaque. Podemos não ser os gajos mais originais do mundo, mas também não somos assim tão atrasados como sempre nos foi ensinado... 
Quando li que James Cameron estaria ligado directamente aos comandos da produção de um novo Terminator fiquei entusiasmado. É que desde o fantástico T2 que não houve nada de jeito para ver e algumas das "entregas da franchise" chegaram mesmo a roçar o ridículo. Tinha lido que este Terminator: Dark Fate seria supostamente uma continuação directa do T2. No entanto, isso não é verdade. Na realidade, é uma espécie reboot encapotado, para eventualmente começar uma nova saga da série.  Agora já não há Skynet, nem John Connor. São outros nomes mas é tudo igualzinho. A única parte em que essa cena da continuação da história faz sentido é apenas uma minúscula ligação e a presença de Arnold Schwarzenegger e de Linda Hamilton. A propósito destas duas presenças e parafraseando outro filme de culto, acho que vale a pena dizer: they are too old for this shit!...
Mas fosse esse o único problema do filme. Se calhar até acaba por ser a melhor parte, se bem que Schwarzenegger continua a ridicularizar a sua personagem, um hábito que já vem do T3. É uma das coisas que ainda não entendi. E se Linda Hamilton aparece muito bem (toda turbinada), o resto do casting é uma desilusão. Mackenzie Davis, Natalia Reyes Gabriel Luna até podem ser muito bons actores, mas não é aqui. E porquê a escolha "mexicana"? É que em termos de história nem sequer faz muito sentido. Em termos técnicos é tão competente como qualquer outro blockbuster do momento, ou não fosse realizado por Tim Miller, um dos muitos tarefeiros de estúdio do momento. Nem melhor, nem pior: igual. É essa a sensação geral que fiquei: igual a tudo resto. É mais um filme amorfo, sem alma, carregado de acção e efeitos especiais desnecessários e explosões visuais e sonoras que têm como único propósito despertar as pessoas do escuro do cinema. Nada mais que isso. Uma pena. Esquecível como tem sido hábito neste tipo de filmes. estando o James Cameron envolvido na história foi ainda mais decepcionante. O mais estranho é que isto não parece nada dele. Foi provavelmente a pior coisinha que vi com o nome dele envolvido. Quer-me parecer que andar há anos a filmar dúzias de Avatares começam a ter efeitos nefastos. Digo eu. Mas pode ter sido só marketing. Fica a dúvida. ○○○

Costumo dizer que no cinema as coisas acontecem mais ou menos sempre da mesma forma. Seguem as mesmas fórmulas. Hoje em dia, a praga das sequelas espalhou-se com uma erva daninha, mas as raízes já vêm de trás. Predator não fugiu à regra e devido o sucesso do primeiro filme, era quase obrigatório haver um Predator 2. E foi exactamente o que aconteceu. Se fosse hoje, o Predator 2 seria exactamente o mesmo filme mas com novos actores secundários (para morrerem) ou apenas passavam duma selva tropical sul-americana para um selva tropical asiática para aproveitar o elevado número de moviegoers daquela região. A grande diferença dos anos 80 e 90 para agora é que os estúdios tentavam fazer a sequela acrescentando novos elementos. Assim, Predator 2 salta da selva tropical sul-americana para a selva urbana de Los Angeles e mistura-se com o que era um grande problema na altura, as lutas urbanas de gangs. Não conseguindo trazer novamente os músculos do Schwarzenegger para a sequela (nessa altura, protagonizar sequelas era uma vergonha!) a produção virou-se para Danny Glover. A mudança de ares e protagonistas é tão drástica que a única coisa que une as duas histórias é mesmo a personagem do Predador. Nesse aspecto, acabou por ser positivo porque teve mais tempo de antena e mais desenvolvimento. Parece que não, mas isto criou toda a história anterior do "vilão". Não me pareceu que fosse totalmente intencional, mas acabou por resultar bem. Tirando isto, Predator 2 acaba por sofrer de sequelite aguda. Perdeu o efeito surpresa, perdeu o suspense e perdeu os pesos pesados nas personagens. Apesar de Gary Busey, Rubén Blades, Maria Conchita Alonso e Bill Paxton darem uma boa continuidade à história, não conseguem ser tão memoráveis quanto os protagonistas originais. As cenas de acção e terror escapam mas não trazem nada de novo, sendo que o suspense simplesmente acabou absorvido pelas cenas de acção. Stephen Hopkins, um realizador mais virado para o filme de terror nunca conseguiu encontrar aquele equilíbrio perfeito que John McTiernan conseguiu com o primeiro filme.
Não admira que Predator, como "franchise" (como tanto gostam os estúdios de chamar a estes fenómenos de bilheteira), tenha ficado por aqui. A isto também não é alheio o facto de (ao contrário de hoje em dia) o público de cinema querer mais coisas novas que sequelas infinitas. Predator 2 ainda continua a ser um bom filmito de acção/terror mas serve mais com um complemento ao primeiro filme do que propriamente de sequela. Apesar de estar num patamar inferior ao primeiro, Predator 2 ainda tem méritos e aspectos positivos e é absolutamente visível. ○○○

Godzilla 2, aka Godzilla: King of the Monsters de Michael Dougherty é mais uma patacoada de efeitos especiais para a cabeça. Uma história para quem gosta de monstros gigantes em CGI. Não tem nexo absolutamente nenhum, está cheio de "chouriços" (muitos repetidos - só a cena em que o artista está mesmo para morrer e acaba salvo pelo Godzilla nos últimos momentos acontece pelo menos umas 3 vezes) e actores (Kyle Chandler, Vera Farmiga, Millie Bobby Brown (apenas para aproveitar o hype "Stranger Things"), Ken Watanabe e o "grande" Charles Dance) quase a pedirem para os "matarem" para não terem de sofrer mais na sequela...
Ia incluir aqui uma parte em que dizia qual era a história do filme, mas já se me varreu da memória. Só ficaram os monstros gigantescos que quase não cabem no ecrã, os raios laser e os seus sons graves e profundos.
Mas pronto... Já vi e já passou... Se bem que já li algures que o Godzilla vai ter um novo filme em que luta com o King Kong... e que tudo isto pode ser o inicio de um franchise exclusivo de grandes monstros... Medo. Muito medo. ●○

Tal como previsto para a saga de produtos Fast & Furious, aqui está um spin-off, a que gosto de chamar "Calvin & Hobbs". Acho que é mais apropriado... E, por muito que tente, pouco mais há a dizer. Dwayne Johnson e Jason Statham andam à porrada e insultam-se constantemente (como se fosse a brincar, mas pelo que li até foi mais ou menos a sério...) até descobrirem que Idris Elba é um perigoso criminoso cibernético (!??) que põe o mundo em sobressalto... Vanessa Kirby está ali porque tem umas curvas jeitosas e também porque hoje em dia é quase obrigatório ter uma mulher que dê porrada em homens, e finalmente Helen Mirren aparece para dar um pouco de credibilidade à coisa, o que seguramente não acontece, porque é literalmente impossível. David Leitch faz de realizador, mas na verdade é um ex-duplo, daí que esteja totalmente à vontade para fazer uma coisa destas, sendo que "uma coisa destas" é o Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw, uma espécie de Fast & Furious com a sua inevitável ligação emocional à "famiglia", mas em versão Ilhas Samoa... E pronto, é isto... Espera-se a sequela ou um novo spin-off de animação baseado naquele cão que corre atrás do carro do Vin Diesel na parte 3 da franchise... ●○○○○

Após voltar à vida, o "novo" Spock junta-se à tripulação da USS Enterprise na viagem de regresso para a Terra. Daí o Star Trek IV: The Voyage Home. Porém, a caminho de casa, encontram uma misteriosa nave alienígena que ameaça destruir o planeta. Quando descobrem que a indestrutível estrutura está a tentar comunicar com as baleias - entretanto extintas - a tripulação percebe que vai ter viajar no tempo, para o passado, e tentar trazê-las para o presente e assim poderem responder ao chamamento da misteriosa sonda. Este foi o último Star Trek que vi "em directo", ou seja, no tempo da estreia. Achei tão ridículo e tão mau que nunca mais vi nenhum Star Trek. Apesar da mensagem claramente ecologista (diga-se, muito à frente do seu tempo), o filme parece tão infantil que não o consegui levar a sério. Para além de ser Spock, Leonard Nimoy realiza e também escreve, dando azo a uma disputa de protagonismo da série com o incontestado líder William Shatner. A restante equipa continua nos seus postos do costume. Catherine Hicks é a cara nova da série e um protótipo perfeito da actriz loira dos anos 80, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Um par de anos mais tarde teve a oportunidade de ser a "mãe" do Chucky e... mais nada que me lembre. E já não é nada mau... Há que ser sincero: para 1986, Star Trek IV, apesar de ainda girar em torno de conceitos de ficção científica engraçados - como sempre foi apanágio da série -, está um pouco desfasado no tempo, tanto em termos de construção narrativa, como até em termos técnicos. É a velha cena do "adormecer à sombra do sucesso" e do "...em equipa vencedora não se mexe". Normalmente isso dá cabo dos franchises e foi exactamente isso que aconteceu com a maioria do público.●○○○○


Quando uma franchise de filmes (e séries) tem fãs de todas as idades, espalhados por todo o mundo, uma pessoa sabe que está a lidar com algo sério. Os trekkies (ou trekkers, como gostam de ser chamados) até já tiveram direito a um documentário próprio com direito a sequela e tudo. Por isso, "this is real business". Mas se existem trekkies é porque ao longo de décadas (desde a série original nos anos 60 até aos dias de hoje) existiram toneladas de filmes, séries, spin-offs, livros, BD's e jogos. Estou a falar de 13 filmes e pelo menos 7 séries, sempre com sucesso suficiente para garantir continuidade. É realmente impressionante.
Quero desde já esclarecer que não sou fã, mas vi todos os filmes e diversos episódios das várias séries porque sou fã, isso sim, da ficção científica e reconheço-lhe esse valor e até o impacto na cultura popular. No entanto, para mim, apenas um dos filmes preenche todos os requisitos. Estou a falar do Star Trek: The Motion Picture, um verdadeiro clássico da ficção científica e até do cinema no geral. Spock, James T. Kirk, Dr. McCoy, Uhura, Scott e Sulu voltam aos seus postos na mítica USS Enterprise para tentar interceptar e parar uma gigantesca e extremamente poderosa nave alienígena que se dirige para a Terra, destruindo tudo à sua passagem.
Aos comandos do filme estava um verdadeiro senhor do cinema chamado Robert Wise, um verdadeiro camaleão que realizou pequenitas coisitas como West Side Story, The Haunting, The Sound of Music, só para citar alguns clássicos... Wise é um eclético mestre artesão do cinema e isso nota-se bastante bem. O tom sereno (e lento) do filme, revestido de uma quase "factualidade" científica, juntamente com os espectaculares (ainda hoje) efeitos especiais do grande mestre da "magia" Douglas Trumbull, criaram uma verdadeira obra-prima da ficção que, para mim, é uma das melhores histórias do género que vi até hoje. O argumento é excepcional e V'Ger é talvez uma das melhores criações da ficção científica até à data. Leonard Nimoy, William Shatner, DeForest Kelley, Nichelle Nichols, James Doohan, George Takei e Walter Koenig voltam para os papéis deixados vagos na série e não desiludem. Star Trek: The Motion Picture é um clássico que merece estar na história do cinema. ●●●●●


Mutação e regeneração, vida e morte, criação e destruição, tudo junto num espaço estranho que não se regra pelas leis universais. Annihilation é um bom filmito de ficção científica, algo raro hoje em dia, em que tudo é filme de acção. No entanto, a partir de determinada altura, começou a ir longe demais no aspecto "intelectual".  Esta não é a minha opinião. Mas pelo que li, estranhamente, foi esta a percepção dos estúdios, o que levou a "disputas criativas", o que por sua vez levou a que o filme fosse distribuído pelo "anticristo" do mundo do cinema que é a Netflix. Só por aqui se percebe bem a excelente jogada destes novos "estúdios" de streaming: "Ó pessoal criativo! Têm problemas com os vossos estúdios? Vinde para cá que aqui ninguém vos chateia; Os estúdios "tradicionais" querem interferir com as vossas veias e perspectivas criativas? Venham para aqui! Têm total liberdade criativa, o corte final e mais, quanto mais chocante e polémico, melhor para todos, é publicidade à borla!...". Para o pessoal proscrito, mais independente, diferente do habitual e/ou com novas ideias é o Paraíso...
Annihilation é mais um vislumbre de como vai ser o cinema nos próximos anos: os mesmos quatro ou cinco realizadores/produtores misturados com tarefeiros quase anónimos a fazerem intermináveis blockbusters, remakes e reboots de blockbusters de "estúdio"; e pequenas (que passarão rapidamente a médias) produções totalmente extravagantes e diferentes vindas dos estúdios de streaming (algo a que decidi agora mesmo começar a chamar de "Streamers"). Por mim, parece-me bem. Quando não me apetecer ver nada e quiser só estar a olhar para as luzes, explosões e sons (basicamente, fogo-de-artifício), vejo um filme de super-heróis pela enésima vez; quando quiser ver um filme de jeito, mudo e vejo algo vindo dos streamers... Parece-me bem. Mas pensando bem, não deixa de ser irónico que apesar de serem consideradas por muitos dos realizadores de renome como um flagelo, este novos streamers, vão acabar por ser a salvação do cinema. Se não existissem os "novos" estúdios, é muito provável que os "velhos" acabassem por ficar indefinidamente em loop, a fazer apenas o blockbuster típico que é receita garantida. Não tardava nada, só iam mesmo existir filmes de super-heróis, franchises e os seus remakes e prequelas... Ia ser a loucura total... Mas adiante, que já estou a divagar novamente...
Contrariamente ao que achou o pessoal que manda no dinheiro do estúdio, Annihilation não é obviamente um filme "intelectual". Aliás, começou a prometer imenso e depois até me desiludiu um pouco por se tornar, de certa forma, banal. Quer dizer, banal, talvez seja exagerado. Previsível, se calhar, é o termo mais adequado. Vindo de quem vem, estava à espera de algo mais. Alex Garland é um gajo em que vejo muito potencial. Tenho a certeza que um dia destes vai fazer um daqueles filmalhaços espetaculares. Nota-se que tem todas as "boas referências", se é que me faço entender... Mas desta vez, Garland ficou-se novamente pela "ameaça". O casting também não foi muito feliz. Natalie Portman e Jennifer Jason Leigh são sempre excelentes, mas o restante pessoal (devido às fracas personagens) "desaparecem" do filme demasiado facilmente... Mas o mais importante é que Garland continua a dar bons sinais e é um nome a ter em conta no futuro. Espero com moderada ansiedade pelo próximo projecto. ●●●○○

Depois de ver Kong: Skull Island (de Jordan Vogt-Roberts) só tinha duas palavras a ecoarem na minha cabeça: gigante e verborreia. Gigante, por causa da escala da coisa. Não sei o que se passa hoje em dia com os filmes de monstros, mas tudo é absolutamente gigante. é que nem cabe no ecrã. O Kong aqui tem dezenas de metros de altura e acho que até mesmo maior que o próprio Empire State Building. Gigante também é o vazio que é este filme. Não tem nada que se aproveite. A história é alternativa ao original e está colada a cuspo e entremeada por gigantescas explosões. É simplesmente um espectáculo IMAX e mais nada.
A verborreia é digital. Desde que descobriram que podiam fazer uns "bonecos" verosimeis num computador, isto tem sido um descalabro. É um exagero. Lá está. Uma autênctica verborreia de fundos verdes e efeitos digitais que só lá estão... porque sim. Porque é giro. Não sei. Não entendo esta cena.
Os actores (Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John C. Reilly, John Goodman) pouco ou nada podem (ou têm para) fazer, a não ser representar estereótipos chatos e previsíveis. Isso e ir morrendo ao longo do filme conforme o seu ranking: primeiro os extras, depois os secundários, até chegar aos principais. Mas só do lado "mau", porque os "bons" não morrem. Quer dizer, às vezes morrem, mas só se for a sacrificarem-se por outros "bons".
Prevê-se mais um franchise, agora com monstros gigantes, se se levar em conta o "pós-genérico". Sinceramente, espero que fique por aqui. Aproveitem o dinheiro para fazer coisas novas. Fixes. Assim, como uma invasão de insectos gigantes, por exemplo. Há anos que ando para ver um filme com insectos gigantes... ●○○○○

Paul W.S. Anderson volta a dirigir Milla Jovovich e Iain Glen num novo Resident Evil, que apesar das filmagens totalmente epiléticas e quase impossíveis de ver, é exactamente igual aos outros, só que um bocado pior (sim, é possível), porque toda a gente envolvida no filme já está tão enjoada de fazer sempre a mesma coisa, que até transparece na fotografia... Só que como há fãs para alimentar, um gajo tem mesmo de aguentar e fazer o frete de industrialmente conceber mais produto para consumo... Felizmente, esta "nova" entrega chama-se The Final Chapter e espero mesmo que seja o "capítulo final", porque já chega. Acho que já não aguento mais. Que seca. Que coisa mais previsível. Que tédio. Mais valia pegarem no segundo ou terceiro filme e mudarem-lhe o nome e apresentarem como "novo". Ninguém ia notar a diferença e não...
Teoricamente já tinha desistido no segundo filme, que é sempre o meu "período de dúvida" para este tipo de filmes. "Período de dúvida", quer dizer que dou sempre o benefício da dúvida à sequela. Isto acontece porque o primeiro filme pode ser mau (como é o caso), mas a sequela pode corrigir alguns erros originais e até dar um bom filme, ou pelo menos algo mentalmente aceitável. Nunca se sabe.
E isto leva-se ao tema principal deste Resident Evil: The Final Chapter, que é: "porque é que eu vejo estes filmes?" De facto, é algo que não sei bem explicar. Isto também deve acontecer com os críticos "profissionais" porque eles malham fortemente nestes filmes (e as restantes tangas de acção/super-heróis), mas estão sempre lá batidinhos a ver. Isto pode ter várias explicações, como por exemplo: estes filmes serem viciantes como o açúcar - ou a cocaína - e as pessoas depois de "iniciadas" não conseguem deixar de ver. Também se pode dar o caso de viciação cerebral naquelas luzinhas todas a piscar, o fogo-de-artifício digital e os ritmos frenéticos, como acontece com os bebés e a publicidade: aquilo não tem de fazer sentido; é só uma estimulação sensorial de luz e som... Também pode estar relacionado com questões sociais: as pessoas podem andar tão mal nas suas vidas que precisem de ver merdas a explodir e gajos a levar bastante porrada como se fosse uma espécie de libertação da pressão acumulada. Não sei. É um fenómeno que deveria ser mais profundamente estudado... Mas no meu caso particular - e também já ponderei as hipóteses anteriormente referidas - é de facto um mistério, mas que tenho tentado desvendar.
Examinado bem a situação, acho que é por três razões principais. A primeira razão parece-me que tem que ver com uma espécie de atração pelo abismo. Não é bem pelo abismo... é mais aquela sensação estranha do ter de olhar para os acidentes: um gajo já viu mil acidentes na vida, mas tem de parar para olhar; um gajo sabe que provavelmente vai ver algo que não quer ver, e até se vai arrepender mais tarde, mas é uma atracção mais forte que o normal e uma pessoa tem mesmo de olhar. Acho que é isso. É algo supra-racional que terá cientificamente uma explicação muito plausível, mas que desconheço. Terei que ler umas coisas para perceber melhor esta situação.
A segunda razão é de origem sociológica. Estou a ver o filme, mas tecnicamente estou a ver o filme "rodeado" de fãs da "série", para tentar perceber como é que filmes tão fracos como estes, têm de facto uma legião de fãs. Acho muito estranho que haja pessoas que gostam disto. Eu sei que gostos não se discutem, mas para mim, isto é mesmo estranho. Gosto de tentar perceber porque é que as outras pessoas gostam das coisas que gostam. É uma espécie de empatia do gosto. Mas neste tipo de filmes "industriais" não consigo perceber mesmo. Para mim, é uma incógnita como é que o quinto ou sexto Resident Evil continua a levar pessoas aos cinemas. Não entendo. E às vezes vejo estes filmes (que sei à partida que são uma seca e particularmente maus) apenas para tentar entender como é que ainda são feitos, mas pior ainda, como é que têm audiência. Estou a ver o filme, mas estou mais a pensar em gostos estereotipados, consumo de massas, trends, marketing subliminar e a fazer os meus próprios "estudos de mercado", do que propriamente a "ver" o produto, perdão, o filme...
A terceira razão tem a ver com uma esperada previsibilidade. Eu já sei que um "produto" deste género vai percorrer os clichés institucionais do filme de acção/horror. Mas fico sempre na dúvida: será que vai ser mesmo aquela coisa típica para entreter cérebros de pipoca, com os jump-scares estrategicamente colocados no silêncio, as punch-lines copiadas doutros filmes e o twist obrigatório (até o twist já se tornou um cliché...) no final? Ou será que me vão surpreender enveredando por outro caminho que não estava à espera? Em 99% dos casos não falha: é sempre a mesma coisa. Lá está, em equipa vencedora não se mexe, e se vende pipocas... No final, lá acabo por ficar decepcionado (pouco, porque à partida já sei que vou ficar decepcionado), mas não surpreendido e a perguntar para mim próprio: "porque é que eu vejo estes filmes?" E lá volto a pensar no assunto e a dizer a mim próprio: "Já chega! Este é o mesmo último". Provavelmente, irei objectivamente recusar-me a ver mais algum Resident Evil que venha a existir, mas aquele piscar de olho, junto com um final em aberto (como de costume...) deixa-me algumas borboletas no estômago... Pode ser apenas uma ameaça velada... mas também termina a (longa) história... voltando ao início, onde tudo começou... O meu cérebro acabou de explodir com tanta previsibilidade...
Ah! Esqueci-me de mencionar a palavra mágica... zombie! Detesto ser desmancha-prazeres, mas curiosamente há poucos zombies; coitados, têm muito pouco tempo de antena hoje em dia, mesmo num filme de zombies; há sim, uns monstros feitos em computador, mas aparecem isolados, só para os jump-scares da praxe e normalmente em cenas onde está tão escuro que nem se percebe muito bem o que são... Uma bolinha de classificação só mesmo como forma de agradecimento por ser o último... Espero eu... ●○○○○

Finalmente, o Homem-Aranha volta a casa... à Marvel. E isso nota-se. Diga-se o que se disser, a Marvel tem uma forma diferente de fazer filmes de super-heróis. E não é por causa dos efeitos ou da acção. Realmente, eles sabem escrever um bom guião e desenvolvem as personagens o suficiente para suportar a acção e os obrigatórios efeitos especiais. Se bem que começa a copiar demais a fórmula mágica do guião do Iron Man...
Tom Holland "reboota" a personagem e faz agora de Homem-Aranha adolescente, Michael Keaton faz de vilão credível (ironicamente, parece que saiu do Birdman) e Robert Downey Jr., Jon Favreau e Gwyneth Paltrow - saídinhos directamente de um qualquer Iron Man, supervisionam a nova franchise de perto - não vá a coisa descambar para a palermice total - e introduzem a verdadeira parte cómica e divertida do filme. O único "erro" de casting é a Marisa Tomei que nunca na vida vai convencer ninguém que é a tia carinhosa do Homem-Aranha.
Spider-Man - Homecoming (de Jon Watts) é um filme "normal" de super-heróis, acção e efeitos especiais, e facilmente esquecível, mas está bem feito. Pelo menos, é melhor que os dois anteriores. Não é melhor que o inicial da franchise do Sam Raimi, mas anda lá perto. Não chateia. Vê-se bem. Segue aquele velho lema: "É preciso que tudo mude para que tudo permaneça como está."  ●●○○○

The Fast and the Furious é uma franchise que dispensa apresentações. Por isso mesmo, não vou perder muito tempo a escrever sobre cada filme. Até porque é quase sempre o mesmo filme. Carros potentes, grandes cenas de porrada, perseguições ridiculamente impossíveis e gajas boas como o caraças em roupas justas. É quase como ver em movimento aqueles posters foleiros das garagens antigas com míudas da Playboy dos anos 80. Bem, se calhar estou a exagerar um bocadinho... Mas é o que me vem à cabeça quando me lembro do F&F.
Um filme original mediano, 5 realizadores (Rob Cohen, John Singleton, Justin Lin, James Wan e F. Gary Gray), dezenas de actores (Vin Diesel, Paul Walker, Michelle Rodriguez, Jordana Brewster, Eva Mendes, Tyrese Gibson, Ludacris, Lucas Black, Sung Kang, Gal Gadot, Dwayne Johnson, Elsa Pataky, Luke Evans, Jason Statham, Kurt Russell, Nathalie Emmanuel, Charlize Theron, Scott Eastwood, entre muitos outros [com óbvio destaque para o Joaquim de Almeida]) e 7 sequelas depois continua a facturar milhões em cima de milhões. É um verdadeiro case-study. Como é que isto ainda funciona? Quando é que as audiências se vão fartar? São as grandes questões no seio da franchise.
Mas eu acho que tenho as respostas. Como é que isto ainda funciona? Isto funciona porque os filmes foram evoluindo com o passar do tempo. Passou de um filme sobre um polícia infiltrado no mundo das corridas ilegais, depois para uma espécie de família de sopranos do tunning, e agora está no ponto James Bond com super-vilões e tudo. Até agora aguentou-se bem porque se transformou na melhor telenovela de todos os tempos: algumas personagens supostamente morrem mas depois aparecem vivas noutro filme; o irmão do gajo mau (que morreu no filme anterior) aparece (no filme seguinte) para se vingar; a família cai em desgraça mas no final recupera e acaba a beber uns shots num sunset catita; já quase toda a gente casou e/ou teve filhos. Só falta mesmo aparecer um gémeo cego do Vin Diesel, ou uma miudinha órfã e pobre que depois se torna rica... E além disso, as perseguições e as explosões nas telenovelas são absolutamente miseráveis e no Fast and Furious são sempre super-espectaculares.
Quando é que as audiências se vão fartar da franchise?
Resposta difícil. Acho que no próximo "episódio" as pessoas vão perceber que já chega. No episódio a seguir, alguns dos actores vão sair porque já é tempo de fazer alguma coisa de jeito na vida. No seguinte, os estúdios vão fazer um remake com novos actores e o público não vai perdoar porque é tudo demasiado "novo". Provavelmente vai haver um 12.º, com o regresso de alguma estrela dos filmes originais que não arranja trabalho, mas vai estar tão fora de forma que acaba por matar a franchise de vez. Tipo, o Indiana Jones a lutar contra extraterrestres aos 78 anos... Não há pachorra, não é verdade?
Agora em relação ao filmes propriamente ditos. The Fast and the Furious (2001) foi o primeiro da saga. E nem é propriamente mau. É um filmito de acção razoável, com carros quitados, polícias infiltrados e personagens até bem "montadas". Daí que tenha dado azo a todas estas sequelas. Depois entrou em modo de cruzeiro com 2 Fast 2 Furious (2003) e The Fast and the Furious: Tokyo Drift (2006) que são basicamente as sequelas "normais" da indústria: dá dinheiro?, então faz-se outro parecido mas com maiores explosões... Mas depois a franchise tomou um rumo diferente. Vin Diesel percebeu que tinha em mãos um bom negócio que estava a mirrar e decidiu voltar à saga. E voltou muito bem, com a lógica da "famiglia", que é uma coisa que as audiências gostam sempre. Assim, teve história para poder fazer uma franchise dentro da própria franchise: Fast & Furious (2009), Fast Five (2011), Fast & Furious 6 (2013) e Furious 7 (2015). A "série" fica marcada pela trágica morte de Paul Walker durante as filmagens de Furious 7, o que dá ainda mais ênfase à parte da "famiglia". Sinceramente, acho que deveriam ter ficado por aqui. O desaparecimento de uma personagem tão importante como o de Paul Walker (que até esta altura até tinha feito mais filmes F&F que o próprio Vin Diesel), deveria ter posto um ponto final na série. Mas não. Tinha de se arranjar forma de voltar à bilheteira e portanto lá se arranjou uma história e uma super-vilã high-tech qualquer para justificar o regresso com The Fate of the Furious (2017). E isto não fica por aqui. Pelas minhas contas, ainda falta o F&F9 (The Return of) [as personagens regressam para mais uma aventura relacionada com alguém da família ou para tratar da vingança de algum familiar do gajo mau que mataram num dos episódios anteriores], o F&F10 (The New Breed) [um remake com novos actores, em que os antigos personagens preferidos aparecem só por breves momentos a dizerem: "No meu tempo, tínhamos carros de corrida a gasolina e tratávamos de motores, vielas e óleo queimado... Agora é tudo electrónico..."], o F&F11 (Fullscreen) [passado no espaço, num universo paralelo ou num mundo pós-apocalíptico que na verdade só existe num programa de realidade virtual] e o último F&F12 (The Last Job) [onde fazem mesmo um último trabalho para se reformarem de vez, até porque nessa altura os carros serão todos obrigatoriamente autónomos].
Mas há mais vida para além da franchise propriamente dita. Ainda há spin-offs para as diversas personagens e séries de TV para explorar, assim como canecas, mochilas, lancheiras e tapetes de rato para vender...
Uma coisa que aprendi enquanto escrevia esta crítica é que os filmes não são todos seguidos, cronologicamente falando. O The Fast and the Furious: Tokyo Drift que foi o terceiro filme a ser lançado, em termos de história, supostamente é o sexto, a seguir ao Fast & Furious 6 que por essa lógica deveria ser o 5.º... Confuso?! Muito... Mas não faz mal. Ninguém reparou nisso. E também, o que é que isso interessa? Não tem carros quitados, perseguições, explosões, porrada, gajas com roupas muito apertadas, música cool e "famiglia"? Então já chega... ●○○○○

Hellraiser III esteve a cargo de Anthony Hickox, um realizador muito experiente no campo do gore/low-budget/slasher. A produção mudou de brit para american e isso nota-se numa abordagem mais para o comercial, apesar de continuar a ser um filme gore da pesada. Mas aqui a história já se tinha perdido completamente. Havia uma tendência para sexualizar cada vez mais as situações (era típico nos 90 e chegou a todos o tipo de filmes). Hellraiser, estranhamente sempre teve um lado muito sexual, digamos assim, mas foi piorando com o tempo. Se no II a história tinha-se desenvolvido, aqui já estava a definhar e vivia apenas das mortes extravagantes ou sanguinolentas. Também já estava um bocado farto do género do terror. E como percebi que isto iria ser sempre a mesma história (tipo franchise, com novas personagens e novas mortes mais horrorosas) fiquei por aqui. Não vi mais nenhum filme desta "série". Mas a "série" não parou por causa disso. Muito pelo contrário. Transformou-se numa verdadeira franchise (como lhe chamam orgulhosamente hoje em dia) e chegou aos 10 filmes. Incrível! Também chegou ao mundo dos (novos) livros, das BD's e dos videojogos. Li algures que ainda recentemente esteve para ser transformada em série de TV, mas parece que o projecto não foi avante.

Há que admitir que os filmes são maus. Quer dizer, o primeiro é fixe, precisamente por ter sido o primeiro. A história de Clive Barker, o cubo, os cenobitas, e a personagem Pinhead são muito boas e chegaram ao mainstream. Não me admiraria nada que muito em breve fizessem um reboot ao conceito e que fosse um enorme sucesso. Sim, porque também de lembro de ver "filmes de efeitos gore" de terceira categoria com zombies (que na altura eram maioritariamente uma palhaçada), e agora temos donas de casa que são fãs do Walking Dead, portanto é esperar para ver... ○○○○○

... Mad Max: Fury Road. A palavra restart faz todo o sentido. Um dos primeiros filmes que vi foi precisamente Mad Max. E também um dos primeiros que comentei aqui no blog. Dizia eu desse primeiro filme: "Conhecendo a indústria do cinema e face à cada vez maior dificuldade em produzir novos argumentos, de certeza que estará para breve mais uma sequela...". Bem, em parte, enganei-me. Fury Road não é bem uma sequela. É mais um restart. Quer dizer, não sei muito bem o que é. Parece que é uma espécie de sequela (com outros actores) para quem viu os filmes originais, e uma espécie de restart da franchise para conquistar os novos fãs.
Tenho uma ligação bastante pessoal a estes filmes. Por isso, quando vi este novo filme, fiquei imensamente desapontado. Quase não o conseguir ver até ao fim. Era demasiada pirotecnia para aguentar e muito pouco Mad Max. Queria ir à casa de banho e não conseguia porque a acção decorria sem parar. É um exagero visual e já agora um exagero total. Confirmei isso mais tarde, numa entrevista do George Miller em que ele diz que toda a acção do filme já estava delineada, mesmo antes de haver guião. Isto, porque o filme foi pensado como uma perseguição contínua e sem paragens. E é isso exactamente que o filme é: uma enorme e imparável perseguição. O meu problema com Fury Road é que é "apenas" isso. Não tem mais nada. Um dos pontos mais negativos do filme é o próprio Max. Obviamente que prefiro o Mad Max do Mel Gibson ao do Tom Hardy. Não pelo Tom Hardy em si (que é um dos gajos que mais curto na actualidade), mas porque não é o Mel Gibson. Num restart deste género até acho que fizeram bem em trocar o actor principal, porque o Mel Gibson já está um bocado acabado fisicamente. Mas já não concordo com a quase passagem para segundo plano da personagem principal. Afinal quem é que dá o nome ao filme: o Mad Max ou a (Charlize Theron) Furiosa?
O que salva o filme é precisamente o que tem: a realização das perseguições é excepcional, o som é excelente, a fotografia também e a montagem das cenas é ainda melhor. Isto tudo embrulhado no melhor design de produção dos últimos tempos, dá um excelente filme de acção. Tecnicamente, Mad Max: Fury Road, não tem nada de mal.
O que me deixa chateado neste filme é mais uma questão pessoal do que técnica ou crítica. É o facto de mostar que estou a ficar velho. Os meus filmes de miúdo, os meus filmes e os meus actores de referência, já chegaram ao ponto de precisarem de um restart. Muitos dos filmes que vi já são tão velhos que é preciso fazer novas versões. I'm too old for this shit... ●●●○○

A saga Police Academy é caso para um estudo aprofundado sobre a evolução da sociedade. Pelo menos, da sociedade que se senta numa sala de cinema ou em casa para ver um filme. É caso para dizer: "só mesmo nos anos 80!" A lista de sequelas é épica e só pode ser comparada com os sucessos em contínuo das franchises dos filmes de terror: Police Academy, Police Academy 2: Their First Assignment, Police Academy 3: Back in Training, Police Academy 4: Citizens on Patrol, Police Academy 5: Assignment: Miami Beach, Police Academy 6: City Under Siege e Police Academy: Mission to Moscow. (Fogo! Só enumerar os filmes já é uma trabalheira...)
Quando era miúdo adorava estes filmes. Ria que me fartava com os tombos e as palhaçadas. Adorava as partidas desmioladas que os maus pregavam aos bons e ainda adorava mais quando no final os bons passavam uma rasteira aos maus. Police Academy era pura inocência... Pelos vistos, e de devido ao enorme sucesso dos filmes, não estava sozinho. Deliciava-me com a autêntica parada de personagens estereotipadas: o Steve-Mahoney-Guttenberg, o Jones, aquele gajo que imitava todos os sons (Michael Winslow), a boazona Callahan das big boobs (Leslie Easterbrook), o Bubba-big-black-dude-Smith, o gajo-louco-tipo-animal-dos-marretas, o inesquecível Zed (Bobcat Goldthwait) e o inseparável companheiro Sweetchuck (Tim Kazurinsky), o Tackleberry (David Graf) uma espécie de Harry Callahan destrambelhado, o distraído Comandante Lassard  (George Gaynes) e o mau da fita, o Tenente Harris (G.W. Bailey), bem como o seu lambe-botas de estimação Proctor (Lance Kinsey).
Mas não foram só "desconhecidos" a passarem pelo elenco: também por lá passou a Kim Cattrall, a Sharon Stone, o Ron Perlman e até o Christopher Lee! Este é aquele caso em que se pode dizer que todos temos os nossos maus momentos na vida...
Lembro-me que nessa altura era grande sucesso o tema dos polícias, especialmente a mítica série de TV, Hill Street Blues, donde até parece terem sido copiadas algumas das personagens. Lembro-me também que estavam na moda as comédias tipo Porky's e Bachelor Party (Solteiros e Tarados, em português) e parece-me que alguma da inspiração também veio daí.
Devo ter visto estes filmes umas boas dúzias de vezes. Gosto deles porque me lembra uma altura em que tudo era inocente. Quer dizer, nada era inocente, eu é que via as coisas de outra forma. É como ver alguém a passar numa bicicleta BMX com um amortecedor no meio: não é a bicicleta que é de boa qualidade, o que ela lembra é que é bom. Police Academy é mais um caso agudo de saudosismo que outra coisa.
O Canal 1 andou a repôr alguns dos filmes e não resisti a ver umas cenas aqui e ali. E todos os filmes que já pareciam maus, hoje ainda pareceram (muito) piores. Não consegui aguentar ver mais que uns minutos, mas deu para perceber que mais que uma série de filmes, Police Academy funcionou durante tanto tempo, porque basicamente era uma "série de TV" que era projectada nos cinemas. Só que era uma série com episódios de hora e meia e que só davam de ano a ano. Aliás, os filmes parecem filmados como uma série. Por vezes parecem quase telefilmes. Não é de estranhar que a maior parte dos realizadores destes filmes pertencem ao mundo das séries de TV...
Mas se se pensar bem, este é um fenómeno estranho. Mesmo sendo um objecto de quase nulidade cinematográfica sempre foram um sucesso. O filme original deu origem a 6 sequelas e acho que até chegou a haver uma série de TV!. E haverá alguém que nunca ouviu falar da Academia de Polícia? Tenho muitas dúvidas...
Por muito maus que sejam, estes filmes marcaram uma era (ou o fim dela?) e, pessoalmente, marcaram a minha juventude. Apenas e só por isso levam a "estrelinha", porque como filmes, são uma nulidade.
Só espero é que não se lembrem de fazer um remake desta coisa. Ou mais correctamente, um reboot, porque já se conta com as (possíveis) sequelas e tudo... ●○○○○













 
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