De todos os vídeos mais consumidos no mundo inteiro, há uns que saltam à vista: são os trailers de filmes. Eles são as melhores ferramentas de promoção que os filmes e os estúdios têm à disposição. Fazem toda a diferença no que toca em chegar ao público e os estúdios sabem muito bem disso. Mas sendo um eterno curioso, sempre me intrigou o nome. Porquê trailer? Tipo, como em "semi-reboque"? Uma coisa que é suposto "vir a seguir a...", mas que aparece "antes de..."? Não me fazia sentido nenhum. Fui então descobrir a origem do humilde, mas omnipresente trailer...
Hoje em dia não preciso partir muito a cabeça à procura das coisas, por isso aqui fica o link. Mas seja como for, um pequeno resumo para mim próprio.
O termo trailer vem do pormenor de terem sido originalmente exibidos no final das longas-metragens (ou seja, a reboque do filme, daí o "trailer"). No entanto, tal como acontece hoje dia, em que ninguém liga ao créditos finais, acabado o filme, o público normalmente abandonava a sala de cinema e então via os trailers. Assim, os trailers passaram para a parte inicial da exibição dos filmes.
Como sempre acontece quando um gajo pesquisa coisas na net, encontra discrepências. Historicamente, há discussões sobre se o primeiro trailer foi do filme The Adventures of Kathlyn, em 1913 ou se foi o Pleasure Seekers de 1912. Questões técnicas à parte, os trailers foram para o início dos filmes e foram-se disseminando como uma parte integrante do próprio cinema. Se bem que ultimamente foram recuperados nos grandes blockbusters da Marvel. O que foi vinculado como uma grande novidade, afinal não é mais que uma repetição... Mas para além desta questões ,alguém consegues imaginar o cinema sem trailers?
Há tantos aspectos nos trailers, tanta história e tanto para falar que acho que conseguia escrever um livro inteiro sobre o tema. Mas vou-me conter e mencionar apenas alguns pormenores que acho relevantes. Logo à partida há os trailers clássicos, que para mim, são aqueles que acho que melhor representam os trailers à moda antiga.
Vendo as coisas em perspectivas, por definição, os primeiros trailers eram na verdade teasers. Pequenos trechos do filme que viria a seguir sem mostrar quase nada do filme, apenas para aguçar a curiosidade. É curioso que isso aconteça porque hoje em dia, o primeiro contacto dos filmes com o público é precisamente com o teaser. Os estúdios lançam "n" de teasers, por vezes, meses antes da estreia e com os filmes ainda na mesa de montagem ou pós-produção, só para manterem o público em contacto e a salivar. Um exemplo recente de um teaser para o lançamento do próprio teaser trailer (!!!) e um exemplo antigo que apostou bastante no efeito surpresa...
Uma das coisas que mais sucesso faz hoje em dia no mundo dos trailers é pegar num filme antigo e fazer-lhe um trailer moderno. Há que dar todo o mérito a este pessoal com tempo, saber e paciência suficiente para fazer estas coisas. Na maior parte dos casos fazem um trabalho verdadeiramente espectacular. Mas mais importante que esta renovação visual dos filmes antigos, mostram um pormenor importantíssimo: a promoção é tudo! Já não é a primeira vez que noto que o trailer é muito melhor que o filme. Às vezes engana bem o público. O trailer é profissional e tem um tom que o filme, de aspecto às vezes amador, nem lhe chega perto... Mas o mais relevante é o que "amadores" conseguem fazer com o material original...
A recente entrada em acção dos mega-blockbusters, para além de "industrializar" os lançamentos, os argumentos e as próprias estruturas narrativas dos filmes, acabou por contaminar também os próprios trailers. Agora já não são só os filmes que parecem todos iguais; os trailers também são todos iguais. É a derradeira invasão do cliché...
Agora uma homenagem. Eu não sei se isto aconteceu com mais alguém, mas durante anos estranhei o facto de todos os filmes terem a mesma locução. Havia uma série de pessoas com vozes muito parecidas, espectacularmente graves a fazer a narração dos trailers em doses industriais? A resposta é não. Havia apenas um homem. Quando se fala de trailers há um nome que simplesmente não pode ser ignorado. Don Lafontaine. Apesar de ser um ilustre desconhecido, a sua voz é omnipresente. Milhares de trailers, décadas de trabalho, e uma voz profunda e inconfundível nos quatros cantos de mundo fizeram com que gerações inteiras reconheçam este génio na sombra. Merece todo o meu reconhecimento e aplausos porque é parte integrante do mundo do cinema.
E por último, pergunto eu: dada a importância e a omnipresença, não deveria haver um prémio anual, tipo Óscar, para o melhor trailer? Fica aqui a sugestão...
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Como começar a descrever o Delicatessen? Num futuro pós-apocalíptico em que a comida é um bem raro e tardada como se fosse dinheiro, há um prédio nos arredores de Paris em que o talhante do rés-do chão arranja carne... só que não é vaca nem porco... Dito assim, é uma descrição algo pesada, mas na realidade, Delicatessen é uma comédia. Negra, mas para todos os efeitos, uma comédia. Diria mais, uma comédia única, saída das mentes geniais de Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet.
Após responder a um estranho anúncio de emprego, um ex-palhaço (Dominique Pinon) apaixona-se pela filha (Marie-Laure Dougnac) do maquiavélico talhante (Jean-Claude Dreyfus). A partir daqui, todo o prédio - que é habitado pelas mais fantásticas personagens que vi nos últimos tempos em filme (como a Aurore e as suas infrutíferas mas engenhosas tentativas de suicídio, o homem rã, o carteiro louco ou o casal Tapioca) - entra num frenesim de acontecimentos cómicos.
Bastante interessante para os dias de hoje, é a batalha implícita entre os comedores de "carne" e os vegetarianos, "gentilmente" apelidados de "trogloditas" pelos carnívoros. Pensando bem, eles poderiam co-exisitir na mesma realidade, mas há de facto uma guerra entre os que querem continuar a comer carne e viver na superfície e os que preferem ficar restritos aos grãos e aos vegetais e por isso são escorraçados para o sub-solo. Como nunca há uma explicação lógica para se chegar ao ponto de existir um "Delicatessen" com aquela carne tão peculiar, eu assumo que o mundo se dividiu (inclusive com guerras à mistura) entre os que querem manter um estilo de vida obviamente insustentável (a não ser à custa do sacrifício de outros) e os que preferem seguir outro rumo, nem que para isso se neguem a uma existência "normal" e tenham de se refugiar debaixo de terra. Na realidade, a história principal de Delicatessen nunca é bem explicada e permanece omissa durante todo o filme. Mas acho que sei porque é que isso aconteceu. Em 1991 falar de ecologia ou ambiente era como falar de hippies ou de cultos estranhos. Nessa altura a única coisa que se falava era do buraco de ozono e mesmo assim ninguém sabia o que era; apenas era melhor usar pouco Óleo Johnson nos dias de praia porque se podia ficar com aquela cor de pele alaranjada como os temidos cremes de cenoura dos anos 80. Isso e a possível falta de pressão nas latas de aerossol. Esta era a principal preocupação da população em relação ao buraco do ozono. Porra, no final da década de 90 é que se começou a equacionar tirar o chumbo dos combustíveis, portanto só por aqui dá para perceber o que significa ecologia naqueles tempos. Portanto, temas como ecologia, sustentabilidade, dietas carnívoras ou vegetarianismo, mesmo sendo um tema subtil, era algo muito à frente do seu tempo e inevitavelmente incompreensível. Diria mesmo que o tema de base do Delicatessen não foi mais desenvolvido, porque o público simplesmente não iria entender. Foda-se, estamos no século XXI e o público ainda não consegue entender, quanto mais nos anos 90... Bem, por muito atrasado que um gajo fosse nos 90's, pelo menos não lhe passaria pela cabeça defender a teoria de que a Terra é plana... Raios parta que o pessoal está a ficar cada vez mais estúpido... Mas pronto... estou a divagar novamente... voltando ao filme...
Delicatessen é uma obra única, meticulosamente criada e montada como um relógio suíço por parte de Caro e Jeunet. E convém ressalvar o pormenor importante de que este foi o filme de estreia desta dupla. Em termos visuais, de trabalho de câmara, música e também na construção e desenvolvimento das personagens é do melhor que há. Só o genérico inicial é uma pequena obra de arte.
Este é um filme que não seria possível hoje em dia. Nem a maioria do público com a mente disneyficada por décadas de filmes de super-heróis e efeitos especiais digitais conseguiria aguentar tanto tempo sentado sem explosões, nem os estúdios poriam um cêntimo que fosse para financiar uma obra destas. Delicatessen não é um filme assim tão antigo, mas já é um clássico e um sinal do que vai acontecer com o cinema para o futuro: uma polarização brutal que provavelmente levará à morte o filme de autor nas salas de cinema. Por muito bom que um filme seja, estará restrito a um serviço de streaming qualquer ou será corrido para um ciclo de cinema que ainda passe filmes não-blockbuster. É uma tristeza, mas é o que é.
Delicatessen é um filme que ainda está presente no meu cérebro. Está tão bem escrito e tão bem filmado que é inesquecível. Tem associado aquele sentimento de uma certa inocência que já raramente se vê. É tão único que tive dificuldade em descrevê-lo de início. Ainda hoje não consigo arranjar equivalência. Se alguém me perguntar de que género é o Delicatessen, vou ter a mesma dificuldade que tinha na altura. É uma comédia? É, mas não é bem. É ficção científica? Sim, mas não é bem isso. Tem números circenses e musicais, mas também parece que vai descambar para o gore sanguinário. Será do tipo comédia negra de ficção científica com inspiração circense?!? Não sei. É difícil de explicar e de qualificar. Delicatessen é apenas igual a... Delicatessen. Lá está: é peça única. Mais que um filme, Delicatessen é uma obra de arte cinematográfica que tem sempre que ser mencionada quando se fala de cinema. Absolutamente essencial. ●●●●●
Após responder a um estranho anúncio de emprego, um ex-palhaço (Dominique Pinon) apaixona-se pela filha (Marie-Laure Dougnac) do maquiavélico talhante (Jean-Claude Dreyfus). A partir daqui, todo o prédio - que é habitado pelas mais fantásticas personagens que vi nos últimos tempos em filme (como a Aurore e as suas infrutíferas mas engenhosas tentativas de suicídio, o homem rã, o carteiro louco ou o casal Tapioca) - entra num frenesim de acontecimentos cómicos.
Bastante interessante para os dias de hoje, é a batalha implícita entre os comedores de "carne" e os vegetarianos, "gentilmente" apelidados de "trogloditas" pelos carnívoros. Pensando bem, eles poderiam co-exisitir na mesma realidade, mas há de facto uma guerra entre os que querem continuar a comer carne e viver na superfície e os que preferem ficar restritos aos grãos e aos vegetais e por isso são escorraçados para o sub-solo. Como nunca há uma explicação lógica para se chegar ao ponto de existir um "Delicatessen" com aquela carne tão peculiar, eu assumo que o mundo se dividiu (inclusive com guerras à mistura) entre os que querem manter um estilo de vida obviamente insustentável (a não ser à custa do sacrifício de outros) e os que preferem seguir outro rumo, nem que para isso se neguem a uma existência "normal" e tenham de se refugiar debaixo de terra. Na realidade, a história principal de Delicatessen nunca é bem explicada e permanece omissa durante todo o filme. Mas acho que sei porque é que isso aconteceu. Em 1991 falar de ecologia ou ambiente era como falar de hippies ou de cultos estranhos. Nessa altura a única coisa que se falava era do buraco de ozono e mesmo assim ninguém sabia o que era; apenas era melhor usar pouco Óleo Johnson nos dias de praia porque se podia ficar com aquela cor de pele alaranjada como os temidos cremes de cenoura dos anos 80. Isso e a possível falta de pressão nas latas de aerossol. Esta era a principal preocupação da população em relação ao buraco do ozono. Porra, no final da década de 90 é que se começou a equacionar tirar o chumbo dos combustíveis, portanto só por aqui dá para perceber o que significa ecologia naqueles tempos. Portanto, temas como ecologia, sustentabilidade, dietas carnívoras ou vegetarianismo, mesmo sendo um tema subtil, era algo muito à frente do seu tempo e inevitavelmente incompreensível. Diria mesmo que o tema de base do Delicatessen não foi mais desenvolvido, porque o público simplesmente não iria entender. Foda-se, estamos no século XXI e o público ainda não consegue entender, quanto mais nos anos 90... Bem, por muito atrasado que um gajo fosse nos 90's, pelo menos não lhe passaria pela cabeça defender a teoria de que a Terra é plana... Raios parta que o pessoal está a ficar cada vez mais estúpido... Mas pronto... estou a divagar novamente... voltando ao filme...
Delicatessen é uma obra única, meticulosamente criada e montada como um relógio suíço por parte de Caro e Jeunet. E convém ressalvar o pormenor importante de que este foi o filme de estreia desta dupla. Em termos visuais, de trabalho de câmara, música e também na construção e desenvolvimento das personagens é do melhor que há. Só o genérico inicial é uma pequena obra de arte.
Este é um filme que não seria possível hoje em dia. Nem a maioria do público com a mente disneyficada por décadas de filmes de super-heróis e efeitos especiais digitais conseguiria aguentar tanto tempo sentado sem explosões, nem os estúdios poriam um cêntimo que fosse para financiar uma obra destas. Delicatessen não é um filme assim tão antigo, mas já é um clássico e um sinal do que vai acontecer com o cinema para o futuro: uma polarização brutal que provavelmente levará à morte o filme de autor nas salas de cinema. Por muito bom que um filme seja, estará restrito a um serviço de streaming qualquer ou será corrido para um ciclo de cinema que ainda passe filmes não-blockbuster. É uma tristeza, mas é o que é.
Delicatessen é um filme que ainda está presente no meu cérebro. Está tão bem escrito e tão bem filmado que é inesquecível. Tem associado aquele sentimento de uma certa inocência que já raramente se vê. É tão único que tive dificuldade em descrevê-lo de início. Ainda hoje não consigo arranjar equivalência. Se alguém me perguntar de que género é o Delicatessen, vou ter a mesma dificuldade que tinha na altura. É uma comédia? É, mas não é bem. É ficção científica? Sim, mas não é bem isso. Tem números circenses e musicais, mas também parece que vai descambar para o gore sanguinário. Será do tipo comédia negra de ficção científica com inspiração circense?!? Não sei. É difícil de explicar e de qualificar. Delicatessen é apenas igual a... Delicatessen. Lá está: é peça única. Mais que um filme, Delicatessen é uma obra de arte cinematográfica que tem sempre que ser mencionada quando se fala de cinema. Absolutamente essencial. ●●●●●
Pode parecer que esta maluqueira com adaptações de BDe desenhos animados a chegarem ao cinema às catadupas é um fenómeno recente. Infelizmente não é. É mais um daqueles casos em que a história se repete. Depois de chegar à TVs de todo o mundo e de ter conquistado o coração de muitas crianças (e as carteiras dos pais, no caso da bonecada de plástico e restante merchandising), He-Man e restantes personagens da série Masters of the Universe chegam finalmente ao grande ecrã no (já longínquo, para não dizer dinossáurico) ano de 1987.
Para quem não conhece, He-Man e os Masters of the Universe é uma criação animada da Mattel que, pessoalmente, vi em desenhos animados nos meados do anos 80. Também deu uma série de figuras de acção e um sem fim de parafernália de plástico para a criançada. Acho que ainda tenho, tipo uns bonecos ou algo semelhante do He-Man. Era uma mistura exótica de feitiçaria medieval, lutas de espadas, tecnologia espacial e armas de raios laser. Só mesmo nos anos 80...
Apesar dos muitos méritos da criação original da Mattel, quando chegou ao grande ecrã, He-Man espalhou-se ao comprido. Logo à partida havia o preconceito dos bons actores em aparecem nestas produções "menores" de acção e aventura (sintomática a participação de Frank Langella, apenas atrás da máscara), o que fazia com que os estúdios optassem por actores desconhecidos ou de segundo plano no campo da representação (Dolph Lundgren, Meg Foster, James Tolkan, Courteney Cox), o que normalmente resultava mal.
Ainda por cima, naquela altura, o músculo e as miúdas bonitas vendiam o produto (espera! isso ainda funciona bem hoje em dia!!!), os efeitos apareciam para disfarçar as debilidades da história básica, e os guiões acrescentavam cenas de acção sem nexo para o tempo do filme ser mais comprido apenas para justificar mais uma ida ao balcão dos refrigerantes e das pipocas. Ou seja, não era muito diferente de hoje em dia, tirando o facto que estas adaptações sendo uma coisa com um target muito bem definido e especifico (apenas os teenagers) eram ainda mais mal tratados que hoje em dia. Em parte, filmes ridículos como Masters of the Universe foram a semente dos grandes blockbusters de super-heróis e restantes infindáveis adaptações que vemos aí aos montes. A diferença é que naquela altura os grandes actores não eram seduzidos por cachets milionários, os fãs apareciam timidamente e ainda não existiam como os conhecemos hoje em dia, e só então os estúdios começavam a perceber o potencial financeiro do teenager como consumidor de "produtos de cinema". Para além disso, os críticos não tinham de olhar para o resultado financeiro do box office antes de atirem estas produções para debaixo do autocarro das críticas negativas. O mundo do cinema era outro e muito mais simples. Mas foi com flops financeiros e de crítica como o Masters of the Universe que o cinema chegou ao actual estado. Seja em 1967, 1987 ou 2027 estes filmes vão sempre existir. Desde que sejam bem feitos, por mim tudo bem. Mas não é este o caso. Espera-se a qualquer momento um remake... ●○○○○
Para quem não conhece, He-Man e os Masters of the Universe é uma criação animada da Mattel que, pessoalmente, vi em desenhos animados nos meados do anos 80. Também deu uma série de figuras de acção e um sem fim de parafernália de plástico para a criançada. Acho que ainda tenho, tipo uns bonecos ou algo semelhante do He-Man. Era uma mistura exótica de feitiçaria medieval, lutas de espadas, tecnologia espacial e armas de raios laser. Só mesmo nos anos 80...
Apesar dos muitos méritos da criação original da Mattel, quando chegou ao grande ecrã, He-Man espalhou-se ao comprido. Logo à partida havia o preconceito dos bons actores em aparecem nestas produções "menores" de acção e aventura (sintomática a participação de Frank Langella, apenas atrás da máscara), o que fazia com que os estúdios optassem por actores desconhecidos ou de segundo plano no campo da representação (Dolph Lundgren, Meg Foster, James Tolkan, Courteney Cox), o que normalmente resultava mal.
Ainda por cima, naquela altura, o músculo e as miúdas bonitas vendiam o produto (espera! isso ainda funciona bem hoje em dia!!!), os efeitos apareciam para disfarçar as debilidades da história básica, e os guiões acrescentavam cenas de acção sem nexo para o tempo do filme ser mais comprido apenas para justificar mais uma ida ao balcão dos refrigerantes e das pipocas. Ou seja, não era muito diferente de hoje em dia, tirando o facto que estas adaptações sendo uma coisa com um target muito bem definido e especifico (apenas os teenagers) eram ainda mais mal tratados que hoje em dia. Em parte, filmes ridículos como Masters of the Universe foram a semente dos grandes blockbusters de super-heróis e restantes infindáveis adaptações que vemos aí aos montes. A diferença é que naquela altura os grandes actores não eram seduzidos por cachets milionários, os fãs apareciam timidamente e ainda não existiam como os conhecemos hoje em dia, e só então os estúdios começavam a perceber o potencial financeiro do teenager como consumidor de "produtos de cinema". Para além disso, os críticos não tinham de olhar para o resultado financeiro do box office antes de atirem estas produções para debaixo do autocarro das críticas negativas. O mundo do cinema era outro e muito mais simples. Mas foi com flops financeiros e de crítica como o Masters of the Universe que o cinema chegou ao actual estado. Seja em 1967, 1987 ou 2027 estes filmes vão sempre existir. Desde que sejam bem feitos, por mim tudo bem. Mas não é este o caso. Espera-se a qualquer momento um remake... ●○○○○
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Nesta nova entrega da saga Men in Black mudou tudo. Mudou o realizador (F. Gary Gray) e da "equipa" original apenas ficou a Emma Thompson e por isso entraram o Chris Hemsworth, a Tessa Thompson e o Liam Neeson. Infelizmente, o que também mudou foi a qualidade geral do filme. É um dos casos em que se percebe perfeitamente a diferença que um realizador faz... A diferença dos Men in Black do Barry Sonnefeld para esta nova entrega é gigantesca. Agora é apenas mais um filme sem graça, sem história, sem nada... apenas fogo de artifício. Exactamente como o publico actual gosta. Uma peça estática que está ali para "entreter" passivamente o consumidor de nachos e pipocas. Ainda que fosse mais ou menos esperado, foi uma enorme decepção, porque sempre gostei desta saga cómica de extraterrestres. Agora transformou-se num mero "êxito de bilheteira". Mais uma folha de Excel para entreter os financeiros dos estúdios... É pena. ●○○○○
Depois de andar a dar umas voltas pelo Universo, a tripulação da USS Enterprise é atacada e presa num planeta desconhecido. Ainda não sabem, mas o culpado é o Idris Elba. Deviam ter visto os outros filmes, porque tal como o episódio anterior, isto é uma cópia mais ou menos surrupiada de um episódio da série de filmes anterior. Seja como for, Shatner, Nimoy,... perdão!..., Kirk, Spock e restante tripulação têm de fugir do planeta e salvar novamente a Federação dos Planetas Unidos. E assim se chega a Star Trek: Beyond... o décimo terceiro filme da saga Star Trek., desta vez pela mãos de Justin Lin. Se alguém achava que era um exagero o Star Wars já ir para o 9.º ou 10.º filme então ainda não percebeu que isto nunca mais vai parar enquanto se venderem pipocas nos cinemas. Haverá mais aventuras da USS Enterprise? Que pergunta. Claro que vai haver. Pode mudar o elenco, o design da nave, os nomes dos planetas, a qualidade dos efeitos especiais, os conceitos de espaço e tempo, e até pode mudar toda a existência do Universo, mas há uma coisa que nunca muda: o desejo infinito dos estúdios de cinema em facturar. E para além disso, ainda há uma serie de temas que não foram abordados neste reboot: a nova equipa ainda não veio para Terra dos dias de hoje através de uma máquina do tempo; não trouxeram à baila os cyborgs e as máquinas "pensantes"; e ainda não foi abordada a questão ecológica que até está tão na moda hoje em dia... Quer dizer... Falta ainda tanta coisa para filmar... Por isso mesmo tenho a certeza absoluta que haverá um Star Trek IV, um V e mesmo um Star Trek VI... antes de fazerem um novo reboot. ●○○○○ P.S. Originalmente ia-lhe dar só uma bolinha, porque já tinha entrado no loop do sucesso sem fazer nada de novo... Mas tenho de lhe melhorar a classificação. Porque alguém que escolhe a Sabotage dos Beastie Boys sobe sempre na minha consideração... ●●○○○
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Bem, vou-me socorrer da Wikipedia para esta, porque já não aguento mais Star Trek. É uma exagero de filmes. Em Star Trek: Nemesis (décimo filme!!!) a "nova" missão da tripulação da nave estelar USS Enterprise é lidar com uma ameaça da Federação Unida dos Planetas vinda de um clone maléfico do Capitão Picard, chamado de Shinzon (ha!?!), que tomou o controle no Império Estelar Romulano depois de um golpe de estado. Nemesis é o final!!! Finalmente!!!! Este também deve ter sido o grito de despedida do elenco de The Next Generation, como pode ser visto no subtítulo do filme: "Começa a última jornada de uma geração". Stuart Baird realiza esta última entrega. Tom Hardy e Ron Perlman estão sempre bem, seja qual foi o filme, em pequenos ou grandes papéis, e aqui não é excepção. Um final jeitoso para uma saga quase interminável... Porque como é óbvio ninguém iria deixar a "galinha dos ovos de ouro" da bilheteira em sossego. Lá longe, nos confins do Universo, onde estão os estúdios de cinema proprietários dos grandes blockbusters, um reboot estava a caminho... ●○○○○
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Tal como me acontece muitas vezes, estava eu a fazer "zlooping" quando tropeço num filme de animação que tinha esteticamente algo que me lembrou "Monty Phyton", "Yellow Submarine" e coisas do género assim meio surrealistas e/ou psicadélicas. Não sabia o nome do filme nem do que se tratava, mas imediatamente pus a gravar para ver mais tarde. O filme em questão chamava-se The Congress e estranhamente, de início, nem sequer era em animação. Suscitou-me algumas dúvidas se tinha posto a gravar o filme correcto, até porque não estava a perceber a ligação do título com o que estava a ver: uma actriz nos seus 40 e tal anos (uma versão(?) diferente da verdadeira Robin Wright) está com problemas de carreira e a ser criticada pelo seu agente (Harvey Keitel) por não dar o próximo passo que é basicamente ceder eternamente os direitos de imagem para o estúdio poder digitalizá-la completamente e usar dali em diante apenas a sua versão digital. Para isso poder acontecer, ela nunca mais poderia aparecer em palco. É uma decisão difícil para a actriz, mas na realidade, apesar da premissa interessante do filme, eu só pensava onde é que entraria a parte da animação e continuava sem perceber a lógica do título. Após uma hora (l-e-n-t-a) de filme, finalmente fez-se luz. E o que me parecia ser o início de um excelente filme, lentamente começou a complicar-se e a descambar negativamente. Afinal, a parte de animação é outra coisa completamente diferente e baseada no livro "The Futurological Congress" de Stanislaw Lem. Daí o título. Mas aqui é que começam os problemas.
Acho que Ari Folman foi ambicioso demais. Para além de pegar em temas complexos como o de avatares, identidade e realidades alternativas, ainda quis misturar a questão tecnológica - que está a esmagar a parte humana do cinema, mas não só - e, por tabela, mostrar a sua visão quase neo-fascista dos modernos estúdios de cinema, que ignoram pontos de vista éticos e morais e não olham a meios para conseguir os seus fabulosos lucros, na realidade, o único propósito daquela indústria. Acho que as duas ideias (em separado) são muito boas. Mas também achei que o mix das duas foi muito mal feito. Faz todo o sentido equiparar as duas situações porque na base o conceito é o mesmo: mostrar que as pessoas preferem ignorar a realidade-realidade (mesmo que ela continue a existir como extremamente negra, degradante e destrutiva) e viver numa outra realidade-virtual em que tudo é cor-de-rosa, divertido, positivo e libertário, nem que para isso tenham de abdicar de tudo o que as faz ser realmente humanas. Os dois conceitos são profundos, extremamente distópicos e dão que pensar, porque em certa parte, mesmo hoje em dia, há indícios que isso começa a acontecer, e mais grave ainda, pode mesmo acontecer tal como estas histórias distópicas.
Mas para além dos conceitos - que me dariam horas de divagação - há o filme. E para mim, o filme não funcionou. A mistura dos dois temas foi mal feita, talvez por serem tão complexas e abrangentes, e por tabela as ligações ficaram um pouco desconexas. Para além disso, o ritmo do filme é demasiado lento para o meu gosto, apesar de eu perceber que é propositado e que neste caso está implícito os efeitos da sedação, do "deixar-se ir", do "i don't give a fuck. I prefer the other side, anyway." Percebo, mas não gosto.
O melhor deste The Congress é mesmo a técnica de animação (já tinha saudade de ver coisas não polidas em 3D), mas principalmente os actores (Robin Wright, Harvey Keitel, Danny Huston [brilhante actor e constantemente relegado para papéis secundários, porque tem mais de 16 anos, portanto está praticamente "morto" para o cinema, tal como a lógica do filme...], Paul Giamatti e a voz de Jon Hamm. Comecei muito empolgado pela temática, mas confesso que acabei bastante desiludido com o resultado final. Apesar de tudo, é algo que recomendaria uma visão atenta. ●●●○○
Acho que Ari Folman foi ambicioso demais. Para além de pegar em temas complexos como o de avatares, identidade e realidades alternativas, ainda quis misturar a questão tecnológica - que está a esmagar a parte humana do cinema, mas não só - e, por tabela, mostrar a sua visão quase neo-fascista dos modernos estúdios de cinema, que ignoram pontos de vista éticos e morais e não olham a meios para conseguir os seus fabulosos lucros, na realidade, o único propósito daquela indústria. Acho que as duas ideias (em separado) são muito boas. Mas também achei que o mix das duas foi muito mal feito. Faz todo o sentido equiparar as duas situações porque na base o conceito é o mesmo: mostrar que as pessoas preferem ignorar a realidade-realidade (mesmo que ela continue a existir como extremamente negra, degradante e destrutiva) e viver numa outra realidade-virtual em que tudo é cor-de-rosa, divertido, positivo e libertário, nem que para isso tenham de abdicar de tudo o que as faz ser realmente humanas. Os dois conceitos são profundos, extremamente distópicos e dão que pensar, porque em certa parte, mesmo hoje em dia, há indícios que isso começa a acontecer, e mais grave ainda, pode mesmo acontecer tal como estas histórias distópicas.
Mas para além dos conceitos - que me dariam horas de divagação - há o filme. E para mim, o filme não funcionou. A mistura dos dois temas foi mal feita, talvez por serem tão complexas e abrangentes, e por tabela as ligações ficaram um pouco desconexas. Para além disso, o ritmo do filme é demasiado lento para o meu gosto, apesar de eu perceber que é propositado e que neste caso está implícito os efeitos da sedação, do "deixar-se ir", do "i don't give a fuck. I prefer the other side, anyway." Percebo, mas não gosto.
O melhor deste The Congress é mesmo a técnica de animação (já tinha saudade de ver coisas não polidas em 3D), mas principalmente os actores (Robin Wright, Harvey Keitel, Danny Huston [brilhante actor e constantemente relegado para papéis secundários, porque tem mais de 16 anos, portanto está praticamente "morto" para o cinema, tal como a lógica do filme...], Paul Giamatti e a voz de Jon Hamm. Comecei muito empolgado pela temática, mas confesso que acabei bastante desiludido com o resultado final. Apesar de tudo, é algo que recomendaria uma visão atenta. ●●●○○
Mutação e regeneração, vida e morte, criação e destruição, tudo junto num espaço estranho que não se regra pelas leis universais. Annihilation é um bom filmito de ficção científica, algo raro hoje em dia, em que tudo é filme de acção. No entanto, a partir de determinada altura, começou a ir longe demais no aspecto "intelectual". Esta não é a minha opinião. Mas pelo que li, estranhamente, foi esta a percepção dos estúdios, o que levou a "disputas criativas", o que por sua vez levou a que o filme fosse distribuído pelo "anticristo" do mundo do cinema que é a Netflix. Só por aqui se percebe bem a excelente jogada destes novos "estúdios" de streaming: "Ó pessoal criativo! Têm problemas com os vossos estúdios? Vinde para cá que aqui ninguém vos chateia; Os estúdios "tradicionais" querem interferir com as vossas veias e perspectivas criativas? Venham para aqui! Têm total liberdade criativa, o corte final e mais, quanto mais chocante e polémico, melhor para todos, é publicidade à borla!...". Para o pessoal proscrito, mais independente, diferente do habitual e/ou com novas ideias é o Paraíso...
Annihilation é mais um vislumbre de como vai ser o cinema nos próximos anos: os mesmos quatro ou cinco realizadores/produtores misturados com tarefeiros quase anónimos a fazerem intermináveis blockbusters, remakes e reboots de blockbusters de "estúdio"; e pequenas (que passarão rapidamente a médias) produções totalmente extravagantes e diferentes vindas dos estúdios de streaming (algo a que decidi agora mesmo começar a chamar de "Streamers"). Por mim, parece-me bem. Quando não me apetecer ver nada e quiser só estar a olhar para as luzes, explosões e sons (basicamente, fogo-de-artifício), vejo um filme de super-heróis pela enésima vez; quando quiser ver um filme de jeito, mudo e vejo algo vindo dos streamers... Parece-me bem. Mas pensando bem, não deixa de ser irónico que apesar de serem consideradas por muitos dos realizadores de renome como um flagelo, este novos streamers, vão acabar por ser a salvação do cinema. Se não existissem os "novos" estúdios, é muito provável que os "velhos" acabassem por ficar indefinidamente em loop, a fazer apenas o blockbuster típico que é receita garantida. Não tardava nada, só iam mesmo existir filmes de super-heróis, franchises e os seus remakes e prequelas... Ia ser a loucura total... Mas adiante, que já estou a divagar novamente...
Contrariamente ao que achou o pessoal que manda no dinheiro do estúdio, Annihilation não é obviamente um filme "intelectual". Aliás, começou a prometer imenso e depois até me desiludiu um pouco por se tornar, de certa forma, banal. Quer dizer, banal, talvez seja exagerado. Previsível, se calhar, é o termo mais adequado. Vindo de quem vem, estava à espera de algo mais. Alex Garland é um gajo em que vejo muito potencial. Tenho a certeza que um dia destes vai fazer um daqueles filmalhaços espetaculares. Nota-se que tem todas as "boas referências", se é que me faço entender... Mas desta vez, Garland ficou-se novamente pela "ameaça". O casting também não foi muito feliz. Natalie Portman e Jennifer Jason Leigh são sempre excelentes, mas o restante pessoal (devido às fracas personagens) "desaparecem" do filme demasiado facilmente... Mas o mais importante é que Garland continua a dar bons sinais e é um nome a ter em conta no futuro. Espero com moderada ansiedade pelo próximo projecto. ●●●○○
Annihilation é mais um vislumbre de como vai ser o cinema nos próximos anos: os mesmos quatro ou cinco realizadores/produtores misturados com tarefeiros quase anónimos a fazerem intermináveis blockbusters, remakes e reboots de blockbusters de "estúdio"; e pequenas (que passarão rapidamente a médias) produções totalmente extravagantes e diferentes vindas dos estúdios de streaming (algo a que decidi agora mesmo começar a chamar de "Streamers"). Por mim, parece-me bem. Quando não me apetecer ver nada e quiser só estar a olhar para as luzes, explosões e sons (basicamente, fogo-de-artifício), vejo um filme de super-heróis pela enésima vez; quando quiser ver um filme de jeito, mudo e vejo algo vindo dos streamers... Parece-me bem. Mas pensando bem, não deixa de ser irónico que apesar de serem consideradas por muitos dos realizadores de renome como um flagelo, este novos streamers, vão acabar por ser a salvação do cinema. Se não existissem os "novos" estúdios, é muito provável que os "velhos" acabassem por ficar indefinidamente em loop, a fazer apenas o blockbuster típico que é receita garantida. Não tardava nada, só iam mesmo existir filmes de super-heróis, franchises e os seus remakes e prequelas... Ia ser a loucura total... Mas adiante, que já estou a divagar novamente...
Contrariamente ao que achou o pessoal que manda no dinheiro do estúdio, Annihilation não é obviamente um filme "intelectual". Aliás, começou a prometer imenso e depois até me desiludiu um pouco por se tornar, de certa forma, banal. Quer dizer, banal, talvez seja exagerado. Previsível, se calhar, é o termo mais adequado. Vindo de quem vem, estava à espera de algo mais. Alex Garland é um gajo em que vejo muito potencial. Tenho a certeza que um dia destes vai fazer um daqueles filmalhaços espetaculares. Nota-se que tem todas as "boas referências", se é que me faço entender... Mas desta vez, Garland ficou-se novamente pela "ameaça". O casting também não foi muito feliz. Natalie Portman e Jennifer Jason Leigh são sempre excelentes, mas o restante pessoal (devido às fracas personagens) "desaparecem" do filme demasiado facilmente... Mas o mais importante é que Garland continua a dar bons sinais e é um nome a ter em conta no futuro. Espero com moderada ansiedade pelo próximo projecto. ●●●○○
Bem... Não vou estar com muitos rodeios... Geostorm é a pior borrada que vi nos últimos tempos. Que desperdício de dinheiro e de recursos naturais. Uma chachada pseudo-ecológica de acção e efeitos especiais tão repleta de clichés escusados que até tem a típica cena (metida totalmente à pressão) do miúdo que perde o cão no meio da tempestade, mas que felizmente consegue reavê-lo são e salvo no final, para o público poder aplaudir repleto de júbilo e satisfação... A sério!? Isto para não falar das muitas cenas que foram nitidamente copiadas a régua e esquadro de outros filmes. Quer dizer... O pessoal do estúdios acham que o público é mesmo assim tão estúpido para (re)fazer este tipo de coisas? Não entendo... É uma nulidade completa. Particularmente chateia-me porque nitidamente isto é manobra de estúdio. É um produto de consumo. Isto foi tratado como um nacho que se vende na zona da restauração... Eu percebo a lógica, mas também não é preciso exagerar. Já estou mesmo a ver uma dúzia de engravatadinhos na sua secretária do Conselho de Administração, a fazer contas com a sua folha de Excel® à frente e a ditar o guião: "O pessoal financeiro e os seus estudos de mercado dizem-nos que podemos fazer aqui um dinheirito valente e portanto vamos aproveitar esta coisa das alterações climáticas e fazer um grande blockbuster de acção e efeitos especiais. Olhe lá, ó guionista, aponte aí uns pontos importantes: tem de ter 3 estrelas de Hollywood conhecidas (Gerard Butler, Andy Garcia, Ed Harris), o bom da fita tem de ter uma filha ou um familiar com quem não se dá bem, mas reconcilia-se no final; tem de ter um cena com um miúdo que perde o cão mas depois consegue reavê-lo são e salvo no final; tem de ter uma contagem decrescente que vai até ao 3, porque quando acaba no último segundo os consumidores já não acreditam; Ah! E tem de ter um miúda gira (Abbie Cornish). É sucesso garantido..." A sério?!? Fico com a impressão que estes filmes são feitos ao contrário: primeiro fazem um trailer espetacular com as cenas de efeitos especiais e depois é que tentam encher as restantes duas horas de filme com uma treta qualquer... Ou seja, resumindo, isto é uma coisa tão artificial que é um zero absoluto. Dou-lhe apenas crédito por isso mesmo: não é fácil fazer uma nulidade completa. ○○○○○
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Se há filme que merece a classificação de clássico intemporal é Blade Runner. É um prodígio técnico e estético. Acho que mais nenhum filme foi tão à frente no aspecto futurista (ou retro-futurista) como este. É bom lembrar que este é um filme de 1982. É tão antigo que os cartazes promocionais ainda eram pintados! Para quem vê o filme agora não tem noção do que era mundo em 1982 em termos de noções tecnológicas e até estéticos. O mundo era todo colorido e este era um filme negro. O principal responsável é o visionário Syd Mead com o seu "retro-futurismo" que tenho a certeza foi ao futuro e voltou com esquissos. É quase impossível que não tenha sido assim. Foi um filme que me marcou profundamente. Ainda hoje ecoam no meu cérebro frases como "I’ve seen things you people wouldn’t believe", "all those moments will be lost in time, like tears in rain", "Too bad she won’t live. But then again, who does?", "I want more life, fucker!", ou "Quite an experience to live in fear, isn't it? That's what it is to be a slave". A partir do dia em que o vi, todos os outros filmes que já tinha visto tornaram-se "piores" e os que vieram a seguir precisavam de chegar a um fasquia muito mais alta para os considerar "bons". A história, o visual, a música de Vangelis, o estilo dos actores, aquela ambiência húmida, escura e mesclada de culturas, tudo. Mudou-me mesmo! Fez o meu cérebro começar a pensar de uma forma diferente. Pôs-me a pensar como eram ridículos muitos outros filmes que já vira sobre o "futuro".
Mas por muito que se diga bem deste filme, é impossível não mencionar a questão do gosto do público num determinado momento e a apreciação (e interferência) feita pelos estúdios. Infelizmente nunca vi o Blade Runner numa sala de cinema. Espero pacientemente que um dia o reponham, já que agora é um "clássico intemporal". Mas nem sempre foi assim. Muito já li sobre as diversas versões do filme (para além do "original", já vi um Director's Cut, um Final Cut e outras duas versões com algumas mudanças pelo meio e no final) e como isso foi influenciado pelas decisões de executivos de estúdio que obviamente apenas estão interessados no resultado de bilheteira e não nas questões estéticas ou autorais. É a mesma guerra de sempre. Curiosamente, a versão que me ficou no cérebro - e até é a de que gosto mais - é precisamante a versão "cortada" pelo estúdio, provavelmente porque foi a primeira que vi e também a que vi mais vezes. Não sei quantas vezes terei visto o Blade Runner, mas deve andar na casa das dezenas. Sou capaz de reconhecer frames isolados do filme e é provável que saiba os diálogos de cor. Eu sei que é um bocado freak da minha parte, mas isto tem que ver com o VHS. Isto deve ser estranho para algumas pessoas de agora, mas houve uma altura em que se alugava filmes em cassetes, com uma fita magnética que rodava lá dentro do invólucro preto. É estranho mas verdade. Mas o que poderá ser mais estranho é que alugar um filme, queria dizer que se tinha 24 horas para o ver de depois devolvê-lo. Rebobinado. Quer isto dizer que chegando ao fim do filme (e da bobine de fita) era preciso voltar a pô-la no início. Pagava-se uma penalização se não fosse entregue assim! Pode não parecer, mas o mundo era algo totalmente diferente. Questões técnicas à parte, esta questão dos alugueres de 24 horas levava a que freaks como eu que gostavam muito de um filme, a única coisa que podiam fazer era alugá-lo de novo (muito difícil, porque era caro!) ou em alternativa vê-lo várias vezes no mesmo dia, o que também não era fácil. Arranjar outro vídeo para fazer uma cópia directa (o antepassado da actual pirataria) era quase impossível devido ao preço e fragilidade dos VHS's. A única solução era esperar que desse na TV e gravá-lo. Foi o que aconteceu. E como as cassetes "virgens" também eram raras e caras, um gajo tinha de ser muito selectivo, por isso só tinha para aí uns 5 filmes que via insistentemente. Posso dizer que vi dezenas de vezes o Blade Runner e o mesmo se passa com o Mad Max, Raiders of the Lost Ark e o Enter the Dragon. Durante muito tempo foram os únicos filmes que "possuía" e portanto os únicos que podia rever. Bem, estou a divagar para o saudosismo... Seguindo em frente...
Como já disse, Blade Runner nem sempre foi um "clássico". Muito pelo contrário. Quando o aluguei pela primeira vez em cassete, fiquei imediatamente "maluco". Nunca tinha visto nada assim. Pensei que era algo que toda a gente já tinha visto e adorava. Para surpresa minha, ninguém conhecia o filme. E já estou a falar de finais de 80's, princípios de 90's. O filme já tinha 10 anos e ninguém o conhecia. Como é que isso podia ser? Como é que uma obra-prima tinha caído no esquecimento? Eu tenho uma pequena enciclopédia editada nos anos 90 - "Os melhores filmes de todos os tempos" - e o filme nem sequer é mencionado!! Aliás, nessa altura, o Blade Runner nem sequer se chamava só Blade Runner; tinha um sub-título muito sugestivo para ser "comercial": Blade Runner - Perigo Eminente!
(um pequeno à parte relacionado com o título. Desde sempre me intrigou o facto do título nada ter que ver com o filme. Só muito mais tarde li que apesar do filme ser baseado no livro de Philip K. Dick "Do Androids Dream of Electric Sheep", o título vem de um livro de Alan Nourse chamado "The Bladerunner". Mas o título ainda tem uma história mais rocambolesca. O William Burroughs pegou no livro de Nourse e escreveu uma peça chamada "Blade Runner: A Movie" em que descreve o blade runner com uma pessoa que vende instrumentos cirúrgicos ilegais numa sociedade sem direito a cuidados médicos. O Ridley Scott gostou tanto do título que comprou apenas os direitos do título mas não do livro. E fez ele muito bem porque é perfeito.)
Por tudo isto dá para perceber duas coisas muito importantes. A primeira é de que a interferência dos estúdios no corte final do filme não é, para mim, uma coisa necessariamente má; a segunda é que a aceitação (ou não) do público é uma questão bipolar e não é obrigatoriamente um garante de sucesso. Mas chega de "histórias secundárias".
Blade Runner é único e muito à frente do seu tempo. Presumo que esteja para aparecer uma edição especial qualquer porque o filme passa-se no "futuro", mais precisamente em Novembro de 2019. Estamos quase lá. E se alguém tinha dúvidas que mostrava o futuro "correctamente" deixo aqui uma parte da história e o seu enquadramento. Tudo se passa numa decadente cidade de Los Angeles, cheia de poluição e consumismo desenfreado dominada por gigantescas corporações empresariais. O controlo policial é omnipresente. Toda a gente quer sair dali, indo à procura de colonizar outros planetas, pois este já nada de bom tem para oferecer. Tecnologicamente, os humanos são muito evoluídos, dominando completamente a engenharia genética, chegando ao ponto de replicar perfeitamente todos os animais que entretanto se percebe que foram extintos, assim como toda a vida natural. Parece algo assim tão distante e inverosímil? Em 1982, talvez. Hoje em dia já não parece assim uma história tão negra e estranha, não é verdade? Parece que isto está prestes a acontecer...
Mas se as questões sociais e ambientais são tratadas com uma "leveza" quase implícita, a questão filosófica do que é ser humano é tratado mais profundamente. No primeiro plano estão os Replicantes, cópias perfeitas dos humanos, usados como ferramentas para os trabalhos mais duros fora da Terra. Os Replicantes são tão perfeitamente humanos que se tornou necessário criar testes de empatia para distingui-los dos restantes humanos. É interessante que os testes se baseiem essencialmente no tratamento de animais, ou seja, são o indicador principal do que é ser "humano". A dúvida permanece durante todo o filme. Quem é mais humano? Quem tem mais empatia? Será Deckard mesmo humano? Ou apenas uma experiência nova, mais evoluída como a Rachel?
Não me canso de elogiar este filme. É tão complexo e tão pormenorizado que era capaz de estar aqui todo o dia a falar dele, das divergências criativas com o estúdio, do casting que se dava mal e dos problemas na produção, por isso vou fazer uma auto-censura e ficar por aqui. Apenas vou mencionar os actores que lhe deram corpo: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James e Joe Turkel. Encarnaram tão perfeitamente estas personagens que nem sequer imagino outros actores. Apesar de todos os problemas (e ironicamente são sobejamente conhecidos os problemas entre todos eles durante a rodagem) acho que foi mesmo a melhor escolha de sempre num casting. Perfeito.
Blade Runner é uma obra prima intemporal que toda a gente deveria ver. Em Novembro de 2019 vou seguramente vê-lo outra vez. ●●●●● + ●
Até os trailers evoluíram desde o lançamento original desta obra-prima. Eis a nova versão que mostra como hoje as coisas são vistas de uma forma totalmente diferente...
Mas por muito que se diga bem deste filme, é impossível não mencionar a questão do gosto do público num determinado momento e a apreciação (e interferência) feita pelos estúdios. Infelizmente nunca vi o Blade Runner numa sala de cinema. Espero pacientemente que um dia o reponham, já que agora é um "clássico intemporal". Mas nem sempre foi assim. Muito já li sobre as diversas versões do filme (para além do "original", já vi um Director's Cut, um Final Cut e outras duas versões com algumas mudanças pelo meio e no final) e como isso foi influenciado pelas decisões de executivos de estúdio que obviamente apenas estão interessados no resultado de bilheteira e não nas questões estéticas ou autorais. É a mesma guerra de sempre. Curiosamente, a versão que me ficou no cérebro - e até é a de que gosto mais - é precisamante a versão "cortada" pelo estúdio, provavelmente porque foi a primeira que vi e também a que vi mais vezes. Não sei quantas vezes terei visto o Blade Runner, mas deve andar na casa das dezenas. Sou capaz de reconhecer frames isolados do filme e é provável que saiba os diálogos de cor. Eu sei que é um bocado freak da minha parte, mas isto tem que ver com o VHS. Isto deve ser estranho para algumas pessoas de agora, mas houve uma altura em que se alugava filmes em cassetes, com uma fita magnética que rodava lá dentro do invólucro preto. É estranho mas verdade. Mas o que poderá ser mais estranho é que alugar um filme, queria dizer que se tinha 24 horas para o ver de depois devolvê-lo. Rebobinado. Quer isto dizer que chegando ao fim do filme (e da bobine de fita) era preciso voltar a pô-la no início. Pagava-se uma penalização se não fosse entregue assim! Pode não parecer, mas o mundo era algo totalmente diferente. Questões técnicas à parte, esta questão dos alugueres de 24 horas levava a que freaks como eu que gostavam muito de um filme, a única coisa que podiam fazer era alugá-lo de novo (muito difícil, porque era caro!) ou em alternativa vê-lo várias vezes no mesmo dia, o que também não era fácil. Arranjar outro vídeo para fazer uma cópia directa (o antepassado da actual pirataria) era quase impossível devido ao preço e fragilidade dos VHS's. A única solução era esperar que desse na TV e gravá-lo. Foi o que aconteceu. E como as cassetes "virgens" também eram raras e caras, um gajo tinha de ser muito selectivo, por isso só tinha para aí uns 5 filmes que via insistentemente. Posso dizer que vi dezenas de vezes o Blade Runner e o mesmo se passa com o Mad Max, Raiders of the Lost Ark e o Enter the Dragon. Durante muito tempo foram os únicos filmes que "possuía" e portanto os únicos que podia rever. Bem, estou a divagar para o saudosismo... Seguindo em frente...
Como já disse, Blade Runner nem sempre foi um "clássico". Muito pelo contrário. Quando o aluguei pela primeira vez em cassete, fiquei imediatamente "maluco". Nunca tinha visto nada assim. Pensei que era algo que toda a gente já tinha visto e adorava. Para surpresa minha, ninguém conhecia o filme. E já estou a falar de finais de 80's, princípios de 90's. O filme já tinha 10 anos e ninguém o conhecia. Como é que isso podia ser? Como é que uma obra-prima tinha caído no esquecimento? Eu tenho uma pequena enciclopédia editada nos anos 90 - "Os melhores filmes de todos os tempos" - e o filme nem sequer é mencionado!! Aliás, nessa altura, o Blade Runner nem sequer se chamava só Blade Runner; tinha um sub-título muito sugestivo para ser "comercial": Blade Runner - Perigo Eminente!
(um pequeno à parte relacionado com o título. Desde sempre me intrigou o facto do título nada ter que ver com o filme. Só muito mais tarde li que apesar do filme ser baseado no livro de Philip K. Dick "Do Androids Dream of Electric Sheep", o título vem de um livro de Alan Nourse chamado "The Bladerunner". Mas o título ainda tem uma história mais rocambolesca. O William Burroughs pegou no livro de Nourse e escreveu uma peça chamada "Blade Runner: A Movie" em que descreve o blade runner com uma pessoa que vende instrumentos cirúrgicos ilegais numa sociedade sem direito a cuidados médicos. O Ridley Scott gostou tanto do título que comprou apenas os direitos do título mas não do livro. E fez ele muito bem porque é perfeito.)
Por tudo isto dá para perceber duas coisas muito importantes. A primeira é de que a interferência dos estúdios no corte final do filme não é, para mim, uma coisa necessariamente má; a segunda é que a aceitação (ou não) do público é uma questão bipolar e não é obrigatoriamente um garante de sucesso. Mas chega de "histórias secundárias".
Blade Runner é único e muito à frente do seu tempo. Presumo que esteja para aparecer uma edição especial qualquer porque o filme passa-se no "futuro", mais precisamente em Novembro de 2019. Estamos quase lá. E se alguém tinha dúvidas que mostrava o futuro "correctamente" deixo aqui uma parte da história e o seu enquadramento. Tudo se passa numa decadente cidade de Los Angeles, cheia de poluição e consumismo desenfreado dominada por gigantescas corporações empresariais. O controlo policial é omnipresente. Toda a gente quer sair dali, indo à procura de colonizar outros planetas, pois este já nada de bom tem para oferecer. Tecnologicamente, os humanos são muito evoluídos, dominando completamente a engenharia genética, chegando ao ponto de replicar perfeitamente todos os animais que entretanto se percebe que foram extintos, assim como toda a vida natural. Parece algo assim tão distante e inverosímil? Em 1982, talvez. Hoje em dia já não parece assim uma história tão negra e estranha, não é verdade? Parece que isto está prestes a acontecer...
Mas se as questões sociais e ambientais são tratadas com uma "leveza" quase implícita, a questão filosófica do que é ser humano é tratado mais profundamente. No primeiro plano estão os Replicantes, cópias perfeitas dos humanos, usados como ferramentas para os trabalhos mais duros fora da Terra. Os Replicantes são tão perfeitamente humanos que se tornou necessário criar testes de empatia para distingui-los dos restantes humanos. É interessante que os testes se baseiem essencialmente no tratamento de animais, ou seja, são o indicador principal do que é ser "humano". A dúvida permanece durante todo o filme. Quem é mais humano? Quem tem mais empatia? Será Deckard mesmo humano? Ou apenas uma experiência nova, mais evoluída como a Rachel?
Não me canso de elogiar este filme. É tão complexo e tão pormenorizado que era capaz de estar aqui todo o dia a falar dele, das divergências criativas com o estúdio, do casting que se dava mal e dos problemas na produção, por isso vou fazer uma auto-censura e ficar por aqui. Apenas vou mencionar os actores que lhe deram corpo: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James e Joe Turkel. Encarnaram tão perfeitamente estas personagens que nem sequer imagino outros actores. Apesar de todos os problemas (e ironicamente são sobejamente conhecidos os problemas entre todos eles durante a rodagem) acho que foi mesmo a melhor escolha de sempre num casting. Perfeito.
Blade Runner é uma obra prima intemporal que toda a gente deveria ver. Em Novembro de 2019 vou seguramente vê-lo outra vez. ●●●●● + ●
Até os trailers evoluíram desde o lançamento original desta obra-prima. Eis a nova versão que mostra como hoje as coisas são vistas de uma forma totalmente diferente...









