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Danny Boyle é um gajo que já deixou "marcas" e que me põe sempre na expectativa. Raramente me desilude, mas nos últimos anos tem-me surpreendido, não diria pelos piores motivos, mas porque envereda por caminhos que eu não estava nada à espera. Não é que não goste dos filmes, mas também nunca diria à primeira vista que estava a ver um filme "Danny Boyle". Um exemplo óptimo para isso, é este Yesterday. Acho que não o poderei classificar de forma diferente. Yesterday é... uma comédia romântica. E comédia romântica, definitivamente, nunca seria uma temática que veria associada ao Danny Boyle.
Em Yesterday, um aspirante a músico de uma pequena povoação inglesa sofre um acidente de viação e vai parar ao hospital. Ao mesmo tempo deste infortúnio pessoal, algo de estranho acontece no planeta, sem se perceber muito bem o quê. Quando ele acorda no hospital, apercebe-se que está numa estranha realidade em que, entre outros pormenores, ele é a única pessoa que se lembra das músicas dos Beatles. Naquela realidade alternativa, não só a Coca-Cola não existe, como também os Beatles nunca se juntaram e compuseram as músicas que toda a gente conhece e gosta. Munido da lembrança das excelente músicas do "pessoal de Liverpool", o músico começa instantaneamente a ter êxitos após êxitos e a ser um fenómeno de popularidade mundial. Mas esta fama tem um preço...
Os papéis principais são de Himesh Patel e Lily James. Muito ternurentos, muito apaixonados, mas também totalmente esquecíveis. A única performance que me suscitou alguma excitação foi a de Kate McKinnon, como uma irascível agente musical. E também há alguns cameos como Ed Sheeran e James Corden, mas tal como os restante actores e o filme no seu todo, não aquecem nem arrefecem...
Admito que a premissa me deixou com água na boca. Era boa demais para ser estragada e ainda por cima nas mãos do Danny Boyle. Mas a realidade, é que Yesterday é um pobre exemplo de uma boa história estragada com lamechices românticas. Toda esta história serve apenas de suporte a uma ridiculazinha história de amor e desencontros, à velha maneira das clássicas comédias românticas em que tudo termina bem, cheio humor básico e de corações cor-de-rosa. Que desperdício. Yesterday tem algum mérito no que toca à realização, mas para além do desaproveitamento da narrativa ainda se junta o total desaproveitamento das músicas dos Beatles. O que poderia ter sido um excelente filme, acaba por ser reduzido a uma mísera comédia romântica para ver num domingo à tarde... Um desperdício total. E continuo sem perceber o que se passa com o Danny Boyle... ○○○

Danny Boyle é um gajo que curto há muito tempo. É daqueles realizadores que sei de antemão que não me vai desiludir. Mas desta vez acabou mesmo por acontecer. Steve Jobs é um desilusão de filme. Esperava muito mais.
O filme retrata alguns aspectos marcantes do co-fundador da Apple em três momentos temporais distintos: em 1984 aquando do lançamento do Macintosh; em 1986, quando o mundo dos computadores ficou chocado com o despedimento de Jobs e sequente criação do enorme falhanço que foram os computadores pretos da NEXT; e em 1997 com o regresso à casa onde "nasceu" para lançar o iMac, o pequeno computador colorido que foi um sucesso porque toda a gente queria ter um só por ser extremamente giro.
Eu não tenho problema nenhum com filmes "partidos". Muito pelo contrário. Gosto muito de argumentos não-lineares. E neste caso, como é costume, Aaron Sorkin não desilude e consegue habilmente costurar três histórias "diferentes" e distantes no tempo. MAs para mim há algo que falha. A demasiada incidência na vida de Steve Jobs por "trás da cortina" (percebe-se a lógica, já que os fãs tratavam-no [e ainda tratam] como um verdadeiro Feiticeiro de Oz [com todas as implicações que isso traz...]), acabou por transformar um biopic de Jobs no filme em que Jobs vive a sua vida inteira nos bastidores, vãos de escadas, passagens estreitas e garagens subterrâneas. Não me lembro bem, mas acho que há apenas uma única cena de exteriores... A determinada altura o filme torna-se repetitivo e por vez até maçador. A ex-mulher e a filha estão presentes, mas aparecem e desaparecem, assim como toda a restante gente... Parece que o Jobs vivia literalmente num daqueles camarins escuros e distante da realidade e era visitado regularmente por meio mundo que o vinha chatear mesmo antes de ele apresentar um produto novo qualquer... Parece uma paródia. Mas não é.
O que poderia ajudar muito a elevar o filme seriam os actores. Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen e Jeff Daniels são muito bons, mas de alguma foram parecem desligados do enredo. Posso ser só eu, mas nunca consegui "ver" o Fassbender como Jobs. Há algo ali que não bate certo. Foi como estar a ver uma personagem ficcional com o mesmo nome do Jobs, mas que não era "o" Jobs. E ainda por cima dá a impressão que contaminou o resto do elenco.
Os grandes (Danny Boyle) também "falham" e este é o caso. Steve Jobs não é um mau filme, mas também não é um bom filme. Tendo por base, uma personagem tão rica como a figura de Jobs, vindo de um realizador que até é dos mais favoritos, e face à expectativa que foi criada na altura da estreia, Steve Jobs só pode ser classificado como uma enorme desilusão. ●●○○○

O ano é o longínquo 2057. Um grupo internacional de astronautas segue na nave Icarus em direcção ao Sol. A sua missão: detonar uma arma nuclear para reactivar o Sol que entretanto entrou num estado de latência, ameaçando a vida na Terra. Icarus falha e é então enviada uma nova vaga de astronautas para terminar a missão anterior. Mas nem tudo corre como planeado.
Sunshine até nem é um mau filme, mas fico com a sensação que é... apressado. É isso, apressado. Parece que o Danny Boyle (gajo muitíssimo bom atrás da câmara e que aprecio bastante) quis sair da sua zona de conforto e fazer um filme de ficção cientifica, mas lá para o meio chateou-se, percebeu que aquele não era o tipo de filme que gosta de fazer e então decidiu apressar o final do filme. Mas no geral é um bom filmito de ficção científica. Toca em muitos pontos interessantes: as conotações religiosas; o poder enigmático, magnético, hipnótico e quase surreal do sol está muito bem conseguido; as relações de demasiada proximidade (e intimidade) de um grupo de pessoas restrito e fechado tanto tempo no mesmo sítio é exemplar.
Sunshine tem um bom grupo de actores (Mark Strong, Cillian Murphy, Michelle Yeoh, Hiroyuki Sanada, Chris Evans), uma excelente fotografia e especialmente, tem pés e cabeça. É uma história cientificamente credível que sustenta todo o filme. E tem também aquele toquezinho de Solaris que fica sempre bem. É um bom filme, mas a sensação que fica é de que Danny Boyle esteve desconfortável fora do seu meio habitual. É pena, porque fora essa sensação latente e estranha que ficou entranhada, é um filme que se vê muito bem. Podia ser melhor, mas é o que é... ●●○○○


Quando se tem tudo, o que é que se pode querer mais? Mais que tudo. Pode-se ver o filme nesta perspectiva, mas essencialmente Ex Machina conta a história de um jovem programador que ganha uma viagem de sonho quando vence um concurso na empresa tecnológica onde trabalha. Ele irá encontrar-se com o CEO/génio eremita da empresa e participar numa experiência revolucionária: avaliar as capacidades (supostamente) humanas de um robot humanóide com Inteligência Artificial.
Ex Machina, apesar de ser mais um filme sobre AI, é positivamente um bom filme. Nota-se que Alex Garland realizou o filme com todas as influências absorvidas do tempo em colaborou com Danny Boyle, mas principalmente muita influência de Kubrick. Aliás, em determinados momentos, fiquei nitidamente com a ideia que se o Kubrick tivesse feito um filme sobre AI (e parece que esteve quase a fazê-lo) seria, quase de certeza, muito parecido com este Ex Machina. Pelo menos no aspecto estético, acho que saíria semelhante. Mas isso são conjecturas minhas...
O estreante realizador Alex Garland é um nome a estar atento. Apesar do ritmo por vezes descer demasiado, deu muito boas indicações neste thriller de ficção científica. A paranóia e a dúvida latente sobre quem afinal é humano e quem não é, e pequenos pormenores como a frieza e não-emoção numa cena com facas é simplesmente muito bom. Os actores são poucos (Domhnall Gleeson, Oscar Isaac e Alicia Vikander) mas muito bons e com muita intensidade. Uma lufada de ar fresco no género. Sem dúvida, para ver. ●●●○○



127 Hours conta a história verdadeira de Aron Ralston, um daqueles viciados em adrenalina com queda para o montanhismo solitário. É uma história de sobrevivência tanto louca e macabra que só podia ter tido origem na realidade. É daquelas coisas que uma pessoa nunca pensa que lhe pode acontecer. É surreal. E pôs-me a pensar: e se fosse comigo? Será que eu tinha aquela coragem? Será que qualquer pessoa quando confrontada com uma situação destas, reage da mesma forma? Será que o instinto humano mais básico - a sobrevivência - vem sempre ao de cima?
Mais do que a história dramática e corajosa de Ralston, 127 Hours é acima de tudo um tour de force de James Franco e de Danny Boyle.
James Franco está irrepreensível. Enche o ecrã, literalmente sozinho, a dar corpo à aventura e luta de Ralston contra os elementos naturais, após ficar preso durante 5 dias num desfiladeiro isolado. Por preso, quero dizer, preso com a mão esmagada por um pedregulho enorme, inamovível.
Como sou um bocado fascinado por histórias de sobrevivência, já tinha lido sobre a experiência de Ralston nos jornais e sempre achei que seria matéria para filme. Pelos vistos, Danny Boyle achou o mesmo. E fez um trabalho excepcional. Mais uma vez, Boyle, concebe um autêntico manual do realizador. Aguentar 2 horas de filme com um actor sempre na mesma posição, apenas entrecruzando rápidas passagens de memórias, é uma obra assinalável.
Pela simplicidade, mas especialmente pelo grande trabalho de realização, 127 Hours é um filme que mostra que Danny Boyle é um dos grandes realizadores do momento. Ele consegue pegar na mais simples das ideias e fazer um filme com pés e cabeça. Sem dúvida nenhuma que merece ser visto (e revisto). ●●●●○

Neste momento, Danny Boyle é o gajo mais inventivo com uma câmara de filmar nas mãos. Disso não tenho dúvidas. E em cima desse enorme pormenor ainda é o gajo que consegue fazer bons filmes a partir das histórias mais estranhas e ao mesmo tempo mais "normais", como é o caso de Slumdog Millionaire e 127 Hours.
No entanto, Trance não se encaixa no lote dos filmes excelentes que Boyle tem no currículo. Isto porque Trance parece um cocktail: duas partes de Angel Heart, uma parte de Trainspotting e uma espremidela de Inception. Contrariamente a estes filmes, Trance não é um filme excepcional. É só mais um filme. A certa altura, pareceu-me que Danny Boyle fez o filme com intenção de treinar novos meios inventivos de usar uma câmara de filmar. Parece que Boyle estava a descomprimir e para isso fez um filme que ele gostaria de ver e não para o público. Parece que chama a isso de cinema de autor.
Mas o meu problema não é Boyle fazer um filme para se divertir ou não fazer concessões ao público (tem um nu absolutamente integral e a imagem de um gajo a levar um tiro em cheio na "coisa"); o meu problema é o filme ser totalmente desconexo e incoerente.
Trance começa por ser um filme de "golpe" com um roubo audaz de uma pintura valiosa de Goya, passa para a paranóia da hipnose e acaba não se percebe muito bem como. Parece que história foi contada várias vezes, por várias pessoas, de maneiras diferentes. Dei comigo a pensar: "não estou a perceber nada", e isto não acontece muitas vezes. Só acontece quando os filmes não são muito bons.
Até a questão dos actores é incoerente: apesar de bons (James McAvoy, Rosario Dawson e especialmente Vincent Cassel), parecem fazer parte de filmes diferentes. Foram um nítido erro de casting. Falta aquela coisa estranha a que se chama de "química".
Trance tem momentos de puro génio, mas também tem muitos momentos que são uma seca. Apesar do filme ser muito pequeno para os padrões actuais, parece muito longo e que nunca mais acabava. Isso nunca é um bom sinal. E mais do que deixar-me na dúvida, deixou-me muitas vezes confuso. Tirando o ritmo do filme que está muito bem misturado com a banda sonora e da excelente fotografia, não gostei de mais nada. Obviamente, Danny Boyle é muito melhor que isto. Fico è espera do próximo. ●●○○○


 
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