E agora para algo diferente... Um filmito de acção de outros tempos, com a magia do cinema pelo meio. Depois de décadas como o grande herói de acção da sua geração (e se calhar de sempre), Arnold Schwarzenegger decide lentamente começar a reinventar-se. Os músculos já não estavam no auge (que é como quem diz, não vendia bilhetes), a idade começava a pesar e o público já não era o mesmo. E de uma forma muito inteligente, Schwarzenegger começa a passar do género da acção para outro registo mais leve e consensual, a comédia. De um ponto de vista de carreira, foi um passo muito bem dado e muito bem pensado. Primeiro saltaria para comédia, e um dia quem sabe, quando fosse mais velho e já não pudesse andar aos saltos e aos tiros, poderia enveredar por uma carreira mais dramática. Como se pode comprovar, nunca foi levado assim tão a sério que pudesse saltar para os dramas, mas durante algum tempo Schwarzenegger até deu cartas na comédia. Estranhamente, até é um registo que não lhe fica nada mal. Mas antes disso tudo, decidiu unir as duas coisas, a acção e comédia. Last Action Hero é o exemplo perfeito desta junção. Logo à partida é uma sátira aos próprios filmes à "Schwarzenegger" e são inúmeras as piadas com base na sua figura e até do seu "arqui-inimigo" Silvester Stallone.
Last Action Hero é um bom filmito de acção e comédia, e ainda tem um pozinhos de fantasia à mistura, personificado naquele bilhete mágico que faz desaparecer a fronteira entre a realidade e a ficção. É realizado por um dos mestres do cinema de acção da altura, John McTiernan e isso nota-se perfeitamente no equilíbrio da história e na forma como oscila entre a "realidade real" e o mundo fantasioso e estereotipado do cinema. Também ajuda ter actores como F. Murray Abraham, Tom Noonan e Charles Dance nos papéis mais relevantes para lhe dar alguma estrutura. Aliás, apesar de ser "apenas" um filmito de acção, é um filmito com nomes como Anthony Quinn, Robert Prosky, Frank McRae, Jim Belushi e Ian McKellen. Acho que mesmo hoje em dia, num candidato ao Óscar de melhor Filme não se conseguiria encontrar tantos e bons actores como neste "simples" filme de acção. Mas também são muitos os cameos de famosos. É só estar atento, porque aparece por lá muita gente conhecida, nem que seja por breves instantes... Outros tempos... No casting, talvez o que tenha estragado mais o filme sejam as presenças de Austin O'Brien e Bridgette Wilson, que foram nitidamente um erro enorme. Passados tantos anos, e não sei explicar muito bem porquê, mas o miúdo continua a ser irritante.
Last Action Hero foi um flop na altura, porque aparentemente ainda havia muito público para filmes à "Schwarzenegger" e parece que não estavam preparados para que os seus heróis de acção preferidos desaparecessem. Mas acho que ninguém percebeu mesmo é que era uma sátira aos próprios filmes de acção... O que diz muito da crítica e do público de cinema da altura... Curiosamente, e quase de uma forma quase premonitória, este foi um dos últimos filmes do género com alguma substância digna de relevo. Olhando para trás e visto "daqui", parece que Last Action Hero marcou mesmo o final deste tipo de filmes de acção, tiros e músculos. Mas também já era tempo de mudar. ●●●○○
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Nos anos 90, os estúdios arriscavam tudo por um bom blockbuster. Incluindo filmar (quase) exclusivamente em ambientes aquáticos. Não sou grande conhecedor da parte da produção, mas já li bastante sobre o assunto para perceber que isto é uma receita para o desastre. E foi o que aconteceu. São inúmeras as histórias dos problemas decorrentes de filmar neste tipo de ambientes. É preciso ver estes filmes mais antigos para perceber porque é que um estúdio hoje em dia gasta 100 ou 200 milhões de dólares numa produção. É que na altura gastava essa quantia (e foi o caso do Waterworld) e ficava à espera para ver se o público cobria o gasto baseado no feeling que seria um blockbuster. Era um jogo. Às vezes funcionava, outras vezes não, como foi o caso. E ia levando o estúdio à falência. O que os estúdios aprenderam com estes "erros" é que podiam retirar o risco da equação. Se voltassem sempre às mesmas temáticas, se apostassem no que os fãs querem ver, se fizessem uns estudos de mercados e nuns pré-releases privados para limar as arestas, e filmassem em estúdio com um fundo verde de fundo, os estúdios praticamente não teriam risco. E foi o que aconteceu. Por isso é que estamos neste loop de blockbusters que parecem todos iguais, que têm a mesma história e que parecem assentar todos na mesma estrutura. Ninguém vai arriscar gastar 200 ou 300 milhões de dólares e esperar que o feeling esteja certo. Tem de estar certo. Tem de ser um produto vendável e financeiramente positivo. Daí que os filmes mais recentes parecerem não ter "alma". É porque não têm mesmo. São produtos multimédia de grande consumo. Estão na mesma classe dos electrodomésticos. Bem, neste caso é na classe de entretenimento. É mais um lançamento de um novo parque de diversões da Disney. Aquilo dificilmente falha. Não é coincidência que este Waterworld tenha estreado ao mesmo tempo dois ou três parques de diversão com a mesma temática pela Universal Studios. Mas isso é outra história.
Para além de ter durante muito tempo a etiqueta do filme mais caro de sempre, também teve a infeliz marca do maior flop financeiro de sempre. Terá sido porque a história era demasiado à frente do seu tempo? Não sei dizer. Mas em 1995, vir falar de alterações climáticas extremas, derretimento das calotas polares e subida do nível dos mares é capaz de ter sido um dos factores. Waterworld, de Kevin Reynolds, é quase premonitório. Num futuro distante, as alterações climáticas fazem com que a subida do nível do mares cubra toda a Terra de água. Na senda dos clássicos filmes pós-apocalípticos, a humanidade sobrevive mas altera-se radicalmente. Há pequenas comunidades a viver em atóis artificiais e há piratas que os aterrorizam. Pelo meio há o também clássico anti-herói que não se enquadra nas categorias anteriores. O motor de todo o filme é a procura dum mítico sítio com terra firme. O mapa para esse local está tatuado nas costas de uma miudinha, que é perseguida pelos piratas. E assim o anti-herói vai lentamente envolver-se no conflito. A premissa até é boa e a história até está bem esbugalhada; o problema é terem querido transformar um filme de ficção cientifica num blockbuster de acção e explosões. Os grandes estúdios não conseguem desligar-se do típico guião de acção e do bom contra o mau. E assim, simplesmente, Waterworld dissolve toda e qualquer introspecção sobre a temática ecológica e reduz toda a história a uma perseguição do mau ao bom e em que o bom (Kevin Costner), no último segundo, derrota o mau (Dennis Hopper) e fica com a namorada (Jeanne Tripplehorn) no final. A coisa perdeu-se de tal forma que no final nem é uma coisa nem outra. Por isso mesmo, apesar de ter alguns bons pormenores, Waterworld acaba por ser apenas mediano a descambar para o fracote. É pena porque tinha aqui material para um bom filmito. Este é um dos casos em que considero que deveriam fazer um remake. ●●○○○
Para além de ter durante muito tempo a etiqueta do filme mais caro de sempre, também teve a infeliz marca do maior flop financeiro de sempre. Terá sido porque a história era demasiado à frente do seu tempo? Não sei dizer. Mas em 1995, vir falar de alterações climáticas extremas, derretimento das calotas polares e subida do nível dos mares é capaz de ter sido um dos factores. Waterworld, de Kevin Reynolds, é quase premonitório. Num futuro distante, as alterações climáticas fazem com que a subida do nível do mares cubra toda a Terra de água. Na senda dos clássicos filmes pós-apocalípticos, a humanidade sobrevive mas altera-se radicalmente. Há pequenas comunidades a viver em atóis artificiais e há piratas que os aterrorizam. Pelo meio há o também clássico anti-herói que não se enquadra nas categorias anteriores. O motor de todo o filme é a procura dum mítico sítio com terra firme. O mapa para esse local está tatuado nas costas de uma miudinha, que é perseguida pelos piratas. E assim o anti-herói vai lentamente envolver-se no conflito. A premissa até é boa e a história até está bem esbugalhada; o problema é terem querido transformar um filme de ficção cientifica num blockbuster de acção e explosões. Os grandes estúdios não conseguem desligar-se do típico guião de acção e do bom contra o mau. E assim, simplesmente, Waterworld dissolve toda e qualquer introspecção sobre a temática ecológica e reduz toda a história a uma perseguição do mau ao bom e em que o bom (Kevin Costner), no último segundo, derrota o mau (Dennis Hopper) e fica com a namorada (Jeanne Tripplehorn) no final. A coisa perdeu-se de tal forma que no final nem é uma coisa nem outra. Por isso mesmo, apesar de ter alguns bons pormenores, Waterworld acaba por ser apenas mediano a descambar para o fracote. É pena porque tinha aqui material para um bom filmito. Este é um dos casos em que considero que deveriam fazer um remake. ●●○○○
Numa floresta encantada, um jovem (Tom Cruise, numa fase inicial da carreira e ainda com os dentes originais) tenta conquistar o coração da sua amada (Mia Sara), ao mesmo tempo que tem de enfrentar um poderoso demónio chamado Darkness (um irreconhecível Tim Curry), para impedir que este mergulhe toda a Humanidade na escuridão eterna. Pelo meio há unicórnios, elfos, goblins (nunca percebi a diferença...) e todo o tipo de criaturas fantasmagóricas e fantásticas. Legend é um filme pouco conhecido de Ridley Scott, mas do qual gosto imenso. Não é muito conhecido pois é do início da carreira do realizador e na altura, foi um flop enorme. Ridley Scott tinha acabado de realizar dois dos mais icónicos filmes de ficção cientifica de todos os tempos (Alien e Blade Runner) e portanto esta passagem para a fantasia/aventura seria sempre um fracasso. Este novo filme, teria de ser absolutamente espectacular para no mínimo equivaler aos dois portentos anteriores. Não foi o caso e percebe-se bem porquê.
Alguns filmes não estão destinados ao sucesso. Verdade seja dita, Legend tem alguns problemas. Vá lá, muitos problemas. Primeiro, já lhe vi 3 versões diferentes, com durações, enquadramentos e até bandas sonoras diferentes. Segundo, tem um argumento e personagens demasiado básicas: é uma história linear dum confronto do bem contra o mal em que as personagens ou são "boas" ou são "más", não tendo nenhum tipo de nuance. Terceiro, estranhamente está, por assim dizer, num limbo geracional: nem é um filme para crianças, nem para adultos; é demasiado negro para crianças e demasiado infantil para adultos. Ou seja, acabou por ficar sem público. Por último, li que Legend esteve originalmente para ser um filme de terror, e em alternativa, até um filme de acção. Percebe-se que este foi um projecto que desde o início não esteve bem definido. Há uma certa sensação de incongruência durante o filme todo. Parece que ninguém sabia muito bem o que fazer, nem a direcção que o filme levaria. Estas são as razões negativas, mas também tem um lado positivo.
A fotografia é absolutamente genial e provavelmente Ridley Scott teve aqui a sua melhor prestação atrás de uma câmara. Nunca vi um filme que retratasse aquele tom de "conto de fadas" tão bem como este. É das melhores criações de um mundo fantástico que já vi em cinema. As imagens são absolutamente maravilhosas e mágicas. E sem recurso ao CGI! É tudo verdadeiro e feito com cenários e truques de câmara. É verdadeiramente fantástico, parece que tem uma atmosfera própria. Além disso, tem excelentes criaturas e personagens originais, se bem que, lá está, não tenham grande "conteúdo". Destaco, especialmente, a figura do demónio Darkness. É uma personagem que me ficou gravada no cérebro para sempre. Aquele trabalho de makeup é soberbo e icónico. É uma concepção brilhante, tanto no campo prático e físico, como no campo estético. É mesmo de génio.
Legend é já uma pérola antiga, um artefacto arqueológico. Está tão enterrado no tempo, que provavelmente um dia destes, o próprio Scott, redescobri-o com as novas tecnologias e faz-lhe um remake mais moderno. E neste caso, acho que até merecia mesmo um facelift. Tem todo o potencial para isso. Legend não é obviamente o melhor trabalho de Ridley Scott, mas pela fantasia, pela parte técnica e pela própria inocência que emana, é um filme que nunca resisto a (re)ver. ●●○○○
Alguns filmes não estão destinados ao sucesso. Verdade seja dita, Legend tem alguns problemas. Vá lá, muitos problemas. Primeiro, já lhe vi 3 versões diferentes, com durações, enquadramentos e até bandas sonoras diferentes. Segundo, tem um argumento e personagens demasiado básicas: é uma história linear dum confronto do bem contra o mal em que as personagens ou são "boas" ou são "más", não tendo nenhum tipo de nuance. Terceiro, estranhamente está, por assim dizer, num limbo geracional: nem é um filme para crianças, nem para adultos; é demasiado negro para crianças e demasiado infantil para adultos. Ou seja, acabou por ficar sem público. Por último, li que Legend esteve originalmente para ser um filme de terror, e em alternativa, até um filme de acção. Percebe-se que este foi um projecto que desde o início não esteve bem definido. Há uma certa sensação de incongruência durante o filme todo. Parece que ninguém sabia muito bem o que fazer, nem a direcção que o filme levaria. Estas são as razões negativas, mas também tem um lado positivo.
A fotografia é absolutamente genial e provavelmente Ridley Scott teve aqui a sua melhor prestação atrás de uma câmara. Nunca vi um filme que retratasse aquele tom de "conto de fadas" tão bem como este. É das melhores criações de um mundo fantástico que já vi em cinema. As imagens são absolutamente maravilhosas e mágicas. E sem recurso ao CGI! É tudo verdadeiro e feito com cenários e truques de câmara. É verdadeiramente fantástico, parece que tem uma atmosfera própria. Além disso, tem excelentes criaturas e personagens originais, se bem que, lá está, não tenham grande "conteúdo". Destaco, especialmente, a figura do demónio Darkness. É uma personagem que me ficou gravada no cérebro para sempre. Aquele trabalho de makeup é soberbo e icónico. É uma concepção brilhante, tanto no campo prático e físico, como no campo estético. É mesmo de génio.
Legend é já uma pérola antiga, um artefacto arqueológico. Está tão enterrado no tempo, que provavelmente um dia destes, o próprio Scott, redescobri-o com as novas tecnologias e faz-lhe um remake mais moderno. E neste caso, acho que até merecia mesmo um facelift. Tem todo o potencial para isso. Legend não é obviamente o melhor trabalho de Ridley Scott, mas pela fantasia, pela parte técnica e pela própria inocência que emana, é um filme que nunca resisto a (re)ver. ●●○○○
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