Se há filme que merece a classificação de clássico intemporal é Blade Runner. É um prodígio técnico e estético. Acho que mais nenhum filme foi tão à frente no aspecto futurista (ou retro-futurista) como este. É bom lembrar que este é um filme de 1982. É tão antigo que os cartazes promocionais ainda eram pintados! Para quem vê o filme agora não tem noção do que era mundo em 1982 em termos de noções tecnológicas e até estéticos. O mundo era todo colorido e este era um filme negro. O principal responsável é o visionário Syd Mead com o seu "retro-futurismo" que tenho a certeza foi ao futuro e voltou com esquissos. É quase impossível que não tenha sido assim. Foi um filme que me marcou profundamente. Ainda hoje ecoam no meu cérebro frases como "I’ve seen things you people wouldn’t believe", "all those moments will be lost in time, like tears in rain", "Too bad she won’t live. But then again, who does?", "I want more life, fucker!", ou "Quite an experience to live in fear, isn't it? That's what it is to be a slave". A partir do dia em que o vi, todos os outros filmes que já tinha visto tornaram-se "piores" e os que vieram a seguir precisavam de chegar a um fasquia muito mais alta para os considerar "bons". A história, o visual, a música de Vangelis, o estilo dos actores, aquela ambiência húmida, escura e mesclada de culturas, tudo. Mudou-me mesmo! Fez o meu cérebro começar a pensar de uma forma diferente. Pôs-me a pensar como eram ridículos muitos outros filmes que já vira sobre o "futuro".
Mas por muito que se diga bem deste filme, é impossível não mencionar a questão do gosto do público num determinado momento e a apreciação (e interferência) feita pelos estúdios. Infelizmente nunca vi o Blade Runner numa sala de cinema. Espero pacientemente que um dia o reponham, já que agora é um "clássico intemporal". Mas nem sempre foi assim. Muito já li sobre as diversas versões do filme (para além do "original", já vi um Director's Cut, um Final Cut e outras duas versões com algumas mudanças pelo meio e no final) e como isso foi influenciado pelas decisões de executivos de estúdio que obviamente apenas estão interessados no resultado de bilheteira e não nas questões estéticas ou autorais. É a mesma guerra de sempre. Curiosamente, a versão que me ficou no cérebro - e até é a de que gosto mais - é precisamante a versão "cortada" pelo estúdio, provavelmente porque foi a primeira que vi e também a que vi mais vezes. Não sei quantas vezes terei visto o Blade Runner, mas deve andar na casa das dezenas. Sou capaz de reconhecer frames isolados do filme e é provável que saiba os diálogos de cor. Eu sei que é um bocado freak da minha parte, mas isto tem que ver com o VHS. Isto deve ser estranho para algumas pessoas de agora, mas houve uma altura em que se alugava filmes em cassetes, com uma fita magnética que rodava lá dentro do invólucro preto. É estranho mas verdade. Mas o que poderá ser mais estranho é que alugar um filme, queria dizer que se tinha 24 horas para o ver de depois devolvê-lo. Rebobinado. Quer isto dizer que chegando ao fim do filme (e da bobine de fita) era preciso voltar a pô-la no início. Pagava-se uma penalização se não fosse entregue assim! Pode não parecer, mas o mundo era algo totalmente diferente. Questões técnicas à parte, esta questão dos alugueres de 24 horas levava a que freaks como eu que gostavam muito de um filme, a única coisa que podiam fazer era alugá-lo de novo (muito difícil, porque era caro!) ou em alternativa vê-lo várias vezes no mesmo dia, o que também não era fácil. Arranjar outro vídeo para fazer uma cópia directa (o antepassado da actual pirataria) era quase impossível devido ao preço e fragilidade dos VHS's. A única solução era esperar que desse na TV e gravá-lo. Foi o que aconteceu. E como as cassetes "virgens" também eram raras e caras, um gajo tinha de ser muito selectivo, por isso só tinha para aí uns 5 filmes que via insistentemente. Posso dizer que vi dezenas de vezes o Blade Runner e o mesmo se passa com o Mad Max, Raiders of the Lost Ark e o Enter the Dragon. Durante muito tempo foram os únicos filmes que "possuía" e portanto os únicos que podia rever. Bem, estou a divagar para o saudosismo... Seguindo em frente...
Como já disse, Blade Runner nem sempre foi um "clássico". Muito pelo contrário. Quando o aluguei pela primeira vez em cassete, fiquei imediatamente "maluco". Nunca tinha visto nada assim. Pensei que era algo que toda a gente já tinha visto e adorava. Para surpresa minha, ninguém conhecia o filme. E já estou a falar de finais de 80's, princípios de 90's. O filme já tinha 10 anos e ninguém o conhecia. Como é que isso podia ser? Como é que uma obra-prima tinha caído no esquecimento? Eu tenho uma pequena enciclopédia editada nos anos 90 - "Os melhores filmes de todos os tempos" - e o filme nem sequer é mencionado!! Aliás, nessa altura, o Blade Runner nem sequer se chamava só Blade Runner; tinha um sub-título muito sugestivo para ser "comercial": Blade Runner - Perigo Eminente!
(um pequeno à parte relacionado com o título. Desde sempre me intrigou o facto do título nada ter que ver com o filme. Só muito mais tarde li que apesar do filme ser baseado no livro de Philip K. Dick "Do Androids Dream of Electric Sheep", o título vem de um livro de Alan Nourse chamado "The Bladerunner". Mas o título ainda tem uma história mais rocambolesca. O William Burroughs pegou no livro de Nourse e escreveu uma peça chamada "Blade Runner: A Movie" em que descreve o blade runner com uma pessoa que vende instrumentos cirúrgicos ilegais numa sociedade sem direito a cuidados médicos. O Ridley Scott gostou tanto do título que comprou apenas os direitos do título mas não do livro. E fez ele muito bem porque é perfeito.)
Por tudo isto dá para perceber duas coisas muito importantes. A primeira é de que a interferência dos estúdios no corte final do filme não é, para mim, uma coisa necessariamente má; a segunda é que a aceitação (ou não) do público é uma questão bipolar e não é obrigatoriamente um garante de sucesso. Mas chega de "histórias secundárias".
Blade Runner é único e muito à frente do seu tempo. Presumo que esteja para aparecer uma edição especial qualquer porque o filme passa-se no "futuro", mais precisamente em Novembro de 2019. Estamos quase lá. E se alguém tinha dúvidas que mostrava o futuro "correctamente" deixo aqui uma parte da história e o seu enquadramento. Tudo se passa numa decadente cidade de Los Angeles, cheia de poluição e consumismo desenfreado dominada por gigantescas corporações empresariais. O controlo policial é omnipresente. Toda a gente quer sair dali, indo à procura de colonizar outros planetas, pois este já nada de bom tem para oferecer. Tecnologicamente, os humanos são muito evoluídos, dominando completamente a engenharia genética, chegando ao ponto de replicar perfeitamente todos os animais que entretanto se percebe que foram extintos, assim como toda a vida natural. Parece algo assim tão distante e inverosímil? Em 1982, talvez. Hoje em dia já não parece assim uma história tão negra e estranha, não é verdade? Parece que isto está prestes a acontecer...
Mas se as questões sociais e ambientais são tratadas com uma "leveza" quase implícita, a questão filosófica do que é ser humano é tratado mais profundamente. No primeiro plano estão os Replicantes, cópias perfeitas dos humanos, usados como ferramentas para os trabalhos mais duros fora da Terra. Os Replicantes são tão perfeitamente humanos que se tornou necessário criar testes de empatia para distingui-los dos restantes humanos. É interessante que os testes se baseiem essencialmente no tratamento de animais, ou seja, são o indicador principal do que é ser "humano". A dúvida permanece durante todo o filme. Quem é mais humano? Quem tem mais empatia? Será Deckard mesmo humano? Ou apenas uma experiência nova, mais evoluída como a Rachel?
Não me canso de elogiar este filme. É tão complexo e tão pormenorizado que era capaz de estar aqui todo o dia a falar dele, das divergências criativas com o estúdio, do casting que se dava mal e dos problemas na produção, por isso vou fazer uma auto-censura e ficar por aqui. Apenas vou mencionar os actores que lhe deram corpo: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James e Joe Turkel. Encarnaram tão perfeitamente estas personagens que nem sequer imagino outros actores. Apesar de todos os problemas (e ironicamente são sobejamente conhecidos os problemas entre todos eles durante a rodagem) acho que foi mesmo a melhor escolha de sempre num casting. Perfeito.
Blade Runner é uma obra prima intemporal que toda a gente deveria ver. Em Novembro de 2019 vou seguramente vê-lo outra vez. ●●●●● + ●
Até os trailers evoluíram desde o lançamento original desta obra-prima. Eis a nova versão que mostra como hoje as coisas são vistas de uma forma totalmente diferente...
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Há filmes que nos surpreendem sem deslumbrar. Cypher é um desses filmes. É um thriller de ficção científica muito kafkiano (é mais fácil de escrever do que "Philip K. Dickiano"...) sobre espionagem industrial/tecnológica que acaba por descambar numa espécie de lavagens cerebrais em que a dúvida se instala, as motivações verdadeiras das personagens estão constantemente a serem alteradas, sobre quem é, de facto, quem diz ser. Muita paranóia, desconfiança, mas também muito bem escrito e realizado.
Vindo de Vincenzo Natali, o realizador do megaconhecido sucesso Cube, não é de estranhar. E nota-se que parte da mesma mente criativa. Com os semi-desconhecidos Jeremy Northam, Nigel Bennett e Lucy Liu em início de carreira no cinema. É mais uma produção pequena (mínuscula, comparando aos dias de hoje), mas bem conseguida. Vê-se bem. ●●○○○
Vindo de Vincenzo Natali, o realizador do megaconhecido sucesso Cube, não é de estranhar. E nota-se que parte da mesma mente criativa. Com os semi-desconhecidos Jeremy Northam, Nigel Bennett e Lucy Liu em início de carreira no cinema. É mais uma produção pequena (mínuscula, comparando aos dias de hoje), mas bem conseguida. Vê-se bem. ●●○○○
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Sempre que se falar de ficção científica, Total Recall será mencionado. Porquê? Porque é icónico, original, violento e por vezes até é cómico, roçando o satírico. É um filme que marca verdadeiramente pela diferença. Paul Verhoeven conseguiu criar um visual que é tão particular que se torna inconfundível. Quando uma pessoa vê Total Recall não se lembra de mais nada parecido. Só mesmo... Total Recall. Ou outro filme posterior de Verhoeven.
É uma história tão louca, paranóica e original que só podia vir da cabeça mirabolante de Philip K. Dick. E ninguém melhor que Verhoeven para a adaptar ao cinema. Há cenas memoráveis como a da cabeça explosiva da velhota, sem esquecer os muitos personagens mutantes, especialmente aquela com as inesquecíveis três mamas. Este filme é uma soma de todos os excessos dos anos 80. É curioso perceber que nos anos 80 o futuro era visto como sendo sempre muito colorido e recheado de cores fortes... Hoje em dia, o futuro é sempre visto em tons de azul escuro...
A história tem tudo que ver com percepção, perda de identidade, realidade ou ficção e não podia ser melhor. Num futuro próximo, os humanos colonizam Marte e tentam transformar o planeta num sítio habitável. Como o futuro no cinema é sempre distópico, no meio do processo há opressores e oprimidos, com uma "resistência" a intrometer-se na história. Aqui na Terra, um pacato funcionário da construção que tem sonhos recorrentes com Marte, sente um vazio na sua vida e decide recorrer a uma empresa, a Rekall Inc., que garante conseguir implantar memórias iguais às verdadeiras. A Rekall é como uma empresa de viagens, mas sem a chatice de ter que andar com as malas às costas ou lidar com taxistas sem escrúpulos, como diz no filme. E podem-se escolher recordações temáticas, como por exemplo ser agente secreto e estar envolvido numa grande conspiração para salvar o planeta. E é exactamente isso que acontece. O filme está muito bem dirigido porque constantemente somos confrontados com o que é realidade ou o que é uma memória "falsa" implantada, produto da Rekall. Está-se sempre na dúvida sobre quem são os amigos ou os inimigos. E tudo o que parece, pode ser outra coisa completamente diferente.
A combinação improvável de Arnold Schwarzenegger e Sharon Stone estranhamente até funciona. Michael Ironside é um vilão à altura e Ronny Cox, como sempre, dá uma credibilidade aos papéis que é de mencionar: é o típico gajo que uma pessoa adora odiar.
Os efeitos especiais de Rob Bottin ainda se aguentam nos dias de hoje, mas na altura deixaram toda a gente de boca aberta. Nesse aspecto, é um dos últimos filmes "old school". Ainda eram usados truques de câmara, animações em stop motion e miniaturas para os efeitos especiais. A única cena digital presente no filme é aquela em que Quaid passa por uma espécie de raio-x num checkpoint/aeroporto(?) marciano, em que se vêm as armas e os esqueletos dos passageiros. Marcou o final duma era tecnológica no cinema. A banda sonora original é de Jerry Goldsmith, e como sempre, é muito boa.
O sucesso de Total Recall foi tanto que esteve para acontecer uma sequela, baseada noutra história de Philip K. Dick, em que se explorava o lado místico e presciente dos mutantes marcianos. A sequela nunca passou de uma ideia no papel. Mas mais tarde acabou mesmo por chegar às salas de cinema, pela mão de Steven Spielberg, num filme completamente diferente e que toda a gente (provavelmente) já viu: Minority Report. E que por acaso também é muito bom.
Total Recall é um filme de acção violento. Tão violento, e por vezes até sanguinário, que algumas cenas tiveram de ser cortadas para não ser classificado como "para adultos". Mas acima de tudo é um grande filme de ficção científica, com uma excelente história, com muito músculo à mistura, é certo, mas que também tem muito cérebro. Como envolve marcianos e mutantes, se calhar até tem 2 cérebros! ●●●●○
Total Recall, o "novo". Eis um remake que não entendo. O filme não é péssimo e até tem alguns bons pormenores. O que não percebo é porque é que pegaram na história de um filme anterior e fizeram outro completamente diferente, aproveitando apenas alguns elementos. É que quase não ficou nada do original a não ser os nomes das personagens e a Rekall, que até quase nem é mencionada... Não percebo.
O novo Total Recall perde muito porque tem lacunas e muita falta de pormenor. Basta pensar que tudo gira em torno da falta de espaço para viver, mas Quaid (Colin Farrell) vive num apartamento super espaçoso enquanto toda a gente parece viver num enorme bairro de lata. Não tem sentido. Depois, a premissa de falta de espaço deriva do facto do planeta ter sido totalmente devastado numa guerra química... entre quem? Não se sabe. O que se sabe é que só restaram duas federações - Inglaterra(?) e Austrália(?) - onde está apinhada toda a gente que sobreviveu. Mas por outro lado, no meio desta quase destruição, conseguiu-se fazer um túnel no planeta, passando pelo núcleo incandescente, porque as pessoas vivem de um lado do mundo mas trabalham no outro. Ah?! É um bocado rebuscado demais. Até para ficção cientifica...
E depois, pior que os problemas na narrativa de base, é que se fica com a sensação de estar a ver um mix de filmes: o aspecto geral, e em especial, a perseguição de carros flutuantes parece uma cópia de Minority Report, misturado com os nomes e alguns pormenores do filme original, reciclados e espalhados pelo guião. Para quem conhece o primeiro filme, torna tudo desconexo e parece uma colagem. A determinada altura, dei por mim mais entretetido a tentar encontrar referências do primeiro filme, do que propriamente a ver o filme...
O design de produção até está bastante bom, por isso, sinceramente, acho que mais valia terem feito alguns ajustes na história original e criarem um novo argumento que se sairia muito melhor. E isso provavelmente daria um novo filme de ficção científica, se calhar até um bom, e não seria apenas e só um remake pobre de Total Recall. ●○○○○


