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Another 48 Hours tentou capitalizar o enorme sucesso que foi o 48 Hours. Cai em termos de qualidade, porque é mais do mesmo, excluindo tudo o que eram bons pormenores do primeiro filme. Não houve progressão. Foi quase como um novo episódio da série. Está à vista que isto foi uma manobra de estúdio: Vamos fazer uma sequela e vender mais bilhetes, e não uma questão de haver mais alguma coisa para contar ou acrescentar. Do ponto de vista da intenção do estúdio foi uma estupidez porque entretanto passaram-se 8 anos entre os dois filmes. O público provavelmente já nem era o mesmo do primeiro filme. Basicamente, criaram aqui um episódio seguinte, um bocado como acontece hoje em dia. Mas no principio dos anos 90 o público não estava para estas coisas. O pessoal queria ver coisas novas e não repetições ou continuações de histórias. E não perdoava. A dupla acabou, mas ficou o conceito e ainda não parou de ser explorado. Se no primeiro filme elogiei todas as pessoas envolvidas acho que é justo virar o argumento ao contrário e não atirar todas as culpas para a ganancia infinita dos estúdios. Walter Hill, Eddie Murphy, Nick Nolte e toda a restante equipa estiveram mal. Foram simplesmente atrás do dinheiro e pronto, foi isso. Portanto vou dar todo o destaque para os secundários Brion James, Kevin Tighe e Ed O'Ross, gajos que nunca tiveram protagonismo, mas que sempre reconheci como muito bons actores. Entretanto esquecidos pelo tempo, estes três acompanharam-me ao longo de anos e junto têm mais de 300 filmes no currículo. Três pancadas no peito para os grandes secundários do mundo do cinema e de Hollywood.
Another 48 Hours é a sequela típica, precursora dos fenómenos comerciais de hoje em dia: sem nada para acrescentar, sem nada de novo, apenas uma reciclagem de uma fórmula anterior que teve sucesso. Fraquinho, mas ainda se vê. ○○○

John Murdoch (Rufus Sewell) acorda numa banheira num quarto de hotel, sofrendo de amnésia, apenas para perceber que é um fugitivo, perseguido pelo Inspector Frank Bumstead (William Hurt) e acusado de uma série de crimes brutais. Para além de ser perseguido pela polícia, John também é perseguido por uns seres estranhos que conseguem parar o tempo e alterar a realidade.
Para fugir e tentar encontrar respostas para a sua identidade esquecida vai ter a ajuda do Dr. Daniel Schrebe (Kiefer Sutherland) e da belíssima cantora de bar Emma Murdoch (Jennifer Connelly).
Dark City é o filme apresentado por Alex Proyas depois do imenso sucesso que foi The Crow. Nota-se que o salto visual não foi assim tão grande porque a ambiência negra desse filme ainda parece bastante presente, o que é um factor positivo. Mas está um pequeno degrau abaixo (principalmente por causa de... bem não vou dizer...), mas ainda assim um filme muito bom. Um clássico da ficção científica dos anos 90 e um dos grandes filmes de género. É uma estranha mistura:  busca inspiração na estética e narrativa dos film noir dos anos 40 e 50, mas também vai beber a filosofia da ficção cientifica asiática, tudo envolto numa lógica de acção e mistério. Metrópolis encontra o Akira, é a primeira coisa que me vem à cabeça. A história é muito boa e original, mas vai em decrescendo: ou seja, começa (muito)melhor do que acaba.
Excelente design de produção. Aliás é tão bom que partes do cenário foram transferidas para as filmagens do Matrix. Sem querer misturar os dois conceitos, há uma grande ligação entre os dois filmes. Estreados com um ano de diferença, os dois partilham uma estética "negra" e ambos lidam com a questão da natureza humana e do que é realidade e o que não é. No Matrix as máquinas comandam os seres humanos na sombra que não têm noção da realidade; no Dark City são seres com uma mentalidade colectiva que fazem experiências em humanos e querem descobrir os segredos da alma humana. (Porra! Já falei de mais...) Apesar das diferenças óbvias, pessoalmente, que na altura vi os dois filmes no cinema com pouco tempo de intervalo, nunca consegui verdadeiramente dissociar um filme do outro.
Tem bons actores, excelente fotografia, muito boa realização e especialmente, um grande história. Dark City é um daqueles filmes que me ficaram no cérebro. É tipicamente negro e tipicamente Alex Proyas. Um dos meus filmes preferidos no campo da ficção científica.  ●●●

Depois do sucesso de Best of the Best, Eric Roberts, Phillip Rhee e Chris Penn regressam para... Best of the Best 2. Nesta altura, o pessoal dos títulos dava cartas na originalidade... Nesta nova história, já não há torneios de taekwondo, mas sim tiroteios, explosões e no centro da história está uma arena underground cujo dono, um gajo cheio de músculos chamado de Bracus (Ralf Moeller) promove lutas sem regras e até à morte. Chris Penn já não queria participar mais nestes filmes e por isso morre logo no início. Roberts e Rhee ficam assim com o ónus da vingança do amigo como era tão popular nos filmes dos anos 80 e princípios dos 90.
Há uma única participação que não é medonha: é a do Sonny Landham, actor secundário que apareceu em dezenas de filmes manhosos, e que sempre pensei que teria potencial para ser um bom actor dramático, mas que pelos vistos nunca colou. Não sei explicar porquê, mas sempre achei que tinha um carisma especial.
No final de Best of the Best 2, o mau perde, o bom ganha e toda a gente fica feliz. Pelos vistos, também este "2" foi um sucesso, porque sei que ainda há um Best of the Best 3 e também um 4. Já vi partes desses filmes, e apesar de não parecer possível, parecem-me ainda piores que os dois primeiros. Pode ser que um dia os veja, mas para já vou guardar os meus neurónios em segurança. ○○○

Na capítulo do terror, há um nome incontornável: Stephen King. Ponto. Aliás, ponto final, parágrafo. Para mim é o derradeiro criador das histórias de terror. Stephen King é um senhor e como tal sou grande fã. Já li muita coisa dele e raramente desilude. O homem tem mesmo jeito para a coisa. Se os livros são muito bons, seria lógico que resultassem em grandes adaptações para cinema, até porque King tem uma escrita muito "visual" e em certos aspectos quase cinematográfica. Em princípio seria uma vantagem, mas como se sabe, isso não é verdade. Os filmes decorrentes dos livros de Stephen King têm alternado entre os muitos bons e os fraquitos. Mas o problema é sempre o tratamento cinematográfico, nunca a história.
Li muitos livros e vi muitos filmes "Stephen King" nos anos 80 e 90, talvez a altura mais profícua do mestre. Algures no início dos anos 90, lembro-me de me emprestarem um livro enorme com o título enigmático de "It". Era um "trambolho". Um livro gigante que parecia ter umas 1000 páginas. Como estava em inglês e como sabia que era sobre um palhaço assassino, acabei por ficar apenas pelas primeiras folhas. Não tenho nenhuma fobia com palhaços, mas também não tenho grande apreço pela figura. Não porque me metam medo, mas porque sempre tive... pena dos palhaços. Em miúdo ia ao circo e ficava sempre chateado quando entravam os palhaços. Não sei como são agora, mas nos anos 80, só havia um numero de palhaços: o rico e o pobre. O palhaço rico pregava partidas ao palhaço pobre que ficava sempre a perder e era o gozo de todos. Pode parecer estranho, mas aquela situação sempre me angustiou. Ver ali uma pessoa a ser atirada ao chão, a levar chapadas e basicamente a ser gozada por toda a gente, deixava-me sempre triste. Devo ser empático demais, porque aquela situação era sempre muito constrangedora. Não gostava nada daquilo. Assustador, nunca é a minha primeira palavra para palhaços. É mais pena. Mas adiante...
Isto tudo para dizer que não gosto muito de palhaços e que por causa disso nunca li o It, apesar de estar na minha lista há anos. Mas pouco tempo depois da cena do livro, num video-clube qualquer apanhei uma cassete dupla (nome muito pouco técnico que se dava a filmes que vinham em duas cassetes por terem durações muito longas [e sim, havia uma limitação na fita magnética dos VHS...]) com a adaptação para filme do It. E desta vez, lá estava o palhaço demoníaco na capa. Pareceu-me bem, até porque nessa altura, terror era o meu tema de eleição. A expectativa era alta. A decepção foi ainda maior. Quando me emprestaram o livro foi com a premissa de que era mesmo muito assustador. Já o filme não foi assim tanto. Na altura, talvez eu estivesse tarimbado para outro tipo de terror mais hardcore, mas aquilo pareceu-me tudo muito fraquinho. Os efeitos especiais até eram jeitosos (para a altura), mas o susto era pouco. Era um bloco enorme e maçudo que pareceu arrastar-se lenta e penosamente durante mais de 3 horas, com muito pouco terror e uma história muito confusa que abarcava décadas da história dos sete miúdos e do palhaço Pennywise, cheia de flashbacks e flashfowards... que descamba no final, inesperadamente, em lutas nuns túneis contra uma aranha extraterrestre gigante... WTF?!? Para ser directo: naquela altura, detestei o filme. Pensei que tinham corrompido mais uma vez a escrita genial do Stephen King. Mas depois confirmei que a história era mesmo aquela e pelos vistos até era bastante fiel ao original, o que nem sempre aconteceu noutras adaptações. It ficou-me como sendo um espinho na reputação de King. Durante anos, usei-o como o exemplo de que até os grandes mestres, por vezes, metem água. Mas uma coisa é o livro, outra coisa é o filme. E o It sempre me ficou como um filme mau, penosamente longo e extremamente chato. Só anos mais tarde é que descobri que, afinal, o que tinha visto era uma mini-serie de TV, numa versão "colada" (dos dois episódios da série) como se fosse um só filme. Mas nem isso justificava a pouca qualidade e principalmente, a baixíssima intensidade do filme de Tommy Lee Wallace. Sendo que o vi para aí em 1991, admito que já pouco me lembro para quantificar porque é que era mau. Harry Anderson, Dennis Christopher, Richard Masur, Annette O'Toole, Tim Reid, John Ritter, Richard Thomas já nada me dizem. Tive de me socorrer da net para me lembrar das caras. Apenas Tim Curry como Pennywise é memorável. Nesse aspecto, é irrepreensível. A make-up e a interpretação de Tim Curry foram o suficiente para nunca mais me esquecer do It e do Pennywise. A trupe dos miúdos também retive. Naquela altura, havia uma série de miúdos que eram recorrentes em filmes como Emily Perkins, Ben Heller, Brandon Crane, Jonathan Brandis e Seth Green e que acabaram por me ficar na memória. Não faço a mínima ideia por onde andarão hoje em dia, mas é provável que ainda façam uns papéis secundários por aí. Ou talvez não. Mas tirando o grupo dos miúdos e o Pennywise, pouco mais mais restou na memória. O que é muito pouco. O resto foi demasiado fraco para perdurar na memória. Mas ainda assim, face ao sucesso do recente remake, acho que merecia destaque e uma nova reposição iria dar-lhe novos méritos.  ○○○

Quando se fala de música rock é impossível não mencionar os Queen. Fala-se muitas vezes nas melhores bandas do mundo, e é sempre um tópico quente. Gosto de muitas bandas rock míticas: Led Zeppelin, The Doors, mas tenho um lugar no meu cérebro especialmente para os Pink Floyd. Quando penso na melhor banda de sempre, lembro-me sempre dos Pink Floyd em primeiro lugar. É um tipo de música que me toca fundo no cérebro. Mas depois ponho a rolar um Greatests Hits dos Queen e começo a ver a quantidade de hits, singles e músicas que passaram directamente para a cultura pop, e então tenho de admitir que os Queen são provavelmente a melhor banda do mundo. De sempre.
Contrariamente às outras bandas lendárias, a música dos Queen é algo incoerente. Ao passo que a sonoridade de base de uns Doors ou Led Zeppelin é mais ou menos linear e constante ao longos das décadas, a música dos Queen vai mudando e passando por vários estilos. Quase ao ritmo da mudança visual do Freddy Mercury... E estranhamente, isto nunca lhse retirou sonoridade. Passa do glam rock dos 70's, desdobra-se em vários estilos pelo meio dos 80's e termina num pop mais leve nos 90's juntamente com um lado mais básico e pessoal do Mercury. Mas a música permanece sempre excepcionalmente boa. É estranho. Isto nem devia ter acontecido. Já vi alguns documentários sobre os Queen e por isso conheço relativamente bem os elementos da banda. E a minha única explicação para aquilo funcionar sempre bem em termos musicais é o background profissional deles. Tirando o Freddy Mercury - que nasceu para ser performer e nunca poderia ter sido outra coisa -, todos eles têm formação académica e/ou técnica: Brian May é formado em astrofísica, Roger Taylor formou-se em biologia e John Deacon estudou electrónica... Isto é tudo pessoal muito técnico. Acho que é por causa disso que a música é tão... tão... Não sei explicar. Acho que de alguma forma eles conseguiram alinhar as músicas e as batidas com os nossos chacras, o palpitar do coração ou com a via láctea e os planetas... Não sei... Sei que a música dos Queen "funcionou" durante os 30 anos de existência da banda e continua a bater forte em todas as novas gerações, como se a música deles fosse lançada agora pela primeira vez. Sempre que aparece um filme ou um anúncio com uma música dos Queen, dá a impressão que a banda ainda existe e que aquela composição é de "agora". Os Queen atingiram a intemporalidade.
Como já sou meio-jurássico ainda me lembro do Live Aid do Bob Geldof, em 1985. Passaram por lá as maiores bandas e os melhores cantores do mundo naquela altura. Desses, entretanto já se eclipsou tudo da memória... tirando aquela performance dos Queen. É uma coisa que fica para sempre. Vindo de uma banda que se estava a separar e que já não tocava há algum tempo... é preciso ser mesmo muito bom para dar um show daqueles.
E depois há Bohemian Rhapsody. No campo da música moderna, tipo pop e rock, acho que não há dúvidas que é a melhor música de sempre. Nunca conheci ninguém que não gostasse da música. Mas para além da estranheza daquela junção marada de estilos musicais e operáticos, há algo naquela música ainda mais profundo. A letra e as performances do Freddy têm um carácter tão estranhamente premonitório que se torna até assustador. Parece que ele sabia como iria acabar e como tudo se desenrolaria no final... Bem, se calhar estou novamente a ver coisas onde elas não existem... Mas é que eu sinto.
Os Queen faziam músicas que são inexplicáveis e facilmente reconhecidas por qualquer pessoa no mundo inteiro. Daí que fazer um filme sobre a banda e as raízes das músicas, nunca seria uma tarefa fácil e um risco muito grande. Mas há que dizer que Bryan Singer fez um bom trabalho. Bohemian Rhapsody é um filme totalmente aceitável porque capitaliza na atracção quase visceral e também intemporal da música do Queen. Foi um enorme êxito de bilheteira, o que para mim não foi surpresa nenhuma. Acho que qualquer filme mixuruca (o que não é o caso) que tivesse banda sonora dos Queen seria sempre bom. Mas à parte da música, o filme realmente está bem feito, porque assenta num guião perfeitamente estruturado. É um biopic bem feito, bem realizado e muitíssimo bem interpretado por Rami Malek. E aqui há que mencionar o protagonista. Ter uma cara parecida com o Freddy Mercury não é esforço nenhum. Mas há que lhe dar todo o mérito pela forma como lhe deu "corpo" e como mimetizou muitas daquelas nuances tão típicas e únicas do Freddy Mercury. E isso era provavelmente a coisa mais difícil de conseguir. Já o restante pessoal (Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello) faz essencialmente de secundário e acaba mesmo por ser secundário, porque só lá estão devido às parecenças físicas com a banda original e para servir de suporte para a grande performance de Malek. Não deixa de ser curioso que os Queen tenham aparentemente "sofrido" do mesmo problema... Apesar de ser um filmito bastante "normal", Bohemian Rhapsody, acaba por ser agradável porque mostra um pouco o "interior" da banda, os confrontos e as fontes de inspiração para algumas músicas, assim como toda a dualidade e demónios do grande monstro e génio dos palcos que foi Freddy Mercury. E só por isso já vale bem o bilhete. ●●●○○

Após a explosão da sua lua Praxis, o Império Klingon encontra-se à beira do colapso. A única solução é a paz com a Federação dos Planetas Unidos. Kirk e a sua trupe irão mediar as negociações de paz, mas são enganados e envolvidos numa conspiração militarista que ameaça tornar-se numa nova guerra e eventualmente presos num planeta gelado. Star Trek VI: The Undiscovered Country não acrescenta muito ao historial da serie. Parece mais um episódio da série que propriamente um filme. Para além do pessoal do costume, que nitidamente já estava "velho demais para aquelas merdas" e farto daquele mesmo cenário de sempre da Entreprise, há também uma jovem Kim Cattrall, o Kurtwood Smith de sempre e um senhor do cinema que dá pelo nome de Christopher Plummer , mas que aqui decidiu disfarçar-se de klingon-pirata. Na cadeira do realizador, desta vez estava mesmo um realizador a sério (Nicholas Meyer) que curiosamente, abre e fecha o ciclo da trupe original do Star Trek. Foi uma viagem longa, desde os anos 60 até à década de 90. Por muito que não se goste dos filmes, há que reconhecer o impacto cultural da saga e a sua longevidade. Mas, sinceramente, acho que o "cansaço" já obrigava a uma paragem, ou pelo menos, a uma mudança. E foi exactamente isso que aconteceu a seguir. ●○○○○

Ainda hoje não entendi muito bem como toda esta história contaminou o mundo. Acho que foi uma espécie de estranho acordar (violento) para a realidade. A ideia pré-concebida que uma pessoa tem da patinagem artística (sendo que "uma pessoa", sou eu...) é quase a mesma do bailado clássico: apenas meninas lindíssimas com um Q.I. do tamanho do Einstein participam nestas provas, e para além da beleza e inteligência quase sobre-humana, ainda suplantam os restantes seres humanos vulgares com uma incrível aptidão para um impossível equilíbrio, força e destreza física. Bem, Tonya Harding é exactamente o oposto disto tudo: é oriunda de um meio pobre, mergulhada com uma vidinha de merda com agressões e violência constante à mistura... Se bem que em abono da verdade, ela possuia um dom que era o da patinagem artística, até porque a determinado ponto do carreira foi provavelmente a melhor patinadora do mundo... É quase uma vida de rockstar decadente a imiscuir-se no elitista meio da patinagem artística de alto rendimento. Nunca iria funcionar bem, e claro está, não funcionou. Claramente posta de parte pelo resto da classe desportiva, com a vida feita num frangalho e com a agravante de estar rodeado por uma maioria de personagens absolutamente tóxicas, esta história só podia acabar mal.
Acho que foi um pouco por causa disto tudo que no princípio dos anos 90, a rivalidade Tonya Harding/Nancy Kerrigan acabou por chegar aos olhos e ouvidos de todo o mundo. Foi algo tão dispare, estranho e inesperado que acabou por chamar a atenção de toda a gente. Foi como se os irmãos Coen estivessem a "dirigir" a realidade... É talvez a característica mais marcante dos anos 90 e a razão porque muita gente não gosta particularmente desta década: é um acordar pessimista (ou realista?...) para a realidade negra em contraposto com o exagero colorido e despreocupado dos 80's. E logo a seguir ainda apareceu a cena do "simpático" OJ Simpson... Dá que pensar...
I, Tonya é rodado em jeito de documentário com os intervenientes a comentarem abertamente as situações mirabolantes que nos vão sendo apresentadas, além de que há muitas quebras da "4.ª parede", pormenor que gosto (quase) sempre. Vai oscilando entre um drama familiar de violência doméstica e o documentário de prestação desportiva, aqui e ali pontilhado por uma comédia muito inteligente devido às situações hilariantes em que Harding se vai metendo, mas principalmente devido aos comentários cáusticos e impróprios da mãe, que é absolutamente psicótica.
Enormes destaques para Allison Janney como a mãe irascível e, obviamente, Margot Robbie como uma perfeitamente imperfeita Tonya Harding. Sebastian Stan e Paul Walter Hauser são irritantes, mas no bom sentido. Acho que não há ninguém no casting que falhe. É simplesmente um conjunto de actores impecável e exemplarmente bem dirigidos por Craig Gillespie que assina também uma realização imaculada. Excelente. Nada a apontar.
Mesmo não conhecendo a fundo os contornos, lembro-me bem desta história esquisita. Até ver este I, Tonya, tinha a ideia já longínqua que ela tinha mesmo tentado sabotar a prestação da colega de profissão. Agora já não tenho tantas certezas. Este filme parece quase um limpeza dessas ideias que ficaram e gera bastante ambiguidade e dúvida. A ser tudo verdade (dentro da dramatização) Tonya Harding merecia ter um filme assim. Uma vida assim tão preenchida, rocambolesca e trágica merece sempre um bom filme. E I, Tonya é um filme muito bom. A sério. Muito bem feito. Para ver com atenção. ●●●●○

E agora para algo completamente diferente... Steven Seagal. Os filmes do Steven Seagal não mudam muito. Até meio da década de 90 vi-os todos porque sempre fui fã dos filmes de artes-marciais, ou como se dizia da altura "filmes de porrada", e estes eram uma evolução para os filmes de acção típicos dos anos 80. O Steven Seagal tinha um estilo de porrada muito próprio e eu gostava disso. Mas a determinada altura os filmes parecem sempre o "mesmo" filme. Ele faz sempre o mesmo papel (um polícia/detetive incorruptível), na mesma história (alguém mata um dos seus familiares ou amigos e ele vai procurar vingança). Depois de 5 ou 6 filmes já não dá para aguentar mais. É como estar a ver Steven Seagal a fazer a personagem de... Steven Seagal... Mas, para a altura - e repito, para a altura -, os primeiros filmes até eram aceitáveis. Neste caso, o Out for Justice, o filme de acção típico naquela altura peculiar de transação entre os 80's e os 90's. Como não podia deixar de ser, Seagal faz de detetive em busca de vingança pela morte de um amigo polícia, às mãos de um mafioso tresloucado pelo abuso de drogas, neste caso interpretado pelo excelente William Forsythe. Este era um actor muito bom dos anos 90 que infelizmente não colou nos anos seguintes. O mesmo aconteceu com Jerry Orbach e Gina Gershon, outros nomes dos 90's que entretanto caíram (quase) no esquecimento. O problema é que entravam nestes filmes mais fraquinhos e não tinham tantas oportunidades como as que existem agora. Outros tiveram mais sorte como Julianna Margulies e John Leguizamo que só estavam a começar nesta altura e assim puderam aproveitar o boom nas produções cinematográficas.
Out for Justice tem como principal factor positivo não ser (ainda) ridículo apesar de muito datado no tempo. As cenas de acção até são boazitas e ainda actuais e a história apesar de banal, tem espinha dorsal e é totalmente aceitável. Classifico melhor estes filmes "antigos" do que grandes produções atuais, porque me lembram da simplicidade de outros tempos, do VHS, e de uma realidade de cinema que já não existe. É simplesmente um caso de puro saudosismo... ●●○○○

Assassins é uma daquelas surpresas agradáveis. Um gajo pensa que vai ver uma chachada de acção e porrada sem pés nem cabeça, e acaba a divertir-se a ver uma chachada de acção e porrada mas com pés e cabeça. Estão a ver? É possível fazer filmes de "entretenimento" que não são totalmente estúpidos. Assassins é uma história bem montada sobre assassinos profissionais em confronto e os seus alvos. Bem escrito e bastante "comestível". É estiloso, tem acção q.b. e aquele toque "antigo" de thriller. (Deve ser mesmo de ser "antigo" e dos actores serem todos adultos e não parecer que acabaram de sair dum programa da Disney). Sylvester Stallone, Antonio Banderas e Julianne Moore, todos "jovens". Quase que nem me lembro deles assim.
É um bom filmito de acção de Richard Donner, um dos grandes realizadores "comerciais" do século passado. Também ajuda estar muito bem escrito. Um facto curioso é que o guião é da responsabilidade da excelente dupla de irmãs realizadoras Lilly e Lana Wachowski, mas que na altura eram os irmãos argumentistas Larry e Andy Wachowski (porra! o filme é tão antigo que entretanto os argumentistas até já mudaram de profissão... e de sexo...)
Assassins é um daqueles filmes que encaixava numa categoria específica de cinema dos anos 90 - entretanto extinta - que se chamava "filme sério de acção". Não é nada de espectacular, mas vê-se bem. ●●○○○

Uma mulher lindíssima contrata um ex-militar, perito em explosivos, para vingar a morte da sua família às mãos da máfia de Miami. Eis o filme de acção/thriller à maneira dos anos 90. Muita acção, grandes explosões (aqui o perito em explosivos é mesmo para justificar as explosões...), muita sexualidade subliminar (e algumas maminhas) e muita testosterona envolvidas numa história de vingança sem grandes desvios. Os filmes desta altura ainda tinham todo o ADN dos anos 80, mas começavam a fazer uma mudança gradual para terem um ar mais sério e mais realista. Eram relativamente bonzitos de se ver, apesar de seguirem sempre o mesmo esquema de história. Este The Specialist, de Luis Llosa não é bem o caso. Vive essencialmente das suas "estrelas": Sylvester Stallone (já na sua fase descendente de carreira, quando começava a parecer velho de mais para ser um herói de acção, mas novo demais para ser um actor dramático), Sharon Stone (no pico da beleza e sensualidade), James Woods (um excelente rival),  Rod Steiger (um nome para dar credibilidade ao filme) e o mauzão seboso típico dos anos 80/90's, Eric Roberts. Tudo o resto é tirado do text-book dos filmes de acção dos 80's. É isso que estraga estes filmes: são muito "chapa4". Parecem todos iguais. Ironicamente, ainda hoje em dia, continua a ser muito utilizado, e continuam a sofrer do mesmo problema. É uma peça histórica, mas sem muito valor. ●○○○○

Dark Angel é mais pérola dos anos 80. Vê-se logo pelo cartaz. É impagável! Apesar de ter estreado em 1990, continua com a mesma lógica de filme de acção e porrada, meio nonsense e cheio de maus actores. Os duplos tinham trabalho com fartura e o CD era uma inovação tecnológica avançadíssima e estava na berra.
Dolph Lundgren, um dos grandes bons/maus actores de acção faz o papel de um detetive durão (em parceria forçada [como também era normal] com Brian Benben) que tem de enfrentar um extraterrestre (!?) que vem à Terra com a intenção de obter uma droga tão rara que só se encontra nos seres humanos. O que começa por ser uma investigação sobre homicídios rapidamente se transforma numa caça ao extraterrestre, repleta de explosões, perseguições automóveis, muita porrada e "bocas" com piadas secas... É... É um filme de acção dos anos 80/90... Tudo era permitido, tudo podia acontecer... e acontecia mesmo. Por isso é que estes filmes eram sempre fixes, mesmo sendo maus.
Dark Angel é o título original que sempre conheci, que mais tarde foi "renomeado" para "I Come in peace" para não entrar em conflito com mais uns filmes que também têm o mesmo nome. Diga-se de passagem que "I Come in peace" é provavelmente o título mais horrível que já vi darem a um filme.
Apesar de todas as atrocidades cinematográficas normais nestes filmes dos 80's e 90's, a história de base até nem é má, como é costume. A falta de recursos financeiros normalmente obrigava a que se esmerassem um bocado mais na história. É pena que se esquecessem de tudo o resto... Podia-se facilmente limar umas arestas num remake e ficar com um bom filmito. Só o trailer diz tudo... ●○○○○

Há coisas que nos marcam para sempre. Como por exemplo, ter um prego espetado na cabeça. Não foi assim tão literal, mas Hellraiser marcou-me profundamente. Tenho que admitir que durante algum tempo (se calhar até demasiado) fui um viciado em filmes de terror. Isso quer dizer que nos anos 80 e 90 vi praticamente tudo o que podia ver dentro do género. Procurava os filmes de terror mais marados que conseguisse encontrar, sendo que marado quer dizer gore extremo. Vi coisas inacreditáveis e até consegui ver filmes raros que ainda hoje continuam banidos ou mesmo proibidos em muitos países. Com o tempo, acabei por me cansar da temática, e hoje em dia, dificilmente vejo um filme de terror.
A razão desse vício nem tinha propriamente que ver com a temática; era tudo por causa dos efeitos especiais. Numa altura em que não existiam efeitos digitais, quando numa cena alguém tinha de perder a cabeça, tinha mesmo que se fazer um modelo igual ao actor e arrancar-lhe a cabeça. Não quer dizer que tudo tivesse de ser tão violento. Os filmes de ficção científica também sempre foram terreno fértil para efeitos e também os vi quase todos exactamente pela mesma razão. A diferença entre a ficção cientifica e o terror era a referência. Um monstro extraterrestre tem muito mais margem para dissimular os efeitos que a agressão num corpo humano. (esta conversa está a tornar-se estranha...) Resumindo: nem gostava propriamente dos filmes de terror, só queria era ver novos efeitos e tentar perceber como é que os técnicos os faziam. Por isso é que também tenho uma grande colecção de livros e revistas da especialidade. Adiante...
Um dos problemas dos filmes de terror nos anos 80 e 90 é o mesmo problema que os filmes hoje em dia têm: praticamente não tinham uma história (era quase sempre uma perseguição de um assassino/demónio/monstro ao actor principal) e/ou eram sequelas. E também partilhavam outra característica: eram dos filmes que tinham o melhor rácio de custo na produção/lucro na bilheteira. só para se ter uma ideia, Hellraiser tinha um ridículo orçamento de 1 milhão de dólares e facturou 20 milhões. Tentador, não é? Consequentemente, havia uma autêntica invasão de filmes de terror e ainda por cima potenciado pelo aparecimento do VHS nos 80's e, mais tarde, do DVD nos 90's. Volta e meia lá aparecia uma história original, tinha sucesso na bilheteira, e a partir daí era sempre a mesma coisa. Pior ainda no campo do gore, onde para além de não haver uma história decente, tudo se resumia a apenas tripas sobre tripas.
Raramente havia algo de novo, e nesse aspecto, Hellraiser foi completamente diferente. Por trás do sangue e das vísceras existia mesmo uma história, que por acaso até era muito boa. Cliver Barker com os seus mundos, personagens e ambientes extravagantes, sexualmente carregados, já era bem conhecido no meio. Ninguém esperava é que ele fosse realizar um filme e ainda por cima com base no seu próprio livro. Também é sobejamente conhecido o reconhecimento dos trabalhos de Barker, por parte do próprio rei do terror, Stephen King.
Hellraiser começa com um artefacto mágico antigo (um cubo?) que permite abrir um portal para uma dimensão paralela, de onde saem seres maléficos que levam o sofrimento ao extremo do prazer e da dor. O mais icónico dos quatros "monstros" que vêm dessa dimensão infernal é precisamente Pinhead, um ser com a cara retalhada e pregos espetados na cabeça. É tão fora do normal, tão distinto e com tão boas deixas, que acabou por chocar e ao mesmo tempo entrar na cultura pop. "No tears, please. It's a waste of good suffering"...
A história por trás do sangue é boa, mas os actores são maus. Escapam o Andrew Robinson e Clare Higgins. O resto (e nem há muito mais casting) é um bocadinho a descair para o amador, para não ser mais violento...
Um destaque para os efeitos especiais. Num filme de terror/gore, os efeitos são a cereja no topo do cadáver. E num mundo pré-efeitos digitais, fazer um filme destes era um desafio enorme. Neste caso, uma produção britânica de baixo custo, os efeitos são fixes por serem tão gore e... maus. Era a velha máxima da altura: não consegues fazer bons efeitos, então choca-os...
Hellraiser é a estilização máxima do gore. É um gore clássico. Tirando a história original, objectivamente, como filme é uma nulidade, mas leva 3 estrelas, pura e simplesmente por motivos pessoais. ●●●○○

Lost in Translation tem algo que o transcende como filme. Tal como Trainspotting uns anos antes, é mais que um filme, é uma marca geracional. Não é pela história de amor estranha e diferente, não é pela cultura e modo de vida japonês tão próprio, não é pelo contexto de deslocamento, nem é por nada em especial. É por conseguir identificar-se com toda uma geração que nessa altura (2003) também parecia que estava deslocada do seu habitat natural, que estava desiludida com o que tinha à mão deixado por uma incompreensível geração anterior, um futuro incerto sem caminho delineado, a querer o que não podia ter, à espera de algo que nunca chega.
Nos anos 90, Douglas Coupland popularizou o termo Geração X, para identificar um grupo de jovens que estava meio perdido num mundo em mudança acelerada e que queria lutar contra qualquer coisa que não sabia muito bem o que era. Mas nunca fui adepto destas classificações porque são muito estanques, e esta coisa das gerações é muito subjectiva. Mas para mim, Lost in Translation tem um significado especial, porque fecha o ciclo duma geração que tinha visto o mundo mudar radicalmente desde os anos 90. Era altura de deixar de "lutar" contra a desilusão e aceitar a realidade o melhor possível. Lost in Translation também tem qualquer coisa disto à mistura... Estou a divagar...
O mérito vai todo para o génio de Sofia Coppola que conseguiu capturar os pormenores, mais que o the big picture. Muitas vezes ouço dizer que o mais importante é ver o contexto geral, mais isso faz com que estejamos todos muitos distantes, não é verdade? E assim acabamos por não conseguir ver nenhum dos pormenores, que por vezes são muito mais importantes e belos que a imagem no seu todo... E estou a divagar novamente...
Lost in Translation é um filme sem falhas mas de difícil catalogação: é um drama, um romance, uma comédia? Não consigo definir. A história de Coppola é envolvente, humana, dramática, tocante, divertida, romântica e bipolar, tal como a vida é. Tem dois excepcionais actores, Bill Murray e Scarlett Johansson, que são totalmente a "alma" do filme. Fazem o par mais romântico, mas também mais improvável dos últimos anos. São imensamente diferentes um do outro, mas nota-se uma química genuína. Tem uma fotografia lindíssima que dá logo vontade de viajar até Tóquio para cantar karaoke e tem uma banda sonora alternativa (que guardo religiosamente) ainda melhor. Está perfeitamente escrito e realizado por Sofia Coppola. Um clássico instantâneo. Não tenho nada a apontar... Para ver sempre que possível. ●●●●●


Como grande parte do pessoal da minha geração sabe, os Nirvana vieram preencher um vazio. No início dos anos 90 parecia que existia uma necessidade no ar. Sentia-se que era preciso power na música. Que era preciso regressar ao low-fi, às guitarras desafinadas e aos rifles potentes. Era preciso que alguém aparecesse em palco e partisse aquela porcaria toda. Era preciso gritar, dar uns berros, partir umas guitarras no amplificador. Era preciso rebentar... O pessoal já estava farto de cabelos com gel, fatiotas a condizer com os sapatos, coreografias bem ensaiadas e músicas pop polidas até à exaustão. O metal não era solução: tinha calças mais justas que collants, cabelos tão bem tratados e longos não era para toda a gente e, além do mais, até o metal tinha baladas... O punk, idem aspas, com a agravante que as considerações estéticas eram ainda mais gritantes e discutíveis, com a excepção das botas pretas de tropa. Era preciso algo novo, mais desleixado, mais cru, mais individual, mas ao mesmo tempo poderoso e libertador. O que apareceu foi o grunge, uma mistura de coisas novas e antigas, que não condizia com nenhum rótulo conhecido. Era um capítulo novo. O grunge parecia-se com muita coisa e com coisa nenhuma. E a primeira banda associada a esse novo estilo que ninguém percebia muito bem o que era (acho que ainda não se percebeu) foi precisamente os Nirvana. Uma banda atípica naquela altura: eram só três elementos, desgrenhados e o vocalista não era "bonito", nem sorria para a câmara. De uma vez só, os Nirvana preencheram todos os vazios. Aquilo era poderoso, cru e, mais importante que tudo, parecia ser verdadeiro. Parecia mesmo uma daquelas bandas de garagem que toda a gente teve ou que o vizinho do lado tinha e um gajo só ia lá para assistir. Não admira que o sucesso tenha sido colossal e imediato. E é preciso relembrar que isto tudo aconteceu num mundo antigo e desconhecido de muita gente, onde ainda não existia internet, ainda se usava o vinil, cassetes (e duplos decks) e o grande hype era... o CD. Era outro mundo totalmente diferente. (Agora senti-me um verdadeiro dinossauro...)
O pessoal queria dar (e levar) umas cotoveladas, mochar um bocado e não cantarolar ao ouvido ou dançar juntinho com a namorada. Só o "dançar" já era algo que estava a mais... Mas claro que não foram só os Nirvana. Foram os Smashing Pumpkins, os Pearl Jam, os Stone Temple Pilots, os Soundgarden, os Nine Inch Nails, os Alice in Chains, os Sonic Youth, os Faith no More e tantos, tantos outros que vieram ao mesmo tempo, sendo que provavelmente muitos nem se encaixam na "categoria oficial" do grunge. Pessoalmente, sempre reconheci mais o grunge como um momento na história, do que propriamente uma "categoria" musical...
Para mim, como para milhões de outros, os Nirvana apareceram exactamente na altura certa. O que lia naquelas letras era mesmo aquilo que sentia e, mais importante, era mesmo aquilo que queria dizer. Foi estranho. Foi uma ligação global instantânea. Ainda hoje, volta e meia, naquelas ocasiões especiais, lá pego no velho CD e dou por mim a ouvir Nirvana. Vai ficar aqui para sempre.
Por causa disto tudo o que enumerei, quando ouvi dizer que ia sair um documentário sobre os Nirvana, fiquei entusiasmado. Gosto muito da música deles, mas dos elementos da banda só sei os nomes e pouco mais.
Cobain: Montage of Heck é uma ode aos Nirvana, embora esteja excessivamente centrado no Kurt, o que não acho nada criticável, pois foi sempre a face mais visível (e visada) da já mítica banda. E, pensando bem, qual é a banda em que o vocalista não é o elemento principal?
Para quem é fã dos Nirvana, muito provavelmente, este documentário é quase um estado de... nirvana. Tem tudo. Tem filmagens desde o nascimento até à morte do Kurt, animações, diagramas, desenhos e depoimentos vários, num dos trabalhos de montagem mais épicos que já vi.
Por outro lado, para quem, como eu, é um grande fã da música dos Nirvana, acaba por ser um bocado decepcionante. Mas também já estou habituado a esta aproximação. Obviamente, não acredito em metade do que é relatado porque simplesmente sei que cada participante ou interveniente na vida do Kurt Cobain vai ter uma opinião diferente, se não mesmo contrária ao que aqui aparece. Não me parece que alguém consiga resumir e mostrar verdadeiramente a "história completa". Nem a própria pessoa visada, quase de certeza teria a capacidade de mostrar a história verdadeira. Não sei se a história foi semelhante ao que aparece no documentário, mas aceito a lógica do guião.
Se se considerar a parte mais técnica do documentário (guião, realização, montagem, fotografia), este Cobain: Montage of Heck é um brilhante documentário, muito provavelmente um dos melhores. Aproveitando o mote do título: "montage of heck" é um documentário com uma "montagem do caraças". Brilhante mesmo. Só poderia ser melhor se estivesse mais virado para o lado da música do que para a parte pessoal, mas compreendo a inclinação...
O documentário não sei se ficará para a história. É provável que fique. Mas tenho uma certeza: os Nirvana já ficaram. Disso não tenho dúvida. Porque sei que daqui a 20, 30 ou 50 anos, um teenager do futuro vai abrir um cd (ou o suporte que se usar nessa altura) do Nevermind e quando ouvir aqueles primeiros acordes do Smells Like Teen Spirit vai-lhe dar uma vontade estranha de vestir camisas de flanela, abanar o capacete e de se atirar para cima de outras pessoas... ●●●●○

 
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