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Quando se trata de filmes épicos há um que me preenche logo o cérebro: The Ten Commandments. Uma temática religiosa, a gigantesca histórica da vida de Moisés e até os 220 minutos de filme, acho que são os principais atributos para classificar uma verdadeira obra prima épica. 14.000 extras. 15.000 animais. Só a quantidade e o tamanho impressionam. E também torna muito difícil falar sobre o filme. A extensão, a complexidade, as implicações religiosas e a horda de técnicos e actores... É tanta coisa que o filme já tem a sua própria mitologia associada. É material que daria para encher vários livros... E depois ainda há a questão da transversalidade do público... Devido às constantes reposições, acho que dos 7 aos 700 anos, toda a gente já viu pelo menos uma vez o The Ten Commandments.
Toda a história se centra na mítica figura de Moisés e da libertação do povo judeu que se encontra escravizado pelos poderosos egípcios. A história é longa e complexa demais para ser aqui resumida, até porque tem muitas reviravoltas, mas vou tentar.... Após ter sido apanhado nas margens do Nilo, Moisés é adoptado pela irmã do Faraó e torna-se um dos príncipes do Egipto. No entanto, a história dá uma volta de 180 graus quando se descobre que as suas origens são judias e é expulso pelo novo Faraó, sendo encaminhado para uma morte certa no deserto... No caminho, Moisés encontra Deus que o incumbe de voltar ao Egipto para libertar os judeus da longa e penosa escravatura a que estiveram sujeitos...
A história é bíblica e como tal é naturalmente épica. E longa. Com uma história deste calibre na base, The Ten Commandments só poderia ocupar o panteão dos grandes filmes do cinema. Tudo aqui tem proporções enormes. Do tamanho gigante dos cenários ao número e qualidade dos actores. Charlton Heston, Yul Brynner, Anne Baxter, Edward G. Robinson, Yvonne De Carlo, Debra Paget, John Derek, Cedric Hardwicke, Nina Foch... a lista é interminável, tal é a quantidade de personagens que povoam esta história. Até Vincent Price e John Carradine aparecem por aqui. Mas entre todos há dois nomes que brilham com mais intensidade: Charlton Heston e Yul Brynner. Não consigo separar um do outro e a culpa será sempre deste filme. Sou um fã incondicional destes dois monstros do cinema. São duas lendas eternas. Juntamente com eles, há que destacar outra figura mítica: o produtor e realizador Cecil B. DeMille que festejou os seus 75 anos durante a filmagem, tornando-se na altura, o mais velho realizador em actividade. Este seria também o seu último filme, mas deixaria para trás uma carreira de 80 filmes (WTF?!) que ainda me esforço por arranjar e conseguir ver. Isto quer dizer que DeMille conseguiu fazer algo que mais nenhum realizador conseguiu: ter no seu último filme a sua maior e mais cara produção e ao mesmo tempo o maior sucesso de bilheteira da carreira. É obra. Não só o filme é mítico e os actores lendários como também o realizador é de outro calibre que não se encontra hoje em dia. Cecil B. DeMille sofreu um enfarte durante a produção. Foi ao hospital para ser tratado e voltou dois dias depois para completar o filme. Mítico é a única coisa que se pode dizer.
Como toda a gente já viu o The Ten Commandments (provavelmente mais que uma vez), acho que não vale muito a pena falar sobre o filme. Há muitos outros pormenores para além disso. Como por exemplo a voz omnipresente de Deus que não está creditada a nenhum actor. Apesar dos muitos efeitos que tornam a identificação quase impossível, ao longo dos anos tem-se especulado que o realizador ou o Charlton Heston tenham sido os donos da voz. Também se pode referir que na realidade, The Ten Commandments é um remake... do filme original de 1923 realizado por... Cecil B. DeMille.
Um outro pormenor que sempre adorei é a introdução que o próprio DeMille faz do filme, saindo de trás das cortinas para apresentar a história e questionar as pessoas: "O tema deste filme é se os homens devem ser governados pela lei de Deus ou pelos caprichos de ditadores como Ramsés. Serão os homens propriedade do estado ou serão almas livres perante Deus? Esta mesma dúvida e batalha continua ainda hoje em dia por todo o mundo. A nossa intenção não foi a de criar uma história, mas sim de ser dignos desta história divinamente inspirada, e que foi criada há três mil anos atrás. Esta história demorará três horas e trinta e nove minutos para se desenrolar. Haverá um intervalo. Obrigado pela vossa atenção." Uma apresentação deste género é verdadeiramente... épica.
Apesar de ser uma obra cinematograficamente intocável, não é absolutamente perfeito. Se os efeitos especiais (que são uma parte importante de todo o enredo) eram absolutamente bombásticos na altura e deixavam toda a gente de boca aberta, hoje deixam um sorriso melancólico quando vistos com olhos actuais. Nestes aspectos mais técnicos, obviamente ficou datado, mas até isso acaba por funcionar bem, porque lhe confere uma certa "antiguidade". Se os efeitos fossem muito mais "modernos" acho que até seria mais prejudicial. O problema não foram os efeitos, mas pequenas coisas espalhadas pelo filme. Não consigo deixar de mencionar que, por exemplo, no final, aquele envelhecimento muito mal concebido e aquelas barbas ostensivamente falsas e postiças do Moisés. São coisinhas minúsculas deste género, que não acho que mereçam ser muito pormenorizadas, mas que obviamente marcam-me. Até me sinto mal por estar a apontar isto a uma obra da dimensão de The Ten Commandments, mas a verdade é que alguns pequenos pormenores afectam negativamente a perfeição total do filme... Mas lá está, isto é estar a ver as coisas ao microscópio e ir ao mais ínfimo pormenor. Quando isto acontece é porque tudo o resto é mesmo muito bom e muito bem feito. Epicamente bem feito. The Ten Commandments é verdadeiramente a personificação do filme épico e garantiu consensualmente um lugar na história do cinema. É parte essencial do meu imaginário cinematográfico. Completamente obrigatório. ●●●●●

Senti tanto hype à volta deste mother! que tinha mesmo de o ver. Especialmente li bastante sobre o que significava o filme, o que me deixou algo apreensivo, pois o Darren Aronofsky não costuma ser muito dúbio nas suas abordagens à história. Se bem que ultimamente com o Black Swan e o Noah, a coisa até já foi um pouco diferente.
Para grande surpresa minha, o filme não tinha grande coisa para duvidar. É um grande filme com uma história bíblica na base, vista por um ateu que acredita em qualquer coisa. Das primeiras vezes em que ouvi falar do enredo, notei que estava mencionado o facto de ser um filme tipo "home invasion". Um casal estaria sossegado na sua casa quando a vê assaltada por estranhos personagens. Mas para além disso, havia sempre a referência a significados dúbios e não estava a perceber muito bem porque é que ninguém conseguia chegar a nenhuma conclusão nem especificar o que raio se passava no filme. É um filme de terror? Não. Seria uma fábula muito negra que descamba para o filme de terror? Também não. Uma alegoria? Um conto premonitório sobre o futuro com base nos constantes ataques ambientais que o mundo moderno sujeita a natureza? Nada disso. Mas também poderia ser isto tudo junto. Não entendia nada do que lia. Isto apenas aguçou mais a minha curiosidade. E então, lá fui, furiosamente curioso, ver o enigmático mother!. Depois de ver uns 15 ou 30 minutos de filme, o meu cérebro disparou em auto-funcionamento e comecei profundamente a duvidar do que tinha lido... As pessoas que viram o filme antes de mim, que criticavam e comentavam não queriam estragar a "surpresa"  do filme ou simplesmente não tinham nenhum conhecimento bíblico para entender o que estavam a ver? Ainda agora persiste a dúvida.
Para quem tem algum conhecimento das histórias bíblicas, mother! não tem nada que enganar ou que possa ser considerado dúbio. Ao fim de muito pouco tempo, percebe-se perfeitamente o que se está a ver, o que se vai ver a seguir e praticamente de antemão já se sabe como vai tudo acabar. Como a dúvida persiste (será que os críticos de cinema conhecem de facto as histórias bíblicas?) não vou entrar em grandes pormenores. Não vou dizer que se trata da primeira e da última história da Bíblia ligadas entre si e misturadas com a personagem da Mãe Natureza. Como também não vou dizer que não tem nada a ver com uma invasão de casa, mas que por outro lado, de um ponto de vista natural, pode perfeitamente ser interpretado assim mesmo. E nem vale a pena mencionar o conceito do eterno retorno do meu caro amigo Nietzsche. O melhor é mesmo ver e tirar as próprias conclusões, mas minha opinião, não há enigma nem conclusão nenhuma para tirar. Se bem que aquele pó amarelo misturado na água ainda agora me dá a volta ao cérebro, e aí, tenho de admitir, não consegui chegar a nenhuma conclusão que valha a pena partilhar...
Seja como for, gostei bastante da forma com a história é contada, reinterpretada e misturada com outros conceitos exteriores ao livro sagrado e à religião. Darren Aronofsky é um gajo que admiro, com muita qualidade na realização e que não tem medo de pegar em temas complexos e fracturantes. Tem uma visão muito própria das coisas com as quais eu (por vezes) me identifico. Ainda que nos últimos filmes tenha "patinado" bastante. Sempre que se mete em temas muito generalistas e pouco focados nas pessoas, normalmente mete água. Ia dar como exemplo, o caso do "Noah" mas aí tinha mesmo de meter água... Bem, mas deu para perceber... No caso de mother! esteve outra vez quase a patinar. O que ajudou a equilibrar este filme estranho foram nitidamente as presenças marcantes de Jennifer Lawrence (grande surpresa! mesmo grande surpresa!), Javier Bardem (sempre imponente) e as presenças fugazes de Ed Harris e Michelle Pfeiffer. Mas se as personagens (e os seus actores) aguentam muito bem o filme durante a maior parte do tempo, o melhor está mesmo reservado para a parte final, que num aparente take longo e contínuo leva-nos de arrasto para o final dos dias, para o caos da guerra, para as atrocidades humanas e para o inferno na Terra. E este final bombástico e quase orgásmico é todo da responsabilidade de Aronofsky. Essa última parte "separa-se" tanto do resto do filme que a determinada altura, fiquei com a sensação que foi para poder criar e realizar aqueles minutos finais que Aronofsky concebeu toda a história. Parece que ele teve mesmo que filmar aquilo, como se fizesse parte de uma terapia qualquer. Ou também posso estar a imaginar coisas e nem sequer seria a primeira vez. Às vezes são só sensações que tenho. Não interessa...
mother! não é um filme nada fácil de ver. É violento e exige conhecimentos essenciais pré-visualização. Aconselho uma mente aberta e um estômago forte. Seja para dar início a uma longa e séria discussão sobre religião ou seja para assistir a um espectáculo raro hoje dia que é a obra de arte cinematográfica com base na visão do realizador, mother! é um filme que tem mesmo de se ver. ●●●●○

Darren Aronofsky é um dos meus gajos favoritos. Tem uma forma de pensar e de filmar que me agrada bastante. Nunca tinha visto um "Aronofsky" que não gostasse. No entanto, apareceu este Noah, que é a excepção que confirma a regra. Acho que lhe passou qualquer coisita má pela cabeça. É um pouco estranho demais. Eu sei que pegar em histórias e personagens bíblicas como o Noé que foi pai no seu 500.º aniversário e que para além de ser neto de Metusalém (que chegou aos 970 anos) teve de construir uma arca para salvar literalmente a vida da face da Terra que iria ser destruída por um dilúvio de proporções (lá está...) bíblicas, não é facil. Ainda assim, Darren quis acrescentar-lhes novos, fantásticos e ainda mais inverosímeis elementos. Isto é a receita perfeita para um desastre previsível.
Mas fica então a pergunta: porquê?
Porquê pegar nestas histórias, quase mitológicas, e dar-lhes twists e interpretações próprias quando se sabe logo à partida que não vai dar certo ou obter resistência? Não percebo. Acho que é uma questão interior pessoal, do género: "quero fazer um filme bíblico como aqueles que via quando era miúdo", mas "vou fazê-lo segundo a minha perspectiva", ou "mais moderno". Tem tudo para dar mal. Quanto mais não seja, pela questão do próprio público. Não há público para isto. O pessoal hoje em dia ou é agnóstico ou é ateu. Aliás, dizer que se é religioso é quase passar um auto-atestado de estupidez... O público de cinema não liga a estes temas. Não tem super-heróis... Isto não lhe diz nada. E ainda por cima, esta linguagem de "cinema épico e bíblico" já está demasiado cristalizado num público antigo (que ainda imagina a Elizabeth Taylor como Cleóptara ou Charlton Heston como Ben-Hur) que já nem sequer frequenta cinemas porque só há filmes para adolescentes... com super-heróis... Um projecto como este parece ser apenas uma questão pessoal (e está totalmente no seu direito) e está logo destinado ao insucesso. No máximo pode causar polémica com alguns religiosos mais aguerridos, mas até isso hoje em dia é uma coisa muito superficial e passageira. Já nem as criancinhas ligam ao Noé, nem querem saber de arcas com animais. Se esta história ainda perdura é porque é preciso vender livros "educativos". As editoras já estão fartas de fazer "cenas" com números e cores e precisam da história do Noé para introduzir os animais e vender livros. É só isso. Já nem sequer é uma história bíblica com fundamentos moralistas... É uma história para ficar a conhecer os animais de uma forma divertida.
Bem... Mais uma vez, dispersei total e completamente...
Voltando ao filme. Russell Crowe, Jennifer Connelly, Anthony Hopkins e Emma Watson esforçam-se o máximo que podem e retratam a história de Noé e da construção da Arca para salvar a Humanidade do Grande Dilúvio que vai limpar o mundo da iniquidade. Pela primeira vez, Darren Aronofsky desiludiu-me. Apesar de ter pontos positivos na parte técnica e visual, Noah é um filme desconexo, descontextualizado e.. mau. É tão mau que já desapareceu totalmente da minha cabeça. Mas pronto, toda a gente tem os seus dias maus. Paciência. Espero pelo próximo filme. ●○○○○

Exodus: Gods ans Kings é um filme sobre o qual não quero falar muito, porque foi uma desilusão muito grande. Como sou um fã do Ridley Scott, tinha algumas expectactivas e o espantoso é que conseguiram sair todas furadas. Apesar de ser um grande espectáculo visual, não gostei nada do filme. E, precisamente, por isso mesmo: é apenas e só, mais um enorme espectáculo visual sem nada que o suporte. É caso para dizer: até tu, Ridley Scott? Temo que o Scott já não recupere mais. É que já desde Black Hawk Down que não vejo nada melhor que mediano... Mas vou continuar à espera.
Há duas coisas muito negativas neste filme. Primeiro, tem um conjunto de actores bastante respeitável (Christian Bale, John Turturro, Sigourney Weaver, Ben Kingsley), todos com provas dadas, mas pareceu-me que estavam no filme exactamente por terem "nomes de cartaz"...
Mas o pior de tudo é a história. Ou melhor, a forma como pegaram na história. Posso parecer algo "quadrado" a dizer isto, mas não gosto mesmo nada que peguem na melhor história do mundo e façam adaptações livres. Pior ainda, é refazer uma história destas, dar-lhe uma perspectiva contemporânea e deixar de fora as partes que não podem ser cientificamente explicadas. (Podia ser pior: podiam considerar essas partes "desconfortáveis" como milagres... científicos.) Para mim isso é ridículo. Chamem-me "velhadas", conservador, ou outra coisa, mas não percebo porque é que se pega numa história bíblica tão importante e depois se ignora completamente essa ligação. Isto para não falar do "elemento estranho" no argumento, que é o facto dos dois opositores chegarem a ser inimigos mortais, mas que por qualquer motivo estão sempre a encontrar-se para uma conversa amena, antes que um deles desapareça na escuridão da noite. Mas são muito inimigos... Pior que tudo isto é Moisés e o Faraó levarem com um tsunami (?!) na cabeça (tinha de ser um fenómeno cientificamente reconhecível) e sobreviverem. Sim, a célebre cena do Mar Vermelho, afinal foi um vulgar tsunami...
Como já começa a ser regra hoje em dia, só se safam os efeitos digitais, eles sim, verdadeiramente épicos, mas aí os méritos vão para os geeks que estão meses "agarrados às maquinas" a comporem o espectáculo.
Para mim, Exodus: Gods ans Kings não valeu nada. Fica a pergunta no ar: é este o homem do Blade Runner? Do Alien? ●○○○○

 
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