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A Guerra Civil Americana continua a mastigar homens nos campos de batalha. No meio de toda esta carnificina, o presidente americano, Abraham Lincoln, tem a sua própria luta interna: emancipar os escravos e acabar constitucionalmente com a escravatura. Para isso tem de conseguir os votos sufucientes dos adeversários assim como do seu próprio partido.
Este é o ponto de partida de Lincoln, mais uma super-produção de Steven Spielberg, agora em versão biográfica. Lincoln entra directamente na minha categoria de mixed-feelings. Apesar de muito bem feito, acho-o demasiado denso, lento e meloso para o meu gosto. Ainda que tenha alguns fogachos de emoção, são demasiado poucos. Com os actores que tem (Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones [só aqui um triunvirato que grita para prémio de Óscares], Joseph Gordon-Levitt, James Spader) podia e deveria ter muito mais intensidade. Fica-se "apenas" por um biopic extremamente bem escrito e realizado.

Por vezes parece demasiado encenado como que a piscar o olho à Academia, e como se costuma dizer, "sem sair da zona de conforto". É esse mesmo o principal problema: Spielberg não quer confrontar nenhuma ideia nem nenhuma opinião e por isso mantém-se sempre a uma distância teatral de qualquer futuro problema que o filme lhe pudesse causar. Não quis tomar partido e assim não tomou rigorosamente nada. Fica uma obra para a posteridade que soa a perfeito, mas insípida e algo "oca". Ligeiramente desapontante... Desapontantemente ligeira. ●●●○○

Man cheng jin dai huang jin jia, traduzido como "A Maldição da Flor Dourada" é um filme chinês de Yimou Zhang, e que conta a história de uma família imperial chinesa durante o século X. Mas esta não é uma família normal... É totalmente disfuncional, envolvida em complicadas intrigas palacianas e que está repleta de assassinatos, traições e até incesto. Difícil de encaixar para um "gajo normal", mas uma coisa mais ou menos "normal" nas questões do poder da realeza...
Se por um lado, a história pode ser de difícil digestão para um ocidental, "A Maldição da Flor Dourada", por outro lado, é verdadeira comida para os olhos. É um festim visual. Não pelos efeitos especiais, mas pelo pormenor, pelas roupas e pelos cenários fantásticos. Nesse aspecto, é muito bom.
Se bem que tenha sempre grande dificuldade em distinguir os actores chineses (por causa dos nomes impossíveis de decorar e das parecenças físicas), eles têm uma intensidade dramática muito própria e diferente. São muito bons, especialmente neste tipo de registo (história dramática da realeza), em que o desempenho chega quase a ser caricatural, de tão intenso que é. Mas neste caso, até fica muito bem. Destaque para o já lendário Chow Yun Fat e para a lindíssima Gong Li, mas o restante elenco está ao mesmo nível. Não me lembro de ver um mau actor chinês.
A realização é límpida e nota-se que tudo é pensado ao pormenor. Yimou Zhang junta o melhor do cinema ocidental com o visual oriental. É uma mistura perfeita, sempre com uma fotografia absolutamente impressionante. Yimou Zhang cria verdadeiras obras de arte visuais em movimento e consegue transmitir aquela sensação de épico, como raramente se vê.
À parte das coreografias impossíveis de lutas corpo-a-corpo, até nem tem muita acção física, se bem que no final até "explode" com as grandes batalhas, que diga-se, são "mesmo" grandes. É uma escala totalmente diferente do que uma pessoa está habituado a ver nos filmes de Hollywood.
"A Maldição da Flor Dourada" prende um gajo à cadeira e está bem feito, bem realizado e bem interpretado como acontece sempre com os actores chineses, mas é quase como estar a olhar para uma peça de ouro em filigrana: quando se olha demasiado tempo, uma pessoa perde-se no pormenores e acaba por não conseguir ver a peça toda. Foi um bocado o que me aconteceu. Vale a pena ver, nem que seja para ter uma perspectiva diferente dos épicos americanos. ●●●○○

Baseado numa história verídica, The Elephant Man mostra os últimos capítulos da vida atribulada de John Merrick (apesar do verdadeiro nome ser Joseph Merrick), após ser descoberto pelo médico Frederick Treves que o retira duma vida degradante como atração de circo.
Devido a ter o corpo horrivelmente deformado e em consequência ser rejeitado pela sociedade vitoriana, é usado como mero objecto de demonstração por Bytes, um homem sem escrúpulos. É-lhe negado qualquer tipo de humanidade, conforto ou vislumbre de felicidade.
The Elephant Man é uma história excepcional sobre a elevação do ser humano. É a história da luta da inclusão e do humanismo contra a humilhação, o ódio pela diferença, o medo do desconhecido e principalmente contra a ignorância. Sempre ouvi dizer que a realidade é muito mais estranha que a ficção. The Elephant Man é a prova disso.
Dificilmente conseguiria imaginar outros actores aqui. Tudo verdadeiros "senhores" do cinema: Anthony Hopkins, Anne Bancroft, John Gielgud e Freddie Jones, com o óbvio destaque para o John Hurt, que apesar de não aparecer (na sua forma "original", digamos assim), tornou-se imediatamente num dos meus actores favoritos de sempre.
The Elephant Man é uma obra prima cinematográfica de David Lynch. Parece óbvio que vai buscar muita inspiração visual (e sonora) ao alucinado Eraserhead, feito uns anos antes, como por exemplo a fotografia a preto e branco que é do outro mundo. A música de John Morris encaixa perfeitamente... É uma verdadeira obra de arte audiovisual. Foi nomeado para inúmeros prémios e ganhou outros tantos, desde Óscares a BAFTAS. É muito bom. Gosto imenso do David Lynch e de todos os seus filmes (mesmo que por vezes não os entenda), mas se calhar, elejo este como o melhor. Não consigo apontar-lhe defeitos ou algo que pudesse estar melhor. Intemporal e obrigatório. ●●●●● + ●

Antes de mais nada, uma pequena declaração de interesses: sou fã do Paul Thomas Anderson desde o excepcional Boogie Nights e do Daniel Day-Lewis, bem, acho que desde sempre...
Portanto tinha mesmo que ver o There Will Be Blood. Depois de o ver fiquei com um pouco de azia... É que gostei muito de uma parte do filme, mas também não gostei da outra parte. Deixou-me com um sabor agridoce que não estava nada à espera. Acho que tinha as expectativas demasiado elevadas.
A primeira parte do filme em que Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) anda com o "filho" a lutar incansavelmente pelo seu negócio do "ouro negro", está simplesmente brilhante. Grandes imagens e grandes interpretações em grandes momentos memoráveis de cinema. Mas depois o filme começa a descambar numa trip de seitas religiosas e aí tenho de admitir que me começou a mexer com os nervos. Fiquei nitidamente com a sensação que There Will Be Blood são dois filmes num só: a parte do petróleo e a parte religiosa. Coincidência ou não, o filme seguinte de P.T. Anderson é o The Master que é precisamente um mergulho no mundo... das seitas religiosas. Parece-me que ele ficou demasiado fascinado pela ideia... É pena. Estive uma grande parte do filme à espera que voltasse ao tema inicial.
Nunca poderia dizer que There Will Be Blood tem algo de errado, porque não tem. O que tem é uma inclinação para um tema que me faz alguma impressão. E para piorar a situação, o filme acaba mesmo por ser tomado de assalto pelos gritos histéricos e pela obsessão religiosa.
Umas palavrinhas finais para o Daniel Day-Lewis, que é para mim, sem dúvida nenhuma, o melhor actor da actualidade: uma tela de cinema é demasiado pequena para ele. Até me faz confusão: ele não interpreta, ele literalmente transfigura-se na personagem. É verdadeiramente impressionante. Quer dizer, não ofuscou toda a gente; Paul Dano também merece obviamente destaque. O gajo tem "pinta", tem presença e é um actor excelente.
There Will Be Blood desiludiu-me um bocadito, mas tenho a certeza que o Paul Thomas Anderson no futuro irá compensar com outra das suas obras-primas. ●●●○○

Exodus: Gods ans Kings é um filme sobre o qual não quero falar muito, porque foi uma desilusão muito grande. Como sou um fã do Ridley Scott, tinha algumas expectactivas e o espantoso é que conseguiram sair todas furadas. Apesar de ser um grande espectáculo visual, não gostei nada do filme. E, precisamente, por isso mesmo: é apenas e só, mais um enorme espectáculo visual sem nada que o suporte. É caso para dizer: até tu, Ridley Scott? Temo que o Scott já não recupere mais. É que já desde Black Hawk Down que não vejo nada melhor que mediano... Mas vou continuar à espera.
Há duas coisas muito negativas neste filme. Primeiro, tem um conjunto de actores bastante respeitável (Christian Bale, John Turturro, Sigourney Weaver, Ben Kingsley), todos com provas dadas, mas pareceu-me que estavam no filme exactamente por terem "nomes de cartaz"...
Mas o pior de tudo é a história. Ou melhor, a forma como pegaram na história. Posso parecer algo "quadrado" a dizer isto, mas não gosto mesmo nada que peguem na melhor história do mundo e façam adaptações livres. Pior ainda, é refazer uma história destas, dar-lhe uma perspectiva contemporânea e deixar de fora as partes que não podem ser cientificamente explicadas. (Podia ser pior: podiam considerar essas partes "desconfortáveis" como milagres... científicos.) Para mim isso é ridículo. Chamem-me "velhadas", conservador, ou outra coisa, mas não percebo porque é que se pega numa história bíblica tão importante e depois se ignora completamente essa ligação. Isto para não falar do "elemento estranho" no argumento, que é o facto dos dois opositores chegarem a ser inimigos mortais, mas que por qualquer motivo estão sempre a encontrar-se para uma conversa amena, antes que um deles desapareça na escuridão da noite. Mas são muito inimigos... Pior que tudo isto é Moisés e o Faraó levarem com um tsunami (?!) na cabeça (tinha de ser um fenómeno cientificamente reconhecível) e sobreviverem. Sim, a célebre cena do Mar Vermelho, afinal foi um vulgar tsunami...
Como já começa a ser regra hoje em dia, só se safam os efeitos digitais, eles sim, verdadeiramente épicos, mas aí os méritos vão para os geeks que estão meses "agarrados às maquinas" a comporem o espectáculo.
Para mim, Exodus: Gods ans Kings não valeu nada. Fica a pergunta no ar: é este o homem do Blade Runner? Do Alien? ●○○○○

A Escócia decidiu há umas semanas atrás referendar a sua presença no Reino Unido. Aproveitando a "onda" de notícias sobre o referendo, o Hollywood decidiu (e muito bem) desenterrar um (já) clássico do cinema: Braveheart, de Mel Gibson, um súbdito de Sua Majestade, mas pelo lado australiano.
É raro encontrar um filme como Braveheart. É um filme perfeito, daqueles que irão figurar em qualquer lista dos melhores filmes. Quem o revê - como foi o caso - perde logo à partida a parte melhor do filme. Tenho a certeza que grande parte das pessoas não são especialistas em História Escocesa, logo, o final é muito mais impactante quando se o vê pela primeira vez. Quem já viu o filme, percebe perfeitamente o que digo.
Ainda assim, mesmo vendo o filme pela terceira vez, não consigo deixar de ficar surpreendido, porque este é um daqueles filmes que parece não ser afectado pelo passar do tempo. Todos os aspectos são excelentes. Desde a realização aos actores, passando pelos aspectos técnicos, nada tem falhas. As cenas de batalhas são óptimas, viscerais e explicitamente realistas e por isso mesmo, marcaram pela diferença relativamente ao que se fazia até ali. Pode parecer estranho, mas cortar pernas e braços não era mainstream em 1995. Os actores são muito bons, com especial referência para o casting. Quando uma personagem entra em cena e uma pessoa "desgosta" logo dela sem que a personagem precise de abrir a boca, isso é um bom casting.
Destaque para o Mel Gibson - sempre o apreciei - que como realizador e actor cumpre sem falhas as duas tarefas. Aliás, o Mel Gibson "é" o William Wallace. Disso não tenho dúvida. Como realizador não há muito para dizer sobre Mel Gibson: conseguiu criar algumas das imagens mais icónicas do cinema no seu filme de estreia. O que mais há para dizer?
Braveheart é um daqueles filmalhaços de quase 3 horas. Podia ser maçudo e moroso de ver, mas não é o caso. Está tão bem equilibrado que se vê "num instante". Rever este filme provoca-me sensações antagónicas. Por um lado, lembra-me tristemente que já passaram quase 20 anos desde a sua estreia, e eu estava algures por aí numa sala de cinema a assistir. Quase que ainda nem existia internet nessa altura. Incrível! Por outro lado, fico muito contente por existirem filmes excelentes como é o caso deste. Braveheart é um dos grandes filmes do cinema para ver e/ou rever. Obrigatório, por isso leva a classificação máxima. ●●●●●+

Adenda:
...e portanto lá vai para 4.ª vez (ou mais) que vejo o Braveheart. É um daqueles filmes que simplesmente não consigo resistir. Se está a dar por aí em algum canal, simplesmente não consigo mudar... Não é que tenha muito mais a acrescentar ao que já disse, mas aproveito para reafirmar que é um daqueles grandes filmes que se tornou num clássico instantâneo e que por direito próprio se mantém totalmente actual e obrigatório.
Esta nova entrada é mais uma oportunidade para tratar doutros temas do que propriamente do filme. Como por exemplo, o facto de avisar que este blog NÃO É uma enciclopédia de cinema, nem todos os dados são totalmente fidedignos (mencionei aqui que erradamente o Mel Gibson é australiano, quando descobri há pouco tempo que tinha nascido na América e depois é que emigrou com 12 anos para a Austrália, ou que o Braveheart era o primeiro filme dirigido pelo Mel Gibson, quando já tinha feito em 1993 o The Man Without a Face),  nem sequer os termos cinematográficos são os mais adequados (os termos usados aqui, são os "meus" termos, como fotografia, realização ou edição). Este blog é a forma como eu vejo os filmes, e não são propriamente críticas ou apreciações científicas ou técnicas dos filmes ou do cinema em geral. Isto é como é eu vejo e sinto os filmes.
 
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