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The Artist é uma homenagem a um tempo de Hollywood tão distante que a maior parte das pessoas já nem sonha que existiu. A história é sobre o actor George Valentin, uma ubíqua e famosa estrela de filmes mudos que, ao mesmo tempo que se enamora com uma jovem dançarina, começa também a ver a sua carreira entrar em declínio devido ao aparecimento dos filmes "falados".
Homenagem talvez não seja a palavra mais apropriada para classificar The Artist. Acho que reflexão seria a palavra mais indicada. É neste período que se dá uma cisão muito grande no cinema, entre o status quo do mudo e a novidade dos filmes sonoros. Se para os estúdios foi uma oportunidade de inovar e assim chamar novos clientes, para os actores foi uma revolução demasiado disruptiva. Toda a forma de actuar teve de mudar e aconteceu quase da noite para o dia. Estrelas mundialmente estabelecidas como Douglas Fairbanks e Mary Pickford de um momento para o outro ficaram quase no desemprego e e até lendas como Charlie Chaplin se ressentiram. Volátil como sempre, o público queria coisas novas e o novo era o sonoro. O cinema mudo estava condenado juntamente com todas as equipas de produção, estúdios, actores e técnicos que não fizessem (ou não conseguissem) a passagem para o som. Aquele jeito de actuação teatral, tipo pantomina, tinha chegado ao fim...
A personagem de George Valentin é nitidamente Douglas Fairbanks. Aliás, no auge da sua depressão, enquanto vê uns filmes antigos com aventuras do Zorro, na realidade o que se está ver é um filme de Douglas Fairbanks, mas com algumas cenas de close up protagonizadas por George Valentin.
Num filme mudo, a performance dos actores é radicalmente diferente. Tem de ser mais dramática, exagerada e, por vezes, até caricatural porque sem palavras (nem outro som qualquer) é obviamente muito mais difícil de chegar ao público e transmitir emoções. A actuação é uma mistura de emoções físicas que apenas a música de fundo pode acentuar. Não digo que seja mais difícil ou mais fácil, mas parece-me que é outra coisa completamente diferente. E por isso tenho que destacar Jean Dujardin, que sendo obviamente um actor moderno parece ter vindo directamente do tempo do cinema mudo. Está tão perfeito que se fosse possível recuar no tempo e inseri-lo na altura do filmes mudos, acho que o público nunca notaria a diferença. De certa forma é Jean Dujardin desta forma tão verosímil, tão anos 20, tão silencioso e emotivo que dá a sensação de se estar realmente a ver um filme da era do cinema mudo. Está tudo muito bem feito neste The Artist, mas Jean Dujardin é 50% do sucesso do filme. Uma performance que merece todos os prémios e mais alguns.
No sentido contrário, o resto do casting não salta tanto à vista. Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell e Penelope Ann Miller servem bem como actores de suporte mas não passam muito disso. No caso de Bérénice Bejo o caso é ainda mais gritante, porque é peça fundamental do argumento. Não é que Bejo esteja mal, mas simplesmente não se sente a química nem o romance entre os dois actores. Há muito mais química negativa entre Jean Dujardin e Penelope Ann Miller em breves minutos (que era a intenção do argumento, num casamento em decadência) do que química positiva entre os dois amantes durante o filme todo. A discrepância entre Bérénice Bejo e Jean Dujardin é tão grande que para mim é mesmo a grande falha do filme. E claro que não podia deixar passar em branco a minúscula participação de Malcolm McDowell.
O filme é muito fiel àquela altura do cinema e muito pormenorizado (até tecnicamente) ao ponto de ser filmado com menos frames para dar aquele look acelerado tão típico dos filmes da era muda e até na própria proporção do ecrã que usa. Não fazia muito sentido simular um filme mudo sem ser naquele enquadramento 4:3 meio "quadrado", pois não?
The Artist é uma pequena pérola que, passado o impacto e choque inicial de se perceber que o filme vai ser totalmente mudo, irá deliciar a maior parte do público. A música não começa muito bem (parece algo dessincronizada da acção), mas depois ajusta-se perfeitamente para suportar emocionalmente todas as cenas. A história de decadência, regresso e reatamento amoroso é universal, por isso nunca falha. E aquele final simpático a fazer a transição para os grandes filmes musicais dos anos 30 e 40 (grande cena de dança, já agora) é simplesmente perfeito. Nota-se que foi um filme muito bem pensado mesmo antes de chegar a ser filmado e daí um enormíssimo destaque para Michel Hazanavicius, quer seja pela realização, pela preparação ou pela escrita. Até no pormenor de a primeira palavra a ser proferida em todo o filme ser "cut" e a última a ser "action" para dar uma continuidade pós-filme. Muito bom. Muito bem pensado. The Artist vê-se muitíssimo bem e é totalmente recomendado. ●●●


Alguns factos curiosos que encontrei nas minhas pesquisas. Este foi apenas o segundo filme mudo a ganhar prémios nos Óscares. O primeiro tinha sido Wings em 1927. A última vez que um filme totalmente a preto e branco tinha ganho o maior galardão de Hollywood tinha sido em 1960 com The Apartment. Se as referências a antigas estrelas do cinema mudo são constantes, elas chegaram aos rcenários. A casa da personagem de Peppy Miller é na realidade a antiga casa de Mary Pickford que mais tarde viria a casar com Douglas Fairbanks, uma lenda do cinema mudo, cuja vida e carreira, sem dúvida nenhuma é a base para este The Artist. Entre outros pormenores, notei também naquela cena aberta da escadaria, que havia ali algo familiar; descobri que aquela enorme construção metálica de escadas é nada mais nada menos que o átrio do Prédio Bradbury... onde foram filmadas algumas das cenas mais icónicas de Blade Runner... há coisas que não consigo mesmo esquecer... Mas para mim, o facto mais curioso de todos, foi ter sido necessário uma equipa europeia, fazer um filme europeu (é tudo francês...) para mostrar uma faceta de Hollywood de uma forma que Hollywood nunca teve capacidade de fazer. Isso sim, é que é curioso...
Depois de ver Kong: Skull Island (de Jordan Vogt-Roberts) só tinha duas palavras a ecoarem na minha cabeça: gigante e verborreia. Gigante, por causa da escala da coisa. Não sei o que se passa hoje em dia com os filmes de monstros, mas tudo é absolutamente gigante. é que nem cabe no ecrã. O Kong aqui tem dezenas de metros de altura e acho que até mesmo maior que o próprio Empire State Building. Gigante também é o vazio que é este filme. Não tem nada que se aproveite. A história é alternativa ao original e está colada a cuspo e entremeada por gigantescas explosões. É simplesmente um espectáculo IMAX e mais nada.
A verborreia é digital. Desde que descobriram que podiam fazer uns "bonecos" verosimeis num computador, isto tem sido um descalabro. É um exagero. Lá está. Uma autênctica verborreia de fundos verdes e efeitos digitais que só lá estão... porque sim. Porque é giro. Não sei. Não entendo esta cena.
Os actores (Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John C. Reilly, John Goodman) pouco ou nada podem (ou têm para) fazer, a não ser representar estereótipos chatos e previsíveis. Isso e ir morrendo ao longo do filme conforme o seu ranking: primeiro os extras, depois os secundários, até chegar aos principais. Mas só do lado "mau", porque os "bons" não morrem. Quer dizer, às vezes morrem, mas só se for a sacrificarem-se por outros "bons".
Prevê-se mais um franchise, agora com monstros gigantes, se se levar em conta o "pós-genérico". Sinceramente, espero que fique por aqui. Aproveitem o dinheiro para fazer coisas novas. Fixes. Assim, como uma invasão de insectos gigantes, por exemplo. Há anos que ando para ver um filme com insectos gigantes... ●○○○○

A expectativa é lixada. Na grande maioria das vezes tento não saber o que vou ver para não gerar expectativas elevadas e depois ficar desiludido. É uma técnica já antiga que tem dado bons resultados. A mais recente experiência foi este 10 Cloverfield Lane. Pelo nome, pensava que era uma espécie de sequela do Cloverfield, mas esteva enganado. Não é uma sequela directa, mas tem uma certa ligação ou faz parte dum plano maior de J.J. Abrams em ligar as duas coisas no futuro. É estranho mas ven do filme percebe-se aligação. Seja como for, estava à espera de mais um filme de efeitos digitais da treta e/ou teenager in danger e acabou por me sair na rifa um bom filme. 10 Cloverfield Lane tem aquele look de filme de baixo orçamento, "à moda antiga". Dan Trachtenberg, nitidamente um realizador de TV, fica aqui como peixe na água, porque basicamente este é uma espécie de telefilme, mas muitíssimo bem esgalhado...
Não tendo efeitos especiais nem grande cenas de acção, toda a dinâmica fica entregue ao guião (muito bem escrito, cheio de suspense, dualidade e ambiguidades [ter lá um Damien Chazelle faz toda a diferença...]) e à prestação dos actores, que são aqui essencialmente os grandes pilares do filme. Em primeiríssimo plano está John Goodman, mas a jovem Mary Elizabeth Winstead e John Gallagher Jr. não lhe ficam muito atrás. Para os mais atentos há a surpresa "Bradley Cooper", mas apenas em versão áudio (ao telemóvel). 10 Cloverfield Lane foi uma belíssima surpresa. E também não vou dizer mais nada, para não gerar mais expectativas nem estragar a surpresa. Fica aqui a prova que não são precisos muitos meios, muito dinheiro e muitos actores de renome para fazer um bom filme. Sem dúvida, para ver. ●●●○○

Atomic Blonde é mais uma apropriação cinematográfica do vasto mundo da BD. Ou como lhe chamam agora, novela gráfica. Existe esta diferença importante, especialmente devido à temática. Lembro-me de quando era (mais) miúdo e as BD's eram muito mais inócuas no que dizia respeito à realidade do dia-a-dia. Daí que as BD's fizessem furor e tivessem sempre sucesso. As pessoas liam BD como uma forma de escape aos problemas do dia-a-dia e aos problemas do mundo. Entrava-se num mundo de fantasia e o truque do sucesso era exactamente esse. De há uns anos para cá as coisas foram-se misturando e as BD's tornaram-se mais realistas e começaram a tocar em temas que mais ninguém tinha coragem para tocar. Neste caso particular, o pano de fundo são o final dos anos 80 (outra vez?!), a eminente queda do Muro de Berlim e uma trama de espiões com tanta traição à mistura e tão confusa que a determinado ponto pensei que estava a ficar demasiado burro para entender o filme.
O que vale é que Atomic Blonde é um filme de acção. Tem uma uma loiraça "atómica" (percebi o trocadilho; e é uma loiraça cheia de estilo) e muitas cenas de porrada, por isso a história acaba por ser mais um acessório do que propriamente o fio condutor. Percebe-se bem porquê. David Leitch, como antigo duplo e director de cenas de porrada, é o realizador perfeito para este filme e isso nota-se nas cenas de acção impecavelmente realistas. Boas cenas de acção enquadradas numa grande fotografia, muito graças ao omnipresente néon rosa evocativo dos 80's. E claro, a música ajuda sempre, porque como já disse um milhão de vezes, não há música como a dos 80's...
Charlize Theron está impecavelmente sexy como sempre a que acresce uma agressividade pouco vista, mas o restante pessoal como James McAvoy, Eddie Marsan, John Goodman ou Toby Jones também ajudam.
Atomic Blonde é mais uma chiclete de acção, mas por estar tão bem feita e por ter aquele aspecto old school, até se vê bem. ●●○○○

Tenho de admitir. Speed Racer é melhor do que pensava e muito melhor do que parece no trailer. Não chega aos calcanhares de outros Wachowski, mas até é aceitável.
A história é das típicas... Há uns bons que "têm" de ganhar uma corrida (por um motivo heróico e questões de honra) mas os maus não vão deixar que isso aconteça. É como é típico, os bons acabam por ganhar no fim... O elenco é estranho, mas tem pessoal bom. O papel principal foi deixado ao desconhecido (pelo menos para mim) Emile Hirsch, mas não se nota que está pouco à vontade no papel porque tem "ao lado", uma Christina Ricci a mostrar que uma coisa é a vida pessoal do actor e outra coisa é o trabalho do actor, John Goodman, um gajo que gosto sempre de ver, desde os tempos de Raising Arizona, mas espeialmente uma "senhora" chamada Susan Sarandon, que não me lembro de alguma vez ter uma má prestação. E também por lá aparece o Matthew Fox, porque na altura havia muitos fãs do Lost...
Ao princípio estranhei bastante este Speed Racer. Principalmente porque já vinha muito mal sugestionado por um daqueles trailers que só dão dores de cabeça. E estive quase a desistir quando apareceu o macaco. Não conseguia superar aquela personagem. Em vez de ver o filme, só pensava: porquê? Porquê o macaco? Qual o significado do macaco? Quem é que tem como animal de estimação, um macaco? O macaco não me saía da cabeça. Depois, pela maneira como o filme se desenrolava percebi que aquilo só podia ser anime. Mal terminou o filme fui pesquisar e vi que era de facto inspirado num anime/manga. Foi um alívio... Pensei que o macaco era... Bem, acho que já chega de falar no macaco...
Speed Racer é aceitável, mas é uma quimera. É uma combinação exótica de colossais efeitos digitais dos estúdios de Hollywood, misturado com momentos e cenas de cores carregadas, típicas de Tim Burton vintage, embrulhadas naquela estranhice muito fixe dos animes/mangas. E até ainda tem algumas poeiras de Matrix... Tudo a reluzir sob o efeito de néons psicadélicos.
Para mim, se o filme perde é essencialmente por ser tão absurdo e tão absolutamente hiper-exagerado. Pode ser um reflexo da tentativa de fazer um anime com actores reais, mas também pode ser exagero dos efeitos especiais ou da mente hiperbólica dos irmãos Wachowski. Menos é mais, é daqueles chavões que encaixam perfeitamente bem com Speed Racer. Estranhamente, sinto que com o passar do tempo, acho que é um filme que vai melhorar do lado da crítica. ●●○○○

 
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