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O ano é 2065. A terra foi devastada pela invasão de uma misteriosa raça de extraterrestres parecidos com espíritos. A humanidade está de joelhos e a única esperança recai sobre Aki Ross, uma jovem e brilhante cientista, que luta contra o tempo para salvar o planeta e também a si, já que foi infectada, como aconteceu como a maior parte da população. Para isso vai ter a ajuda preciosa de um grupo de militares liderado pelo seu namorado. Pelo meio vão ter de enfrentar também o General Hein que tem um plano para destruir de uma vez por todas os extraterrestres, nem que para isso tenha de destruir o próprio planeta.
Nos últimos anos, o mundo dos videojogos tem tomado de assalto o mundo do cinema. Não só tem sido material para adaptações, como de certa forma, tem vindo a influenciar a forma como a narrativa dos filmes tem evoluído. A lógica de plataformas há muito que foi abandonada nos jogos. A lógica mais recente é ter uma narrativa do género: ir em busca de uma chave que permita abrir uma porta, que revela uma nova chave para abrir uma outra porta. Em parte, este truque simples de empurrar a narrativa para a frente sem acrescentar muita história e intercalar com cenas espectaculares de acção, tem sido o motor da maior parte dos filmes de acção dos últimos anos. Mas este não é o caso. Apesar de estar carregado de cenas de acção, Final Fantasy: The Spirits Within segue mais uma lógica de anime, com uma aproximação mais filosófica do que os filmes americanos. Esta é uma vantagem porque o filme não se torna tão entediante e até tem alguma substância. Obviamente, essa foi a razão do seu insucesso. O público não estava muito virado para este tipo de narrativas. O filme esteve tão mau nas bilheteiras que levou a produtora Square Pictures à falência.
Final Fantasy: The Spirits Within é um portento técnico que levou quatro anos a ser concluído. Foi a primeira longa-metragem animada por computador que tinha humanos "verdadeiros", ou melhor dizendo, personagens humanas foto-realistas. Nunca se tinha visto nada igual. O filme foi tão avançado para o seu tempos que ainda hoje se aguenta bastante bem. A técnica de captura de movimentos que foi pioneira aqui, foi aproveitada logo de seguida para criar uma personagem conhecida de todos, o Gollum do Lord of the Rings. E é esta técnica, entretanto aprimorada, que ainda hoje se usa. É fantástico. No entanto, na altura era terreno desconhecido. Nunca ninguém tinha feito nada do género. A evolução no campo técnico foi de tal forma rápida que quando chegaram ao fim da produção para fazer a montagem final, tiveram de refazer a parte inicial do filmes porque já se notava a diferença na qualidade da imagem.
Para além da parte técnica, Final Fantasy ainda levantou questões novas. Dar vozes a desenhos animados, não era novidade. Mas dar vozes a figuras humanas digitais já era outra história. Ficaram célebres as reacções precipitadas de alguns actores que perceberam que podiam ficar no desemprego para sempre se a moda de "criar" actores virtuais pegasse na indústria. Tom Hanks foi uma desas vozes e Matt Dillon, que tinha o segundo papel mais importante, recusou participar no filme quando viu a qualidade das imagens. Afinal, não aconteceu nada... Para já...
Ming-Na Wen, Alec Baldwin, Ving Rhames, Steve Buscemi, Donald Sutherland James Woods dão as vozes aos corpos digitais.
Escrito e realizado por Hironobu Sakaguchi (um mago dos videojogos), Final Fantasy: The Spirits Within é um daqueles filmes que me ficou na memória. Não só pela questão técnica que me deixou de boca aberta durante muito tempo, mas também pela lógica filosófica subjacente. As potencialidades da história e da narrativa são tão grandes que não tarda nada, deve regressar na forma de série de TV. É quase certo. Só basta alguém na Netflix ler este texto para se aperceber que o filme existe... Já está um pouco datado no tempo, mas ainda assim vê-se muito bem.  ●●●○


Nos últimos anos, parece que a única forma de um adulto ver comédias em condições é assistir a filmes de desenhos animados. Ironicamente, são os filmes para miúdos, os que têm as piadas mais inteligentes.
The Incredibles foi o sexto filme a ser lançado pela Pixar, mas foi o primeiro a ter personagens humanas. Todos os anteriores eram sobre a perspectiva de animais ou de monstros. Apesar deste pormenor, a qualidade dos filmes esteve sempre intocável e este não é excepção. Não sendo totalmente original, é muito bom. E digo que não é totalmente original porque as semelhanças dos Incredibles com os Fantastic Four da Marvel são demasiado óbvias para serem ignoradas: Super-força? Elasticidade? Invisibilidade? Alguém que se transforma numa tocha humana? Super-rapidez? Não há coincidências. Até a fatiota (apesar de vermelha) faz lembrar os Fantastic Four. Mas eu não tenho nenhum problema com isso, até porque só no ano seguinte à estreia dos Incredibles é que a Marvel decidiu pegar nos seus quatro heróis e levá-los ao "cinema".
The Incredibles são uma família de super-heróis na "reforma" que vivem disfarçados a tentar viver uma vida normal nos subúrbios, depois de décadas nas primeiras capas dos jornais. Mas quando um super-vilão ameaça o mundo, eles terão de voltar a revelar os seus poderes e as suas identidades e salvar a humanidade. Mais que uma história de super-heróis, é uma história de família.
Brad Bird é um dos grandes nomes da animação moderna. Já não bastava ter feito The Iron Giant (um dos meus filmes de animação favoritos) ainda me proporciona um filme como The Incredibles. O detalhe na arquitectura, na música (do John Barry, do James Bond - On Her Majesty's Secret Service) e nas roupas dos anos 60 é apenas um dos pormenor que mais salta à vista. Craig T. Nelson, Holly Hunter e Samuel L. Jackson são as vozes principais e são perfeitos. Só mesmo grandes actores podem "estar lá" sem sequer aparecerem...
Gosto mesmo deste filme. Tem imensa piada, tem acção e tem aventura... Entretenimento no seu melhor. ●●●○

Face à recente enxurrada de filmes medíocres de super-heróis, Spider-Man, Into the Spider-Verse é surpreendentemente bom. Sem ser uma obra prima da animação acaba por ser um bom filmito do trio de realizadores Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman.
Com as vozes principais de Shameik Moore, Jake Johnson e Hailee Steinfeld e os inconfundíveis Liev Schreiber, Chris Pine e Nicolas Cage (versão noir, pois claro...) a darem profundidade a a uma história muito bem esgalhada de tempos trocados e multi-dimensões entrecruzadas. Como acontece quase sempre que se pega na temática do "tempo", poderia ter sido um desastre... mas incrivelmente conseguiram que a história faça todo o sentido. Muito bem feito. Normalmente vejo este filmes com aquela espécie de sentimento de missão que é: já sei que vou encontrar a mesma cena de sempre mas tenho de ver para confirmar... No primeiro terço do filme já me tinha passado o sentimento e até já estava verdadeiramente a gostar... Uma raridade no panorama actual dos filmes de super-heróis. Parabéns à Sony por manter alguma normalidade nesta temática.. ●●○○

Alguém aqui já viu o Wreck-it Ralph? Pois é provável. Bem, isto é a sequela. E é a mesma coisa. Só que em vez de se passar no cenário dos jogos arcade, agora passa-se no mundo da Internet, daí o nome...  Ralph Breaks the Internet. Mas tem piada? Tem alguma, muito esporadicamente, aqui e ali. Esta nova "entrega de fascículo" da dupla Phil Johnston e Rich Moore acrescenta alguma coisa à "entrega" anterior? Nada. Absolutamente nada. Melhorou em algum aspecto? Nem por isso e, pelo contrário, até acho que piorou. Safam-se as vozes empenhadas de John C. Reilly, Sarah Silverman, Gal Gadot e Alfred Molina para dar alguma vida e alma a um produto industrial para vender pipocas. Ralph Breaks the Internet existe apenas e só por motivos financeiro-contabilísticos. E isso eu nunca consigo perdoar. ○○○
Tal como me acontece muitas vezes, estava eu a fazer "zlooping" quando tropeço num filme de animação que tinha esteticamente algo que me lembrou "Monty Phyton", "Yellow Submarine" e coisas do género assim meio surrealistas e/ou psicadélicas. Não sabia o nome do filme nem do que se tratava, mas imediatamente pus a gravar para ver mais tarde. O filme em questão chamava-se The Congress e estranhamente, de início, nem sequer era em animação. Suscitou-me algumas dúvidas se tinha posto a gravar o filme correcto, até porque não estava a perceber a ligação do título com o que estava a ver: uma actriz nos seus 40 e tal anos (uma versão(?) diferente da verdadeira Robin Wright) está com problemas de carreira e a ser criticada pelo seu agente (Harvey Keitel) por não dar o próximo passo que é basicamente ceder eternamente os direitos de imagem para o estúdio poder digitalizá-la completamente e usar dali em diante apenas a sua versão digital. Para isso poder acontecer, ela nunca mais poderia aparecer em palco. É uma decisão difícil para a actriz, mas na realidade, apesar da premissa interessante do filme, eu só pensava onde é que entraria a parte da animação e continuava  sem perceber a lógica do título. Após uma hora (l-e-n-t-a) de filme, finalmente fez-se luz. E o que me parecia ser o início de um excelente filme, lentamente começou a complicar-se e a descambar negativamente. Afinal, a parte de animação é outra coisa completamente diferente e baseada no livro "The Futurological Congress" de Stanislaw Lem. Daí o título. Mas aqui é que começam os problemas.
Acho que Ari Folman foi ambicioso demais. Para além de pegar em temas complexos como o de avatares, identidade e realidades alternativas, ainda quis misturar a questão tecnológica - que está a esmagar a parte humana do cinema, mas não só - e, por tabela, mostrar a sua visão quase neo-fascista dos modernos estúdios de cinema, que ignoram pontos de vista éticos e morais e não olham a meios para conseguir os seus fabulosos lucros, na realidade, o único propósito daquela indústria. Acho que as duas ideias (em separado) são muito boas. Mas também achei que o mix das duas foi muito mal feito. Faz todo o sentido equiparar as duas situações porque na base o conceito é o mesmo: mostrar que as pessoas preferem ignorar a realidade-realidade (mesmo que ela continue a existir como extremamente negra, degradante e destrutiva) e viver numa outra realidade-virtual em que tudo é cor-de-rosa, divertido, positivo e libertário, nem que para isso tenham de abdicar de tudo o que as faz ser realmente humanas. Os dois conceitos são profundos, extremamente distópicos e dão que pensar, porque em certa parte, mesmo hoje em dia, há indícios que isso começa a acontecer, e mais grave ainda, pode mesmo acontecer tal como estas histórias distópicas.
Mas para além dos conceitos - que me dariam horas de divagação - há o filme. E para mim, o filme não funcionou. A mistura dos dois temas foi mal feita, talvez por serem tão complexas e abrangentes, e por tabela as ligações ficaram um pouco desconexas. Para além disso, o ritmo do filme é demasiado lento para o meu gosto, apesar de eu perceber que é propositado e que neste caso está implícito os efeitos da sedação, do "deixar-se ir", do "i don't give a fuck. I prefer the other side, anyway." Percebo, mas não gosto.
O melhor deste The Congress é mesmo a técnica de animação (já tinha saudade de ver coisas não polidas em 3D), mas principalmente os actores (Robin Wright, Harvey Keitel, Danny Huston [brilhante actor e constantemente relegado para papéis secundários, porque tem mais de 16 anos, portanto está praticamente "morto" para o cinema, tal como a lógica do filme...], Paul Giamatti e a voz de Jon Hamm. Comecei muito empolgado pela temática, mas confesso que acabei bastante desiludido com o resultado final. Apesar de tudo, é algo que recomendaria uma visão atenta. ●●●○○

Quando digo que vejo tudo, isso quer dizer que vejo mesmo tudo. Admito que enjoei um pouco os filmes de animação Disney porque têm um modelo pré-definido e não saem daquilo. Para um olho atento e treinado, vendo um, os outros são sempre iguais. É a receita infalível seguida pelos estúdios Marvel, apesar de quererem fazer passar a mensagem de que são diferentes, não sei muito bem porquê. Deve ser uma questão de bilheteira e quantidade de fanáticos... perdão: fãs. A similaridade é tão grande que a Disney até comprou a Marvel!. E percebe-se perfeitamente porquê: é o mesmo produto mas para estratos etários diferentes. Não vale a pena estar com merdas, é tudo igual, é a velha receita Disney, que quer se queira quer não, não falha. Desde aquele guião original do Toy Story que todos os filmes seguem o mesmo principio. Eu nem tenho grande problema com isso, mas ao fim de ver dúzias de cópias, acaba por enjoar e foi o que aconteceu. Mas não sei muito bem porquê, decidi voltar a ver mais uma Disneyrada.
Baseado no mundo dos videojogos de arcade (máquinas de jogos para os mais velhotes), Wreck-it Ralph está recheado de boas piadas (como sempre), muitíssimo bem escrito e com aquelas alfinetadas cirúrgicas de acção e comédia, que vêm sempre na altura certa... Lá está, é uma fórmula que nunca falha.
Falar de vozes de actores é sempre uma coisa estranha mas aqui destacam-se o brilhante John C. Reilly, Sarah Silverman e Jane Lynch. Tenho de admitir que gostei, até porque estes filmitos são tão inócuos que acabo sempre por gostar deles. Eu compreendo. É uma coisa cerebral. O filme acaba e uma pessoa fica com uma boa sensação. E isso também é importante e útil, desde que não seja totalmente "falso". É o caso. Vê-se bem e por isso provavelmente irei ver a obrigatória sequela. ●●○○○

Já deixei de ver filmes de animação há alguns anos. Chateia-me a vertente puramente comercial deste tipo de filmes que acabam por ficar todos iguais, pois têm como base os guiões pré-formatados do sucesso anterior. Vendo um, já nem preciso de ver os restantes. É sempre a mesma coisa, tirando o novo vilão e a nova namorada do "artista". No entanto, volta e meia, lá vou vendo uns filmitos a contra-gosto, porque há sempre as excepções que confirmam a regra.
Kubo and the Two Strings, dos Estúdios Laika é uma dessas excepções. A primeira palavra que me vem à cabeça para descrever este Kubo é... lindo. É um filme esteticamente perfeito. As cores, as sombras, os origamis, os desenhos, os modelos, as animações, os sons... tudo perfeitamente interligado e harmonioso. Visualmente, não alteraria nada neste filme. Tecnicamente, é um prodígio, feito com recurso ao stop-motion animation, o que lhe retira o tom artificial e "plástico" habitual e lhe dá sempre aquele ar mais "verdadeiro". Grande mestria e total mérito para Travis Knight, que na estreia como realizador já marcou uma excelente posição. É um realizador para ter debaixo de olho.
A história é de uma imaginação prodigiosa e exemplarmente bem escrita. Apesar de ir a "decrescer"- só porque o inicio é bom demais -, é verdadeiramente divertido (e não só) assistir a tudo o que acontece às (excelentes) personagens nesta aventura mágica. Uma pérola nos dias actuais. Conta com as vozes de Charlize Theron, Art Parkinson, Ralph Fiennes e Matthew McConaughey, entre muitos outros.
O melhor elogio que posso fazer a Kubo and the Two Strings, é que durante 100 minutos repôs a minha esperança na humanidade. ●●●●○

Os filmes de animação do género Pixar/Disney e afins são para mim como o género gore: já chega. Já vi o suficiente. É quase sempre igual e ainda por cima saem sete filmes de animação por dia para acompanhar a actual voracidade de conteúdos das crianças. Por isso, hoje em dia, dificilmente vejo um filme destes géneros. Mas volta e meia, por um motivo qualquer, lá vejo um filmito destes. Desta vez, a fava que me calhou foi o Despicable Me, de Pierre Coffin e Chris Renaud, com as vozes de Steve Carell, Jason Segel, Russell Brand e Julie Andrews. Conhecia o filme de nome, mas nunca o tinha visto e nem fazia intenção de o ver. Então porque é que o fiz? Porque há pouco tempo descobri que aquelas simpáticas criaturinhas amarelas com um dialecto indecifrável chamadas de Minions, afinal não tinham o seu próprio filme, mas tinham aparecido originalmente aqui! Isto apenas revela o meu total conhecimento do mundo dos desenhos animados actuais. Acho que os Minions são adoráveis e super cómicos... se tivesse 7 anos. Se calhar sou eu que sou demasiado como a personagem principal e sou naturalmente mal disposto, mas para mim, ver um filme destes é penoso. Penoso. Não acho piada nenhuma a isto. O máximo que consegui foi sorrir numa ou outra cena. Mas percebo que para a miudagem deve ser uma "barrigada" de riso. Contrariamente a outros filmes do género que têm muitas piadas "escondidas" para adultos, este Despicable Me parece mesmo exclusivamente vocacionado para a criançada. Apesar de estar bem feito e bem escrito, dificilmente verei os outros dois... ●○○○○
[PS: o miúdo de 7 anos que ainda "vive" dentro de mim dá-lhe ●●●○○, mas acrescenta que "gosta muito mais de mortos-vivos, "dinossáurios" e os carros que falam"...]

Durante muito tempo fui um maluquinho por Legos. Depois cheguei aos 10 anos de idade e isso passou-me. Por isso mesmo, tinha uma grande curiosidade em ver The Lego Movie. Não desilude muito: é um filme de animação... com legos. Não é aborrecido nem irritante, dá para algumas gargalhadas e tem as vozes de grande actores como Liam Neeson ou o incomparável Morgan Freeman.
Mas o que me chamou à atenção neste filme foi a história. Já não é a primeira vez que vejo filmes de animação em que o ênfase está numa espécie de alerta anti-capitalista. A lógica é sempre a mesma: há um grande homem de negócios que quer acabar com a diversão dos gajos normais para fazer uma treta enfadonha qualquer e restrita a uma elite. Aqui o mauzão de serviço é um boneco chamado Lord Business. Não deixa de ser estranho, se pensar que estes filmes vêm dos grande grupos da indústria do cinema. Irónico, no mínimo. É estranho. Deveria haver uma reflexão profunda sobre o porquê de filmes para crianças incidirem tanto em temas como o capitalismo selvagem ou a crítica social, quando as crianças de certeza que não perceberão a história. Será uma indirecta para os pais que os acompanham? Não sei dizer...
The Lego Movie fica um pouco abaixo do mediano porque não tem nada de novo. A única coisa que o diferencia dos milhões de filmes de animação que são lançados todos os anos é que tem legos. Advinha-se uma sequela, uma prequela e mais dois ou três spin-offs... ●●○○○


Os filmes que são excepcionais - os de "6 estrelas" - têm uma coisa muita boa: não é preciso revê-los para comentar. Ficam gravados na memória e isso ajuda muito quando se tem um blog de cinema.
Como estranhamente estamos a reviver (e muito) a lógica Orwelliana, acabei de rever mentalmente Animal Farm (1954), um clássico de animação, reservado a adultos. E sublinho o reservado a adultos pelo simples facto de que é impossível explicar a acção deste filme a uma criança, além de me parecer totalmente inapropriado. Bem, se calhar estou a projectar os meus traumas... Lembro-me bem dos gritos do burro Benjamin enquanto corria atrás do carro que leva o amigo Boxer para o matadouro, depois de ser vendido pelos porcos. Como é que se explica isto a uma criança sem a traumatizar? A primeira vez que o vi, tinha para aí uns 13 ou 14 anos e apesar do aspecto similar da animação, percebi rapidamente que não estava a ver um filme Disney. Além disso, obviamente, faltavam-me as bases de conhecimento político e social para entender esta fábula. Como seria de esperar, levei uma "pancada na cabeça"...
O filme baseia-se no livro de George Orwell de 1945 com o mesmo nome e é tão conhecido e está tão enraizado na cultura popular que nem vale a pena escrever mais sobre o assunto. Animal Farm é uma exposição mais ou menos dissimulada de como o ideal comunista se desmorona/desmoronou com o tempo e se torna/tornou uma ditadura tão ou mais brutal como a organização social que a precedeu.
Facto pouco conhecido (pelo menos para mim e que só descobri enquanto pesquisava sobre o filme) é que George Orwell, autor do também mundialmente conhecido "1984", chamava-se realmente Eric Arthur Blair. Mas, como eu digo sempre, isso não interessa para nada. O que interessa é que tanto o livro como o filme são óptimos.
Gosto de simbolismos, daí que este filme seja um dos meus filmes de eleição. Há obviamente comparações directas e sobreposições das figuras históricas, como por exemplo Napoleon que é na verdade Estaline; o embriagado dono original da quinta, Jones, que é Nicolau II e Snowball que é Trotsky. Menos consensual é Old Major que tanto me parece ser Lenine como Karl Marx, mas se calhar é mesmo uma mistura dos dois. Figura também dúbia é Pilkington que parece ser uma mistura do bloco Estados Unidos/Inglaterra. Toda a gente tem as suas teorias e todos com quem comentei o filme têm ligeiras nuances sobre quem é quem e sobre o que se trata verdadeiramente Animal Farm. Há meia internet a discutir os mais ínfimos pormenores e tudo o que gira em volta dos simbolismos do filme.
De todas as comparações e simbologias desta fábula destaco especialmente quatro: Boxer, Benjamin, Mr. Whimper e o gato.
O cavalo Boxer é uma excelente representação da massa trabalhadora anónima e também uma ferramenta indispensável dos governantes e dirigentes. Infelizmente, tal como qualquer outra ferramenta, Boxer, possui as mesmas características, podendo ser bem ou mal utilizado. Assim que a sua utilidade se vê reduzida devido a um acidente de trabalho na construção do farol do regime - o moinho -, Boxer é vendido sem complacência. Parece óbvio deduzir, que independentemente do estilo de governação, a massa trabalhadora é uma massa capaz de elevar o orgulho colectivo, mas que também acaba por ser uma das responsáveis pelo crescimento desmesurado e desregrado de regimes autoritários e das suas manobras de propaganda. Ainda assim, Boxer traduz-se naquela massa humana, que apesar de discordar das ideias dos governantes devido a uma análise atenta que faz da sociedade que o rodeia, acaba por se sacrificar pessoalmente perante as necessidades do colectivo, na esperança que o seu trabalho resulte num futuro melhor para todos.
Benjamin, o burro, simboliza uma parte da massa trabalhadora, tal como Boxer. A diferença entre eles parece ser apenas uma questão de inteligência e percepção da realidade. Como quem diz, esta é aquela parte estúpida que responde sempre com um enorme sorriso e um sonoro obrigado, quando lhe oferecem umas míseras cenouras... que foi ele que pagou. Companheiro inseparável de Boxer, Benjamin é, por assim dizer, mais "curto de vistas". Apesar de trabalhar lado a lado com Boxer e de ter a mesma capacidade de trabalho e sacrifìcio, Benjamin faz uma análise menos objectiva da sociedade (ou nem chega a fazê-la) e deixa passar em branco muitas das atrocidades do regime. Ou não quer ver o que se passa ou está desatento. Apenas no momento em que perde o seu melhor amigo é que finalmente percebe que quem o governa é afinal um inimigo interno, igual ou pior que as ameaças externas. Só perante uma situação extremamente grave e que o implica directamente, é que esta "massa trabalhadora" consegue de facto pôr de parte o cinismo com que olha para a situação e percebe que tem de arregaçar as mangas e fazer alguma coisa para mudar o rumo aos acontecimentos.
Mr. Whimper, o intermediário entre animais e humanos, com o tempo foi-se tornando numa das personagens mais interessantes. Convém lembrar que o filme é de 1954 mas o livro tem data de publicação de 1945 e foi escrito ainda antes dessa data. O grande mundo corporativo dava os primeiros passos globais enquanto a sociedade cambaleava do meio de duas guerras mundiais, e em que a União Soviética ainda era, para todos os efeitos, uma Aliada, facto esse que, obviamente, dificultou a publicação do livro. Mas, analisando a continuidade das personagens no tempo para lá do representativo do livro/filme, Mr. Whimper é um dos poucos que mudou e cresceu em importância. No filme, é uma pequena personagem que lucra com os produtos que saem da quinta e lucra o suficiente para ser olhado com desconfiança pelos outros donos de quintas. O seu papel fica por aqui, mas se houvesse uma sequela do Animal Farm e as sobreposições históricas fossem continuadas, Mr. Whimper seria sem dúvida a personagem de topo no momento, representativa do aparecimento de uma nova força espelhada no comerciante obcecado pelo lucro. A semente da era actual do gigantismo corporativo global, sem fronteiras, e do capitalismo puro e duro é o Mr. Whimper! Ele rege-se apenas e só pelo dinheiro. São-lhe indiferentes os regimes polìticos, as pessoas, os papéis e as leis. Nada é tão importante quanto o dinheiro e lucro. Não importa a sua origem, desde que o destino seja o seu bolso. Extrapolando o conteúdo do filme, facilmente se pode imaginar que por muitas voltas e reviravoltas que aconteçam na "gestão" da quinta, mais cedo ou mais tarde, Mr. Whimper acabará por ser o "chairman of the board" da grande empresa que irá comprar Animal Farm. E se isso acontecesse, uma grande parte da quinta iria ser transformada numa área de belos condomínios e todos os animais estariam cobertos de impostos e burocracia. Se calhar estou a a extrapolar demais, mas como tudo é cíclico, veremos... Pode ser que um dia haja um Animal Farm 2...
O Gato, o qual desconheço o nome, é talvez a única não-personagem e uma das minhas preferidas. Já vi muitas teorias que apontam em várias direcções quanto ao que o gato poderá representar. A única coisa certa é que o gato está lá. Não está presente nos grandes acontecimentos, mas acaba sempre por cruzar a acção. Não participa mas também não está excluído. Quem é este misterioso gato? Será um símbolo dos excluídos da sociedade? Um apátrida? Será um refugiado ou um exilado de outra "animal farm"? Será um nómada, já que não parece pertencer ou ter grandes relações com o colectivo? Será um daqueles anarquistas sempre vestidos de negro, a trabalhar sorrateiramente nos bastidores? Nem sequer se percebe muito bem se apoia os "bons" ou os "maus" e a certa altura até apoia os dois lados. Na minha opinião, tal como na vida real, o gato não tem uma finalidade escondida, nem sequer representa nada em especial. Apenas representa o seu papel: o de ser gato, a olhar por si, a tentar passar despercebido sem causar grande alarido e mais nada. Com tudo o que isso tem de bom e de mau. Num filme com tanto simbolismo, é a única personagem que se representa a si própria. Como sempre, os gatos são superiores...

Tantos anos depois da sua estreia, Animal Farm, continua a ser uma referência, quanto mais não fosse, por ser a primeira longa-metragem de animação inglesa (mas também já li que foi a segunda!), muito por culpa da força criadora e visionária do casal-autor, Joy Batchelor e John Halas. Referência ainda para Maurice Denham, que teve o trabalho hérculeo e excepcional de fazer as vozes de todos os animais.
Animal Farm não é um filme de 6 estrelas pelos atributos técnicos avançados, mas porque de certa forma parece ter sido concebido quase como um manifesto intemporal. É inegável que é na história excepcional de George Orwell que reside toda a força do filme. De uma forma estranha, Animal Farm muda conforme os olhos de quem o vê e muda à medida que o expectador vai ficando mais velho. Mais estranho ainda, é Animal Farm conseguir ser simples e complexo ao mesmo tempo.
Revi-o mais tarde e por diversas vezes, e só aí percebi alguns dos paralelismos desta fábula com a revolução comunista e consequente degeneração de um ideal que aparentava ser uma alternativa. Esta característica de sobreposição da realidade fez com que o filme ficasse infelizmente preso no tempo. No entanto, e como tudo indica, a História parece ser cíclica, o que quer dizer que Animal Farm volta a estar actual. Já se fala novamente numa nova Guerra Fria. Vamos lá a ver se ninguém se lembra de levantar "muros" ou "cortinas" outra vez...
É de referir que há diferenças entre o filme e o livro, nomeadamente no final. Não sei se foi uma tentativa de aproximação mais light para dar um final um pouco mais feliz, ou se como já li numas teorias da conspiração, a CIA comprou os direitos e usou o filme como propaganda anti-comunista... Sinceramente não sei. O que sei é que quando se pega em simbolismos políticos, a história nunca é simples...

Como curiosidade, enquanto procurava um trailer encontrei... o filme inteiro disponível no youtube. Em tempos, Animal Farm já foi difícil de se encontrar no mercado português, mas agora está por todo o lado. É uma oportunidade de ouro para (re)ver um clássico que é muito mais que um filme de animação. É uma lição de história para quem tem olhos instruídos, um exercício mental de projecção do futuro e um acto contínuo de reflexão. Como obra de cinema é simplesmente único, incomparável, intemporal, obrigatório, mas acima de tudo, genial. ●●●●● + ●

 
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