Jesse é uma miúda de grande beleza e inocência. Após completar 16 anos, muda-se para Los Angeles na tentativa de se tornar modelo. toda a gente elhe diz que ela tem todas as qualidades para ser uma estrela. Mas contariamente ao que pensa, Jesse (Elle Fanning) entra num mundo de inveja e vai ter de lutar com as modelos mais veteranas (Abbey Lee, Bella Heathcote), se bem que também vai tendo alguma ajuda (Jena Malone).
Inocência, beleza natural, moda, inveja e canibalismo. Eis The Neon Demon, o novo mundo alucinado de Nicolas Winding Refn, aqui como escritor e realizador. E a normalidade fica-se por aqui. Entra então o horror, a violência, o sangue, o gore, a nudez e cenas de sexo chocante e aberrante com mortos. The Neon Demon é um ovni surrealista. Um objecto estranho do cinema. Uma mistura estranha, por vezes difícil de ver de tão revoltante que é, mas estranhamente apelativa, repleto de grandes imagens e muito, muito simbolismo.
Este é um filme distribuído pelo Amazon Studios, apesar da produção ser externa. Se isto fosse distribuído por um estúdio "normal" não me parece que o corte final do filme fosse o mesmo. Daí que muitos realizadores defendam com unhas e dentes estas novas plataformas de distribuição, porque pela primeira vez em muitos anos, o realizador pode fazer chegar ao publico a sua visão intocada da obra. Não que isso seja totalmente benéfico para um filme. Por vezes, há pessoal que não se consegue conter. Este parece ser um dos casos. Por muito belas imagens que um filme tenha - e até é o caso -, para mim, um filme precisa de uma certa estrutura narrativa que faça sentido. Porque senão é mesmo só isso: um conjunto de belas imagens e som sem muito significado. A determinadas alturas é o que acontece com este Neon Demon, que peca pelo exagero e pela falta de refreio. A história perde-se, confunde-se e acaba por desaparecer, submersa pela estética irrepreensível e pela fantástica e estranha fotografia. Em determinados pontos do filme, Refn parece um cão raivoso que precisa mesmo de ser açaimado para lhe fazer sobressair o "melhor lado" em detrimento do lado profundamente "negro". Sendo eu abertamente anti-interferência dos estúdios no conteúdo autoral dos realizadores, parece estranho estar a dizer isto, mas é o que sinto. Até porque Refn é um dos gajos recentes que mais admiro. Reconheço-lhe as influências "Kubrickianas", "Lynchianas" e outras que povoam as suas obras e desde os primeiros filmes que também lhe reconheço uma certa genialidade na realização e na visão - muito diferente dos restantes contemporâneos -, mas acho que aqui foi um pouco longe demais.
The Neon Demon poderia ter sido muito bom. Assim, só fica na memória pelo choque, se bem que é seguramente um daqueles filmes que vai ter uma legião de fãs incontável e daqui a algum tempo será considerado "filme de culto". Mas antes isso que nada. Nicolas, vai por mim, uma bocadinho de contenção nunca fez mal a ninguém. ●●●○○
Mostrar mensagens com a etiqueta canibal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta canibal. Mostrar todas as mensagens
O ano é 2022 e a realidade é um distopia viva. O mundo do detective Thorn (Charlton Heston) dá uma volta de 180 graus quando lhe é designada uma investigação de homicídio numa zona rica e exclusiva da cidade. Mas o mundo de Thorn é também um mundo superpovoado (40 milhões de pessoas só em Nova York), poluído e de recursos sobreexplorados e escassos. É um mundo onde a eutanásia é uma matéria de estado que tem centros próprios para acabar com os idosos, que no momento em que são envenenados e esperam a morte, podem finalmente rever num monitor o extinto mundo natural em todo o seu esplendor... É neste mundo pessimista e terminal que Thorn conhece Shirl (Leigh Taylor-Young), uma "mobília". Soylent Green tem conceitos muito fixes e muito avançados. "Mobília", por exemplo é o que se chamam às mulheres que fazem parte do contrato de arrendamento que os ricos assinam quando vão para os tais apartamentos chiques na "alta" e vivem numa realidade paralela dos milhões de pessoas a viver em vãos de escadas... As pessoas são tantas que são literalmente tratadas como lixo... O próprio termo "soylent" é uma mistura de soja (soybeans) e lentilhas o
que me lembra imediatamente a mudança nos conceitos alimentares
relativamente recentes...
Soylent Green foi adaptado do livro de Harry Harrison, "Make Room! Make Room!", e lida com temas extremos como a conspiração, distopia, canibalismo, homicídio e destruição ecológica à escala planetária. E é uma obra negra, pessimista e que não acaba bem. É mesmo típico dos filmes dos 70's. Os anos 70 foram ao mesmo tempo o pináculo e a década do nascimento da verdadeira ficção científica. Foi quando se começou a aliar a lógica e o pensamento científico ao espectáculo do cinema. Apesar de só ter contacto com este e outros filmes do género muito mais tarde (nos 80's), isso teve um efeito profundo em mim. Neste caso específico, fez com que começasse a estar alerta para a ecologia e começou a incutir-me a curiosidade de como o mundo natural funcionava e como o homem o poderia desestabilizar ou até mesmo o destruir. Até essa altura eu não tinha noção que isso seria sequer possível. Não tinha conhecimentos nem inteligência suficiente para perceber. Soylent Green foi um filme que literalmente mudou o meu mundo e que mudou a forma como via o mundo. E também mudou a forma como via os filmes. Aquele final simplesmente explodiu-me com o cérebro... E teve o condão de o pôr a funcionar de outra forma. Aquilo seria possível? Seria possível a Terra e o Homem chegarem àquele ponto? Quem eram aquelas pessoas que conseguiam imaginar um futuro assim? Ainda hoje, sempre que ouço um camião do lixo a carregar ao longe, lembro-me sempre do Soylent Green. Claro que é um filme que está datado no tempo e faltam-lhe muitas "coisas" de 2022. Mas quem é que consegue imaginar o mundo daqui a 50 anos e mostrá-lo exactamente como será viver nele? É preciso dar o desconto devido...
Este foi o último filme de Edward G. Robinson que se debatia com um cancro, embora ninguém soubesse. Na cena da eutanásia, Heston estava mesmo a chorar devido à actuação "real" de Robinson... Pensando bem, é de facto, cruel. A última coisa que filmou foi a sua "morte", o que viria realmente a acontecer uns dias depois do final das filmagens. Mais um elemento mítico a juntar ao próprio carácter mítico do filme em si.
Soylent Green é um clássico intemporal, imperdível e imprescindível. É daqueles filmes que tem uma história que dá para infindáveis dissertações e discussões. Mas o melhor é ver. Diria que é mesmo obrigatório ver. E que seja a uma terça-feira, pois terça-feira é dia de Soylent Green... ●●●●● + ●
Soylent Green foi adaptado do livro de Harry Harrison, "Make Room! Make Room!", e lida com temas extremos como a conspiração, distopia, canibalismo, homicídio e destruição ecológica à escala planetária. E é uma obra negra, pessimista e que não acaba bem. É mesmo típico dos filmes dos 70's. Os anos 70 foram ao mesmo tempo o pináculo e a década do nascimento da verdadeira ficção científica. Foi quando se começou a aliar a lógica e o pensamento científico ao espectáculo do cinema. Apesar de só ter contacto com este e outros filmes do género muito mais tarde (nos 80's), isso teve um efeito profundo em mim. Neste caso específico, fez com que começasse a estar alerta para a ecologia e começou a incutir-me a curiosidade de como o mundo natural funcionava e como o homem o poderia desestabilizar ou até mesmo o destruir. Até essa altura eu não tinha noção que isso seria sequer possível. Não tinha conhecimentos nem inteligência suficiente para perceber. Soylent Green foi um filme que literalmente mudou o meu mundo e que mudou a forma como via o mundo. E também mudou a forma como via os filmes. Aquele final simplesmente explodiu-me com o cérebro... E teve o condão de o pôr a funcionar de outra forma. Aquilo seria possível? Seria possível a Terra e o Homem chegarem àquele ponto? Quem eram aquelas pessoas que conseguiam imaginar um futuro assim? Ainda hoje, sempre que ouço um camião do lixo a carregar ao longe, lembro-me sempre do Soylent Green. Claro que é um filme que está datado no tempo e faltam-lhe muitas "coisas" de 2022. Mas quem é que consegue imaginar o mundo daqui a 50 anos e mostrá-lo exactamente como será viver nele? É preciso dar o desconto devido...
Este foi o último filme de Edward G. Robinson que se debatia com um cancro, embora ninguém soubesse. Na cena da eutanásia, Heston estava mesmo a chorar devido à actuação "real" de Robinson... Pensando bem, é de facto, cruel. A última coisa que filmou foi a sua "morte", o que viria realmente a acontecer uns dias depois do final das filmagens. Mais um elemento mítico a juntar ao próprio carácter mítico do filme em si.
Soylent Green é um clássico intemporal, imperdível e imprescindível. É daqueles filmes que tem uma história que dá para infindáveis dissertações e discussões. Mas o melhor é ver. Diria que é mesmo obrigatório ver. E que seja a uma terça-feira, pois terça-feira é dia de Soylent Green... ●●●●● + ●
The Bad Batch é daqueles filmes que percebi, mas não gostei. Percebi a metáfora dos indesejáveis, que expulsos da "sociedade perfeita", são levados para lá dos limites do inaceitável (canibalismo) por força das circunstâncias. Sendo que as circunstâncias são basicamente, a falta de comida, de regras e de empatia, então a lei do mais forte, a lei da necessidade mais básica, a simples e pura sobrevivência, irá sempre imperar.
O que não gostei, principalmente, é que me pareceu um mix de coisas. Uma espécie de híbrido entre filme independente/intelectual, um videoclipe da Lana del Rey e um anúncio Tommy Hilfiger (ou será Ralph Lauren? Não sei muito bem qual destes é, mas é aquele que não tem nada a ver com o mar; o filme é todo passado no deserto...), rodado nos cenários pós-apocalípticos do Mad Max. Apesar de ser um filme com uma fotografia fantástica, acho-o algo despropositado: a disparidade entre o grotesco da actuação das personagens e as imagens lindíssimas não conjugam perfeitamente. É como tentar juntar as palavras romance e canibal na mesma frase: dificilmente irá sair bem...
Acho que é um filme feito por alguém com bastante talento (Ana Lily Amirpour), mas que não se consegue conter. É um problema que tenho visto muitas vezes.
Com aquele início muito bom e com tantas possibilidades metafóricas da história (até com a actualidade política e social americana), podia e deveria ter sido muito melhor. Até porque esta história funciona em qualquer altura: num presente instável e anárquico ou num futuro longínquo e distópico. Acho que o tema foi muito mal aproveitado. Fiquei com a sensação que tentaram que The Bad Batch tivesse aquele ar de filme "independente" e "intelectual" e acabaram por tornar o filme vazio e monótono, ao mesmo tempo que o tornaram ostensivamente metafórico, como se o público fosse um bocado burrinho e não conseguisse perceber nas entrelinhas. Detesto que me façam isso...
Aliás, é um filme que se perde bastante a tentar passar mensagens em cartazes. São muitos cartazes com muitas mensagens, espalhados por todo o lado e por todo o filme... Dei por mim a imaginar-me naquelas lojas de presentes que têm mensagens motivacionais em canecas e t-shirts...
O que poderia safar este filme seriam os actores. Mas nem isso aconteceu. Suki Waterhouse no papel principal de uma personagem que até tem bastante impacto, simplesmente não "aparece"; Keanu Reeves parece deslocado do seu papel e começo a ficar preocupado com o Jim Carrey e com o Giovanni Ribisi: só aparecem a fazer papéis de loucos ou estarão mesmo a pirar do capacete? A única surpresa positiva é o Jason Momoa, que não sendo grande actor, até teve bastante "presença".
The Bad Batch é uma partida em falso, apesar de metade do elenco andar constante de um lado para outro sem rumo. Apesar de estar muito bem fotografado, acaba por ser monótono e não tem uma história definida. Mas tem potencial. Há por aqui muito material de base para se fazer um filme em condições. Pode ser que alguém tenha visto o mesmo que eu e daqui por uns anos refaça o filme como deve ser. ●●○○○
O que não gostei, principalmente, é que me pareceu um mix de coisas. Uma espécie de híbrido entre filme independente/intelectual, um videoclipe da Lana del Rey e um anúncio Tommy Hilfiger (ou será Ralph Lauren? Não sei muito bem qual destes é, mas é aquele que não tem nada a ver com o mar; o filme é todo passado no deserto...), rodado nos cenários pós-apocalípticos do Mad Max. Apesar de ser um filme com uma fotografia fantástica, acho-o algo despropositado: a disparidade entre o grotesco da actuação das personagens e as imagens lindíssimas não conjugam perfeitamente. É como tentar juntar as palavras romance e canibal na mesma frase: dificilmente irá sair bem...
Acho que é um filme feito por alguém com bastante talento (Ana Lily Amirpour), mas que não se consegue conter. É um problema que tenho visto muitas vezes.
Com aquele início muito bom e com tantas possibilidades metafóricas da história (até com a actualidade política e social americana), podia e deveria ter sido muito melhor. Até porque esta história funciona em qualquer altura: num presente instável e anárquico ou num futuro longínquo e distópico. Acho que o tema foi muito mal aproveitado. Fiquei com a sensação que tentaram que The Bad Batch tivesse aquele ar de filme "independente" e "intelectual" e acabaram por tornar o filme vazio e monótono, ao mesmo tempo que o tornaram ostensivamente metafórico, como se o público fosse um bocado burrinho e não conseguisse perceber nas entrelinhas. Detesto que me façam isso...
Aliás, é um filme que se perde bastante a tentar passar mensagens em cartazes. São muitos cartazes com muitas mensagens, espalhados por todo o lado e por todo o filme... Dei por mim a imaginar-me naquelas lojas de presentes que têm mensagens motivacionais em canecas e t-shirts...
O que poderia safar este filme seriam os actores. Mas nem isso aconteceu. Suki Waterhouse no papel principal de uma personagem que até tem bastante impacto, simplesmente não "aparece"; Keanu Reeves parece deslocado do seu papel e começo a ficar preocupado com o Jim Carrey e com o Giovanni Ribisi: só aparecem a fazer papéis de loucos ou estarão mesmo a pirar do capacete? A única surpresa positiva é o Jason Momoa, que não sendo grande actor, até teve bastante "presença".
The Bad Batch é uma partida em falso, apesar de metade do elenco andar constante de um lado para outro sem rumo. Apesar de estar muito bem fotografado, acaba por ser monótono e não tem uma história definida. Mas tem potencial. Há por aqui muito material de base para se fazer um filme em condições. Pode ser que alguém tenha visto o mesmo que eu e daqui por uns anos refaça o filme como deve ser. ●●○○○
Baseado no best-seller de Cormac McCarthy (No Country for Old Men), The Road conta a história de um pai e o filho na sua longa e lenta viagem até ao mar. A viagem vai ser dura porque terão de atravessar um mundo pós-apocalítico, destruído, sem vida, cinzento, repleto de canibais, malfeitores e pessoas que lutam a qualquer custo pela sua sobrevivência.
Se há filmes que me surpreendem pela positiva, há outros..., lá está, que é exactamente o oposto. Neste caso, foi com The Road, realizado por John Hillcoat. O filme não tem propriamente nada de mal feito. Acho que neste caso, o problema foram as expectativas demasiado elevadas. Já antes sequer de haver um trailer, ouvia falar do The Road como "o grande", "o melhor", "o derradeiro" filme apocalíptico. Isto não ajuda nada. Estive "em pulgas" para o ver, e quando finalmente isso aconteceu... decepcionou-me. Fiquei com a sensação que podia ser melhor. Ou pelo menos, não era assim tão bom quanto tinha lido noutras críticas. É... Acho que foram as expectativas altas.
Fora isso, até escapa bastante bem. Uma colecção de bons actores (Viggo Mortensen, Charlize Theron, Robert Duvall e Guy Pearce), com uma boa realização e uma história que é, de facto, diferente do habitual festim de fim do mundo de Hollywood. Vê-se bem, apesar de achar que as críticas foram demasiado positivas para o filme que é. ●●○○○
Se há filmes que me surpreendem pela positiva, há outros..., lá está, que é exactamente o oposto. Neste caso, foi com The Road, realizado por John Hillcoat. O filme não tem propriamente nada de mal feito. Acho que neste caso, o problema foram as expectativas demasiado elevadas. Já antes sequer de haver um trailer, ouvia falar do The Road como "o grande", "o melhor", "o derradeiro" filme apocalíptico. Isto não ajuda nada. Estive "em pulgas" para o ver, e quando finalmente isso aconteceu... decepcionou-me. Fiquei com a sensação que podia ser melhor. Ou pelo menos, não era assim tão bom quanto tinha lido noutras críticas. É... Acho que foram as expectativas altas.
Fora isso, até escapa bastante bem. Uma colecção de bons actores (Viggo Mortensen, Charlize Theron, Robert Duvall e Guy Pearce), com uma boa realização e uma história que é, de facto, diferente do habitual festim de fim do mundo de Hollywood. Vê-se bem, apesar de achar que as críticas foram demasiado positivas para o filme que é. ●●○○○



