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Em 2005 um grupo de investigadores financeiros apercebe-se de uma série de falhas graves no sistema americano de crédito à habitação. Para além das dívidas dos americanos serem impagáveis, o grupo apercebe-se da corrupção e da estupidez que gere este mercado escondido e decide apostar tudo o que têm na queda do próprio mercado. Os grandes banqueiros não percebem a jogada e inclusive ajudam-nos a angariar fundos para apostar contra os seus próprios clientes, julgando que estavam a fazer negócio com investidores estúpidos... O resto é história. E como a realidade é sempre mais estranha que a ficção, esta é uma história verídica. Os nomes foram alterados, mas as personagens são verdadeiras. Toda a história é verdadeira. Não parece verdade que haja pessoas na penumbra a ganhar rios de dinheiro com a pobreza dos outros, mas a realidade é o que é...
Alguém por aqui sabe-me explicar o que são derivativos, dívida subprime, credit default swaps, obrigações de dívida colaterizada (CDOs), CDOs sintéticos ou outras destas "cenas" técnico-financeiras? Pois... não é fácil. Até mesmo para quem as criou e lucra com isso. O panorama, a desregularização sistemática e o ecossistema financeiro surreal criado à volta das dívidas "quase" eternas das pessoas comuns levaram a um descontrolo total, que levou ao colapso de economias inteiras. O mais inacreditável é que depois de tudo isto começar a arder, os gajos que criaram o fogo safaram-se sem culpa, atirando-a para cima das pessoas normais, e mais importante, no final, receberam ajudas gigantescas dos Estados (que ele detestam visceralmente) e ainda lucraram com isso. Nesse aspecto é notável a história contada no filme de como o Goldman Sachs atrasou o colapso financeiro o suficiente para vender activos tóxicos aos seus próprios clientes mais desatentos e apostar que eles iam perder dinheiro... tirando lucro disso mesmo. Um autêntico canibalismo financeiro em que nada, mas mesmo nada tem valor... a não ser fazer dinheiro. Inacreditável a lata destes gajos. E uma pessoa pergunta-se? Mas porque é que as pessoas não se revoltam como este tipo de situações? Acho que a resposta está nos parágrafos acima... ninguém faz a mínima ideia do que se passa atrás da cortina onde esta gente se move. Só mesmo quando há um fogo e o fumo chega perto é que as "pessoas normais" têm noção de que existe uma outra realidade para além da vidinha normal de pagar as dívidas no final do mês. E para aprofundar ainda mais as crises sociais, como parece que uma parte do pessoal que por cá anda é meio estúpida, passado pouco tempo, estão todos a atirar culpas uns para outros e os verdadeiros responsáveis, para além de se safarem sem verem as caras expostas nas primeiras páginas, vão para os seus iates beberem umas margaritas de borla... A verdade é que cada um tem o o que merece... Bem, parece que estou novamente a divagar...
Poderia aproveitar a oportunidade de falar deste The Big Short, para relembrar o perigo iminente das dívidas do subprime, dos derivativos, dos MBSs ou das CDOs, mas acho que não é preciso. Uma das coisas que The Big Short tem de bom é que para além de ser um bom filme, também é uma excelente aula de finanças avançadas. Explicam isto tudo muito bem explicado. Um gajo até começa a ter ideias malucas e a penasr se não seria melhor vestir um fatinho, meter uma "forca ao pescoço" e atirar-se de cabeça num destes esquemas financeiros marados... Adam McKay fez um trabalho soberbo, mas também tem de se dar os parabéns ao argumento que está espectacularmente bem escrito. Não é nada fácil criar uma narrativa assim com base em acontecimentos tão surreiais e tão repleto de terminologia que parece saído de um filme de ficção científica...
Está tão bem escrito que decidi guardar para mim uma citação do filme que acho que é absolutamente fantástica e que em certa parte acho que resume bem o mundo em que vivemos... "A verdade é como a poesia. E a maior parte das pessoas está-se a cagar para a poesia"... tradução livre, obviamente.
Para além de ser um grande filme, The Big Short junta outros pontos positivos como estar espectacularmente bem escrito, muito bem dirigido e ser interpretado por uma trupe de excelentes actores (Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling e Brad Pitt) que verdadeiramente sabem o que estão a fazer. Mas a verdadeira importância do filme não está no filme propriamente dito: toda a importância está na mensagem. E a mensagem é muito simples: algures, por aí, por trás da cortina, há uma série de abutres financeiros que vão tramar toda a gente com a sua ganancia estúpida. E quando isto acontecer, toda a gente vai ficar pobre (outra vez) e estes gajos vão ficar (ainda) mais ricos. O sistema está mal construído e estas pessoas aproveitam-se disso, até porque são elas próprias que, à partida, constroem estas falhas no próprio sistema, para lucrarem com isso mesmo que toda a gente perca. Estas pessoas são perigosas porque só têm um propósito: fazer dinheiro. Tudo o resto é... nada. Zero. Nicles. Não interessa para nada... É por isso que The Big Short é tão importante. Quando acontecer outra vez, e vai acontecer outra vez (a vergonha juntamente com a ganância nunca termina - Greed is good! ...alguém ainda se lembra da frase?) é bom (re)ver o filme e perceber o que raios acabou de acontecer... novamente. ●●●

Dois bandidos de meia tigela decidem fazer um golpe extraordinário: assaltar o que é nada mais nada menos que o local onde os mafiosos jogam cartas com avultadas somas de dinheiro. A ideia é arrojada e em princípio até é uma boa ideia, porque assaltar alguém que não pode ir à polícia fazer queixa não é assim tão descabido. Obviamente, as coisas não vão correr como planeado, até porque este golpe "simples" acaba por abalar economicamente toda a estrutura da própria Máfia. Para resolver toda esta confusão, os mafiosos recorrem aos serviços de Jackie Cogan, um justiceiro implacável mas que parece estar do lado errado da barricada.
Brad Pitt, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, Ray Liotta, Richard Jenkins e James Gandolfini dão corpo a uma série de personagens muito bem construídas. Se no caso de Pitt esta foi (mais) uma mudança de ares, para o restante elenco é quase como voltar a casa para comer um prato de pasta da nona Giona acompanhado de um copo de Chianti... Mas todos sem excepção estão muito bem e estão especialmente bem dirigidos.
Killing Them Softly tem uma narrativa simples e muito pouco original mas está muito bem feito. A fotografia é exemplar. Andrew Dominik tem uma realização sem mácula. Não o conhecia até esta altura, mas foi um nome que listei para ficar debaixo de olho. Apesar da crítica constante ao modo de vida e ao sonho americano (a crise financeira de 2008/09 era uma realidade bem palpável), a história de base é um dejá vu constante, e por isso é o olhar, os enquadramentos e os movimentos de câmara de Dominik que salvam literalmente o filme da irrelevância. Isto só prova que por muito banal que uma história seja, ter um bom realizador e bons diálogos interpretados por bons actores salvam logo um filme.
Killing Them Softly fez-me lembrar aquele aspecto mais negro, violento e sujo dos antigos filmes policiais (e mafiosos) dos anos 70, e quanto mais não fosse, só por causa disso já é totalmente aceitável. Um bom filmito de ladrões e mafiosos. ●●●○

Não é fácil escrever sobre um filme do Quentin Tarantino. Fazer bons filmes não é tarefa para todos. Estar para aqui a criticar o trabalho de um mestre do cinema é um trabalho que também tem as suas dificuldades. Especialmente se for para criticar negativamente. E há muitos pontos negativos neste Once Upon a Time... in Hollywood. No final, deixou-me um pequeno amargo de boca. Pronto. Vou ser sincero. No final, deixou-me um grande amargo de boca.
A parte boa de Once Upon a Time... in Hollywood é que é um filme realizado por Tarantino. Tem aquela fluidez típica, com uma montagem muito rápida mas que ao mesmo tempo dá espaço para as personagens poderem desenvolver-se e respirar. Tem tudo o que é típico de Tarantino, mas (e é um grande mas) tudo parece diluído. Como se o efeito Tarantino se estivesse a dissipar. Depois, vem tudo o que não está bem... e é muita coisa. Logo à partida não entendi a aproximação estranha sobre uma história alternativa mas baseada em personagens e factos verdadeiros. Muito antes de ver o filme já tinha lido bastantes coisas e tudo incidia sobre os acontecimentos em volta da Sharon Tate e do Charles Manson e do seu tresloucado bando de psicopata. Foi só uma questão marketing a funcionar? Não sei. O que sei é que o filme apenas vagamente está relacionado com os assuntos. Parece-me até que... Bem, nem sei muito bem o que pensar. A história está tão confusa e desequilibrada, que parece que foi desenvolvida no sentido do actor de westerns que vai perdendo protagonismo na "nova Hollywood" (Leonardo DiCaprio) e que foi sendo montada para encaixar a história da Sharon Tate no final. Que grande confusão. Se Tarantino sempre se deu com histórias complexas e com muitas personagens interligadas, neste caso falhou redondamente. Basta ver a discrepância entre o tempo de filme dedicado ao western e à carreira do Rick Dalton e do seu duplo Cliff Booth, e os acontecimentos em Cielo Drive que são de facto o motor do filme.
Outra coisa que sempre diferenciou os filmes de Tarantino é a intensidade dos diálogos. Aqueles gigantescos e míticos monólogos que funcionam quase como grandes solos de guitarra eléctrica... desapareceram. Os poucos que ainda apareceram são enfadonhos e simplesmente... longos monólogos. Poderia estar aqui toda a tarde a apontar defeitos ao Once Upon a Time... in Hollywood. O que não é nada normal, porque em todos os anteriores filmes do Tarantino, a minha dificuldade sempre foi tentar arranjar novos e bons adjectivos. É que nem o Brad Pitt se safa com aquele ar meio ganzado, meio hiper-sapiente de quem esteve 6 horas a conversar com o "The Dude"... Margot Robbie, por exemplo, quase não aparece e a personagem é a peça fundamental da fábula. Qual é grande deixa ou a relevância das personagens de Kurt RussellDamian Lewis, Timothy Olyphant ou Al Pacino? Continuo sem perceber o que se passou aqui.
Tarantino criou na sua filmografia, uma mitologia muito própria, e por causa disso dou-lhe todo o mérito do mundo. É um dos gajos que mais aprecio como realizador. Mas agora parece ter ficado preso na sua própria mitologia. Para mim não é coincidência que o filme se chama Once Upon a Time... in Hollywood; é  uma referência directa ao Once Upon a Time... in America, que vem de um dos melhores realizadores de westerns de sempre, Sergio Leone. Não sei. Estou a conjecturar. Pode ser ou não. Mas o que é realidade é que Tarantino parece ter ficado preso na temática dos westerns e isso está a consumi-lo. Não é coincidência. Os últimos três filmes foram... nazis e westerns. Que filmes é que Rick Dalton faz? Filmes com nazis e... westerns.
Pouco depois da estreia de Once Upon a Time... in Hollywood, vi uma entrevista em que ele explica a sua maneira peculiar (que eu já desconfiava) de construir os filmes. Sendo um aficionado dos discos de vinil (tem milhares), ele senta-se, ouve as músicas e a partir daí o filme vai-lhe "nascendo" na cabeça, sem ter uma história previamente delineada. Faz todo o sentido porque uma das grandes marcas de Tarantino sempre foram as portentosas bandas sonoras que, por si só, são excelentes. Parece-me que ultimamente tem variado muito pouco nos vinis. E eu pergunto: qual é o impacto da banda sonora de Once Upon a Time... in Hollywood? Há alguma daquelas músicas à Tarantino? Alguém se lembra de alguma música em particular? Pois eu não...
Não adianta estar com meias medidas. Se este fosse um filme de um gajo qualquer que estivesse a agora a estrear-se na cadeira de realizador, eu diria: tem bons pormenores e este gajo promete. Vou ficar de olho nele. No entanto, este um filme do Quentin Tarantino. Já vem com uma carga subjacente muito pesada e uma pessoa apenas espera o melhor do melhor. Mesmo sendo muito melhor que grande parte dos filmes que normalmente vejo, Once Upon a Time... in Hollywood (mesmo com todos os seus méritos, que obviamente tem) é provavelmente o pior Tarantino que já vi. Uma decepção inesperada. ●●●○

Num futuro não muito distante, a Humanidade vê-se confrontada com a extinção iminente. Apenas sobrevive em subterrâneos para escapar a um vírus mortal que assola a superfície e para o qual não há cura. Numa última tentativa para inverter a situação, um grupo de cientistas desenvolve uma máquina do tempo e envia o soldado James Cole (Bruce Willis) numa missão quase impossível: encontrar o terrível bando dos 12 Macacos (uma organização terrorista liderada por Jeffrey Goines (Brad Pitt), um louco com uma visão fanática da ecologia e anti-corporativista), responsável pela criação e disseminação do vírus que dizimou a maior parte da Humanidade e levar uma amostra para o futuro para tentar desenvolver uma cura. Pelo caminho, apaixona-se por Kathryn (Madeleine Stowe), uma bela mulher que nunca conheceu, mas que no entanto aparece recorrentemente nos seus sonhos.
As premissas do filme são assustadoras. Não é por acaso que a personagem de Madeleine Stowe é apresentada a meio de uma conferência em que o tema é o Complexo de Cassandra. Aqui a temática é de uma verdadeira pandemia mortal, mas sem ter origens naturais como as que temos vivido nos últimos anos. Esta é voluntária, concebida, planeada e executada por um grupo de ecologistas fanáticos que face ao descontrolo e agressão constante ao meio ambiente decide tomar as rédeas dos acontecimentos, "vingar" o planeta e simplesmente erradicar a Humanidade do problema. Em 1995 poderia parecer um tema um pouco para o chalado e completamente fora da caixa, mas agora já não é (infelizmente) assim tão descabido.
Agora vou-me afastar um pouco do filme, porque este é um tema marado. Uma das coisas que sempre me chamou à atenção nos últimos surtos virais recentes foram as teorias da conspiração. Apesar de toda a comunidade cientifica vir a público alertar que o que acontece é resultante exclusivo de factores naturais e que até são cíclicos, uma grande parte da opinião pública arranja sempre uma teoria alternativa que envolve um agressor humano. Antes, os culpados eram o russos, depois passaram a ser os americanos e agora são os chineses. As teorias são constantemente desmontadas como falsas mas no entanto elas andam por aí e cada vez com mais força. E depois ainda há um mundo inteiro que vive com os fantasmas do terrorismo. É só juntar 2+2. Terrorismo e armas biológicas. A única coisa que falta para juntar estas duas forças imensas é a vontade. Num mundo cada vez mais regido por autênticos psicopatas eleitos e apoiados por uma população crescente que parece cada mais estupidificada para lhes dar poder... Não auguro nada de bom para a Humanidade. Voltando ao 12 Monkeys... espero que não venham para aqui tirar ideias... Sinceramente, acho que não. Está a dar para perceber que o impacto económico de uma pandemia pode ser mais devastador que a própria doença. E o que rege o mundo é o dinheiro. Logo, sem pessoas, não há economia e por tabela não há dinheiro. Mas há por esse mundo fora, grupos fundamentalistas para quem o dinheiro não é a prioridade numero um, por isso convém ter este cenário sempre presente. Como dizia o outro: há pessoas que só querem ver o mundo a arder. Não é difícil de imaginar (ou prever) que mais cedo ou mais tarde, intencionalmente ou não, uma doença contagiosa poderá causar imensos danos à Humanidade, até porque já aconteceu algumas vezes na história. Apesar de vivermos numa altura em que parece que estamos acima do mundo natural, na realidade, estamos ao mesmo nível de todos os outros seres vivos deste planeta. A situação actual de pandemia de Covid-19 prova exactamente isso. Espero sinceramente que isto não descambe mais e que se resolva rapidamente com o mínimo de sofrimento humano possível, mas também espero que a Humanidade aproveite esta paragem forçada para corrigir erros e reposicionar-se mais equilibradamente no planeta. De certa forma, eu vejo o que está a acontecer agora como uma espécie de lição planetária. Veremos se alguém aprende alguma coisa com estes acontecimentos dramáticos.
Mas vamos aligeirar um pouco a coisa e voltar ao 12 Monkeys. Um dos meus realizadores preferidos é sem dúvida o Terry Gilliam. Não só pela colaboração com os Monty Python mas principalmente pela carreira posterior a solo. A ligação umbilical aos Python justifica porque muitos filmes estejam imersos na loucura, no entanto, ironicamente, Gilliam criou também alguns dos melhores filmes relacionados com a opressão, a distopia e também a temática pós-apocalíptica. Um dos melhores exemplos tem mesmo de ser o 12 Monkeys, que mistura brilhantemente tudo isto num cocktail explosivo. Não consigo imaginar outra pessoas para além de Gilliam na cadeira do realizador. É o gajo ideal para conseguir misturar todos estes temas bem pesados sem que um gajo fique automaticamente deprimido. Sem ser um filme de acção, 12 Monkeys tem um movimento constante, seja pelas filmagens tipicamente estranhas de Gilliam, seja pelas prestações dos actores que oscilam entre o brilhante e o totalmente louco. O design de produção é excelente e o guião é intocável na sua complexidade. Ainda por cima, quando uma das temáticas envolvidas é a viagem no tempo, o que normalmente resulta numa salgalhada que arruína qualquer filme. Sem ser um remake oficial do francês La Jetée, na verdade parece mais uma extrapolação directa. E aqui há que dividir o mérito pelo David Peoples (mais uma vez aplausos para o guião) que conseguiu expandir 28 minutos do conceito original para a complexidade deste 12 Monkeys, duma forma tão fragmentada, mas ao mesmo tempo tão consistente.
Tenho a certeza que vamos ver um ressurgimento do filme nos próximos tempos. Ainda bem, porque muito para além da temática algo deprimente, 12 Monkeys é um filme muito bem interpretado, muito bem realizado, muito bem escrito e muito bem feito. Um dos meus filmes de ficção cientifica preferidos. Já me está a apetecer revê-lo... novamente. ●●●●○

Um astronauta de sentimentos bastante contidos aceita uma missão através do sistema solar para tentar descobrir a verdade sobre o desaparecimento do pai, 30 anos antes, assim como tentar travar uma ameaça estelar que põe em perigo o planeta Terra e a sobrevivência da Humanidade. A premissa não é má de todo, mas é o desenvolvimento do filme e a própria ambiência e ritmo que acabam por marcar negativamente este Ad Astra.
Apesar do título (uma referência em latim que se traduz qualquer coisa como "para as estrelas"), pouco há de verdadeiramente espacial para ver. É uma das muitas falhas do filme. É inegável a influência de Interstellar, mas que neste caso funciona apenas como uma espécie de cópia mais pobre. Apesar das parecenças, Ad Astra tem muito menos alma, apesar do moralismo omnipresente.
Brad Pitt, Tommy Lee Jones, Donald Sutherland e Ruth Negga compõe o casting principal mas não aquecem nem arrefecem. Aliás, nos últimos tempos, Brad Pitt - em tempos um bad boy irreverente e irrequieto - aparece sempre associado a personagens que nitidamente estão sob o efeito de tranquilizantes. Acho que está a tentar entrar noutro tipo de filmes mas sérios e dramáticos, mas também pode ser um coincidência. Ou então anda mesmo sob o efeito de tranquilizantes. Tommy Lee Jones quase não tem personagem nem tempo de antena para desenvolver convenientemente uma personagem, assim como Sutherland e Negga. A juntar a isto há um ritmo lentíssimo de filme que faz com que se torne desinteressante e que eu quase adormecesse em algumas alturas do filme.
Dito isto, Ad Astra pode parecer um péssimo filme, mas também não é assim tão mau. Eu é que tinha expectativas algo elevadas e a visualização saiu-me furada. Mas do que uma consideração profunda dos conflitos entre pai e filho, Homem e Deus, Ad Astra é mais uma perseguição lenta e solitária no espaço do que outra coisa, que ainda por cima tem final muito pouco satisfatório. Tem bons pormenores na realização (James Gray), um banda sonora melhor que média, o que ajuda a elevar um pouco o filme, mas no conjunto, Ad Astra acaba por se tornar inócuo e totalmente esquecível. Mais uma oportunidade desperdiçada... ●●○

The Curious Case of Benjamin Button (ideia original do escritor F. Scott Fitzgerald) é mais uma peça de relojoaria meticulosamente montada por David Fincher. O que não torna o filme necessariamente muito bom. A história é-me estranha e o filme parece-me excessivamente longo, sendo que por vezes perde-se um pouco porque fica "pendurado no tempo". No essencial, é a história completa da vida de uma pessoa relativamente comum, mas com o twist da questão de nascer velho e morrer novo. Na realidade, não é assim tão twist, porque vistas as coisas, quando uma pessoa começa a envelhecer, a degradar-se e perder autonomia, acaba por ficar muito parecido com os primeiros anos de vida. É a realidade. É a vida. Mas o pior para mim, é que aqui no filme, a questão da velhice/novice acaba por ser, de certa forma, irrelevante. Se a personagem fosse "temporalmente normal" a história seria exactamente a mesma. Cate Blanchett, Brad Pitt e Elias Koteas são os que se destacam mais obviamente no elenco (grande ênfase, como sempre na Cate Blanchett). Mas uma das coisas que nunca consegui ultrapassar neste filme foi o ar desconsolado e deslavado do Brad Pitt. Para quem assistiu ao nascimento deste "bad boy" do cinema e vê-lo aqui, assim, com carinha de parvo é de parar o coração... Uma pena. Apesar disto tudo, é um filme que se vê bem e que está muito bem construído, como sempre, pelo génio do Fincher. ●●●○○

Fury é um filmito de guerra muito aceitável aceitável, com a mão de David Ayer, ao nível de um episódio da mítica mini-série Band of Brothers. Um sucedâneo de boa qualidade de Saving Private Ryan. Quando se faz um filme como Fury, que vai buscar tanto da imagética original destas referências, não há como fugir aos rótulos. Mas está tudo bem feito. A principal crítica que lhe faria é que lhe falta intensidade. Falta-lhe aqueles momentos dramáticos e marcantes em que um gajo agarra-se ao sofá ou fica com um nó na garganta. Os únicos momentos em que o filme acelera um pouco mais, são algumas cenas de guerra - fantasticamente bem feitas, principalmente ao nível do som - e algumas vezes em que entra em cena o Brad Pitt que domina qualquer ecrã com aquele carisma e aquela classe toda. O restante pessoal (Shia LaBeouf - cada vez melhor [e também com ar mais "maluco"] -, Logan Lerman, Michael Peña e Jon Bernthal) aguenta-se bastante bem mas têm muito pouco "tempo de antena". Tem algumas coisas que podiam ser melhores, mas vê-se bem. ●●○○○


Seven é um filme excelente. Não consigo ser mais sintético. É um dos melhores policiais que já vi envolvendo o tema sempre magnético dos serial killers. Desde o genérico inicial até aos créditos finais, nota-se que cada cena foi pensada e executada ao pormenor. Seven é o filme que todos os realizadores gostariam de ter feito: é simples mas ao mesmo tempo é complexo. Tem um aspecto decadente, mas também é esteticamente belo. É um drama. Um policial negro. Um filme de suspense que também está repleto de acção.
Tecnicamente é irrepreensível. Tem a música de Howard Shore que é sempre óptima e dá uma ambiência decadente e quase mística ao filme. Mas não é só a música. Tudo está primoroso em Seven: o som, a iluminação, a montagem... Tudo perfeitamente consistente. O facto de David Fincher ser um gajo dos telediscos poderia ter destruído o filme. A anterior experiência de realização tinha sido um fracasso relativo (Alien3), mas foi mais por culpa da estrutura do próprio filme do que do Fincher. (E já agora, o Alien3 só não é o melhor de todos os Alien, porque existe um Aliens do Jim Cameron...). David Fincher surpreendeu-me imenso e tornou-se imediatamente num dos meus realizadores de eleição, precisamente por ter pegado em toda a experiência visual dos telediscos e ter transformado um policial que poderia ser banal numa quase obra prima. Mas a palavra-chave aqui não é visual. É consistência. Tudo está perfeitamente unido. É um puzzle gigante em que no final todas as peças soltas encaixam na perfeição. Lembro-me perfeitamente do detective Somerset dizer algures no meio do filme que a história não ia acabar bem...
Em termos de argumento, Seven é como um relógio suíço. É uma obra de precisão meticulosamente manufacturada em que o autor está atento ao mais ínfimo pormenor. E ainda por cima está repleto de considerações acutilantes ao funcionamento da sociedade actual, que uma pessoa sabe que são verdadeiras, mas não tem coragem de as afirmar. Sendo que a base do argumento são os 7 pecados capitais, não dar uma "tacadas moralistas", seria perder uma oportunidade de ouro, não é verdade?
Nos papéis principais, estão dois excelente actores no "pico de forma" que são tão diferentes e antagónicos que só podiam funcionar bem juntos: Morgan Freeman e Brad Pitt. Gwyneth Paltrow num papel mais secundário do que habitual como a super fragilizada mulher de Pitt está perfeita, mas quem rouba o show é sem dúvida Kevin Spacey (John Doe é sem dúvida um dos melhores serial killers da história do cinema) que apesar de só aparecer durante poucos minutos consegue ter tanto impacto no filme quando os outros actores. Muito bom.
Seven é daqueles filmes que não preciso de rever, se bem que o faço sempre que dá na TV. Não consigo resistir. Vi-o no cinema na altura da estreia. . Não sabia ao que ia. Tinha gostado imenso do filme de estreia do Fincher e fiquei curioso para ver o que iria apresentar. Logo no aspecto inicial dos créditos percebi que ia ver algo especial. Quando comecei a ouvir e a musica era NIN eu soube que vinha aí algo de único. E não me enganei-me. Mais: suplantou todas as minhas expectativas. Levei uma autêntica "pancada" na cabeça. E foi espectacular. Saí da sala de cinema e só me apetecia voltar e rever o filme... Tem cenas tão brutais, únicas e inesperadas que ficam gravadas na memória. Não é preciso lembrar ninguém do salto que deram na cadeira quando o Victor (um esquelético, mas "verdadeiro" Michael Reid MacKay) repentinamente se começa mexer naquela cama suja, pois não? Ou daquela caixa no final...
Mas como todos os filmes que são excelentes, Seven tinha de ter o final perfeito. Para mim, tem um dos melhores finais que já vi. É difícil rematar bem uma história, principalmente quando ela se vai desenvolvendo em crescendo: é preciso um daqueles finais bombásticos. Seven cumpre totalmente. Tem o remate perfeito. Seven é um daqueles raros filmes que uma pessoa tem mesmo de ver. ●●●●●

 
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