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Se há filmes que me marcaram profundamente, este é certamente um deles. Umas semanas antes de ver o filme, estava eu a ler o livro "Wild at Heart - The Story of Sailor and Lula" do Barry Gifford. Depois do filme, cheguei à estranha conclusão de não perceber quem adaptou o quê: se o filme adaptou o livro, se o livro adaptou o filme. É que o livro varreu-se da mente. Já o filme ainda aqui está... É estranho, eu sei. Mas o David Lynch não é propriamente um gajo normal. Mexe com o cérebro de uma pessoa.
Em Wild at Heart, Lula e Sailor estão louca e perdidamente apaixonados. Parecem certos um para o outro mas há um entrave pelo meio: Marietta Fortune, a mãe psicótica de Lula que enlouquece um pouco mais sempre que imagina os dois juntos. Ela tem um breve momento de sossego quando Sailor, num acto tresloucado, à frente de toda a gente, esmaga a cabeça de um assassino contratado para o matar. (Que abertura de filme!...) Assim que sai da prisão, Sailor volta para os braços de Lula e acabam por fugir para a Califórnia... mas Marietta contrata um novo assassino para os perseguir. Indiferentes a tudo isto, os dois amantes seguem estrada fora... até que passam por acidente de automóvel e assistem à morte duma jovem. Aí percebem que algo vai correr muito mal com eles.
A viagem de Sailor e Lula é povoada pela criaturas e personagens mais maradas e estranhas que se possam imaginar. Saído da mente perturbada e negra de David Lynch é exactamente isso que se espera. Aquela belíssima negritude... Aquela "estranheza" estranhamente atraente... O seja, o mundo de David Lynch... Bobby Peru, por exemplo, é uma das personagens mais nojentas, odiosas e maradas que me lembro de ver num filme. É tão asqueroso e tão estranho que nunca mais me saiu da cabeça... Mas é por isso mesmo que se vê um filme do Lynch, não é verdade? Há por ali coisas que não se vê em mais lado nenhum.
Nicolas Cage é Sailor Ripley e Laura Dern é Lula, e juntos fazem um dos casais do cinema mais "fora" que me lembro. Acho que se pode dizer claramente que Cage tem aqui o seu melhor papel e melhor interpretação de toda a carreira... Como as personagens são todas muito boas, os actores têm muita margem de manobra para brilhar. Willem Dafoe como Bobby Peru é inesquecível. Mas há muito mais: J.E. Freeman, Isabella Rossellini, Harry Dean Stanton, Pruitt Taylor Vince, David Patrick Kelly, Jack Nance (o actor fetiche de Lynch) e as jovens Sheryl Lee e Sherilyn Fenn que se tornariam estrelas mundialmente conhecidas graças a... Twin Peaks. Nicolas Cage e Laura Dern são obviamente as figuras centrais da história, mas a Marietta Fortune interpretada pela excepcional Diane Ladd está no mesmo nível de loucura e intensidade dramática. Ainda por cima se pensarmos que Diane Ladd é na realidade a mãe de... Laura Dern. Tudo aqui são coisas estranhas...
Wild at Heart ainda é para mim o melhor filme de Lynch. O mais estranho, o mais violento e o mais fantástico e simbólico de todos. É aquele universo negro trágico e de alguma forma, cómico ao mesmo tempo. Tudo é simbólico, tudo é relativo e tudo pode significar outra coisa qualquer. Wild at Heart não é um filme fácil de ver. É graficamente violento e sexualmente explícito. Tem um banda sonora absolutamente espectacular, mas da pesada que não será de certeza do agrado da maior parte do público. É uma mistura psicotrópica entre a Alice no País das Maravilhas e o Feiticeiro de Oz. Wild at Heart é todas estas histórias estranhas para crianças como se elas fossem originalmente feitas para adultos.
Este foi o primeiro 'Lynch' que vi na minha vida e marcou-me para sempre e ainda por cima numa verdadeira sala de cinema, o que ainda magnificou mais o efeito. Aquelas músicas... As imagens... As chamas num fundo negro... O sangue... Desde esse momento - que se pode considerar como traumático -, nunca mais vi o filme. Mas na realidade, o "corte" mental foi tão profundo que ele nunca mais de cá saiu. Wild at Heart é mais que um filme. É uma experiência cinematográfica que dificilmente se esquece. Para mim, é uma referência. Um dos meus filmes preferidos de todos os tempos. ●●●●● + ●

Vox Lux começa muito bem com uma série de acontecimentos estranhos e comecei a ficar empolgado. Decidi seguir a antiga fórmula de ver cinema que é não saber rigorosamente nada do filme que vou ver. Sabia que era com a Natalie Portman e que o enredo era sobre uma performer do mundo pop musical. E até certo ponto foi mais ou menos isto. O problema é que começou a esmorecer...
E esmoreceu tanto e tornou-se tão confuso que mais para o fim fiquei na dúvida se estava a ver um filme que era uma crítica ao mundo de fachada da pop ou uma forma de mostrar respeito e admiração pelo árduo trabalho do performer pop por detrás da cortina da fama. Hoje não continuo com essa dúvida porque o filme é totalmente esquecível. Varreu-se-me da mente. Havia aqui material para fazer um grande filme, mas Brady Corbet ou não tem a maturidade suficiente para sacar uns coelhos da cartola ou simplesmente não conseguiu (ou não quis) entrar num registo demasiado crítico e incisivo. Parece-me que ele quis ir por aí, ou então não e simplesmente não consegue fazer melhor. Acontece a quem está a começar.
Até do casting (Natalie Portman, Jude Law, Stacy Martin, Jennifer Ehle, Raffey Cassidy) poderiam ter saído muito melhor performances, porque os actores são bons, mas infelizmente a forma como o guião funciona abafa qualquer hipótese de grandes representações. Muitas vezes fala-se dos bons e dos maus actores (normalmente até só se enfatizam os bons, porque os críticos oficiais tendem a não querer ferir susceptibilidades) e como uns se destacam mais que outros. Nesse aspecto, Vox Lux é um bom exercício de aprendizagem e observação. É gritante como se nota que Portman e Law estão nitidamente num patamar de representação muito superior ao dos restante actores... Até o Willem Dafoe que "apenas" dá a voz ao narrador emprega mais personalidade e capacidade de representação que muitos actores que aparecem em carne e osso na tela...
Vox lux é um filme com muita potencialidade mas que tem muitos problemas. O que é uma pena porque em determinadas alturas parece que vai descolar, mas depois decepciona exactamente porque se torna previsível e mantém sempre o mesmo registo. Fiquei sempre à espera de um grande momento de inspiração ou revelação, mas isso nunca aconteceu. Pelo aspecto do trailer (e pela presença da Natalie Portman) parece que se vai ver uma espécie de Black Swan do mundo pop, mas isso é um engano muito grande. Não tem nada a ver.
Apesar de ter um bom início e estar polvilhado aqui e ali de bons pormenores, Vox Lux é visível, mas devido à estrutura narrativa e emocional demasiado "mole" acaba por se tornar totalmente insípido e dispensável. ●●○○

John Wick é um daqueles filmitos de acção que é um clássico instantâneo. Depois de se retirar, um hitman é obrigado a voltar ao serviço para se vingar de gangsters que lhe mataram o cão e roubaram o carro. Grande e pesada banda sonora a servir de suporte para excelentes coreografias de porrada. É um pouco à semelhança do Payback com Mel Gibson, mas John Wick tem os seus méritos próprios. É um bom filme de pancada e acção, com bons actores (Keanu Reeves, Michael Nyqvist, Alfie "Greyjoy" Allen e Willem Dafoe) e muito bem dirigido por Chad Stahelski, que curiosamente foi o duplo de Reeves no Matrix. Vale a pena ver porque não é totalmente desmiolado, como é normal neste género de filmes. Gostei. Terá obrigatoriamente uma sequela. ●●●○○

At Eternity's Gate, de Julian Schnabel, é um filme medianamente bom com uma história alternativa à história oficial (mas turva) do pintor Vincent Van Gogh nos seus últimos anos de vida. Considero-o mediano porque conheço bastante bem a obra e vida do Van Gogh. Um génio e ao mesmo tempo um louco (como todos os grande génios, não é verdade?) que teve um grande impacto no mundo da pintura e que ao contrário de muitos autores tinha a vida e obra exemplarmente catalogada. Mesmo ao nível do pensamento, tudo está muito bem documentado na correspondência com o irmão. Daí que um biopic sobre Van Gogh tem de ser mesmo potente, porque quase tudo pode ser confirmado. Isso não acontece aqui. O timeline dos acontecimentos parece baralhado e muitas vezes até omisso de pormenores de grande relevância. Mas se calhar também estou a ser exigente demais...
O filme tem alguns bons pormenores (a cena a preto e branco para mostrar a pintura com textura típica de Van Gogh é de antologia) e não chateia mas também nunca descola do essencial e do seguro. Por vezes tem um aspecto quase de telefilme que não me agrada nada, se bem que encaixa muito bem no tom por vezes quase teatral. O melhor de todo o filme é mesmo o Willem Dafoe que se torna literalmente no Van Gogh. Está absolutamente perfeito. Mais uma grande prestação deste grande actor "esquecido" que conta com a prestação tímida dos excelentes "secundários" Rupert Friend, Oscar Isaac e Mads Mikkelsen. Não é memorável, mas vê-se bem. E se o voltar a ver será pela interpretação do Willem Dafoe. ●●○○○

Pfiu, pfiu, squash, bum, pau, bang, taooosssshhhh, piada, explosão, soco, soco, dubstep, pfiu, pfiu, squash, super slow-motion, bum, bang, taooosssshhhh, piada, fim, the end... é isto. E não há mais nada a dizer. Aquaman é o típico filme do super-herói que descobre que é um super-herói mas que não quer ser até que lhe fazem mal a alguém da família e ele é obrigado a ser um super-herói. É óptimo para quando uma pessoa não quer ver realmente um filme, mas apenas distrair-se da realidade. James Wan realiza e Jason Momoa, Amber Heard, Willem Dafoe, Patrick Wilson, Nicole Kidman e Dolph Lundgren dão corpo a personagens que enchem o tempo de antena para o pessoal dos efeitos especiais ter tempo de folga. Não sei se sou eu que estou farto destas cenas ou se os filmes de super-heróis estão a ficar cada vez piores, mas de certeza que deve ser uma das duas... ●○○○○

Numa qualquer cidade anónima nas profundezas da América vive um gajo normal de seu nome Odd Thomas. Cozinheiro de profissão mas clarividente por natureza. Apesar de toda a sua normalidade aparente, ele tem um segredo paranormal: consegue ver as forças do mal que nos rodeiam a todo o instante. Um dia, quando um estranho entra no seu restaurante rodeado de demónios da pior espécie, Odd Thomas sabe que tem de entrar numa luta épica para fazer com que o Bem consiga derrotar o Mal.
Realizado pelo homem das "múmias", Stephen Sommers, Odd Thomas é um filmito de fantasia, pontilhado de comédia que entra na classe de "perfeitamente aceitável". Destaque para Anton Yelchin que manifestamente era um bom actor e isso faz muito diferença. Willem Dafoe é e será sempre um gajo porreiro em qualquer filme. Odd Thomas é estranho pela mistura de conceitos e acaba por se encostar muito àquela aparência estereotipada Disney/teenager (para captar público, será?), mas vê-se bem. Bom para miúdos. ●●○○○

4:44 Last Day on Earth foi o último filme do Abel Ferrara que vi e não gostei nada. O Abel Ferrara até é um gajo que curto. Tudo o que vi até hoje da sua autoria, foi no mínimo aceitável, sendo que tem muito bons filmes no currículo. E eu ainda funciono um bocado assim: quando vejo um filme de um realizador que gosto, reservo-o para ver, mesmo não sabendo rigorosamente nada sobre o que se trata. Deste filme, a única coisa que sabia é que se passava no último dia da Terra. Não sabia mais nada. A premissa era boa, o realizador também, por isso, estava bastante curioso para ver.
Tenho de admitir que foi uma enorme desilusão. 4:44 Last Day on Earth é por vezes entediante e tem muitos momentos que pareciam quase amadores. Tive de ir confirmar se este Abel Ferrara, era de facto, o Abel Ferrara que eu conhecia. Infelizmente, era o mesmo.
Apesar de tudo o que tem de mau, 4:44 Last Day on Earth é um filme curioso porque pode ter várias apreciações. Ou é uma produção normal, dita "comercial" e está bastante abaixo do que é normal para o "standard Ferrara", ou então é uma minúscula produção e acaba por ser um bom filme, feito praticamente sem dinheiro e apenas com 2 actores e muito recurso a stock footage.
Se for o caso da baixa produção (que é o que parece), o argumento acaba por ser inteligente porque arranja uma premissa enorme (o fim do mundo programado, chegando ao cúmulo de se saber as horas e minutos do fim) e fecha-se no enfoque que é o pequeno mundo de uma relação conjugal e como isso a afecta. Mas se for o caso de uma produção comercial, acaba por ser uma fraude e pouco inteligente, porque arranja uma premissa enorme, mas só mostra a reação de apenas um casal, ignorando tudo o resto.
Seja qual for a situação financeira, não gostei, porque estava à espera de mais. Fiquei desiludido. Mas nem tudo é mau. Nota-se que há gajos na cadeira do realizador que são muito bons a filmar em espaços pequenos, a arranjar planos diferentes e contrastes de luzes interessantes, e que fazem um filme quer tenham muito ou pouquíssimo dinheiro. Eles arranjam sempre uma solução artística ou técnica para conseguirem fazer um filme no mínimo aceitável, como apesar de tudo, é o caso. Destaque para os actores principais, que suportam e dão vida a um argumento algo entediante: Shanyn Leigh, mas especialmente para o Willem Dafoe que é um daqueles gajos que está cá dentro... Se não fossem estes dois, o filme seria quase insuportável de ver.
Não consegui encontrar dados sobre os valores de produção. Mas nem tudo se pode resumir a custos e dinheiro. A realidade é que Abel Ferrara conseguiu criar o fim do mundo, tal como é visto na TV por duas personagens e que quase nunca saem do seu apartamento. Como tudo na vida, isto podia ser bem ou mal feito. Neste caso, toca os dois pontos: tem algumas coisas boas, mas tem muito mais coisas más. Por isso mesmo, 4:44 Last Day on Earth, nunca seria um filme que recomendasse a alguém. O trailer é melhor que o filme! Vindo de quem vem, podia e deveria ser muito melhor. ●○○○○

Uns mercenários europeus embarcam numa grande aventura asiática em busca da então misteriosa e explosiva pólvora e acabam na Grande Muralha da China (e aqui é mesmo muito grande!) a combater uns extraterrestres digitais que caíram naquela região há muito tempo. Ah! Daí terem construído a grande muralha... Nunca tinha percebido porque é que os chineses se tinham dado a tanto trabalho. Um gajo está sempre a aprender.
The Great Wall é um daqueles filmes que não engana. Percebe-se logo pelo trailer que um gajo vai encontrar um filme de acção meio desmiolado, tipo pipoca. Não tem mal. Há centenas destes filmes e são inofensivos. É para vender bilhetes e pipocas. E é isso. Não precisa de grandes enredos ou grandes interpretações. O núcleo do filme são as cenas de acção em super slow motion, close-ups extremos e efeitos especiais digitais. Nesse aspecto não engana.
The Great Wall é mais um blockbuster caríssimo cheio de explosões e uns monstros feitos em computador. E depois acaba.
Mas o mais importante a reter deste filme é a origem do filme. Que eu saiba (ou me lembre) este é mesmo o primeiro filme chinês vindo de estúdios de Hollywood (comprados por empresas chinesas) e filmado inteiramente na China. Ou seja, vendo bem, este é provavelmente o primeiro blockbuster/co-produção com a marca EUA/China. Há uns anos atrás, quem diria que isto fosse possível? É... a realidade económica do mundo anda a pregar-nos partidas...
A realização é normal para este tipo de filmes e é do imponente e experiente Yimou Zhang, que conta com as presenças esporádicas de Matt Damon, Willem Dafoe e Pedro Pascal para justificar a entrada nas salas de cinema europeias. Porque sinceramente não estou a ver o público americano ou europeu a correr para os cinemas se no cartaz estivessem nomes tão conhecidos como Tian Jing, Andy Lau, Eddie Peng ou Hanyu Zhang, pois não? Filmado nas mágicas e surreais paisagens naturais de Qingdao (China) e na Nova Zelândia, a única coisa que se destaca neste filme, é mesmo a fotografia que é mesmo muito boa.
Tirando esse bom pormenor, The Great Wall é mais um filme VEE (Ver, Entreter e Esquecer). ●○○○○

 
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